Aquilino Ribeiro, «Ao Pintor Abel Manta», Portugueses das Sete Partidas
Luís Nogueira, «A Direcção do Olhar», Abel Manta - Desenhos
Abel Manta é destes, deve ter sido destes que do alto receberam o condão divino: pintar homens, ruas, campos, naturezas mortas, neves, as tão caprichosas neves da serra, assim cumprindo a sua missão.
Ora eu nesta via sacra, não pelo mérito mas pelos abrolhos, que ando a percorrer há mais de um quarto de século, vou deixando ex-votos pelo caminho. Tendo-me posto a rememorá-los, verifiquei que falta um com o seu nome. De verdade que estou em falta, que mais não fosse pelo que o estimo e admiro. Desde que tive o subido prazer de conhecê-lo, jamais se passou um dia em que deixássemos de ser um para o outro leais e fraternos, primeira cláusula da amizade. À confluência do céu, sucedeu-se a confluência da simpatia. Da minha parte sei que lhe sou devedor duma camaradagem útil e duradoura. Além disso, sempre que me era necessário um obséquio da sua arte, capa de livro, esquiço, ilustração, gravura em madeira, o Abel Manta aparava o lápis e desdobrava o papel, prodígio na bondade e no talento. Apraz-me fixar que esta faceta do seu génio de amigo e de artista. O Manta, além do mais, é uma natureza tão rica como generosa.
Por este acervo de circunstâncias, confraternidade na terra e no céu, em Lisboa e em Paris, na arte e na vida, tinha por obrigação inscrever o seu nome no torço dos seus oratórios. Feche os olhos e imagine que a construção é de bronze, em que nem o tempo nem os revezes da vida ne mordent pas.
Perdoe a pouquidão. Na sua paleta é que há a riqueza das mil e uma noites.»
UDO isto de arte, ao menos como nós a entendemos, envolve uma mística muito exótica e distinta das outras místicas. Eis porque me permito supor, jogando ao ar a albarda do prosaísmo que faz as mataduras do nosso século, que no talento há o seu pouco ou muito do mistério do Pentecostes.
O Paracleto ou as boas fadas, por sua conta, vêm aos berços a horas que ninguém advinha e, bafejando os filhos dos homens, como dizem as Escrituras, insuflam-lhes tais e tais vocações. Algumas, com efeito são tão irreprimíveis e soberanas que apenas por via metafísica se compreendem.
Para aquilo que dependia do seu concurso, a todo o momento o encontrei prestante e decidido. Fez ainda o meu retrato em cuja fisionomia o seu pincel parece haver interpretado a dúvida benigna, mas positiva, que traduz a minha atitude perante a vida, a arte, os deuses, os piedosos ludíbrios do escritor. O Abel Manta pintou um céptico civilizado, esse que me prevaleço de ser, em prejuízo do campónio de tamancos ou de casco bicúspide de fauno, ocupado quer com os calondros, quer com as hamadríades da gleba, em que me paramentavam reinadiamente para o folclore regional. As mãos neste seu óleo falam melhor que a minha «Via Sinuosa» ou o «S. Banaboião». Ponho-me a contemplá-las e sai-me um solilóquio à Renan sobre a santidade.
Há o que nós vemos. O que não vemos. O que outros vêem. O que não vimos e outros foram capazes de fixar para que pudéssemos ver noutra altura, agora, neste instante, ao desfolhar este livro. O que aqui nos emprestam é um olhar alheio e a sombra da mão que o eternizou. Olhos, mãos, lápis, outros complementos: luz, sombras, a linha, esta que segue ou se curva, se firma, se suaviza, se torna espessa, se exalta ou arrefece. Desenhos. Estes. Os desenhos de Mestre Abel Manta.
Ou gozamos no momento sensitivo e competente essas linhas, esses volumes, esses contrastes, esse chiaroscuro, essa, seja!, artesania do artesão ou pesado o seu valor, procuramos ver o que ele viu.
Que viu ele? O pastorzinho lá das névoas da sua Serra, enregelado contra a aspereza madrasta dos montes, a imagem minúscula e sem tempo, o rostinho devorado pela mordedura lenta do Inverno, alguma fome e toda a solidão?
Pomo-nos a imaginar o percurso que levou a cada um destes desenhos, destes rostos, destas paisagens, não os gestos que os fizeram emergir, a mão que empunhou o pedaço de carvão ou o lápis muito afiado que nunca abandonava o Mestre; não isso mas o olhar que surpreendeu o objecto (pedra, corpo, rosto...) para o fazer emergir do silêncio da sua invisibilidade do seu irrepetível trânsito e degradação para a forma, para o anagrama de um dado momento, para a luz.
Se o coração pode ver, é essa a direcção do olhar.
ABE-SE que Abel Manta não costumava assinar os desenhos, que não os datava. Só passados meses ou anos e quando lhe lembravam a quantidade de material por identificar - quem o fazia era geralmente a sua Mulher, a Pintora Clementina Carneiro de Moura -, é que o Mestre apunha data, assinatura e por vezes identificação de local ou modelo e sempre depois de um aturado catar de memória, de memórias.
Ou o insólito de uma cabeça emplumada, espécie raríssimo e genuíno de índio-turista, índio aparição surto das brumas nos idos anos trinta e fotografado a lápis à distância de pedrada que vai do paredão ao mar em Santo Amaro de Oeiras?
No molhe, o Mestre, claro, que com areia não podia, das ondas surto o índio, figura de mistério, índio-índio. E alunas, umas quadro dezenas da Escola António Arroio, das aulas que nunca gostou de dar num tempo lento, salazarento, levados-levados-sim, cinzento de todo. Os amigos? Amigos, muitos, amigos todos, ou quase todos que os tantos que eram não cabiam numa vida de desenhos: está o Vitoriano Braga, homem de teatro, está o pai do José Gomes Ferreira, geneticamente republicano e sindicalista activo, está mestre Aquilino de cenho carregado mas civilizado como ele gostava, se gostava. Os amigos da Brasileira, de casa, das tertúlias. A família, também quase toda a família.
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