ERA UMA VEZ UM MILÉNIO

Em tempo de mudança a História do século XX
25 de Abril de 1974, 25 anos depois

Terminamos hoje a conversa com o engenheiro Manuel Begonha. Manuel Begonha, ex-capitão-tenente, engenheiro maquinista naval e que participou activamente em todo o processo revolucionário. Há 25 anos Manuel Begonha, Faria Paulino, Jaime Neves, Otelo Saraiva de Carvalho e Ramiro Correia, entre outros, deram corpo à dinamização cultural integrada na 5ª Divisão. Entre 1974 e 1975 fizeram-se mais de 2000 sessões realizadas junto da população. Vinte e cinco anos depois vamos lembrar a Operação Nortada realizada no distrito de Viseu.
“Movimento das Forças Armadas
Dentro de alguns segundos vamos estabelecer ligação directa com a equipa de informação pública das Forças Armadas que se encontra neste momento em Viseu o salão gimnodesportivo desta cidade está iniciar-se uma sessão de esclarecimento que conta com a presença do brigadeiro Otelo Saraiva de Carvalho e de oficiais da Comissão Coordenadora do Programa do Movimento das Forças Armadas. Chamamos a nossa equipa em Viseu.”
(Excerto de transmissão pela rádio)
Locutora – E as palavras que vamos ouvir são de Jaime Neves e Otelo Saraiva de Carvalho.

“Eu sou o comandante do batalhão de Comandos nº 11 da Operação Nortada.
Sucintamente explico que a Operação Nortada é uma operação essencialmente militar que se destinou a culminar um fim de curso de comandos que actualmente decorre no batalhão de comandos nº 11 e além disso estamos a pôr à prova todo o material e o pessoal aqui no Continente uma vez que até hoje todos, estávamos todos voltados para o Ultramar e houve necessidade de voltar as Forças Armadas para o Continente e para o povo português.
E como tal, realizamos esta operação e escolhemos desde o nordeste transmontano passando pelas Beiras e finalizando em Santa Margarida. Como complemento desta operação temos vindo a esclarecer as populações desde as mais humildes aldeias como aconteceu no nordeste transmontado e incidindo agora nos centros populacionais mais importantes. Como disse há pouco e referi, hoje temos o prazer de ter entre nós o senhor brigadeiro Otelo Saraiva de Carvalho, o nosso comandante adjunto que não é mais do que um militar, comandante que veio visitar as suas tropas. Além dele, estão presentes quatro oficiais do [...] que fazem parte da Comissão Coordenadora, são os senhores comandantes Guerreiro, o senhor comandante Contreiras, está o senhor major Pereira Pinto da Força Aérea, à extrema direita, o senhor capitão Vasco Lourenço ao meu lado direito e o senhor capitão Pinto Vaz na extrema esquerda. Assistem também o presidente da Comissão Central Dinamizadora das Forças Armadas, o senhor primeiro-tenente médico Ramiro Correia. Esclareço apenas para não interpretarem as palavras extremas verdadeiramente à letra. Meu brigadeiro, se me permite, acho que V. Ex.a deve ter medo das palavras, o povo de Viseu, em breve, os nossos militares também estamos ansiosos por o ouvir.”
Depois das palavras do major Neves, comandante do batalhão de comandos nº 11, as palavras do brigadeiro Otelo Saraiva de Carvalho.
“Com verdadeiro espírito de militância MFA e apesar das péssimas condições de tempo não nos terem permitido deslocarmo-nos até esta populosa cidade de Viseu. Saímos de Lisboa às quatro da tarde para chegar agora aqui. Não quisemos deixar de estar presente junto de vós. Sentimos que há sempre a necessidade, sempre que possível, de junto de todas as camadas do povo português levarmos a nossa mensagem, a mensagem MFA.
E é por isso que hoje aqui estamos para com a maior honestidade, a maior franqueza, olhando-vos nos olhos, nós possamos responder a todas as vossas questões, todas as incertezas, todas as dúvidas que possam ter e nós que nada temos a esconder vos possamos responder francamente, lealmente, como devemos encarar sempre todos aqueles que em nós confiaram a partir do 25 de Abril.”
Locutora – Foi assim há 25 anos. o engenheiro Manuel Begonha foi um dos homens da dinamização cultural e nesta última intervenção começa por falar do papel da Marinha no Movimento das Forças Armadas.
