ERA UMA VEZ UM MILÉNIO

Entrevista com José Matos Cruz
“Em tempo de mudança, a História do Século XX”

Por Luis Coelho, Maria dos Anjos Pinheiro e Esmeralda Serrano.

 

Hoje vamos falar da arte que nasceu com o século, o cinema. Portugal, o Estado Novo e o cinema, com a participação de José de Matos Cruz.
E continuamos a história do nosso século e continuamos em Portugal e no período do Estado Novo, já falámos das artes plásticas, da arquitectura, da música, da literatura e vamos falar do cinema. Obviamente, não é, que é a arte do século XX. Nasceu com o século, praticamente.
José de Matos Cruz - Exacto. O cinema português nasceu cerca de três anos antes do início do século, mas é de facto a arte do século.
Locutora - E quando o Estado Novo começa, podemos dizer que o cinema em Portugal estava a dar os primeiros passos.
José de Matos Cruz - Sim. Não é propriamente os primeiros passos. Digamos que estava a dar quase os últimos passos do cinema mudo, portanto. Havia já grandes clássicos do cinema português. O cinema português de ficção, concretamente, nós sabemos que começou há noventa anos, pelo menos, as referências e os testemunhos que temos comprovativos e comprováveis são de 1907 e o cinema de ficção sólido, já com sentido da representação e de escolha de cenários e de actores como tal vêm, se preferir, de 1918. Os grandes clássicos do cinema mudo português vão desde esse período, de 1919 a 1922, no Porto e depois, por volta de 1927, efectivamente, é que ressurge o cinema português com características de produção em Lisboa, mas, por vezes, aproveitando os laboratórios e as infraestruturas técnicas e cénicas da Invicta Filmes que é aquilo que eu falei na transição dos anos 20. Aí aparecem, de facto, alguns filmes significativos, talvez o caso que as pessoas mais lembrem é o caso do Reinaldo Ferreira, em 1927 fez nos estúdios da antiga Invicta Filmes, no Porto, filmes como o Taxi 9297 que como sabe é um filme importante sobre a morte da actriz Maria Alves. Do princípio dos anos 20 até essa altura, o cinema português, portanto desde 1923 a 1927, o cinema português é de facto um cinema precário e talvez por isso tenha alguma razão de ser, pelo menos no que está ainda na memória das pessoas, a sua afirmação na medida em que, tal como sucedeu depois ou trinta anos depois nos anos 50, é um cinema onde as empresas de produção se formam normalmente para os realizar, para concretizar um filme e acabam depois ou porque essa era a finalidade delas. Há muitas empresas que se constituem só para executar um filme, para o fazer. Noutros casos porque os filmes não têm sucesso e as empresas entram em falência ou porque as pessoas se separam e seguem projectos diferentes. Isso sucedeu um pouco também nos anos 50, embora nos anos 50 tenham uma outra característica que é já um problema de deficiência industrial e por outro lado da existência de uma outra figura que ainda não havia neste período do cinema mudo propriamente, embora se conheçam alguns casos de pessoas, de personalidades que tiveram influência com essas características que é a figura do investidor, portanto a pessoa que acaba por ser, como se dizia na época, o capitalista portanto. No filme nos anos 50, concretamente, para se fazer um filme havia duas pessoas de que se falava sempre que era o realizador e o capitalista, isto é em termos da gíria cinematográfica, mas de facto a partir de 1927 e depois 28, 29 e aí já com grande incidência, o cinema português é de facto um cinema pujante ainda no período mudo porque é nessa altura que se revelam uma série de jovens cineastas que acabariam a sua carreira nos anos 40, 50, 60 e alguns até 70 e onde também acabam por desaparecer algumas pessoas que tinham feito cinema no período mudo. De facto essa transição foi extremamente importante, outros regressam ao cinema como é o caso do Leitão de Barros que tinha feito filmes para a Lusitânia Filmes em 1918, mas depois tinha desistido da arte as imagens e que volta precisamente neste período de 28, 29, 30 ainda com cinema mudo, mas de facto com alguns dos grandes clássicos desse período. É o caso concreto da Maria do Mar, é o caso do Nazaré, é o caso de Lisboa, crónica anedótica e é o próprio Leitão de Barros também que faz o primeiro filme sonoro português, A Severa que, curiosamente, teve também uma versão muda porque ainda não havia