ERA UMA VEZ UM MILÉNIO

Entrevista com José Medeiros Ferreira e Fernando Rosas
“Em tempo de mudança, a História do Século XX”

Por Ana Almeida, Henrique Soares, Maria dos Anjos Pinheiro e Esmeralda Serrano.

 

 

No dia 23 de Março de 1962, o Ministro da Educação Nacional, Manuel Lopes de Almeida, docente de história da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, proíbe as comemorações do Dia do Estudante que deveriam decorrer ente 23 e 25 de Março. A academia de Lisboa decide realizar uma greve de protesto. A Academia de Coimbra solidariza-se com os colegas de Lisboa. Uma concentração de estudantes na cidade universitária de Lisboa é violentamente reprimida pela polícia de choque.
A década de 60 e a crise académica de 1962 é o tema de hoje. Como sempre com a participação do professor Fernando Rosas e o convidado o doutor Medeiros Ferreira.
Fernando Rosas - José Medeiros Ferreira, dirigente da crise académica do movimento associativo estudantil, em 1962, nessa altura se não era caloiro, andava próximo dessa situação. Segundo ano de histórico-filosóficas da Faculdade de Letras de Lisboa. José Medeiros Ferreira, a primeira questão que queria perguntar era esta. Como é que esta universidade, tão seleccionada no seu acesso, tão conservadora na ideologia que transmitia, tão elitista na posição relativa que tinha dentro da sociedade, de repente explode em 1962. Que leitura é que tem para este facto?
José Medeiros Ferreira - Bem, em primeiro lugar penso que a explosão já estava anunciada há alguns anos atrás, mas há um facto físico talvez e até ligado ao grupanismo que creio que pode começar por dar o espaço em que foi possível essa explosão como tu disseste, que foi exactamente a cidade universitária do Campo Grande. Era uma realidade que tinha poucos anos, penso que as primeiras faculdades começaram a ser frequentadas em 57 ou 58 e, portanto, toda aquela concentração de estudantes de Direito, de Letras, de Medicina, de Farmácia vai dar, de facto, uma maior potencialidade aos encontros entre... [Fernando Rosas - O papel da Cantina.] O papel da Cantina é fundamental. Aliás, se me permites, a primeira grande experiência de co-gestão que é feita pelas Associações de Estudantes tem a ver exactamente com a Cantina da cidade universitária. Foi uma proposta nossa, portanto das Associações de Estudantes. Em Letras não havia associação porque ela tinha sido ilegalizada pela ditadura, assim como em Medicina, mas havia as chamadas comissões pró-associações que funcionavam como associações e nós reivindicamos a gestão da Cantina da cidade universitária, exactamente porque se tratava de uma novidade e o professor Marcelo Caetano, que era o reitor, reuniu o Senado e aceitou, depois de manifestações várias na Cantina, com mobilização de estudantes, uma comissão paritária para a gestão da Cantina chamada CAIA, Comissão Administrativa das Instalações Académicas, em que faziam parte, enfim por Letras, eu próprio, depois o Eurico Figueiredo por Medicina e o José Abreu Victor Wengorovius por Direito. Ainda me lembro desses nomes, para dar uma ideia, digamos, do princípio da assunção do papel activo, interveniente do espaço universitário, da cidade universitária do Campo Grande, início de 1961, para aí.
Fernando Rosas - Como é que um jovem estudante açoriano, que pela primeira vez, penso eu, vem viver com regularidade no Continente, se interessa pelas associações de estudantes? O que pode ser um caso, provavelmente, sintomático duma camada importante de estudantes. Como é que se aproxima das associações de estudantes? Por política? Por...
José Medeiros Ferreira - Não. Por um fenómeno geral. Político, cultural. Eu vinha portanto do Liceu Nacional de Ponta Delgada, como se dizia então, onde já tinha posições que se podem considerar contestatárias lato senso, grandes discussões com outros colegas, escrevia na imprensa de Ponta Delgada, sobretudo crítica de cinema. Portanto, aquele percurso normal do jovem que se interessa por assuntos relacionados com a cultura e também já uma certa crítica ao Regime, na medida em que com 18 anos, essas críticas estão mais ou menos articuladas.
Fernando Rosas – Era fruto do ambiente familiar?
José Medeiros Ferreira - Nem por isso. Mais das discussões. Os meus pais não se interessavam por política propriamente dita, mas as discussões no Liceu de Ponta Delgada, com aqueles estudantes que vinham de fora da cidade e que não tinham tempo de ir comer a casa, digamos assim, que ficavam à hora do almoço, enfim, no Liceu. Aí é que começaram as grandes discussões, além do Ciclo de Cultura Antero de Quental que teve, aliás, o apoio de alguns professores continentais. Um deles, depois até foi deputado pelo MDP/CDE pelo Porto, Ilídio Sardoeira, o que nos estimulava muito a fazer discussões e palestras. Uma das pessoas que também estava associada a isso era o actual deputado do PSD Mota Amaral que foi presidente do Governo Regional dos Açores durante vinte anos. Portanto, havia esse ambiente, de facto.
Fernando Rosas – Portanto, a adesão à associação surgiu naturalmente.
José Medeiros Ferreira - Surgiu praticamente com uma grande naturalidade. Ainda me lembro, enfim, da primeira pessoa que me falou da pró-associação, como se dizia então, foi o Cardia. Também o João Paulo Monteiro que faziam parte de uma direcção anterior e que queriam passar o testemunho e como me viam muito interessado, quer nas aulas em que eu participava com o Cardia, quer cá fora nas actividades culturais, vieram-me propor, no meu segundo ano da Faculdade, fazer parte da direcção.