Manuel Begonha - A Marinha é evidente que pela sua vocação de estar nos navios, embora tivesse fuzileiros, que colaboraram desde a primeira hora nas campanhas. Devo dizer, não só os fuzileiros como os pára-quedistas e os comando s que já referi sempre colaboraram em todas as campanhas que foi necessário e mostraram muito interesse nisso. Mas estava-lhe a dizer a Marinha tem muito menos efectivos do que o Exército e é um ramo vocacionado para andar no mar. Portanto é natural que em termos de visibilidade, em termos de Forças Armadas o Exército tenha o predomínio, mas isso não quer dizer que a Marinha, em termos de organização, aglutinava à volta do Clube Militar Naval não tivesse tido uma enorme actividade que preparou os seus elemento para o 25 de Abril. Há pouco tempo tivemos várias comemorações disso desde 1968, pelo menos esta nova geração mais ligada ao 25 de Abril, para não falar das tradições democráticas da Marinha de muito para trás que se reunia no Ateneu Comercial, depois passou-se a reunir no Clube Militar Naval e as pessoas estavam perfeitamente organizadas e enfim politizadas e com uma base cultural suficiente. Mesmo que isso não fosse suficiente, devemos dizer que, embora os milicianos na Marinha tivessem menos peso do que teriam nas Forças Armadas, em geral, também tiveram a sua influência e no navio, principalmente, que é um meio muito pequeno e numa comissão que se fazia de dois anos, a tendência das pessoas era serem críticas em relação ao regime e basta que um numa câmara tenha capacidade credível de discutir e de argumentar para imediatamente as pessoas discutirem e se interessarem e isso é um ponto de partida para se começar a ler, se começar a ter uma actividade cultural e muitos navios militantes do 25 de Abril tinham rádios, emitiam internamente, tinham rádios próprios, tinham programas culturais, tinham muitos sistemas organizados que permitiam uma grande coesão.
Locutora - Tinham jornal de bordo.
Manuel Begonha - Jornal de bordo, tínhamos muitas actividades que e a própria situação no mar, porque quando o mar bate, bate em toda a gente, portanto desde o comandante ao grumete, toda a gente passa pelo mesmo enjoo.
Locutora - Torna-os solidários.
Manuel Begonha - Torna-os muito solidários, isso não há dúvida.
Locutora - Estamos a falar da dinamização cultural, todo um projecto com toda essa dimensão que afinal foi de 74 a 75.
Manuel Begonha – Exactamente. Durou precisamente um ano porque foi de Outubro de 74 a 26 de Novembro de 75.
Locutora - E muito se fez.
Manuel Begonha - Eu penso que se fez muito.
Locutora - Duas mil sessões, para mais de duas mil sessões.
Manuel Begonha - Exactamente. Em termos de sessões registadas foram mais de duas mil sessões por todo o país, portanto, quer na fase de itinerância, quer na fase depois fixa. A partir da altura em que as pessoas se começaram a fixar, esse tipo de campanha também perdeu um bocado essa premência porque a dada altura começaram os partidos políticos a formar-se porque as pessoas também não se devem esquecer que à data do 25 de Abril em Portugal, efectivamente, não havia partidos políticos. Portanto, o esclarecimento que mais tarde compete aos partidos políticos porque as Forças Armadas e a dinamização cultural, evidentemente, nunca se pretenderam substituir aos partidos políticos. A sua função foi clara, foi explicar o programa do MFA. Agora, preparar um povo para as eleições que estavam previstas para o 25 de Abril isso teria que ser com os partidos políticos. Portanto, aí o MFA e a dinamização não tinham já interesse nem fazia, realmente não era coerente estar a fazer campanhas de dinamização desse tipo numa altura em que se estavam a aproximar as eleições.
Locutora - E contactos com os partidos políticos, vocês tinham?
Manuel Begonha - Formalmente não. Não, mas é natural que todos os partidos por onde passávamos tinham os seus representantes e as pessoas apareciam e é claro que as pessoas não estavam habituadas a ver os militares tomar determinadas iniciativas. Para já constituiu uma surpresa os militares terem sido as forças activas directamente porque nós sabemos que o nosso povo também estava suficientemente organizado. Havia partidos que trabalhavam, havia clandestinidade e havia um longo e muitos mártires que tiveram a ver com o 25 de Abril e muitos familiares de militares. Portanto os militares sabem muito bem qual era a sua posição, tinham a força das armas e a força das armas resolveu o problema, mas...
