ERA UMA VEZ UM MILÉNIO

Entrevista com Hugo dos Santos e Fernando Rosas
“Em tempo de mudança, a História do Século XX”

Por Paula Guimarães, João Monteverde, Maria dos Anjos Pinheiro e Esmeralda Serrano.

 

 

Continuamos com as memórias de alguns dos militares responsáveis pelo golpe militar do 25 de Abril de 1974. Quase 25 anos depois, vamos ouvir as recordações do general Hugo dos Santos. Como sempre a acompanhar-nos está Fernando Rosas.
Fernando Rosas - Muito boa tarde. Muito obrigado senhor general por estar connosco hoje. Senhor general, um beirão, Beira Alta, uma família de comerciantes, ao que julgo saber. Porquê a tropa? Porquê? Porquê a vida militar?
Hugo dos Santos - Duas rectificações. Sou da Beira Litoral porque nasci em Oliveira do Hospital. Era para ter nascido em Coimbra, mas…
Fernando Rosas – Mas Oliveira do Hospital é mais para dentro do que para fora.
Hugo dos Santos - É mesmo no limite com a Beira Alta é por isso que eu costumo dizer que sou beirão dos sete costados porque estou encostado à Beira Alta e perto da Beira Baixa. Por isso tenho só ali a Serra da Estrela, digamos, como contraforte. Não sou filho de comerciantes. O meu pai, na altura, era viajante, empregado, portanto, e viajante de um armazém, como se chamava na altura.
Fernando Rosas – Empregado comercial, de alguma maneira.
Hugo dos Santos - Pois, empregado comercial, mas não era ele o proprietário. Portanto, uma família modesta. Na altura vivendo sem dificuldades, sem dúvida, pelo trabalho do meu pai dado que na altura também as senhoras não trabalhavam. Tratavam dos filhos. Em relação à minha terra de naturalidade, gosto imenso dela, tinha lá tios. Em miúdo passei lá sempre as minhas férias.
Fernando Rosas – Era a terra do César de Oliveira!
Hugo dos Santos - Era a terra do César de Oliveira. Exacto. Que conheci bem. E que gosto imenso e que continuo, sempre que posso, a dar uma volta por lá. Por isso mantenho, embora nas minhas colocações militares nunca me tivessem colocado nos sítios onde pedi que foi Coimbra, Viseu e Tomar, dado que a minha mulher é natural de Tomar, colocaram-me sempre em Mafra e Lisboa. Por isso restava-me a hipótese de, em passeio ou em visita a familiares, ir até às santas terras da Beira Litoral.
Fernando Rosas – Mas a opção militar foi sua, foi dos seus pais?
Hugo dos Santos - Não, a opção militar é minha e é relativamente cedo, talvez influenciado por ter um primo que, mais velho, e que foi para a vida militar e como ia também passar férias a Tomar, dado que a família da minha mãe era toda de Tomar, talvez um bocado influenciado por ele, eu, com os meus catorze/quinze anos, eu disse em casa que quero seguir a carreira militar.
Fernando Rosas – E portanto, entra para a Escola do Exército?
Hugo dos Santos - Portanto, entrei para a Escola do Exército. Foi fácil, mas tive uma passagem difícil, não em termos de entrada, mas porque o meu pai adoeceu quando eu estava no sétimo ano e eu estive quase a interromper os estudos, com um certo sacrifício acabei os estudos e depois tive para ir para o Congo Belga e estava a aguardar uma carta de chamada, porque nessa altura era necessária uma carta de chamada para ir para o Congo Belga, quando uns familiares meus de Tomar, pessoas com posses, não eram pessoas abastadas da altura, mas suficientemente fortes, em termos comerciais, esses sim, em Tomar e que, ao saberem do meu gosto, disseram que avançasse que me comparticipariam os estudos.
Fernando Rosas – Era caro frequentar a Escola do Exército?
Hugo dos Santos - Era caro, comparado com hoje, era caro. Até porque naquela altura o enxoval era todo pago e para além do enxoval, aquilo que hoje é oferecido aos alunos, tudo aquilo que utilizávamos era pago, desde a cama ao colchão, aos pratos, aos talheres. Eu ainda hoje tenho o meu talher de aluno. [Fernando Rosas – Podia-o trazer?] No fim, podíamos trazer tudo. Tenho o meu talher, lá com o meu número, o chamado número de corpo e que guardo com satisfação, digo, com satisfação.
Fernando Rosas – E arma? Que arma é que escolheu?
Hugo dos Santos - Escolhi a arma de infantaria. Gostei sempre da infantaria, gostei sempre de andar, gostei sempre de calcorrear o terreno e talvez isso…
Fernando Rosas – Dizem os teóricos que é a infantaria que decide as guerras.
Hugo dos Santos - É, decidia as guerras, decidia as guerras. Hoje poderemos entrar noutros conceitos de análise e, efectivamente, se não fosse a infantaria, a engenharia, até porque sempre gostei da matemática.
Fernando Rosas – Acha que na sua vida foi marcante para si esse percurso na Escola do Exército?
Hugo dos Santos - Foi, foi porque, eu direi que há duas fases marcantes no meu percurso de cadete. O primeiro é o beirão que vem para Lisboa, que não conhece Lisboa e que estranha a forma, já naquela altura, da vida em Lisboa.
Fernando Rosas – Conheceu Lisboa quando veio para a Escola?
Hugo dos Santos - Conheci Lisboa quando vim para a Escola. Já tinha vindo uma vez a Lisboa.
Fernando Rosas – Em que ano é que estamos, mais ou menos?
Hugo dos Santos - Portanto, 52/53. 52/53 correcto. E encontro-me em Lisboa, pronto, uma cidade maior que Coimbra e Viseu, mas com uma vida aproximada às nossas limitações que tínhamos nessa altura. Coimbra bastante diferente de Viseu, mas de qualquer forma os meus últimos anos a partir do meu segundo ano de liceu, eu fui, os meus pais foram para Viseu e eu portanto tive que acompanhar os meus pais. É evidente que naquela fase de juventude em que uma pessoa começa a aperceber-se mais das coisas, começa o seu espírito a abrir, a ter mais convivência, mais amigos, etc. É evidente que quando chego a Lisboa, para mim é um choque, é um choque. Só que o ambiente na escola é efectivamente, cultivava-se a camaradagem e às vezes as pessoas não percebem bem a extensão do termo camaradagem, mas eu continuo ainda hoje a dizer que aquilo que considero mais importante na vida é efectivamente a amizade e a camaradagem.
