|
Manta aceitou o convite com o mesmo entusiasmo com que já atendera outras encomendas "oficiais" - de que os painéis para o pavilhão português das exposições de Sevilha (1929) e de Paris (1931) podem constituir exemplo. Para o efeito elaborou uma composição alegórica, directamente relacionada com o fim a que se destinava o edifício, a qual dividiu em três partes, simulando um tríptico aberto. No seio de uma sociedade multirracial que é a portuguesa, onde se nasce - parte esquerda do vitral - e morre - à direita -, e onde se trabalha de permeio, semeando, ensinando, construindo, pintando e mareando, no seio dessa sociedade que é a portuguesa, e contra um pano celeste pontuado de números e iluminado por uma esfera armilar, de que as pontas da "Cruz de Cristo" constituem alguns dos raios, ergue-se confiante e vigorosa a figura da Pátria. Numa mãos segura o escudo nacional e a seus pés tem uma figura com uma cartela que diz "Ad divitias per scientiam numerorum". A mensagem revela-se, deste modo, explícita: o desenvolvimento e o progresso do país, num futuro que desponta, passará necessariamente pela Estatística, pela quantificação dos seus recursos materiais e humanos e da sua produção; ou seja, "a riqueza atinge-se pela ciência dos números". Em termos plásticos, o cartão não se afastava muito daquilo que o mestre gouveense então pintava. O tratamento facetado das figuras, a profundidade, sugerida mais pela sobreposição dos volumes que pela incipiente perspectiva riscada no primeiro plano, e o fundo geometrizado constituem algumas afinidades observáveis entre este trabalho e as telas "As Maçãs", "Partida de Damas", "Auto-Retrato com Cachimbo", "O Violinista Bohet", "Natureza-Morta com Safio" e "Retrato de Roque Gameiro". Como diferenças podem apontar-se a acentuação da expressão das figuras e, numa manifestação de claro entendimento das possibilidades plásticas do material, a utilização do esqueleto de chumbo, que suporta os vidros coloridos, como contorno das faces dos volumes - maxime, na armadura do guerreiro. Este trabalho, que levantou algumas dificuldades à firma encarregue da sua factura - Ricardo Leone, Lisboa, surge assim como a primeira incursão da Arte moderna portuguesa no domínio do vitral. Graças ao seu pioneirismo - de salientar que os cartões de Almada Negreiros para a Igreja de Nossa Senhora de Fátima, de Lisboa, lhe seriam posteriores em três ou quatro anos -, suscitou um inusitado interesse nos meios artísticos da capital. |
Sugestões e comentários para:
eduardomota@telepac.pt