Locutora - Os contactos com os partidos.
Manuel Begonha - Ah, exactamente. Não os contactos com os partidos não existiam formalmente e devo dizer-lhe que nesta...
Locutora - Mas desculpa, foram muito criticadas portanto as campanhas de dinamização cultural por estarem conotadas com um certo partido. [Manuel Begonha -Foram.] Pelo menos...
Manuel Begonha - Foi verdade, mas isso não é verdade e devo dizer-lhe que os partidos, mesmo qualquer partido que se queira referir de esquerda foram surpreendidos pela acção dos militares e portanto se pode utilizar o eufemismo andaram a reboque, nunca tentaram interferir, faziam o seu papel e outros tentaram conotar, é verdade. Mas efectivamente nenhum partido nem liderou, nem sequer inspirou. Portanto, os militares tomaram a sua acção, tinham uma acção a desenvolver e os partidos até, devo dizer-lhe, que alguns deles e na esmagadora maioria a contra gosto.
Locutora - De 74 a 75, um ano de grande trabalho, muito ficou por fazer. Vocês conseguiram um ano é muito pouco tempo.
Manuel Begonha - Não porque as pessoas funcionavam com grande idealismo. Portanto, as pessoas quando se envolveram no 25 de Abril estavam completamente dispostas a avançar com o seu projecto. Portanto, nunca se consegue fazer tudo. Se me disser nesse ano fizeram o suficiente, acho que sim. Fizemos bastante. Podia-se ter feito mais, não éramos muitos, os militares dispostos a avançar não eram muitos. As dificuldades foram algumas, mas o tempo foi curto de maneira que e também já agora lhe digo, também houve intelectuais que não concordavam. Eu tive. Vou-lhe contar uma história, que eu acho sempre piada a isto que numa reunião muito importante onde estava a fina flor da nossa intelectualidade, entrámos numas discussões de nível mais académico e perguntaram-me, fizeram determinadas comparações do antes e do depois e estavam à espera que os militares, enfim, não tivessem um nível cultural para poder responder. Eu lembro que lhes disse uma frase que isso se faria com a superação diurética da antinomia. A partir daí. Ficaram um bocado aflitos, mas depois as coisas melhoraram bastante. Está a perceber.
Locutora - Bastou falar claro para eles.
Manuel Begonha - Mas não eram todos. A maioria foi...
Locutora - Mas a maioria colaborou
Manuel Begonha - Colaborou intensamente Foi extraordinária e aproveito para lhe dizer que, por exemplo, na área musical o Carlos Paredes tinha feito um plano de aprendizagem da música para crianças genial  e que também indo ao encontro da sua pergunta anterior muita coisa ficou por fazer. Não foi possível pôr isso no terreno. Lembro-me do Carlos Paredes porque fui vê-lo há pouco tempo, está completamente esquecido, numa casa de repouso, e está semi-inconsciente. É uma situação que os portugueses não deviam esquecer. Penso que o 25 de Abril era uma oportunidade para se lembrarem não só do Carlos Paredes como daqueles que já morreram e eu aproveito também para falar num alferes que fez parte da Comissão Dinamizadora da Força Aérea, que era o Carneiro Martins, que junto ao Ramiro Correia na minha homenagem.
Locutora - Estes programas servem também para isso, para homenagear para que a memória não esqueça. Como é que foi a morte da dinamização cultural.
Manuel Begonha - A morte em termos históricos ou em termos efectivos?
Locutora - Efectivos, em termos históricos depois falamos.
Manuel Begonha - A dada altura, eu vou-lhe contar o princípio da dinamização. Fomos trabalhar para um corredor no Palácio Foz que era o único sítio que nos puseram à disposição.
Locutora - Era onde era o ex-SNI?
Manuel Begonha – Exactamente, onde era o ex-SNI e, enfim, dadas as dimensões que a dinamização tomou, entendeu-se que poderia mudar de local e passámos para o edifício que era daquela organização Grão Pará que era um edifício grande e nós estávamos num andar e o STCI estava no andar de cima. No dia 26 de Novembro fomos intimados a abandonar as instalações pelo mesmo major Jaime Neves, na altura tenente-coronel, que chefiava o grupo de Comandos.