Fernando Rosas – Ficou com amigos para a vida?
Hugo dos Santos - Fiquei com amigos para a vida, amigos que só conheci nessa altura. Embora também tenha tido, com o 25 de Abril, algumas desilusões com alguns desses amigos, mas julgo que sucede em qualquer…
Fernando Rosas – Eram cinco anos a escola.
Hugo dos Santos - Não, na altura três anos.
Fernando Rosas – Três anos. Portanto, o senhor general sai em 55.
Hugo dos Santos – Os primeiros anos eram os preparatórios da Faculdade. Podiam ser feitos na escola ou na Universidade e depois havia os dois anos da arma e depois havia o último ano que era o quarto ano, mas que eram o que consideravam um estágio complementar daquilo que tinha sido a formação militar.
Fernando Rosas – Portanto, digamos, o senhor general está aspirante em 1956, se eu fiz bem as contas.
Hugo dos Santos – 55/56.
Fernando Rosas – Vésperas das eleições, célebres eleições do general Delgado. Isso mexeu consigo, as eleições do general Delgado?
Hugo dos Santos – Mexeu por um facto curioso é que, por uma questão desportiva, eu fui parar a Coimbra a um curso de treinadores de basquetebol militar. E o caso curioso é que, na altura era o Santos Costa que era o Ministro da Defesa e que tinha uma paixão pela Académica e a Académica apoiava-se muito em facilidades através do general Santos Costa e havia necessidade de um treinador de basquete evoluído para a Académica e o Santos Costa não esteve com meias medidas, arranjou um capitão do exército americano na Alemanha para vir para Coimbra e qual foi para, talvez tapar o aspecto de… Como é que eu ponho ali um homem, tenho que lhe pagar e não sei quantos, etc., embora também venha estado português, o que é que eu faço? Então pensou num curso de treinadores de basquete para militares. Portanto, fui parar ao Regimento de Infantaria de Coimbra, eu e outros, para fazer um curso de treinadores de basquete dado que sempre tive um certo gosto pelo desporto. [Fernando Rosas – E pelo basquete, em particular.] Não, até comecei mais pelo volei, embora tenha feito basquete, volei, andebol, eu fiz n modalidades e sempre ligado a clubes aqui em Lisboa que fui um dos fundadores também do CDUL e que representei o CDUL em n modalidades.
Fernando Rosas – Mas como é que o general Delgado vai…
Hugo dos Santos – Portanto, estava em Coimbra quando foi precisamente a questão das eleições do general Delgado e até se deu um caso curioso porque o comandante, a certa altura, chamou-nos e vocês têm que ir votar e queria que nós fossemos votar com votos que não correspondiam ao nosso nome e nós marcámos uma posição, por acaso os que estávamos lá no curso e dissemos nem pensar e não fomos, marcámos essa posição. Nessas eleições esteve envolvido foi o meu pai, fortemente na…
Fernando Rosas – O seu pai era um homem de tradição republicana.
Hugo dos Santos – De tradição republicana que já vinha do meu avô. O meu avô portanto foi um dos homens que lutou contra a monarquia e que marcou, certamente, o meu pai e os meus tios, e efectivamente a sua costela republicana saltava sempre quando…
Fernando Rosas – Portanto, o jovem aspirante que sai da Escola do Exército é um homem influenciado pelas ideias do pai, de alguma maneira, ou não?
Hugo dos Santos – Eu não posso dizer que tenha sido porque o meu pai evitou sempre e como sabia que eu queria vir para a Escola do Exército teve medo de me prejudicar. [Fernando Rosas – Exacto.] E evitou e eu sabia que ele ia para determinadas reuniões, mas nunca, escondeu-me sempre, embora eu sempre soubesse que ia para reuniões. Pronto, mas admiti que também naquela altura, admiti, só mais tarde é que conversámos sobre o assunto, admitia que fosse daquelas reuniões clubísticas porque ele gostava de organizar bailes, aquelas coisas que na altura eram o lazer das pessoas de meia idade e esteve sempre ligado aos chamados Montepios, na altura havia Montepio aqui, Montepio acolá, etc. Teve sempre ligado a essas organizações e eu convenci-me que era essencialmente só isso porque efectivamente em casa, ele nunca falou. Refilava, aquelas coisas, não sei quê…
Fernando Rosas – De qualquer maneira, a sua atitude é uma atitude singular, nessa altura. Quer dizer, deixem-me votar em quem eu quero.
Hugo dos Santos – Sim, sim. O meu pai habituou-me a ser muito independente e até aqui relacionando uma coisa com o pós-25 de Abril, sempre fui muito frontal. O meu pai sempre me marcou essa posição, quando tiveres que dizer falas sempre, de olhos nos olhos, com as pessoas. Também é um costume beirão. Uma coisa que eu verifiquei nas gentes beirãs serranas. E efectivamente eu nunca me coibi de dizer aquilo que pensava e sempre disse com o máximo respeito. Pronto, com a frontalidade que sei. Nunca, julgo eu, sem nunca ter pisado o risco da má criação. Só após o 25 de Abril é que tive um Chefe do Estado Maior que me chamou agressivo, em vez de me chamar frontal, chamou-me agressivo e eu tive que lhe dizer efectivamente que: Olhe, se o senhor ler a minha folha de serviço, falam lá várias vezes na minha frontalidade. Agora se o meu general diz que eu sou agressivo só tem uma solução, é punir-me. Só que se não me punir com termos correctos, não tenha dúvidas que eu reclamo.
Fernando Rosas – Eleições do general Delgado, a seguir pouco depois há a célebre tentativa de pronunciamento do general Botelho Moniz. Chegou-lhe aos ouvidos isso? Um jovem militar, naquela altura…
Hugo dos Santos – Estava na altura na Escola do Exército, Academia Militar. Foi na altura da transição da Escola para a Academia e fui pela primeira vez a uma reunião política pelas mãos do falecido general Firmino Miguel. O general Firmino Miguel é que estava, sempre foi um homem…
Fernando Rosas – Era mais velho do que o senhor general?
