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O Megalitismo na Beira AltaAntónio José Marques da Silva | |
![]() Casa da Orca de Cortiçô (Fornos de Algodres,Viseu |
O megalitismo na Beira Alta é estudado desde os finais do século
XIX, quando J. Leite de Vasconcelos(Vasconcelos,
vários) explorou vários monumentos e fez a
representação gráfica de poucos. A primeira abordagem
verdadeiramente científica do problema deve-se ao casal Leisner, que fez
o levantamento das plantas e alçados e, até, a
escavação de alguns desses monumentos (Leisner, 1938). Seguiram
várias escavações de megálitos, só muito
parcialmente publicadas, ou permanecendo ainda inéditas; nos finais da
década de 80, começaram-se a escavar povoados possivelmente
correlacionáveis com algumas necrópoles conhecidas, como é
o caso da estação de Ameal VI(Senna-Martinez, 1994a). Quanto ao material arqueológico conservado
em museus e em colecções particulares, é abundante mas mal
estudado. Tudo isso faz com que a zona das Beiras seja ainda hoje considerada uma região menos bem conhecida no que diz respeito à sua Pré-História recente. Para preencher essa lacuna, falta um estudo a nível regional orientado para uma problemática bem definida e, antes de tudo, a publicação rápida e sistemática dos estudos já realizados.
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(Fornos de Algodres, Viseu) |
Introdução
Caracterização
Problemas levantados
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![]() Dólmen de Cortiço
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![]() Pinturas do esteio de cabeceira |
Arte MegalíticaA arte megalítica está bem representada nos monumentos, em regra de grandes dimensões, geralmente com corredor, da Beira Alta, contudo não lhe é própria. Encontra-se testemunhada em todo o noroeste peninsular (42 estações), no oeste da França (39 estações) tal como no Bassin Parisien (8 estações), na Irlanda (39 estações) e na Grã-Bretanha (6 estações). Na Beira Alta, ela tem, no entanto, a particularidade única no mundo de se exprimir, entre outras formas, pela pintura(Joussaume, 1985). Joussaume põe, no entanto, a hipótese de ter sido utilizada em outras regiões, onde as condições de conservação não fossem tão favoráveis (Joussaume, 1985) .Exprime-se portanto mais frequentemente através da pintura resumindo-se a alguns motivos como, por exemplo, em Fontão e Tanque ou cobrindo alguns ou todos os esteios, como nos dólmenes de Sobreda (c. Oliveira do Hospital), Cortiçô (c. Fornos de Algodres), Juncais (c. Vila Nova de Paiva), Forles (c. Satão), Fojinho (c. V. N. Paiva), Mamaltar de Vale de Fachas (c. Viseu), ou ainda cobrindo toda a superficie como é o caso de Antelas (c. Oliveira de Frades) e Pedralta (c.Viseu). Também existem gravuras como é o caso nos dólmenes de Chão Redondo II (c. Sever de Vouga), Carapito I (c. Aguiar da Beira), Anta de Repilau (c. Viseu) e da Anta da Matança (c. Fornos de Algodres) (Jorge, 1990). Esta arte megalítica beirã é uma arte abstracta que combina motivos esquemáticos, seminaturalistas e simbólicos, constituindo para E. S. Twohig o grupo 1 ou grupo de Viseu, e que são os seguintes: figuras humanas, representação da pele esticada dum animal, fiadas de triângulos ou de "V", motivos em dente de serra e serpentiformes horizontais (Twohig, 1981). Certos elementos são comuns a outras regiões da Europa. É o caso dos serpentiformes, dos sóis, das figuras em "U", dos círculos concêntricos e das "fossettes", que se explicariam por contactos inter-regionais (Joussaume, 1985). |
![]() Dólmen de Carrapito
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![]() Casa da Orca de Corgas da Matança (Fornos de Algodres, Viseu) |
Os construtores de megálitosAté muito recentemente, não se conhecia nada dos protagonistas do fenómeno megalítico. Os primeiros passos no sentido da correlação das sepulturas megalíticas com povoados foram feitas pela equipa do PEABMAM (Programa de Estudo Arqueológico da Bacia do Médio e Alto Mondego). Concretamente, Senna-Martinez, director do PEABMAM, correlaciona o povoado de Carriceiras (c. Carregal do Sal) com o que ele denomina "horizonte Carapito/Pramelas" e o povoado Ameal VI (c. Carregal do Sal) com o "horizonte Moinhos de Vento/ Ameal" (Senna-Martinez, 1994a). Contudo nos dois casos, a correlação não parece muito segura.