Fernando Rosas – Apoliticidade, arrelegiosidade, era assim que as associações [José Medeiros Ferreira - Sim, sim. Aliás, os estatutos...] faziam questão em definir-se, aliás, até por obrigação estatutária. Era assim ou as associações tinham algum significado de resistência que quem o queria procurar encontrava.
José Medeiros Ferreira - Sem dúvida. Creio que as associações eram sobretudo a alternativa e a recusa da Mocidade Portuguesa, para pôr agora as coisas em termos de organização universitária. Havia a Mocidade Portuguesa ou as delegações da Mocidade Portuguesa e depois havia as associações de estudantes e os estudantes mais activos, no fundo, dividiam-se entre essas duas organizações. As associações de estudantes apareciam, portanto, como o espaço cívico de intervenção dos estudantes que não queriam participar naquelas coisas oficiosas e oficiais da Mocidade Portuguesa por motivos vários e portanto a pró-associação da Faculdade de Letras, estamos a falar dessa, também tinha uma série de pessoas que eram críticas do Regime, que eram contra a ditadura, que eram, enfim, por um regime democrático normal ou até por uma visão da sociedade em grande transformação porque havia, obviamente, forças políticas na universidade nessa altura que defendiam, enfim, projectos de ordem mais ligados ao comunismo, até à transformação de uma sociedade sem classes. Portanto, tudo isso coexistia nas associações de estudantes, mas elas ainda não se assumiam como políticas, a não ser, de facto, por não enfileirarem nas manifestações que o Regime gostaria que os estudantes enfileirassem. Dou esse exemplo porque, por exemplo, quando foi da invasão de Goa...
Fernando Rosas – Já estavas na Faculdade?
José Medeiros Ferreira - Já estava na Faculdade e lembro-me muito bem de grandes movimentações para que os estudantes manifestassem o seu repúdio e que eram manifestações, no fundo, de carácter político a favor do Regime. Era muito difícil fazer a distinção e portanto nas associações, dado o seu estatuto, o refúgio era a apoliticidade dos estatutos das associações de estudantes e também a apoliticidade, na medida em que a força dominante, nessa altura, era a Igreja católica que tinha a sua organização de estudantes que era a JUC, exactamente. Tinha um jornal de difusão bastante alargada que era o jornal “Encontro”. Portanto, estamos no início dos anos 60.
Fernando Rosas – E numa Faculdade de Letras, com uma percentagem muito grande de estudantes do sexo feminino, como é que as mulheres apareciam no movimento associativo? Uma raridade?
José Medeiros Ferreira - Em público, talvez uma raridade, mas no dia a dia da pró-associação de Letras eram muito activas. Não quero referir nomes, mas, quer dizer, todas as secções...
Fernando Rosas – Estamos na época à carta à jovem portuguesa.
José Medeiros Ferreira – Estamos na época... Exactamente. Isso depois tem a ver... Já lá chegaremos provavelmente em Coimbra e com a dimensão nacional da luta estudantil. A carta à jovem portuguesa é de facto, enfim, um artigo que aparece na “Via Latina”, em Coimbra, e que também tem grandes repercussões na Academia de Lisboa. Em Letras não há muitas dificuldades em recrutar, até espontaneamente, a participação de mulheres. Portanto, em todas as secções, mesmo na direcção. Na minha direcção, eu creio que havia, pelo menos, três mulheres. Portanto, num total de seis ou sete elementos, três eram mulheres e portanto não se fazia por quotas, fazia-se espontaneamente e eram muito activas. Normalmente, só depois é que me dei conta disso, eram pessoas cujas famílias tinham sido contra a ditadura, não é assim. Portanto, já levavam para a Faculdade uma cultura de anti-regime.
Fernando Rosas – A tua actual mulher era uma delas. A Maria […]
José Medeiros Ferreira – Exactamente. Pois o pai era um republicano muito conhecido e que até estava activo nessa altura, em termos políticos, na equipa da acção democrato-social, mas para além, enfim, dessas heranças familiares, digamos assim em termos políticos, havia todo um ambiente, também relacionado com o próprio convívio, não é, com a própria... Aliás, era um termo em voga nas associações de estudantes, eram exactamente os encontros e os convívios que eram, aliás, muito difamados na imprensa do Regime, nomeadamente, no “Diário da Manhã” e até no jornal católico conservador como era “A Voz”, tinha uma tendência para denegrir esses encontros que as associações de estudantes promoviam, insinuando que se passariam coisas... [Fernando Rosas – Grandes regabofes.] Exactamente. Houve o chamado amor livre, imaginavam coisas, de facto, que só fazia com que cada vez mais gente aparecesse nas associações de estudantes. Mas, de qualquer maneira, não era esse, como se deve calcular, o intuito dos estudantes mais conscientes. Aliás, é uma expressão da época, o estudante consciente.
Fernando Rosas – Tu dirias que o clima é preparado por uma crescente tensão na Universidade, ou seja, estou-me a lembrar de 61, no ano anterior, há um Dia Nacional do Estudante que ainda passa em Coimbra. Parece que os estudantes portugueses estão a caminhar, à semelhança dos franceses, para uma união nacional dos estudantes portugueses. Quer dizer, há qualquer coisa a mexer e de repente, de repente Medeiros Ferreira?
José Medeiros Ferreira – De repente o que há, é exactamente a proibição do “Dia do Estudante”, embora não quisesse começar já por aí, mas... Há uma manifestação propriamente política a 11 de Novembro de 1961. 61 é um ano de eleições para a Assembleia Nacional. As candidaturas da oposição desistem porque não havia condições de liberdade de expressão e vai haver uma manifestação de rua no dia 11 de Novembro que era o dia do Armistício da Primeira Guerra Mundial frente ao monumento aos mortos da Primeira Guerra Mundial, aqui na Avenida da Liberdade, e vão-se lá encontrar muitos estudantes que depois vão ter um papel activo na crise de 62, com uma enorme carga da polícia de choque, como se dizia na altura.