Hugo dos Santos – Dois anos mais velho do que eu, quer na escola quer em idade, e efectivamente era um homem que… muito recto, muito justo. Já desde os tempos de cadete, segundo dizem. Isso não tive oportunidade de verificar, mas foi efectivamente logo no começo da sua carreira militar, era um homem que começou a marcar as gerações que lhe começaram a passar pelas mãos e altamente considerado pelas gerações mais antigas e nessa altura a Escola do Exército/Academia Militar, eu direi que ele conseguiu convencer mais de 80 % da necessidade de que… [Fernando Rosas – Da mudança.] Da mudança e as coisas tiveram… depois ele é que era o elo de ligação e estiveram efectivamente bem encaminhadas, só que à última da hora…
Fernando Rosas – E como é que ele vos apresentou a questão quando reuniu convosco?
Hugo dos Santos – A questão em relação às necessidades de evolução do país porque nessa altura já se notava uma grande diferença em relação aos países europeus e ia-se agravando e a situação estava-se a complicar porque efectivamente a parte da Índia já tinha tido os problemas que teve e estavam, sabia-se que se iam passar, em África se iam passar problemas, havia informações.
Fernando Rosas – Vocês, jovens oficiais, tinham a noção de que eram os generais que estavam a conspirar, de alguma maneira.
Hugo dos Santos – Eu, em relação aonde estive e aquilo que depois foi transmitido pelo Firmino Miguel, era encabeçado por generais.
Fernando Rosas – Por generais, e o comando da Escola tinha alguma…
Hugo dos Santos – O comando da…, não. O general Boceta Martins era um homem especial, era um homem, um cavaleiro com muita força, com muita força e foi importantíssimo naquela mudança e evolução que houve na Academia Militar. Eu direi que se fosse outro general, talvez não tivesse capacidade para fazer aquilo que ele realmente fez e capacidade não é que fosse uma coisa transcendente. Não, ele ia aos locais e dizia: "Quero isto", e não saía sem lhe darem aquilo que era necessário. Efectivamente, foi um grande salto que a Academia Militar deu com o seu comando.
Fernando Rosas – Mas era um comando que, o comando não podia estar…
Hugo dos Santos – Não estava, não, connosco, não. O general nessa altura, o general estava num pedestal de tal ordem [Fernando Rosas – Estava distante.] em que os subalternos, capitães, majores, tenentes-coronéis, não. Só os assessores directos é que tinham acesso ao general. [Fernando Rosas – Claro, claro.] Portanto, eu sou do tempo em que havia uma compartimentação muito grande entre os diversos graus da hierarquia porque, logo em Mafra, um subalterno, um subalterno não tinha acesso ao major, aos capitães solteiros ainda tinha, aos capitães casados já era complicado.
Fernando Rosas – Mas havia uma diferença entre o estatuto matrimonial dos capitães?
Hugo dos Santos – O ser casado já era uma diferença.
Fernando Rosas – Era uma espécie de promoção.
Hugo dos Santos – Era uma espécie de promoção. Isto aqui, talvez uma pessoa que tem um outro espírito de convivência entende-se porque o casado ia… A mulher também tinha necessidade de conviver com outras pessoas. Era recebida no seio das senhoras que estavam casadas com os outros oficiais.
Fernando Rosas – Já era casado nessa altura?
Hugo dos Santos – Não, não. Eu sou casei em tenente, já… Porque na minha altura só se podia casar, mínimo 25 anos e ser tenente.
Fernando Rosas – Há sim? Havia essa limitação?
Hugo dos Santos – Havia, havia e houve alguns que casaram em alferes e tiveram seis meses fora do serviço.
Fernando Rosas – De punição? De punição?
Hugo dos Santos – Não, de punição mesmo.
Fernando Rosas – Quer dizer. Havia uma idade mínima. Havia necessidade de autorização, segundo creio saber.
Hugo dos Santos – Pois. Havia necessidade de autorização, o pai da futura mulher tinha que dizer que se comprometia… Havia a chamada declaração de dote, não é.
Fernando Rosas – Que era apresentada às autoridades militares.
Hugo dos Santos – Que era apresentada às autoridades, é evidente.
Fernando Rosas – Olhe, uma coisa que não sabia. Fiquei a saber isso.
Hugo dos Santos – Não, nessa altura era tudo devidamente controlado.
Fernando Rosas – Exactamente. E com uma idade mínima de posto?
Hugo dos Santos – 25 anos mínimo e tenente e ser tenente. Portanto, um oficial do Quadro Permanente, como é evidente.
Fernando Rosas – De qualquer maneira, em 61, o senhor general é alferes.
Hugo dos Santos – Não, 61 não. 61 sou tenente-capitão. Sou promovido em meados de 61.
Fernando Rosas – Mas é uma promoção rápida para os padrões da época.
Hugo dos Santos – Bem, eu fui promovido mais cedo a capitão seis meses antes do que estava previsto.
Fernando Rosas – Por causa da guerra?
Hugo dos Santos – O problema da guerra obrigou a acelerar promoções.
Fernando Rosas – O senhor general vai fazer comissões em África?
Hugo dos Santos – Vou. Fiz três comissões em…
Fernando Rosas – Qual foi a primeira? Quando é que partiu?
Hugo dos Santos – Foi em Cabo Verde. Estávamos para ir para Moçambique e dois dias antes do embarque, sustêm o embarque porque a ilha do Sal estava ameaçada dum desembarque de tropas pára-quedistas e um bombardeamento naval e então como era uma companhia de caçadores especiais, as companhias que antecederam as companhias… As companhias chamar-se-iam uma companhia de comandos.
Fernando Rosas – Os de Lamego, não era?
Hugo dos Santos – De Lamego, exacto. Fomos, a minha companhia foi rapidamente para a ilha do Sal [Fernando Rosas – Fazer a defesa.] com uma missão que me foi definida aqui em Lisboa para cumprir em termos da ilha do Sal. Portanto, era uma companhia, aquilo que hoje também se chama uma companhia de intervenção e portanto, não podia ter pelotões destacados, nem nada.