propriamente uma instalação eléctrica, eléctrico-acústica que permitisse em todo o país ver A Severa a cantar, a Dina Teresa. Mas além do Leitão de Barros que é de facto um regresso, ainda neste período do cinema mudo aparecem alguns cineastas que, por um lado, podem vir de outras áreas, como por exemplo o caso do Chianca de Garcia que vem do secretário do teatro São Luís, cinema São Luís na altura, que realiza o Ver e amar, é o caso do Jorge Brun do Canto que faz uma experiência de vanguarda que se chamou A dança dos paroxismos, é o caso do António Lopes Ribeiro que faz um filme, a parte portuguesa de um filme alemão que é o Fraulein (?) que se chama Portugal, menina endiabrada, é o caso que faz um primeiro filme, só dele, que se chamava Ver e amar que é também uma experiência estética, é o caso do Artur Duarte que faz desde logo O castelo de chocolate, trazendo toda a experiência do cinema alemão que ele tinha seguido no UFA desde os anos 20 como actor e como ele costumava dizer como varredor do estúdio, mas era essencialmente um assistente de prestígio e é o caso de outros que eu talvez neste momento não esteja a lembrar. Mas de facto aquilo que é interessante e é importante dizer é que a geração que arranca com o cinema sonoro em Portugal é uma geração que vem por um lado do cinema mudo, portanto, preenche e dá corpo, corpo artístico e corpo estético a essa última respiração do cinema mudo e que se lança em força para o cinema sonoro.
Depois d'A Severa que foi feito quanto a interiores e quanto a registo de som em França, perto de Paris, nos estúdios da Binet(?) sur Seine, aparece já em 1933 A canção de Lisboa. A canção de Lisboa é o primeiro filme sonoro feito integralmente em Portugal, como costumam dizer por portugueses, para portugueses e de portugueses mesmo parte significativa dos técnicos eram técnicos portugueses. É o filme que antecede a constituição de um estúdio em Portugal, portanto do estúdio da Lisboa Filme que é aquele que acaba por consagrar a patente da Tóbis Club(?) Filme que era portanto uma patente de origem alemã que foi a preferida a outras patentes que estavam em revalização e rivalidade na altura como o caso das patentes britânicas e americans, mas de facto foi a Tóbis Club Filme. Uma coisa que é também importante dizer é que tal como sucedia com Leitão de Barros que era um homem de muitos ofícios e de muitos gostos e prazeres, desde a arquitectura, aos cortejos históricos, às artes plásticas, era professor, a todo aquele que preferia as belas artes, também A canção de Lisboa associa grandes nomes, nomes doutras artes, doutras áreas, desde o próprio realizador que era o Cotinelli Telmo que era um prestigiado arquitecto, provavelmente já falaram dele, ao José Gomes Ferreira, ao Almada Negreiros, portanto outras personalidades que vinham de sectores artísticos, principalmente, de Lisboa para quem o cinema era um prazer e era ao mesmo tempo uma forma de cumplicidade artística [Locutora - Com grandes actores] e com grandes actores. Eu já não estava a referir esse aspecto porque que é também um aspecto muito importante. Isto é curioso de dizer porque o cinema em Portugal sonoro, quando de facto nasce, e esta geração de que temos falado é de facto a primeira geração de cineastas portugueses, portanto de nacionalidade portuguesa, quando nasce o cinema, ao contrário de outros países em que era visto como um espectáculo, como um divertimento, com menor ou de menos consideração para outras áreas artísticas e literárias, pelo contrário o cinema foi sempre muito considerado e muito prestigiado em Portugal. O próprio Chianca de Garcia que depois haveria de fazer filmes com grande sucesso esteve integrado na equipa de A canção de Lisboa e depois há outro elemento que citou que de facto os grandes actores, grandes actores que se popularizam, se prestigiam e adquirem desde logo culto através d'A canção de Lisboa, mas que eram actores que vinham já do período do mudo, concretamente, Vasco Santana tinha sido revelado pelo Leitão de Barros na Lisboa, crónica anedótica, a Beatriz Costa que já tinha feito a partir de 1927-28 várias experiências como Beatriz Costa memorialista que é um filme feito para a revista "Cinéfilo", já tinha entrado também n'O diabo em Lisboa que era um filme efectivamente menor, pouco conhecido e que depois também aparece na Lisboa, crónica anedótica. Evidentemente que eram papéis relativamente obscuros e que a consagração só viria com aquilo que é de facto a maior atracção d'A canção de Lisboa que é o som. Mas muito curiosamente como se dizia já na altura, o sonoro teve três elementos muito importantes, não era só ouvir as vozes e os ruídos como se dizia na altura, era cinema falado e cantado. Portanto, essa componente musical que depois viria nos anos 40 a ter grandes repercussões é desde logo um elemento matricial extremamente importante para o ressurgimento do cinema português.