Fernando Rosas – A polícia de choque, enquanto tal, estreia-se nessa manifestação.
José Medeiros Ferreira – Estreia-se. Exactamente. Eu não sabia que se tinha estreado, mas como estava lá, como estava lá [Fernando Rosas – Notaste a diferença.] notei a diferença e ainda me lembro como é que nós nos safamos e já agora um pequeno detalhe. Foram os porteiros do cinema São Jorge, ficava face ao cinema São Jorge, que a meio dum filme, só havia nessa altura uma sala de cinema, abriram-nos os portões para que os manifestantes conseguissem fugir à carga policial. Eu nunca mais esqueci esse gesto de cumplicidade e de resistência passiva por parte dos porteiros do cinema São Jorge. Não sei se algum deles ainda lá está, se não, mas de facto dá a entender o clima de cumplicidade e de apoio que a população dava ou que parte da população dava a esse género de manifestações. Depois disso então, já como dirigente estudantil, nós preparamos... Há um encontro em Coimbra um mês antes do Dia do Estudante que corre muito bem.
Fernando Rosas – Coimbra está muito distante, civilizacionalmente, vamos utilizar o termo, de Lisboa em termos do que é o mundo estudantil nessa altura?
José Medeiros Ferreira – Bem, Coimbra tinha as suas características próprias, mas já havia, digamos, uma parte dos dirigentes associativos ou dos estudantes que frequentavam a Associação Académica de Coimbra, digamos, uma visão crítica do tradicionalismo de Coimbra, é a época em que também começa a aparecer a modulação em relação à canção de Coimbra. Portanto, uma canção mais crítica, as baladas começam a surgir.
Fernando Rosas – O Carlos Candal tinha ganho as eleições na Academia.
José Medeiros Ferreira – O Carlos Candal tinha ganho as eleições. Exactamente, um ponto importante que acabas de referir. É que nos anos 60/61, as principais associações passam para direcções contra a ditadura, digamos assim. Portanto, não estão, não fazem parte, digamos, do bloco... são desafectas à ditadura. É o caso de Carlos Candal, em Coimbra, exactamente. É o caso de Jorge Sampaio [Fernando Rosas – Na Associação de Direito.] Exactamente, na Associação de Direito e essas duas eleições, creio, que marcam a transição, uma nova fase na vida associativa. O Dia do Estudante e o seu programa em 62 não era muito diferente do programa de 61 que tinha sido autorizado. Portanto, havia um tema, penso que era a integração dos estudantes na Universidade, talvez um tema assim relativamente abrangente, mas sem qualquer conteúdo imediatamente polémico, havia uma sessão de convívio, havia um sarau aqui no Pavilhão dos Desportos. Já tinha havido no ano anterior. Havia um jantar, no ano anterior o jantar tinha tido a participação de 700 estudantes. Portanto, de facto, havia uma movimentação de centenas e centenas de estudantes à volta do Dia do Estudante. Repentinamente, não só há a proibição do Dia do Estudante pelo ministro Lopes de Almeida que, aliás, tinha sido um dos deputados da União Nacional que tinha subscrito a proposta, digamos, a transformação da lei, do decreto-lei 40900 em proposta de lei e depois não teve seguimento. Lopes de Almeida que era o ministro, tinha sido, como deputado, subscritor dessa alteração do decreto-lei para proposta de lei, portanto mantendo o statuo quo ante por causa da contestação ao 40900 feita em 56, vai proibir o Dia do Estudante, mas além de proibir o Dia do Estudante, a cidade universitária aparece ocupada pela polícia de choque.
Fernando Rosas – Facto sem precedentes na história do regime.
José Medeiros Ferreira – Facto sem precedentes, pelo menos para aquela geração de estudantes. Não é assim? E eu lembro-me muito bem, que os dirigentes tinham uma relação de diálogo, como se diria hoje, com o professor Marcelo Caetano, foram a casa do professor Marcelo Caetano que era o reitor da Universidade Clássica. Como sabes havia essas divisões, ainda hoje também existem e fomos a casa dele em Alvalade dizer o que estava a acontecer, que havia polícia de choque na universidade, na cidade universitária e ele ficou, genuinamente, aborrecido e até irado. Telefonou ao ministro do Interior, Santos Júnior, na nossa frente, pedindo-lhe para ele retirar a polícia de choque e quando desligou o telefone garantiu-nos que a polícia de choque iria retirar e até nos convidou a vir no carro dele, não direi a marca, mas ainda me lembro muito bem de ter vindo com ele, de virmos a conversar. [Fernando Rosas – Boca de sapo, preto] Exactamente e ele estava convencido que, quando nós chegássemos à cidade universitária, que a polícia de choque já teria retirado. Isto é na manhã do dia 24 de Março de 1962, exactamente. Mas quando lá chegamos a polícia de choque, de facto, estava a principiar a entrar nas carrinhas, mas não saíram da cidade universitária. Razão pela qual nós convocamos um plenário, a grande inovação, é preciso que se diga, uma certa capacidade de mobilização.
Fernando Rosas – Portanto, o plenário era uma reunião plenária de todos os estudantes de Lisboa.
José Medeiros Ferreira – Uma coisa informal num país que não tinha direito de associação, de expressão e de manifestação. Portanto, convocamos os estudantes para a tarde no Estádio Universitário, um outro espaço novo que existia portanto também na cidade universitária. Estava um dia bom, gostava de dizer que penso que um dos factores desse sucesso.
Fernando Rosas – Era uma bonita Primavera.
José Medeiros Ferreira – Foi uma Primavera muito bonita, não é assim, com sol e portanto nós fomos para o estádio universitário onde, até por volta das seis horas, a polícia não saiu da cidade universitária. Aliás, cercou de certa maneira de novo o estádio universitário e o professor Marcelo Caetano, talvez pensando que assim resolvia a situação, terá convidado ou pelo menos dito que o melhor era os estudantes irem jantar ao restaurante Castanheira de Moura.
