Percorrendo a sua alongada carreira, construída no espaço de quase um século, algumas fases se podem detectar. Num primeiro estádio, a pintura de Abel Manta acusa nitidamente a influência dos mestres que, na Escola de Belas-Artes de Lisboa, lhe moldaram a habilidade trazida de Gouveia, terra de sua naturalidade. São citações de Luciano Freire, Ernesto Condeixa e, em especial, Carlos Reis que se encontram no "Primeiro Auto-Retrato", na "Menina da Havanesa" e em "O Jóia", composições impregnadas de algum do naturalismo "barbizonesco" que Silva Porto trouxera de França quase nos finais de Oitocentos e que os meios académicos lisboetas teimavam em continuar a seguir nas primeiras décadas do século seguinte.
Uma segunda fase da obra do pintor gouveense tem precisamente início na sua chegada à capital do impressionismo. Ao aprendizado naturalista adicionou logo a assimilação que fez da arte de Manet, a primeira de que ali tivera notícia. O seu entendimento da lição do mestre francês revelou-se nos retratos que então pintou do escultor João da Silva e de membros da família Aquilino Ribeiro. O fundo destas composições surge como uma superfície plana, bidimensional, assemelhando-se o todo, especialmente o retrato de Aníbal Ribeiro, a uma carta de jogar.
Com estes conhecimentos na bagagem, alguns ainda não totalmente assimilados, em meados da década de 20, Manta regressou a Portugal para se entregar com entusiasmo à pintura. Até meados da década seguinte realizou largas dezenas de trabalhos que apresentam algumas características comuns, variando a intensidade de cada consoante a composição.
A simplificação das formas é evidente, reduzindo-se a uma estrutura. A perspectiva unificadora do espaço pictórico é substituída por uma perspectiva "sensível", que não atende nem à distância em que cada corpo fica do observador, nem à força da gravidade, mas sim à necessidade compositiva de cada obra. Enfim, os volumes revelam-se facetados, mas não ao ponto de se tornarem largas manchas. Trabalhos com estas características são, por exemplo, "Vista de Gouveia", "As Maçãs", "Sé do Funchal", "Partida de Damas", "Auto-Retrato com Cachimbo", "O Violinista Bohet", "Rua de S. Bernardo" e "Natureza-Morta com Safio".
RTISTA discreto, avesso a radicalismos e a sensacionalismos estéticos, Abel Manta nunca se filiou numa escola e sempre recusou aderir
plenamente a um movimento plástico. A sua pintura não se arruma numa daquelas gavetas em que se costuma dividir a história de arte. Resiste à pura e simples catalogação. É uma pintura de síntese, resultado de uma adição sucessiva de ensinamentos, de experiências, a maioria alheias e de peso variável, onde o todo constitui algo mais que a soma das partes, pois leva o seu cunho pessoal.
Apesar de louvado e premiado "oficialmente" o artista deve ter-se apercebido da relativa mediocridade do que então produzia, ao mesmo tempo que descobria já não ser a pintura a "janela aberta" para a Natureza que os seus "velhos" mestres preconizavam. Romper com este modo de ver ultrapassado tornou-se quase uma obsessão. Acabada a Primeira Grande Guerra, e à semelhança do que faziam já os seus colegas de ofício, Manta trocava Lisboa por Paris.
Mas Manta não se ficou por aqui. Meteu de seguida pelos caminhos do pós-impressionismo. Depois de uma breve passagem pelo fauvismo do primeiro Matisse, patente em "La Servante", fixou-se em Cézanne. No precursor da arte moderna encontrou a estrutura, a gramática que faltava à sua linguagem plástica, não precisando assim de avançar mais.
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É um pintor fechado na sua própria arte que se revela a partir de então. Melhor, quase fechado, já que demonstrou alguma abertura aos artistas clássicos, que reviu e estudou em viagens pela Europa. Os seus trabalhos surgem agora mais subordinados ao tema que a necessidades de composição. As telas deixam de representar a robustez estrutural cézanniana, quase a parecerem esboços, para exibirem um acabamento cuidado, delicado até. A fidelidade ao real torna-se mais evidente, se bem que o artista não chegue a entrar em pormenores desnecessários. É uma pintura mais refinada, consequentemente menos espontânea, a que patenteiam composições como "Auto-Retrato com Paleta", "Tejo", "Rosas Amarelas" e o "Último Auto-Retrato". Ao Carlos Reis inicial, e aos Manet e Cézanne que se seguiram, o Pintor de Gouveia juntava agora os Rafael, Velázquez, Rembrandt, Halls, Ingres e Degas.
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