Locutora - Matos Cruz este cinema era uma indústria, como é que era vista neste caso por António Ferro que era, pelo Estado, era apoiada.
José de Matos Cruz - É uma pergunta relativamente curiosa. De facto era um cinema apoiado e foi-o principalmente por final dos anos 30 quando o António Ferro participa por um lado com o próprio António Lopes Ribeiro como argumentista da Revolução de Maio [Locutora - Um filme nitidamente político. Encomenda, não é] Absolutamente político e de encomenda. Aliás, foi produzido pelo próprio SPN, portanto, não há qualquer espécie de dúvidas. Assim como o segundo filme de características nitidamente políticas e expressamente políticas, também dirigido pelo António Lopes Ribeiro, O feitiço do império, de 1940-41, era também um filme apoiado pela Agência Geral das Colónias. Eram os dois filmes que desde logo repartiam um olhar sobre as duas áreas importantes. Por um lado, a revolução de Maio, um filme sobre o interior, portanto a possibilidade de, no seio do país, explodir uma revolução contrária ao 28 de Maio e porque o título é ambíguo como todo o cinema de propaganda e provavelmente outras áreas de propaganda do Estado Novo e podemos citar já isso, assim como O feitiço do império era o lado colonial, portanto era o lado exterior que não deixava de ser português só porque era ultramarino.
Locutora - António Lopes Ribeiro para além de ter feito esses dois filmes, nitidamente políticos, também o vamos ligar à época áurea do cinema que ainda hoje vimos, aquelas comédias que ainda as vemos com muito agrado, não é, e não só eu.
José de Matos Cruz - O Lopes Ribeiro, ele costumava dizer que lhe apetecia, penso eu, brincar, por vezes, um bocado que era o belo e o monstro na medida em que ele fez, de facto, o cinema político que o cinema político já referimos com características nitidamente e directamente de propaganda e fez também o cinema que o António Ferro não gostava muito que era a comédia portuguesa. Ele esteve de facto na génese ou no reiniciar da comédia portuguesa e cumpriu de facto o período da comédia de ouro através dum Pai tirano, dirigido por ele e através d'O pátio das cantigas realizado pelo irmão, pelo Francisco Ribeiro, o Ribeirinho, mas produzido por António Lopes Ribeiro, portanto, Eram as 'Produções António Lopes Ribeiro', chamavam-se mesmo assim. Ele além de uma empresa de produção tinha também uma empresa de distribuição que se chamava SPAC que era a Sociedade Portuguesa de Actualidades Cinematográficas, as actualidades aqui refere-se portanto à actualidade documentário como também à actualidade produção fílmica, portanto, e de facto ele era uma espécie de, tinha uma espécie de produção em cadeia porque desde o início do argumento até ao lançamento e depois à distribuição dos filmes, ele cobria todas as áreas. Nalguns casos exibindo os filmes noutras salas de cinema, noutros casos, isto já um bocadinho mais tarde, na sua própria sala que era portanto um continuar no Teatro da Trindade onde ele teve também, como sabe, foi empresário dos Comediantes de Lisboa e portanto esse conhecimento que ele tinha e essa familiaridade com os actores foi extremamente importante. Penso aliás que há duas fases que há a distinguir nessa familiaridade que é a primeira tem a ver com a própria família do António Lopes Ribeiro que era uma família, como se sabe, independentemente do irmão, uma família de gente ligada às artes, desde logo o Carlos Filipe Ribeiro que esteve ligado às artes plásticas, à banda desenhada, etc. como também outras pessoas e depois precisamente através desse conhecimento diário com os actores. O António Lopes Ribeiro, para além disso, era uma pessoa que tendo esse lado de poder dominar e poder actuar, enquanto criador, em várias áreas, ao mesmo tempo era uma pessoa muito susceptível de