Locutora - O mesmo que tinha iniciado.
Manuel Begonha - Mas os tempos foram diferentes, não quero entrar aí. Há um ano, passou muita coisa. [Locutora - As pessoas mudam.] As pessoas podem fazer as suas opções e é legítimo e eu penso que sou realmente amigo do Jaime Neves e não [Locutora - Não vamos entrar por aí.] E só quero, só me interessa apreciar o comportamento do Batalhão de Comandos na campanha a que ele se associou na Dinamização. Mas a verdade foi essa. Portanto, foi fechada, nós tínhamos um espólio enorme de relatórios e elementos recolhidos em todo o país.
Locutora - E onde é que estão?
Manuel Begonha - Não sei onde é que estão. Foram extintos. Foi constituída uma comissão para extinção do espólio do MFA. Quero também aqui ressaltar o trabalho muito importante do nosso colaborador que foi o Vespeira que fez os símbolos do MFA e o Rodrigo de Freitas que foi um homem que ao nível das artes plásticas teve um papel, ultrapassou a parte das artes plásticas e começou a tomar também conta desse espólio e tentou salvá-lo na medida do possível, mas houve muita coisa que se perdeu.
Locutora - Nalgum lado tem que estar...
Manuel Begonha - Nalgum lado tem que estar e em termos sociológicos e em termos de interesse nacional eu penso que é um espólio que tinha muito interesse.
Locutora - E nunca procurou saber onde é que estaria esse espólio?
Manuel Begonha - Não porque na altura os militares ligados ao 25 de Abril quando se deu o 25 de Novembro alguns foram presos, outros foram postos à margem, é uma coisa que as pessoas também parece que se estão a esquecer e só muito mais tarde é que voltaram, os que voltaram às Forças Armadas.
Locutora - Fica aqui desde já para quem nos oiça onde é que estará esse espólio. [Manuel Begonha - Exactamente.] que também faz parte da nossa história, mas falar portanto ao dia 26 de Novembro de 1975, quando foi extinta quando foi ocupada a 5ª Divisão, à frente o operacional era o Jaime Neves, mas quem é que deu a ordem para ele avançar. Donde vieram as ordens?
Manuel Begonha - Essas ordens vieram da hierarquia, as Forças Armadas trabalham com a sua própria hierarquia. Portanto, naturalmente que o chefe operacional dos Comandos foi com certeza quem deu a ordem. Não posso precisar, não me lembro quem foi, mas as coisas seguiram a sequência normal da hierarquia.
Locutora - Não foi difícil para si chegar ao dia 26 de Novembro e ver portanto militares tão empenhados tiveram na preparação do golpe militar e na sua concretização, não digo inimigos mas em campos opostos.
Manuel Begonha - Foi, é evidente que foi, mas eu também lhe devo dizer que em situações de revolução as pessoas devem ter a grandeza de espírito para perceber que há vencedores e há vencidos e eu admiro e respeito as pessoas que são coerentes. Portanto, eu tinha uma determinada ideia para o país, tinha uma determinada ideia para o 25 de Abril, mas admito que haja pessoas que tivessem outra e portanto eu continuo amigo da maior parte dos camaradas oficiais que tiveram a ver com o 25 de Abril, com o 25 de Novembro e com aquilo que se seguiu, aqueles que foram sérios, aqueles que não conspiraram contra o país e aqueles que não enveredaram por caminhos indignos. Portanto, é essa a minha resposta.
Locutora - Mas das vossas campanhas de dinamização cultural chegaram a ir alguma vez a África.
Manuel Begonha - Não. Tivemos em combinação alguma deslocação a África, mas as Forças Armadas em África também estavam organizadas em gabinetes de dinamização, principalmente do Exército. Lembro-me, por exemplo, muitos dos que vieram para cá como o major Pezarat Correia que veio direito de África ter connosco e depois foi para o gabinete de dinamização do Exército. Havia também organização também perfeitamente. Não nos mesmos termos porque o país estava em guerra e não se podia fazer uma campanha de dinamização num país com as características de Angola ou Moçambique ou qualquer dos outros, mas os militares que lá estavam, estavam perfeitamente conscientes da situação.