Fernando Rosas – Até porque a polícia, se não estou em erro, começa a evacuar o estádio universitário, começa a obrigar as pessoas...
José Medeiros Ferreira – Sim há um cerco próximo, diria assim, não é assim, e depois a cantina é fechada, não é assim. Portanto, não se pode jantar na cantina, havia o tal jantar de confraternização que no ano anterior tinha sido no Técnico, se a memória agora me não falha, e neste ano seria na cantina velha, mas na altura nova e portanto quando os estudantes se dirigem para o restaurante Castanheira de Moura há uma carga de polícia muito forte e os dirigentes associativos vão reunir para Económicas.
Fernando Rosas – E dirigem-se ao restaurante Castanheira a convite do reitor, a convite do professor Marcelo Caetano.
José Medeiros Ferreira – Eu não diria bem a convite, por sugestão do professor Marcelo Caetano, ou seja, o professor Marcelo Caetano sente que há ali uma situação de impasse que pode levar à violência dentro da cidade universitária, não é assim e sugere que, em vez de ficarmos ali à espera da abertura da cantina que não aconteceria de qualquer maneira, se possa ir jantar ao restaurante Castanheira de Moura.
Fernando Rosas – Os estudantes saem em manifestação.
José Medeiros Ferreira – E os estudantes saem em manifestação e são carregados no Campo Grande pela polícia de choque que criou, obviamente, um facto mobilizador muito grande. Gostaria só de referir que, imediatamente, os dirigentes associativos promovem uma reunião das reuniões interassociações na Associação de Económicas, [Fernando Rosas – As RIAS, portanto.] As RIAS e aí decide-se a greve às aulas para a segunda e a terça-feira.
Fernando Rosas – Greve? Era o termo?
José Medeiros Ferreira – Não. O termo chamava-se luto académico, não é assim? Porque a greve era proibida, não é verdade, e nós éramos bons em nominalismos e eufemismos, criamos a expressão luto académico com a falta às aulas. Era assim. Aparecemos de gravata preta e na segunda-feira, portanto isto passa-se, estes acontecimentos passam-se a um sábado. Na segunda-feira seguinte, que era o dia 26, logo de manhã, estão os dirigentes associativos e os associativos, em geral, com um comunicado. Foi também... Teve um grande papel fazer comunicados. Aliás, há agora um livro do professor Oliveira Marques com a colecção desses comunicados e tivemos uma adesão espontânea dos estudantes à greve ou ao luto académico.
Fernando Rosas – Uma greve da instituição.
José Medeiros Ferreira – Uma greve da instituição e também nessa altura começou a dar-se, talvez dado a amplidão da aceitação da palavra de ordem dos dirigentes associativos, muitos professores e assistentes começaram também a dialogar connosco duma maneira...
Fernando Rosas – A greve foi geral nesses primeiros dias?
José Medeiros Ferreira – No dia 26 e 27, que é a primeira fase da greve, a greve foi praticamente geral, não é assim. Pode ter havido um caso ou outro, mas na cidade universitária foi geral, de certeza. No dia 27, o ministro recebeu uma delegação de estudantes e disse que o Dia do Estudante estava autorizado. Portanto, marcou-se uma nova data para 5 e 6 de Abril, se não estou em erro, com o mesmo programa, e de novo, na véspera do dia 5 de Abril.
Fernando Rosas – O reitor, entretanto, demitiu-se.
José Medeiros Ferreira – Não, não, não. O professor Marcelo Caetano não se demite porque há esse recuo por parte do primeiro-ministro, do governo, dizendo que a proibição do Dia do Estudante fica sem efeito e que se pode marcar uma nova data. Essa nova data é marcada.
Fernando Rosas – Diz isso pessoalmente aos dirigentes.
José Medeiros Ferreira – Aos dirigentes sim. Eu penso que a delegação foi o Eurico de Figueiredo, o José Abreu e o Victor Wengorovius, talvez. Mas penso que o Eurico de Figueiredo e o Victor Wengorovius de certeza absoluta que regressam dessa delegação com a proposta do ministro de se fazer o novo Dia do Estudante numa data posterior, com o mesmo programa e ficou marcado para o dia 5 e 6 de Abril. Portanto, o Marcelo Caetano não se demite nessa altura. Vai-se demitir sim em Abril porque o governo volta a proibir o Dia do Estudante marcado para essa data com o pretexto de que não tinha sido enviado o programa.
Fernando Rosas – É o tal volte face em conselho de ministros, não é?
José Medeiros Ferreira – Exactamente, que depois o Franco Nogueira revela, descreve na sua obra sobre Salazar.
Fernando Rosas – Ou seja, Salazar impõe a proibição ao Ministro da Educação, praticamente é assim.
José Medeiros Ferreira – Todos os documentos que eu tenho consultado e agora já não é a testemunha que está a falar contigo, é, enfim, alguém que já fez alguma pesquisa sobre isso, nomeadamente nas chancelarias, nos arquivos oficiais de Londres, de Paris e dos Estados Unidos. Em Londres há um documento do embaixador britânico em Portugal que afirma que o doutor Salazar quereria radicalizar a luta estudantil para fechar a Universidade.
A crise académica de 1962 é ainda tema do próximo programa com a participação de Fernando Rosas e Medeiros Ferreira.
Fizeram este programa Ana Almeida, Maria dos Anjos Pinheiro e Esmeralda Serrano.

"ERA UMA VEZ UM MILÉNIO". Em tempo de mudança, a história do século XX.