Não se conseguiu obter, até hoje, uma datação absoluta para a estação da Carriceira; contudo, os artefactos líticos, e a cerâmica que se encontrou lá, apresentam afinidades com o Neolitico Antigo Evoluído da Estremadura atlântica. Considerando esta estação comtemporânea do "Horizonte Carapito/Pramelas", Senna-Martinez defende que esse horizonte se deve a uma primeira penetração de um Neolítico de tradição antiga, de origem estremanha, ao qual se liga a origem do megalitismo na região (Senna-Martinez, 1994a). Dever-se-á esperar que a continuação da escavação de Carriceiras (Senna-Martinez, 1994b), permita o achado de amostras de carvão, suficientemente representativas, para se poder datar a estação, de maneira mais segura e menos vaga. Senna-Martinez defende também que existia um intercâmbio, mais ou menos permanente, entre a Estremadura e a Beira Alta, tendo por base a troca do sílex, que será inexistente na Beira Alta, e as rochas anfibolíticas, inexistentes na Estremadura mas já presentes em contextos atribuíveis ao Neolítico Antigo .
Os povoados que Senna-Martinez atribui a esse horizonte (Senna-Martinez, 1994a), encontram-se em sítios abertos, sem aparentes preocupações de defesa nem de dominação da paisagem. Inserem-se num contexto megalítico, a menos de 1 km de núcleos de sepulturas megalíticas, no caso do Ameal , Mimosal e Quinta Nova e a 4 km no caso de Barrocas, da Pedra Aguda e de Murganho 2. A presença, nas sepulturas conhecidas desses núcleos, de conjuntos artefactuais similares aos encontrados nos povoados citados apontam para a sua contemporaneidade. As estruturas de habitação até hoje escavadas são cabanas de argila, de forma oval, de 5 a 6 metros de diâmetro, com uma cobertura sustentada por postes. Certas cabanas possuem uma lareira central assentando sobre uma estrutura pétrea composta de um número importante de fragmentos de mós manuais, e algumas reutilizam silos que serviriam para a torrefacção e armazenagem de bolota. A recolecção da bolota e de outros vegetais era eventualmente completada por uma pequena horticultura e pela pastorícia, com a pratica da transumância, vivendo apenas no Outono/ Inverno nesses povoados.(Senna-Martinez, 1994a). As datações obtidas tanto para o dólmen dos Moinhos do Vento (ICEN-196 4720+-40 BP, 3765-3355 cal. a.C.) como para os povoados de Murgadinho 2 e da cabana 3 do Ameal VI, apontam para meados do IV milénio cal. a.C., ou seja do Neolítico Final. Só uma datação obtida no silo da cabana 1 do Ameal poderá ser considerar como Calcolítica, mas esta última tem um desvio-padrão muito elevado correspondendo a parâmetros muito amplos (ICEN-345 3980+-110 BP, 2881-2146 cal. a.C.), o que a torna pouco fiável (Valera, no prelo). Por outro lado, é a metade superior do desvio padrão da datação mais antiga da cabana 3 (3501-3108 cal. a.C.) que coincide com a metade inferior do desvio padrão da datação do monumento Moinhos de Vento, de modo que também é possível este monumento pertencer a um momento directamente anterior àquele no qual se inserem os respectivos povoados, não estando desta forma relacionados cronologicamente. Outra crítica que podera ser feita, é o uso por Senna-Martinez do conceito de "horizonte" para estabelecer a sua cronologia, conceito oriundo da antropologia cultural, cujas limitações, quando aplicado a arqueologia, foram denunciadas desde há muito (Serrão, 1979).
Este incremento do comércio será comprovado pela presença de vasos tronco cónicos invertidos em contexto funerário. Depois de estudos estatísticos sobre a capacidade volumétrica desses vasos, J. C. Senna-Martinez chegou à conclusão que, muito provavelmente, já existia um sistema de medidas, empiricamente estruturado mas dotado de grande coerência interna, que se tornou necessário devido à importância crescente das trocas "comerciais". No entanto deve-se notar, com R. Vilaça, que os vasos tronco-cónicos se encontram num espaço cronológico muito amplo (segundo quartel do III milénio cal. a.C. até ao Bronze Final), tendo um grande dispersão geográfica. Tendo em conta esses factores, juntando-lhe as assimetrias regionais existentes, podemo - nos perguntar como estes dados se compatibilizam "com a necessária existência de uma entidade centralizadora responsável pelo controlo e imediato reconhecimento de um valor económico fixo representado pelos vasos" (Vilaça R., 1994). No final desse período, ou seja, no Bronze Pleno, vários dólmenes foram reutilizados.