Fernando Rosas – Mas foi uma comissão pacífica?
Hugo dos Santos – Foi uma comissão pacífica, foi uma comissão em Cabo Verde. Portanto, que eu relembro porque fiquei a conhecer bem o povo cabo-verdiano. Passei as minhas férias em Cabo Verde para conhecer e costumo dizer aos cabo-verdianos que sou mais cabo-verdiano que eles porque conheço todas as ilhas, inclusive Santa Luzia, aquilo que a grande maioria [Fernando Rosas – Não conhece.] conhece três, quatro ilhas e às vezes pouco mais.
Fernando Rosas – Nessa altura, enfim, na sua primeira comissão, irá uma segunda, suponho eu, já para teatros operacionais, provavelmente. [Hugo dos Santos – Angola.] Angola. Reflectia sobre a problemática da guerra?
Hugo dos Santos – Não. Eu Cabo Verde, precisamente, eu direi que a parte de guerra ainda me marcou pouco e marcou pouco porque só na parte final e até porque chegou uma hipótese de ter que ir…
Fernando Rosas – Não foram para a Guiné?
Hugo dos Santos – Quer dizer, fazer o resto da comissão na Guiné e que comecei a inteirar-me e fui à Guiné nessa altura. Comecei a inteirar-me do que era o teatro de operações da Guiné e portanto apercebi-me logo ali. Foi exactamente o tal choque entre a paz, a calma, a grande convivência com os cabo-verdianos e o ambiente fechado já que fui encontrar na Guiné. Mas é em Angola que eu efectivamente me percebo de que…
Fernando Rosas – É o seu baptismo de fogo, Angola?
Hugo dos Santos – Eu tive pouco baptismo de fogo, felizmente, como costume dizer, até porque a minha comissão em Angola. Eu fui obrigado a tirar um curso de descriptamento. Fui obrigado porque não queria tirar e obrigaram os sete capitães que estavam cá na altura com o curso de transmissões a ir tirar esse curso e portanto tive mais facilidade de compreender que sem uma solução política não havia…
Fernando Rosas – Pela distância?
Hugo dos Santos – Até porque nessa altura em Angola eu também frequentei a Universidade. Já tinha, já estava a frequentar a Universidade.
Fernando Rosas – Essa sua segunda comissão é mais ou menos quando?
Hugo dos Santos – Portanto, em 69/71, porque só fui mobilizado pelo curso que tirei, com o curso que me obrigaram a tirar e apercebo-me, vivi aqueles problemas da universidade, nessa altura na Faculdade de Ciências e depois matriculei-me lá na Faculdade de Angola.
Fernando Rosas – Curso de Engenharia?
Hugo dos Santos – Curso de Engenharia, portanto lá no quarto ano de Engenharia e verifiquei, efectivamente, que não encontrava solução, a tal ponto que quando vim no primeiro ano de férias, no primeiro ano que tive direito às férias, um ano depois de lá estar, fui a Moçambique, onde tinha familiares e a minha mulher também e aí também comecei a fazer perguntas, foi a fase, eu direi, essa comissão foi uma fase em que eu questionei muito as pessoas. Perguntei, perguntava… Quando ia ao Luso ia sempre perguntando para ver as diferenças porque havia zonas de paz absoluta e havia outras zonas de guerra e de perigo constante. Em Moçambique, portanto, continuei com essas interrogações e quando cheguei, a primeira coisa que fiz quando cheguei a Portugal foi ter uma conversa com o meu sogro porque, a minha mulher não trabalhava, eu não tinha bens de qualquer coisa e como não estava a ver efectivamente uma saída. Naquela altura, como sabe senhor professor, ou se tinha um canudo [Fernando Rosas – Claro.] e se singrava na vida ou não tendo o canudo, podia-se singrar na vida, mas tinha, de certeza, mais dificuldades. Por isso, tive uma conversa com o meu sogro, uma primeira conversa, nessa altura. Passa-se isto assim, assim. Eu estou a frequentar isto ilegalmente, mas pode suceder aquilo que sucedeu aqueles que casaram antes do tempo, é que a certa altura ser apanhado e a certa altura serem expulsos ou coisa no género naquela altura, embora a expulsão não fosse também uma solução muito imediata. Houve alguns oficiais que foram expulsos, como o senhor professor sabe, mas não era também uma medida tomada de ânimo leve e de qualquer forma alertei o meu sogro. Depois com a aproximação dos problemas que se seguiram e é imediatamente a seguir a esta minha vinda de Angola, começa a preparação para o 25 de Abril. 25 de Abril começa, não começa. Começa por uma reacção corporativa.
Fernando Rosas – Mas nessa altura o senhor general está cá, está cá em Lisboa, está em Portugal.
Hugo dos Santos – Eu estou cá em Lisboa na altura em que há essa reacção corporativa, estou no chamado, já era major, [Fernando Rosas – Já era major.] Já era major, já tinha três anos de major.
Fernando Rosas – E a coisa dizia-lhe respeito, o decreto… [Hugo dos Santos – O decreto dizia, dizia.] Afectava-o também a si.
Hugo dos Santos – Dizia, dizia respeito não só ao meu curso, cursos à frente, dois cursos à minha frente, para trás e portanto assim quando sai o decreto eu estou a frequentar o correspondente ao curso para major que já era major, chamava-se Estágio de Aperfeiçoamento, quando sai o decreto.
Fernando Rosas – Como é que é metido nisso?
Hugo dos Santos – Sou metido no dia seguinte à saída do decreto. [Fernando Rosas – Ah, sim!] Eu sou metido porque…
Fernando Rosas – Onde é que estava? Estava em que Unidade?
Hugo dos Santos – Estava em Pedrouços, estava em Pedrouços a frequentar esse Estágio. Estávamos, eu agora não lhe garanto o número, mas quarenta e muitos, cinquenta e poucos oficiais. Eram duas turmas.
Fernando Rosas – É o curso onde o Fabião faz aquele aviso contra o qual…
Hugo dos Santos – Não. É no seguinte.
Fernando Rosas – Sim, sim.