(Programa transmitido na Antena 2 no dia 19 de Dezembro de 1997)

 

2ª Parte
Os anos 60 e a crise académica de 1962 é ainda o tema do nosso programa, como sempre com a colaboração do professor Fernando Rosas e o convidado o Dr. Medeiros Ferreira.
“Pretende-se dar a esta solenidade o sentido virado para o futuro na medida que os actos que a integram representam como que a consagração do esforço emérito dos elementos mais nobres da Universidade que garantem a continuidade da vida da instituição no mundo cultural em que vivemos”.
(apupos)
(Excerto do discurso de inauguração oficial do ano académico)
Locutora – No anterior programa o Dr. Medeiros Ferreira falou-nos nos acontecimentos que antecederam a primeira crise académica da década de 60. No papel do reitor Marcelo Caetano, da insolência de Salazar e do luto académico, expressão então escolhida para evitar a palavra greve. O papel de muitos estudantes foi importante no desenrolar dessa luta. Posteriormente foram aplicados a 53 estudantes penas de exclusão de todas as escolas nacionais por um período de três meses a oito anos, 124 estudantes foram suspensos das escolas a que pertenciam por períodos de 5 a 40 dias, quatro foram sujeitos a repreensão perante o conselho escolar. Medeiros Ferreira da Faculdade de Letras foi suspenso por três anos e é recordando o papel do dirigente estudantil Eurico de Figueiredo que Medeiros Ferreira continua hoje a recordar a crise académica de 1962.
Medeiros Ferreira – Quando o Eurico de Figueiredo é preso, politicamente depois é preso em Maio desse ano, Eurico de Figueiredo tinha conseguido uma posição de grande prestígio porque, sendo, ele não gosta que eu diga a expressão, sendo um radical mantinha uma grande capacidade de análise política e depois de uma decisão tomada na RIA por maioria, mesmo que ele estivesse em minoria a executava e explicava a posição maioritária dos dirigentes associativos [Fernando Rosas – Dirigentes dos estudantes de Medicina] Exactamente era presidente da pró-associação de Medicina e portanto ele tinha muito prestígio e nós sempre que precisávamos dele para moderar as decisões [Fernando Rosas - Arranjavam essa cobertura] Ele desde que a decisão fosse tomada democraticamente, ele com grande espírito democrático, fazia isso nos plenários e sempre com sucesso. Qual era o nosso espanto quando a polícia política prende o Eurico de Figueiredo em fins de Maio e portanto nós ficamos sem os dirigentes, digamos, o Jorge Sampaio, eu, o Victor Wengorovius, o José Abreu, o António Ribeiro, filho do professor Orlando Ribeiro, e outros, ficamos sem, digamos, a possibilidade de recorrer ao Eurico de Figueiredo perante uma emergência que se ia dar a seguir e bastante grave que foi decidir ou não se a greve aos exames se ia manter. Entretanto, há uma tentativa de retirar o interlocutor que dado o seu prestígio junto à esquerda e à extrema esquerda poderia levar a uma maior moderação táctica, digamos assim, de alguns [Fernando Rosas - De qualquer maneiro José Medeiros entre 24 de Março e Maio passa-se todo o mês de Abril ou seja uma greve prolongadíssima] Prolongadíssima, mas aí devido, se me permites, devido à táctica dos dirigentes associativos porque nós não fomos para uma greve sem objectivo, nós tínhamos objectivos para a greve e vamos interromper a greve que recomeça de facto a 5 de Abril, vamos interromper a greve no fim de Abril para negociar com o Governo porque
Fernando Rosas - Quem propõe a negociação?
Medeiros Ferreira – É um caso que eu penso que posso testemunhar por dentro. Quem propõe a negociação é o antigo ministro de Salazar Costa Leite Lumbrales, na altura professor na Universidade de Direito, que se aproxima dos dirigentes associativos de Direito, propondo-lhes uma possível ida. Ficamos até na dúvida se seria o próprio Salazar se seria outro membro do Governo para tentar discutir a situação estudantil. Estamos portanto talvez na terceira semana de Abril. Nessa altura aproximava-se o 1º de Maio, era o 1º de Maio que prometia muito, ou seja o próprio Partido Comunista, a Frente Patriótica de Libertação Nacional e outras formações políticas estavam a mobilizar, enfim, a população e os estudantes em particular para esse dia 1º de Maio e portanto, para os dirigentes associativos colocava-se o problema de saber se sim ou não iríamos manter a greve ou o luto académico exactamente nessa altura. Quando nos é feita a proposta de ir conversar com o Governo sobre a situação estudantil e para tentar resolver alguns problemas pendentes [Fernando Rosas - Nas vésperas do 1º de Maio] nas vésperas do 1º de Maio, na terceira semana de Abril, há uma grande discussão na RIA e nós aceitamos fazer essa negociação mesmo o Governo coloca a seguir outra condição que é suspendermos a greve para o efeito e é outra decisão também importante a nível Inter Associações em que, por exemplo, um homem como o Jorge Sampaio que era Secretário Geral tem um papel fundamental, vamos interromper a greve às aulas na véspera do 1º de Maio, no dia 29 de Abril e vamos ser recebidos depois na semana seguinte pelo Ministro Correia de Oliveira. A hipótese de ser recebidos pelo Salazar cai, mas ele era como sabe o Correia de Oliveira era Ministro da Presidência, o Ministro adjunto da ala modernizadora, digamos assim entre aspas, e vai uma delegação, por acaso eu fui nessa delegação, ser recebida pelo Ministro Correia de Oliveira também na presença do Costa Leite Lumbrales. Para nosso espanto, o Ministro Correia de Oliveira não tem mandato para negociar connosco e o que ele faz é, depois de nós nos sentarmos. Isso é verdade, há outros testemunhos. Ele retira um papel que tinha na secretária e lê uma nota escrita que depois até foi publicada na imprensa [Fernando Rosas - Previamente preparada, portanto] Previamente preparada em que me lembro que o essencial da filosofia política subjacente estava contida na frase, o poder não pode ser desafiado porque não pode ser vencido, era a essência dessa prelecção e para nosso espanto o resto da conversa não teve qualquer objectivo. Estávamos perante um logro, mas no meu cálculo de probabilidades na altura, eu dava por adquirido em 90% que a negociação seria um fracasso. Sabíamos é que poderíamos recomeçar a greve com mais força depois do fracasso dessas negociações e de facto...