entusiasmar outras pessoas a trabalhar, digamos assim. Por exemplo, o Vasco Santana que era um actor genial, mas que consta na lenda nem sempre gostava muito de trabalhar participava nos filmes do Lopes Ribeiro, muitas vezes também como autor dos diálogos e até ligado à própria escrita do argumento e, por vezes, o Lopes Ribeiro levava-o a fazer coisas que ele não gostava nada. Por exemplo, quando o Lopes Ribeiro em 46 fez o Camões do Leitão de Barros, o Vasco Santana fez o papel do mau cozinheiro(?) que era um papel dramático. Portanto só o Lopes Ribeiro é que o convenceria a fazer esse papel. Portanto, é de facto, ele era uma pessoa muito reservada e que também, eu não tive essa experiência porque nos demos sempre bem e conhecemo-nos já dentro das várias actividades dentro do cinema que tivemos, ele era uma pessoa muito fechada. Quando era abordado na rua na medida em que era conhecido, especialmente, como sabe já nos anos 60 e 70 através do Museu do cinema, ele não gostava muito, às vezes, era um bocado até, não digo propriamente hostil, mas pelo menos não recebia certas pessoas bem. Ele era, digamos, uma pessoa muito fechada, mas ao mesmo tempo muito aberta e quando esse leque de personalidades que ele tinha se abria, era de facto das pessoas mais fascinantes que conheci.
Locutora - Disse há pouco que essas comédias musicais, aparentemente inócuas, não eram do agrado do António Ferro. Porquê?
José de Matos Cruz - Porque não eram sérias, não eram obras sérias e, por outro lado, porque escapavam um pouco aquilo que era um cinema que numa espectativa e numa perspectiva que no essencial deveria ser dado ao povo. Aliás, eu penso que mais uma vez isso era uma característica de ambiguidade na própria personalidade do António Ferro. Nós sabemos que antes de ele se ter ligado, provavelmente, já falaram nisso também aqui nestas conversas, antes de se ter ligado ao Estado Novo era uma personalidade criativa, até um pouco rebelde, até um pouco, por vezes, eu diria, se me permite, entre parêntesis, escandalosa, a sua afeição pela mitologia de Hollywood, por exemplo, que está expressa em váriso livros é nítida. Portanto, só depois é que ele pôs a gravata, digamos, se transformou no cérebro e no ideólogo do Estado Novo e de facto penso eu que é um pouco isso, que é um pouco da pessoa que tem de assumir um papel de pessoa séria, retiro a palavra pessoa, na medida em que estas estão aqui estas características. Eu creio que o cinema era aparentemente inócuo, o cinema da comédia e há casos de sublimação da família que eram um dos elementos de esteio do Estado Novo, há casos simbólicos de ligação directa à própria simbologia do Estado Novo, há a célebre frase do Salazar que aparece por cima da [Locutora - Do Vasco Santana com as crianças] Do Vasco Santana, exactamente, com as crianças. Há casos, aliás há casos muito interessantes por exemplo, no anos 50 quando surgiu um filme que se chamava, que era baseado na obra, o filme que se chamava O cerro dos enforcados, do Fernando Garcia, que era baseado num conto do Eça de Queirós, uma coisa que se disse na altura, entre a crítica, foi que o cinema fantástico, por um lado, não tinha uma componente possível de em termos industriais ser executado e constituir um espectáculo de sucesso e de produção em Portugal, mas, por outro lado, dizia-se ainda que não era um cinema ao gosto do António Ferro o que é interessante esse sentido de que, passado o período dos anos 40 que é fortemente um cinema de propaganda e se utiliza um bocado a partir do fim da guerra, muito em especial a partir de 47-48 quando começam por surgir os tais capitalistas de que nós falámos há bocado e em que depois, mais tarde, é a ausência de uma figura tutelar que invista no cinema que era de facto o SPM quando surge depois o Fundo de Cinema Nacional que apoiava a produção, estando já esbatido esse olhar directo e indiscreto quase sobre o cinema português, mesmo nessa altura a sombra do António Ferro continuava a tutelar o cinema.

Com José de Matos Cruz falámos do Estado Novo e o Cinema. No próximo programa a ser transmitido sexta-feira, dia 4 de Agosto, vamos entrar com Fernando Rosas na Segunda Guerra Mundial.

Fizeram este programa Luís Coelho, Maria dos Anjos Pinheiro e Esmeralda Serrano.

(Programa gravado da Antena 2 no dia 25 de Julho de 1997)

 

Transcrição Ireneu Batista