Hugo dos Santos – Estávamos nesse curso quando aparece um dos majores no dia seguinte com o decreto-lei. Eh pá, vocês já leram isto e aquilo e aqueloutro. Bem, nessa altura falámos com o director do curso que era um brigadeiro e fizemos uma reunião e nessa reunião saiu a primeira comissão para ir apresentar… Porque falámos, dissemos quem éramos e o brigadeiro disse, então vejam lá, não sei mais quê e tal, mas tudo o que resolverem vêm-me dizer. Pronto, e nós fizemos a reunião e foi nomeada uma comissão com um oficial de Infantaria, um de Cavalaria e um de Artilharia.
Fernando Rosas – E já não se lembra quem eram?
Hugo dos Santos – Lembro-me perfeitamente. Um já morreu que foi, na altura, major Borrega. Era eu de Infantaria, era o major Borrega de Artilharia e era o major Cidrais de Cavalaria.
Fernando Rosas – Portanto, esse foi o primeiro grupo que pegou no problema.
Hugo dos Santos – Em termos corporativos, foi. Foi e pedimos uma audiência. Aliás, foi o próprio Instituto que pediu uma audiência ao Ministro para sermos recebidos, só que fomos recebidos foi pelo Director de Serviços de Pessoal, por acaso uma pessoa com quem me dava até muitíssimo bem. Tinha sido adjunto dele na Academia Militar quando ele lá esteve como professor e que quando nós lhe contámos, ele ficou admirado porque nós, a primeira reacção foi não contar, foi não dizer nada porque aquilo que estava marcado era uma reunião com o general Alberti Correia, mas depois, dado que havia um conhecimento da pessoa que era efectivamente um ‘gentleman’, apresentámos-lhe o assunto e ele, de imediato, disse isso não há dúvida que isso tem que ser do conhecimento do Ministro.
Fernando Rosas – O que é que acha que houve na elaboração desse Decreto? Imprevidência? Ignorância? Tentar resolver um problema de qualquer maneira? Era previsível que aquilo ia…
Fernando Rosas – Havia necessidade de resolver um problema. Agora, não foram feitos estudos adequados ou não foram… Não sei, não sei se pediram, não pediram pareceres em relação ao Estado Maior, nunca soubemos os antecedentes, mas admito que sim e apresentaram, fizeram uma coisa sobre o joelho e não viram as implicações do que puseram cá fora em legislação porque as pessoas não se podiam calar.
Locutora - Na próxima semana continuamos com as memórias do general Hugo dos Santos, em conversa com Fernando Rosas.
Fizeram este programa Paula Guimarães, Maria dos Anjos Pinheiro e Esmeralda Serrano.
“ERA UMA VEZ UM MILENIO”. Em tempo de mudança, a história do século XX. Ciência, literatura, arte, filosofia, política.

(Programa transmitido na Antena 2 no dia 4 de Dezembro de 1998)

2ª Parte


13 de Julho de 1973, procurando atenuar as carências em termos de quadros militares intermédios, fundamentais para a continuação da guerra colonial, o Governo de Marcelo Caetano permite, através do Decreto nº 353, a passagem dos oficiais milicianos aos Quadros Permanentes das armas de Infantaria, Artilharia e Cavalaria mediante a frequência de um curso intensivo de dois semestres na Academia Militar. A 30 de Julho surgem, em diversos quartéis, as primeiras reacções públicas de descontentamento nos oficiais do Quadro Permanente provenientes da Academia Militar face às disposições descritas pelo Decreto. É com a explicação do porquê desse descontentamento que continuamos a conversa iniciada a semana passada com o general Hugo dos Santos. Como sempre a acompanhar-nos está Fernando Rosas.
Fernando Rosas - O senhor general, em duas palavras, se calhar, poderia resumir a essência do célebre decreto dos milicianos.
Hugo dos Santos - Bem, o problema do decreto portanto era para cobrir, salvaguardar, digamos, a entrada dos milicianos no Quadro Permanente porque quando eles entravam podiam já ter sete, oito, dez anos de vida militar como oficiais milicianos só que há ainda a Academia Militar eles saíam da Academia Militar com a antiguidade dos cadetes que estavam. Portanto eles consideravam-se lesados e realisticamente nós temos que dizer que efectivamente eram lesados. Agora não podia passar-se aquilo que depois com o decreto se passava. É que no fundo eles iam à Escola do Exército chumbavam e no meu tempo quem chumbasse havia logo uma triagem feita na altura do Carnaval, primeiro semestre. Quem não tivesse médias positivas nessa altura, podia ter era uma negativa, não podia ter nenhuma negativa abaixo de sete, se a memória me não falha, posso já estar a ser atraiçoado um bocadinho pela memória, automaticamente saía e não podia repetir o ano. Havia outros que iam até ao fim, chumbavam no final do ano, havia a hipótese de fazer uma cadeira em Outubro, mas não passavam, também tinham que sair, não podiam continuar, não davam hipótese de repetição na Escola do Exército. Portanto esses oficiais que chumbaram na Escola alguns deles foram imediatamente para fazer o curso de oficiais milicianos, outros só foram fazer um ou dois anos depois. Não interessa para o caso. Portanto, o que interessa é que eles faziam o curso, entravam, saíam aspirantes a oficial milicianos, a certa altura concorriam à Escola, mais tarde porque houve um decreto que permitiu que eles concorressem e fora-lhe atribuída a antiguidade desde o seu começo na vida militar. Portanto, como aspirantes milicianos. Portanto, ora e depois o que é que sucedia. Portanto, eu digo assim, um que entrasse comigo. Para melhor percepção. Entrou comigo hoje, chumbou comigo, mas foi fazer o curso de oficial miliciano no ano seguinte. Portanto no ano seguinte estava a ganhar a sua antiguidade de oficial, dois anos antes de mim que eu estava a acabar o curso da Escola do Exército e eu pergunto: Então o que é que ando a fazer na Escola do Exército. Eu fiz um curso completo e vou ser prejudicado dois anos por um mesmo camarada meu que entrou comigo na Escola, que não teve capacidade para acabar o curso e que se serviu da arma de ir antecipar o seu serviço militar obrigatório para depois, sim senhor, surgiu a guerra teve hipótese de concorrer e ganhar dois anos de antiguidade. É evidente que eu pessoalmente não podia aceitar uma coisas destas, tinha que refilar. Pronto, eu, outros, isto foi a bola de neve.