Fernando Rosas - A que é que tu atribuis esse gesto do Governo na falta genuína vontade de negociar? Contradições internas...
Medeiros Ferreira - Contradições internas. Eu acho que na altura a maioria queria negociar com os estudantes [Fernando Rosas - Novamente neutralizada pelo chefe do Governo.] Exactamente. Eu penso que o próprio chefe do Governo é capaz de ter querido negociar, depois deve ter havido qualquer movimentação ou ele próprio fazer então a tal viragem para a radicalização estudantil com o objectivo de fechar a Universidade, pode ter sido nessa altura. O certo é que a negociação, não houve nem se ensaia, nem é ensaiada porque quando ele nos leu o papel nós não podemos sequer pôr as nossas reivindicações duma forma articulada porque se percebe que o Ministro está supernervoso e não tem mandato para discutir seja o que for. Houve uma viragem de facto, possivelmente também é preciso ver que o Costa Leite Lumbrales também já estava um bocadinho fora, vamos lá.
Fernando Rosas - Ele vai convosco a essa reunião?
Medeiros Ferreira - Vai connosco a essa reunião, mas de certa maneira ele também não faz parte do núcleo duro do Regime, é alguém que embora com alguma influência junto do Salazar para consultas governamentais e outras como sabes, tens escrito sobre isso, já não tem muita força. É importante, nós saímos de lá...
Fernando Rosas – Isso é o ponto de viragem?
Medeiros Ferreira - Isso é o ponto de viragem. Quer do lado do Governo, quer do lado dos estudantes.
Fernando Rosas – Quer dizer que a greve até aí tinha decorrido, greve, mas sem grandes confrontos com a polícia até essa altura.
Medeiros Ferreira - Não, já tinha havido alguns confrontos com a polícia. Por várias vezes. Portanto, há [Fernando Rosas - Uma manifestação no Campo de Santana] uma manifestação no Campo de Santana, exactamente, e depois há um ataque da polícia de choque na Faculdade de Medicina que é aliás atingido o professor Lindley Cintra [Fernando Rosas - Julgava que tinha sido depois disso] Talvez o ataque à Faculdade de Medicina já seja depois, em Maio, porque o que vai acontecer é o seguinte. Nós vamos mudar os métodos de luta aquilo que se chamava na altura, vamos para formas superiores de luta [Fernando Rosas - E quais é que eram as inferiores?] As formas inferiores era apenas o luto académico com a falta às aulas [Fernando Rosas - Os plenários, também] Os plenários, exactamente. [Fernando Rosas - Mantinham essa forma regular de informação e de mobilização dos estudantes] Aliás, eram os plenários e os comunicados. Os plenários tanto eram a nível universitário geral como a nível de faculdades. Nós tínhamos isso bem oleado e sempre com grande sucesso. Depois nós, por sugestão de alguns estudantes, entre os quais o falecido Abílio Mendes, o Eurico de Figueiredo, eles vão propor uma greve da fome. Portanto ainda era um método pacifista, digamos assim, mas que mudou qualitativamente o tipo de afrontamento com o Regime. [Fernando Rosas – Princípios idos de Maio, portanto] Isto é 9 de Maio se a memória não me falha. Vão os estudantes para, vão fazer a greve da fome para a cantina da cidade universitária e o senado universitário fica em pânico com essa forma de luta e pede aos dirigentes associativos para convencer os grevistas da fome a sair da cantina e nós vamos ter aliás uma das decisões mais difíceis nessa altura. Eu vou ser nomeado delegado dos estudantes a essas conversações com o senado. Já não era o professor Marcelo Caetano o reitor porque ele se tinha demitido em Abril, era o professor Gonçalves Rodrigues, o vice-reitor, os do senado que até aí nos tinham acompanhado...
Fernando Rosas - Havia professores no senado que vos estavam a acomnpanhar?
Medeiros Ferreira - Bem, com alguma simpatia poderia o nome [Fernando Rosas - Além obviamente do professor Lindley Cintra que enfim foi a imagem que ficou para a História dessa solidariedade tão singular e tão pontual dos professores] Sim, mas havia alguns que até ali, estava-me a lembrar agora da professora Maria de Lourdes Belchior que tinha mantido uma posição de diálogo connosco e de compreensão, falo agora dos professores que faziam parte do senado universitário. Ao nível de assistentes havia outros assistentes que nos acompanhavam, embora enfim dentro do que era permitido [Fernando Rosas - Dentro do risco] Dentro do risco da época, exactamente. Mas com a greve da fome os professores, os próprios membros do senado universitário também se vão enervar muito connosco e portanto vão entregar as instalações académicas ao Governo, não é assim, [Fernando Rosas - À polícia] ou seja, na prática, à polícia e a polícia, de facto, a célebre prisão dos mil e tal estudantes que estavam na cantina em apoio aos trinta, pouco mais do que isso, que estavam a fazer a greve da fome e que vão todos parar [Fernando Rosas - a Caxias] não, por acaso, a Caxias depois vão alguns, mas primeiro vão ali para um quartel que havia da Polícia de Segurança Pública, na Parede, e o que se dá então aí nesse dia em que estão mil estudantes presos na Parede é que vão aparecer nas imediações do quartel da PSP altos dignatários do Regime que têm lá os filhos, lá dentro, não é, e portanto começa a haver a percepção de que há uma rotura entre a elite estudantil e o Regime. Quer dizer, melhor dizendo, entre a Universidade e o Regime. Não havia partidos políticos no Regime, o Regime recrutava muito, como sabes, entre os professores universitários como forma de poupar algumas escolas políticas e a partir daí há, de facto, e é claro que qualquer colaboração com o Regime, com a Ditadura será mal vista pelos estudantes. Isso é claríssimo. Há uma rotura nítida desse ponto de vista e a greve e a crise de 62 [Fernando Rosas - Há portanto uma politização] Há uma grande politização. Quando em Maio os estudantes, os milhares de estudantes que estão na cidade universitária nesse plenário da decisão de continuar a greve às aulas e que apoiam a greve da fome, estou convencido, se eles estiverem aqui a ouvir sentem, como se fosse hoje, que a partir daí a sua dissidência com a Ditadura era irreversível e portanto é uma geração que nunca se irá comprometer com qualquer forma autoritária de governo. São pessoas que foram tocadas por essa luta.