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ConclusãoSendo uma região charneira entre o sul e o norte, permitirá também abrir novas perspectivas no conhecimento do megalitismo destas duas zonas.
O autor agradece Domingos J. Cruz, do Instituto de Arqueologia da Univ. de Coimbra, que contribui á vários níveis da elaboração deste artigo. |
BibliografiaARNAUD, J. M. (1977), O Megalitismo em Portugal:problemas e perspectivas, in Actas das III jornadas Arqueológicas, vol. I, Lisboa, 1977, p. 99-112. CRUZ, D. J. (1993), Monumentos megalíticos do concelho de Fornos de Algodres, in Estudos pré-históricos, vol. I, Viseu, Centro de Estudos Pré-históricos da Beira Alta, pp. 111-112. CRUZ, D. J. e VILAÇA, R. (1994), O dólmen 1 de Carapito (Aguiar da Beira, Guarda): novas datações de carbono 14, in Actas do Seminário "O megalitismo no Centro de Portugal: novos dados, problemática e relações com outras áreas peninsulares", Viseu, Centro de Estudos Pré-históricos da Beira Alta, pp. 63-68. GOMES, L. F. C. e CARVALHO, P. M. S. (1993), Novos elementos sobre o vaso campaniforme na Beira Alta, in Estudos pré-históricos, vol. I, Viseu, Centro de Estudos Pré-históricos da Beira Alta, pp. 29-50. JORGE, S. O. (1990), A consolidação do sistema agro-pastoril, in Nova Historia de Portugal, Vol I: Das origens à romanização (coordenação de J. Alarcão), Lisboa, Editorial Presença, pp. 102-162. JOUSSAUME, R. (1985), Des dolmens pour les morts - Les mégalithismes à travers le monde, Collection "La mémoire du Temps", Poitiers, Hachette, pp. 228-230. KALB, P. (1987), Monumentos megalíticos entre Tejo e Douro, in Megalitismo en la Peninsula Ibérica, Madrid, Ministério da Cultura, pp. 95-109. LEISNER V. (1965), Die megalithgraber der Iberischen Halbinsel. Der Westen. Madrider Forschungen, Band 1,3. Lieferung, Berlim. LESNER, V. e RIBEIRO, L. (1968), Die dolmen von Carapito, M.M., 9, pp. 11-62. LEISNER, K. G. (1938), Verbreitung und Typologie der galizisch- nordportugiesischen Megalithgraber, Marburg. VILAÇA, R. (1994), Aspectos do povoamento da Beira Interior (Centro e Sul) nos finais da Idade do Bronze, tese de doutoramento, vol. II, Faculdade de Letras, Coimbra, pp. 708-709. SENNA-MARTINEZ J. C. (1994a), Megalitismo, habitat e sociedades: A bacia do médio e alto Mondego no conjunto da Beira Alta, in Actas do Seminário "O megalitismo no Centro de Portugal: novos dados, problemática e relações com outras áreas peninsulares", Viseu, Centro de Estudos Pré-históricos da Beira Alta, pp. 15-30. SENNA-MARTINEZ, J. C. (1994b), O habitat das Carriceiras (Carregal do Sal): notícia preliminar, in Actas do Seminário "O megalitismo no Centro de Portugal: novos dados, problemática e relações com outras áreas peninsulares", Viseu, Centro de Estudos Pré-históricos da Beira Alta, pp. 55-62. SERRÃO, E. C. (1979), Discussão in Actas da 1deg. mesa-redonda sobre a periodização do Neolítico e Calcolítico do território português, Trabalhos do Grupo de Estudos Arqueológicos do Porto, ndeg.3, Porto, p. 181. TWOHIG, E. S. (1981),The Megalithic Art of Western Europe, Oxford, Clarendon Press. VASCONCELOS, J. L. (vários), Acquisições do Museu Etnografico Português, in Archeologo Português, vol. II, pp. 225, 245-247; vol. III pp. 107-111; vol. IV, pp. 338-339; vol. VIII, p. 170; vol IX pp. 303-308; Vol. X pp. 28-31, pp. 312-313.
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Ficha TécnicaTítulo: O Megalitismo na Beira Alta Revista:Cyberarqueólogo Português Endereço: http//www.uc.pt/ihti/aia/megbeira.html Data de edição: Junho 1995 Local de edição: Coimbra Processamento html:António José Marques da Silva Grafismo: António José Marques da Silva
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