Fernando Rosas – Foi a bola de neve. A partir de que momento é que o senhor general se apercebe. Há um momento claro em que se apercebe que a coisa deixa de ser corporativa para começar a ser mais política, ou seja, porque os decretos são revogados de qualquer maneira e o movimento continua.
Hugo dos Santos - O movimento continua porque, pronto, depois houve a substituição dos ministros, foi uma coisa considerada importante. Começou a haver um certo diálogo, um certo... mais através do Secretário de Estado. Para tomar um café, trocar impressões, etc. enquanto nós estávamos convencidos que, efectivamente, as coisas iam mudar e iam ser encaradas na sua globalidade, aparece um aumento substancial, o maior aumento que fizeram às forças armadas durante a minha carreira de militar, em Dezembro, e fecharam a porta. Aí deixou de haver o diálogo.
Fernando Rosas - Quer dizer, mas era um diálogo já de carácter político sobre a situação política.
Hugo dos Santos - Eu direi que ainda continuava a ser, até Dezembro foi, essencialmente, corporativo.
Fernando Rosas - Sobre a vossa situação.
Hugo dos Santos - Nós nas nossas reuniões é que já tínhamos ultrapassado a fase corporativa. E tanto assim que na reunião em Óbidos já se fazem perguntas que entra já o aspecto político porque era, é evidente que eram três hipóteses de solução e que também dependia da evolução da...
Fernando Rosas - Pode-nos lembrar os pormenores aos nossos ouvintes, essas três hipóteses que são...
Hugo dos Santos - Eu gostava de as lembrar em termos muito concretos. Uma delas, pronto, era continuar só com a solução corporativa, outra era saber se devíamos evoluir para uma hipótese política e a terceira chegar mesmo à hipótese dum movimento militar. Portanto, e como foi fechada a porta, é evidente que a solução foi a organização de molde a chegarmos a uma resolução militar, mas ainda nessa altura sem sabermos concretamente o que é que se ia dar, se ia resultar ou não resultar, em termos de ter as pessoas com o nosso pensamento.
Fernando Rosas - O senhor general estava a participar regularmente nessas reuniões.
Hugo dos Santos – Eu participei em todas as reuniões, menos duas. Uma delas é a reunião de Évora que depois até, pronto, a partir daí, é que é conhecido por Movimento dos Capitães quando no fundo eram capitães e majores, só que nessa reunião ficou assente que só iam capitães, apesar de haver majores e foi depois na reunião de Cascais porque tive outra reunião que não pude, não pude ir a essa.
Fernando Rosas - E essa reunião de Cascais foi muito importante.
Hugo dos Santos - Foi a definitiva.
Fernando Rosas - Foi a decisiva.
Hugo dos Santos - Foi a definitiva em termos de... é a resposta.
Fernando Rosas - Acha que devia ter participado nessa reunião de Cascais?
Hugo dos Santos - Não, eu se participasse eu também era da mesma opinião. [Fernando Rosas - Estava de acordo? ] Estava de acordo. Só não pude ir a essa... Houve três elementos habituais em todas as reuniões que eu não posso garantir que tenham estado em todas. Um deles não esteve em todas porque não esteve também em Évora. O outro como era capitão era natural que possa ter estado em todas, não tenho, embora haja uma relação do pessoal que esteve em todas as reuniões, não fui consultado, eu nem tinha acesso nesse momento a essa consulta porque os encarregados disso também, se eu dissesse que era por causa disto assim, assim não me facilitavam de certeza a consulta. De qualquer forma esses três eram habituais nas reuniões, não apareceram também na de Cascais porque estavam mobilizados para outra reunião, para outras tarefas.
Fernando Rosas - O senhor general pertencia a alguma dessas comissões que foram entretanto criadas.
Hugo dos Santos – Eu pertenci sempre à Comissão Coordenadora e à Comissão Central, embora essa Comissão Central não fosse, digamos, uma comissão... A Comissão Coordenadora foi eleita pelos camaradas das respectivas armas porque tinha três representantes de cada arma e serviço. A Comissão Central era no fundo a Comissão que estava na direcção de tudo e toda a gente sabia, que toda a gente aceitava, mas não dizia assim: ‘Foram os camaradas que estavam metidos nas reuniões que fizeram uma eleição para...’ Não, não foi feita uma eleição assim como em relação à Comissão Coordenadora foi... Juntávamo-nos, a pessoa indicada é A, B, C, não houve aquela questão de voto secreto, põe no papelinho, os candidatos é o A, o B e o C porque desde o princípio estava nessa reunião, tanto assim que a junção com um grupo de capitães que estava a ser feita, das reuniões que estavam a fazer é feita a posteriori. A certa altura eu e o Vasco nos encontramos porque ele estava já estava no trabalho. Alto, espera aí, vamos repetir as duas coisas... Entretanto, elabora-se, começa-se a elaborar programas políticos. Julgo saber que nessa altura, o capitão ou major Melo Antunes, o coronel Vasco Gonçalves são homens que têm alguma importância na elaboração desses documentos.
Fernando Rosas - O senhor general lembra-se, quer dizer, se o resultado dessa reflexão eram discutidos pelo grupo?
Hugo dos Santos - Eram sempre sim. Eram sempre. O Melo Antunes ainda antes da elaboração do plano político. Eu tinha feito um contacto com ele. Estava ele já no tal curso já major também, mas no curso seguinte, no tal do Fabião e vou falar com ele e contei-lhe. É pá, está-se a passar isto assim, assim. Tu com a tua experiência e tal havia vantagem que tivesses...
Fernando Rosas - Já se conheciam?
Hugo dos Santos - Já. O Melo Antunes era do curso a seguir ao meu, de Artilharia, mas há uma coincidência engraçada é que durante um ano estivemos sempre a comer vis à vis. Portanto, comíamos na mesma mesa.
Fernando Rosas - Tinham lugares fixos?