Fernando Rosas - O meio universitário, entretanto, também tinha registado algumas clivagens políticas em relação à greve, ou seja surge uma direita universitária contra a greve.
Medeiros Ferreira - Sim, surgiu, mas muito fraca, muito fraca. Só vão ressurgir em 62-63 que é o ano de refluxo, porque entretanto, vai haver muitas expulsões, quer de Lisboa, quer de Coimbra. Isto vai acabar com cerca de 50 estudantes expulsos e [Fernando Rosas - Há greve aos exames? É convocada a greve aos exames?] Há greve aos exames, mas depois a greve aos exames é, nas vésperas, é levantada com uma condição das faltas serem [Fernando Rosas - É uma solução de recurso] É uma solução de recurso Sentimos que a greve aos exames não ia ter o sucesso que a greve às aulas tinha tido e portanto com o compromisso de que as faltas, naquele tempo realmente havia faltas, de que as faltas não seriam relevantes para o acesso ao exame, há um compromisso nesse sentido, foi uma das decisões mais difíceis de tomar e foi tomado por Eurico de Figueiredo na cadeia, foi por isso que eu referi o papel que ele poderia ter. Nem sei, se nesse caso concreto, iria tentar convencer os outro estudantes, mas portanto há essas expulsões, essas expulsões radicalizam ainda mais o movimento e só em 62-63 é que aparece a tal extrema-direita, Frente dos Estudantes Nacionalistas, se não estou em erro, aquilo foi tomando vários nomes, depois há uma versão um bocadinho mais civilizada, mas também de direita que é a Acção Académica [Fernando Rosas - Mais tarde] Mais tarde, mas quer dizer, naquele período, pronto, havia uns folhetos clandestinos, mas eles não apareciam propriamente a dar o peito, não é.
Fernando Rosas - Portanto, 50 estudantes expulsos.
Medeiros Ferreira - Em 62, 50 estudantes expulsos.
Fernando Rosas - Entre os quais, um deles foste tu.
Medeiros Ferreira - Não, eu só sou expulso em 65 porque a fase 61-62, que é um ano de mobilização de massas, não é assim, a que nos estamos aqui a referir, mas depois de 62 há um grande refluxo.
Fernando Rosas - Exactamente. Há o um recuo.
Medeiros Ferreira - E há um grande recuo e verificar entre 63 e 65, 300 estudantes que vão fazer toda [Fernando Rosas - 300 activistas] 300 activistas e em Janeiro [Fernando Rosas - Nada mau] 300 activistas que vão-se manter ali firmes nesses anos. Portanto, depois em 65, em Janeiro de 65, há uma vaga de prisões, penso que aí já de uma forma [Fernando Rosas - Há um novo ensaio de greve na Universidade contra essas prisões] Sim, sim. Embora já não fosse dirigente estudantil no sentido formal da pró-Associação de Letras, sinto-me impelido de novo a intervir por causa da contestação a essas prisões e vamos fazer um movimento, aliás, também muito bonito num comunicado com um título que ainda hoje recordo, porque as prisões foram feitas no dia 20 de Janeiro, se a memória me não falha, [Fernando Rosas - 21] mas tu talvez possas corrigir, 21 de Janeiro e o comunicado que eu próprio redigi chamava-se ´O Dia da Universidade cativa´ que também era o dia da Universidade [Fernando Rosas - Da abertura da Universidade, exactamente] e portanto vamos encetar uma luta, digamos mais radical [Fernando Rosas - Tudo está mais politizado] Tudo está mais politizado, já é uma luta de vanguarda, digamos assim.
Locutora - Há algum partido político no movimento estudantil?
Medeiros Ferreira - Há vários, mas o partido político que mais aproveitou da crise, em termos de organização, mas a partir de 62, quer dizer não é durante a greve de 62, é depois a partir de 62-63 o Partido Comunista vai, de facto, tomar um papel hegemónico na Universidade. Eu diria que até lá estava presente, mas não tinha o papel hegemónico. A partir de 62-63 vai fazer um grande recrutamento nas universidades e até na pró-associação dos liceus e penso que agarra parte desse recrutamento que depois vai ser preso em 65.
Fernando Rosas - 65 é uma crise desencadeada pela repressão contra a organização do Partido Comunista.