Hugo dos Santos - Tínhamos lugares fixos. O finalista era considerado o senhor aluno, o do ano seguinte era considerado o candidato. Portanto, o Melo Antunes era candidato na minha mesa, candidato a senhor aluno. Portanto e várias vezes, pronto, ele tocou. Ele é um homem parco de palavras, com uma cabeça sempre muito activa e já envolvido nestas... e com conhecimentos políticos e nós sabíamos bem dos seus conhecimentos políticos, mas nunca fez campanha política na Academia Militar e era um homem que portanto, com calma, sereno, bom camarada, mas às vezes trocavam-se impressões quando haviam as eleições disto, as eleições daquilo, o problema das vidas nas suas regiões, no seu Algarve, na Beira, etc. Portanto, troca de impressões e eu falei com ele para reuniões e ele disse: É pá, nem penses. Olha, numa fase mais avançada contas comigo! E assim foi. Quando chegou a altura da discussão da entrada no programa político, voltei a falar com ele e imediatamente ele alinhou. As reuniões do programa foram efectivamente feitas em minha casa e o Vasco Gonçalves foi um homem que aderiu relativamente cedo porque foi o Pinto Soares, o major Pinto Soares, portanto, na altura capitão Pinto Soares e capitão Macedo [Fernando Rosas -Que vai ser Comandante da Guarda, depois, o Pinto Soares?] Não, não. O pai é que foi comandante de Caçadores 5, na altura, portanto, antes de, foi comandante de Caçadores 5. Quando eu fiz a preparação da minha recruta na Companhia de Caçadores Especiais, quando fiz a recruta de Caçadores Especiais, foi lá precisamente em Caçadores 5 e era o pai do capitão Pinto Soares o comandante e é o Pinto Soares e o Macedo que vêm falar comigo porque o coronel Vasco Gonçalves, na altura, queria saber o que se estava a passar. Sim senhor, eu vou lá à direcção da arma e fui à direcção da arma. Fui à direcção da arma e elucidei a ele e mais uns tantos oficiais e até na altura. Eu não sei se era director de arma, julgo que não. Julgo que na altura que ainda era só brigadeiro ou talvez fosse general, talvez fosse director da arma, que foi meu professor de Física nos preparatórios, qualquer coisa Sousa, que agora não me lembra o outro nome dele e que entrou na sala e... ‘Isto aqui é alguma reunião?’ E o general, na altura coronel Vasco Gonçalves, virou-se para ele e disse: ‘Meu general ou meu brigadeiro, agora não garanto se era general, nós estamos aqui a tratar de coisas sérias, portanto, nada de interromper, se quiser assistir, faz favor’. E ele penso que não quis assistir e foi-se embora. Portanto, o general Vasco Gonçalves ficou documentado nessa altura e quando foi do primeiro documento, automaticamente, digamos...
Fernando Rosas - Estava portanto no centro das coisas, o senhor general... Qual era a relação do general Spínola e do general Costa Gomes com a vossa movimentação? Vocês informavam-nos?
Hugo dos Santos - Informávamos. Quando entrou nesta fase informávamos. Aliás, o programa do Movimento foi pelo menos duas vezes ao general Spínola, o general Spínola quis alterar alguns termos. Depois voltava-se a fazer a reunião. Isto obrigava a dactilografar o programa...
Fernando Rosas - Fizeram cedências já nessa altura ao general Spínola, ou não?
Hugo dos Santos - Houve algumas cedências de termos, houve.
Fernando Rosas - De termos, ou de conteúdo, quer dizer.
Hugo dos Santos - No essencial não, no essencial não. Embora, houvesse um problema ali entre autonomia, entre os termos autonomia e independência, autodeterminação, etc.
Fernando Rosas – A questão dos partidos, também.
Hugo dos Santos - Também, exacto. Portanto houve ali determinadas...
Fernando Rosas – E o general Costa Gomes também opinou sobre o programa, não?
Hugo dos Santos - Que eu saiba. Não era eu que fazia a ligação com... Nessa altura julgo que era o...
Fernando Rosas – Porque, aparentemente, para ao historiador que se aproxima desta questão há uma coisa que é interessante. É que vocês, jovens oficiais, tinham mais simpatia pela liderança, eventual, duma intervenção militar do general Costa Gomes, mas era o general Spínola que estava mais metido na coisa.
Hugo dos Santos - Não, ao contrário. Nós pretendíamos que fosse o general Spínola o comandante militar e o general Costa Gomes o Presidente da República e quando houve a reunião, portanto, logo após o 25 de Abril, e nos juntámos na Pontinha, na reunião saiu assim... Quando eles saíram para a Televisão, o presidente da República chamava-se general Costa Gomes e o comandante em chefe, digamos, o Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas era o general Spínola. Foi ao contrário do que nós pretendíamos e tanto assim que na Pontinha, eu e outros que lá estávamos demos urros quando ouvimos aquilo. O que vem a ser isto? Não foi isto que ficou aqui assente entre nós e houve ali assim uns frissonzinhos por causa...
Fernando Rosas - Já previa que podia haver complicações com o general Spínola?
Hugo dos Santos - Eu sinceramente não sei. Eu nunca tinha trabalhado com o general Spínola. Eu sei que a certa altura fui conotado com o general Spínola. Não, eu tinha muito respeito ao general Spínola, como tinha muito respeito ao general Costa Gomes. Com o general Costa Gomes é que eu já tinha trabalhado, já tinha sido comandante chefe em Angola quando eu lá estive. Portanto, são duas pessoas distintas. Pois eu conheço um bocadinho do general Spínola, mas também não o conheci muito, mas efectivamente estou convencido que aquele erro pagou-se um bocadinho caro porque o general Spínola era mais, eu não queria aplicar o termo, talvez batesse mais depressa com a mão, com um murro na mesa do que o general Costa Gomes. O general Costa Gomes quando tinha que apertar a mão não batia, não dava o murro, não levantava a voz, mas sabia apertar. Apertava doutra forma. O general Spínola, por aquilo que me contaram, às vezes era bruto. Por aquilo que me contaram. Porque eu digo por aquilo que me contaram porque houve cenas porque se isso fosse comigo era o fim do mundo. Ouvia logo a resposta. E estou convencido que ouvia. Mas, no entanto, dei-me muitíssimo bem com o general Spínola, embora depois tivesse meio zangado com o general Spínola, como estive com o general Costa Gomes, mas isso são questões do percurso, do desenvolvimento do percurso porque efectivamente...
Fernando Rosas - Acha que os oficiais mais próximos do general Spínola se tentaram antecipar no 16 de Março de 1974?
Hugo dos Santos - É uma antecipação. Eu não posso chamar antecipação. Aquilo é uma efervescência que surge entre determinado grupo de oficiais pela saída do general Spínola e Costa Gomes dos respectivos lugares. É evidente que todos nós fervemos, só que houve uns porque tinham trabalhado com o general Spínola que ainda sem qualquer organização, tentaram...
Fernando Rosas - Efervescência que podia ter sido fatal.
Hugo dos Santos - Podia ter sido fatal, podia ter sido fatal porque já tinham começado as transferências dalguns de nós e a partir daí podia ser o descalabro se efectivamente em vez da meia dúzia que transferiram, se têm agarrado e levam, pondo-nos em pontos completamente distantes, inclusivamente, o tipo mobilizações como eu tive em tempos a mobilização. Há um despacho a perguntar quando é que eu sou mobilizado e quando é que sou enviado e diz quando... Deve ser mobilizado o mais rapidamente possível e se possível para a Guiné. Por acaso prometia-me mesmo a Guiné. Achava piada se não me tivessem metido na Guiné. Se calhar nessa altura teria tomado outra posição como outros tomaram.
Fernando Rosas - É interessante porque é o major Otelo que está um bocado metido nisso e depois é ele que vem a fazer a ordem de operações do...
Hugo dos Santos - A ordem de operações não, veio fazer, ele distribui o plano de operações.
Fernando Rosas - Desculpe-me a terminologia que eu...
Hugo dos Santos - Há o plano de operações, há reacertos.
Fernando Rosas - O senhor general participou na definição...
Hugo dos Santos - Na ordem e em relação ao plano de operações nos reacertos. Ele foi duas vezes a minha casa. Eu nessa altura já estava transferido para Santa Margarida e bem sei que também tinha o batalhão a preparar em Tomar para ir para a Guiné, só eu como era professor duma cadeira na Academia Militar, portanto considerado professor catedrático em relação à legislação, só podia sair depois de terminar o ano lectivo. Só que, com o 16 de Março, com a saída do Costa Gomes, ou melhor, as movimentações anteriores eu fui transferido em Fevereiro para Santa Margarida.
Fernando Rosas - Interrompendo o ano escolar?
Hugo dos Santos - Interrompendo o ano escolar. Depois é retirado do comando da Academia Militar o general Amaro Romão e depois há a transferência do Vasco, há a transferência do Antero, portanto há mais quatro. [Fernando Rosas - O Melo Antunes também vai...] O Melo Antunes já estava colocado, tinha cá vindo fazer o curso, mas estava lá.
Fernando Rosas - De qualquer maneira, o senhor general sabia que era no dia 25 de Abril, àquela hora...
Hugo dos Santos – Isso soube sempre. Continuei com as reuniões. Não me cortaram os fins de semana, embora eu fosse avisado que estava controlado e soube que estava controlado. A certa altura, sair de Santa Margarida para Tomar, onde estava a preparação final do meu batalhão eu sabia quem era o indivíduo da região que seguia os passos. Eu fui avisado.
Fernando Rosas - Acha que a PIDE estava ao corrente do que se passava?
Hugo dos Santos - De tudo não estava, de tudo não estava, mas estava ao corrente da maioria das coisas. E eu digo de tudo não estava pelos telefones que estavam em escuta porque nós soubemos sempre quais os telefones que estavam em escuta... Isso para nós foi uma grande arma. Aliás, é por causa dum telefonema, duma imprevidência que a certa altura eu e o Vasco somos chamados ao Governador Militar de Lisboa. Era uma reunião que ia haver nesse dia e lá fomos, lá fomos e eu fui depois de... porque o comandante da Academia Militar. Eu dei sempre conhecimento ao comandante da Academia Militar das reuniões onde estive. Por vezes, não dava de determinadas matérias, omitia de terminadas matérias. Eu e outros, os camaradas lá. Nunca escondemos a necessidade da resolução do problema porque nós fizemos uma revolução em que a preparação foi feita às claras. Eles souberam sempre. Alguns não diziam aos seus comandantes, talvez a maioria não o tivesse dito, mas outros disseram sempre. Eles se quisessem tomar as medidas que deviam tomar podiam-no ter feito sem necessidade de revolução. Aliás, aquilo que se passou na Academia é sintomático e o Marcelo é que foi um timorato. Marcelo Caetano foi um timorato.
Fernando Rosas - Porque é que acha que o Marcelo Caetano, estando de alguma forma ao corrente de que alguma coisa se preparava, teve uma atitude um pouco suicidária, deixar as coisas... Falta de coragem política, medo da extrema direita, medo da guerra civil? Na sua opinião...
Hugo dos Santos - Na minha opinião, portanto o Marcelo já era conhecido por algumas posições contestatárias àquilo que o Regime da altura produzia. No entanto, quando assumiu o lugar, ele talvez se tenha convencido que o Presidente da República da altura, pronto, continuasse a ser uma figura representativa e aquilo que, pelo menos constou entre nós, é que efectivamente o Américo Tomás já dava ordens ao professor Marcelo Caetano. Claro que a partir daqui ou ele não se sentiu com força, nunca acreditou talvez no Movimento porque como não tinha, por enquanto, não tinha conhecimento de hierarquias e quando teve conhecimento, eram só dois generais, etc. o seu ‘staff’ deve ter dito: - ‘Ah não, dois generais anulam-se com imensa facilidade’. Dois generais anula-se... Portanto, nunca quis ter conhecimento concreto, que teve conhecimento concreto, mas não quis aceitar como concreto e tanto assim que a posição dele é, se fosse pela hierarquia tradicional, ele talvez pensasse, embora o problema duma revolução para ele, o problema era correr muito sangue. Se corria ou não muito sangue. Era a garantia que nós não podíamos dar.
As memórias do general Hugo dos Santos em conversa com Fernando Rosas continua na próxima semana.

Fizeram este programa, João Monteverde, Maria dos Anjos Pinheiro e Esmeralda Serrano.

(Programa gravado da Antena 2 no dia 11de Dezembro de 1998)

Transcrição: Ireneu Batista