Medeiros Ferreira – Exactamente. Mas nós, para nós os estudantes eram todos iguais e ainda me lembro da Diana Andringa, para dar agora um nome, que aliás fez um excelente programa sobre a geração de 60 para a televisão. A Diana Andringa quando, nós não queríamos oficializar que os estudantes que tinham sido presos por pertencerem a um partido político porque eles eram todos proibidos, mas especialmente o Partido Comunista e ela achava que não, que nós devíamos aceitar, por natural, que esses estudantes podiam pertencer a partidos políticos e tinham todo o direito de o serem [Fernando Rosas – De fazerem as suas escolhas políticas] De fazerem as suas escolhas políticas e portanto há um dado que os tácticos das associações de estudantes não estavam à espera que surgisse e que surge nessa altura [Fernando Rosas - Ou seja o direito das pessoas terem, não serem presas, nem perseguidas por causa disso] Toma-se consciência perfeita [Fernando Rosas - Também a violência policial está muito mais presente em 65. Sevícias contra os estudantes] Certo até porque, enfim, são cerca de 30 estudantes, se não estou em erro. [Fernando Rosas - São quarenta e tal presos e depois vão a julgamento 33] Exacto, e portanto tudo isto é conhecido cá fora, não é. Os métodos policiais que aliás também já eram conhecidos [Fernando Rosas - Já agora gostava de dizer. Os estudantes tinham aquele estatuto de imunidade, privilegiado] Aliás era uma das ameaças que eles nos faziam. Se tropeçam connosco, tinham que começar a ser tratados como os trabalhadores do Alentejo, era uma das ameaças que começaram a fazer nessa altura. Mas eu gostava de dizer que a crise estudantil de 62 teve um efeito muito importante na PIDE. É que o director geral, Homero de Matos, é demitido em plena crise académica em 62. Exactamente por ineficiência, por ineficiência e portanto tem a crise estudantil, tem esse papel, tem o papel de levar a crise para dentro da Ditadura, nomeadamente, nesse corpo até ali tido como mais próximo dos desejos do Dr. Salazar e portanto o Homero de Matos é substituído nessa altura por Silva Pais e é a partir daí [Fernando Rosas - O que corresponde a um endurecimento] Corresponde a um endurecimento e uma das prioridades é exactamente tentar desmantelar o movimento estudantil e os partidos políticos para responder à pergunta. Mas havia o Partido Comunista como havia outros, já agora, embora não tão bem organizados. Havia a Frente Patriótica de libertação Nacional que era um movimento de unidade, havia a constituição do Movimento de Acção Revolucionária, o MAR, depois quando há a cisão Sino-Soviética acaba por aparecer a FAP e os partidos marxistas-leninistas de tipo maoista. Estou a falar nos meados dos anos 60, não é assim, e depois havia muitos estudantes que não eram alinhados em partidos, não é, mas que eram associativos no sentido quase orgânico, mais orgânico da palavra, os associativos, como eram conhecidos. E portanto nós vamos acabar 300, como disse, e vamos sobretudo expulsos dos expulsos. Eu por acaso trouxe aqui a lista dos expulsos de 65. Vamos ser todos expulsos de todas as universidades do país. Há de novo uma rotura no movimento estudantil que depois só irá ressurgir em 67-68. Em 67 com um Seminário de Estudos Associativos em que eu já não participei, mas que sei que teve alguma importância [Fernando Rosas – São as lutas académicas de 68-69] Já com o marcelismo, exactamente. Isso já numa fase muito posterior.
Fernando Rosas - Eu gostaria de perguntar o seguinte. Hoje o secretário geral da RIA é Presidente da República.
Medeiros Ferreira - Nessa altura já se podia perceber que poderia ser.
Fernando Rosas - O secretário geral da RIA de 61 é Presidente da República. Tu és deputado, já foste ministro. Vários homens dessa geração ou são deputados ou estão hoje na vida política. A democracia fez justiça em relação a essa geração de estudantes?
Medeiros Ferreira - Bem, eu não queria pôr o problema assim, mas numa questão formal todos os estudantes que foram presos ou expulsos nunca tiveram nem uma reparação moral ou seja já passaram não quantos reitores e não sei quantos senados pela Universidade Clássica, pela Universidade Técnica e pela Universidade Nova que não existia na altura e nunca houve uma frase, não é verdade, desses reitores e desses professores universitários, alguns deles, aliás, quando estudantes activistas associativos de homenagem, vá lá, homenagem política, homenagem académica.
Fernando Rosas - Foram jovens, jovens e mulheres que foram expulsos, exilados. Que perderam vários anos da vida deles [Fernando Rosas - Absolutamente] no combate político, no fundo pelo combate pela democracia.
Medeiros Ferreira - Eu fui dos que recorri da minha expulsão sem qualquer sucesso. De vez em quando sou um formalista e, aliás, deu origem a um livro que foi o Salgado Zenha, o Jorge Sampaio, mais uma vez o Jorge Santos que o fizeram sobre o meu recurso judicial contra a minha expulsão da Universidade. Não teve qualquer seguimento. Mas nessa altura nós não tínhamos o culto dessas formas. Para nós era evidente que a Ditadura era um Regime ilegítimo, que era prepotente e que não se estava num estado de direito, não é assim. Portanto, ninguém recorria, mas eu por acaso recorri e outros, mas poucos dada a mentalidade que era a nossa na altura. Mas eu creio que o principal talvez a dizer é que eu acho que a partir daí foi evidente que as elites portuguesas já não, as elites que se estavam a formar já não acreditavam na Ditadura, ou por outra, mesmo que ela se perpetuasse estariam contra ela. Isso eu creio que houve um pacto a partir dos anos 60 para não haver colaboração.
“A crise académica de 1962” teve a presença de Fernando Rosas e Medeiros Ferreira. No próximo programa continuamos na década de 60 para falarmos da crise académica de 1969 com a presença habitual de Fernando Rosas e o convidado Dr. Ferro Rodrigues, Ministro do Emprego e Solidariedade Social.
Fizeram este programa Henrique Soares, Maria dos Anjos Pinheiro e Esmeralda Serrano.

(Programa gravado da Antena 2 no dia 26 de Dezembro de 1997)

Transcrição: Ireneu Batista