Locutora - Engenheiro Begonha, falámos da morte física da dinamização cultural que foi a ocupação da 5ª Divisão e a morte histórica quando é que começa.
Manuel Begonha - Bom, eu penso que a morte histórica teve uma fase antes e teve uma fase depois. A fase de antes foi a observação da luta pelo poder. Ficou claro a partir de dada altura que as situações se iriam complicar e como eu já lhe disse nós notávamos isso com muita clareza porque a partir de uma dada altura a dinamização era visitada por gente todo o mundo, com os mais variados pretextos.
Locutora - Porque era uma ideia original?
Manuel Begonha - Havia várias coisas que confundiam as pessoas. Havia dois tipos de visitantes. Vou-lhe contar isto, não é anedota. Na Europa constituíram-se circuitos turísticos para vir ver o Portugal da revolução. Portanto, era uma coisa que espantou um bocado as pessoas e dentro desse circuito que nós a dada altura começámos a interpretar isso um bocado como folclore, vinham falar com os militares que coordenavam a Comissão Dinamizadora Central porque ainda sinceramente achavam que era uma coisa fora do comum. Primeiro estarem militares a desempenhar aquele tipo de função, segundo um militar tradicional que as pessoas vêem com aquele ar latino-americano que faz as revoluções que mata meio mundo e anda aos tiros, faziam uma revolução em que estavam acima de tudo preocupados com o aspecto cultural, com o aspecto dumas eleições, não quererem de maneira nenhuma ficar no poder, querer sim que as pessoas votassem livremente e em consciência. Portanto, isso fazia com que muitos turistas, gente nova vinda de toda a Europa permanentemente visitassem em grupo e perguntassem. Era um interesse realmente excepcional. Depois havia os profissionais. Nós fomos visitados por praticamente todas as televisões do mundo. Entrevistas em directo. Aquilo era uma situação um bocado ridícula porque faziam traduções simultâneas pelos próprios, aquilo atingiu umas proporções um bocado estranhas e depois pelos profissionais das agências de informação, as forças de segurança secretas de muitos países.
Locutora - Quer dizer, eles não se deviam dar a conhecer, mas...
Manuel Begonha - Não davam. Vinham com o papel com os mais espantosos disfarces desde jornalistas a escritores que estavam a escrever um livro, revolucionários que portanto procuravam obter informação, principalmente, perceber qual era a formação política dos militares e qual a sua formação cultural e quem eram os militares. É evidente que nós éramos bastante inexperientes, mas havia sinais claros que aquilo era um bocado farsa e as pessoas percebiam que as intenções não era tão genuínas, nem tão interessadas como isso. Havia por ali outras coisas e portanto as repostas seriam em conformidade.
Locutora - Engenheiro Begonha, 25 anos depois. Claro que valeu a pena.
Manuel Begonha - Valeu, valeu a pena e devo dizer-lhe a mim pessoalmente e a todas as pessoas que trabalharam connosco devo ter sido o momento mais exaltante das nossas vidas porque realmente vivia-se num ambiente de grande fraternidade, de grande amizade e as pessoas acreditaram de facto, as pessoas acreditaram e nós estávamos convencidos que íamos ter um país diferente.
Locutora - Este país em que vivemos corresponde àquilo por que se bateu há 25 anos?
Manuel Begonha - Depois de tudo o que se passou eu acho que sim. Acho que sim porque passaram 25 anos. Isto é as leis da física. Sabe que o pêndulo andou muito para um lado, depois andou muito para outro, está a estabilizar. Eu sou democrata, penso que os militares são democratas e o que nós prezamos acima de tudo é a liberdade e muitos dos nossos camaradas que honestamente se envolveram na revolução não tinham outra ambição que eram as ideias da revolução francesa que para um país fascista era extraordinário. Liberdade, igualdade, fraternidade era o que as pessoas pensavam. Depois as coisas evoluíram, outras liberdades, outras fraternidades, mas ao fim e ao cabo, pensando bem no lugar onde estamos inseridos e a situação de luta que as pessoas não deixam de a ter, temos os partidos organizados, temos a maneira de exprimir a nossa vontade, temos o voto, penso que a democracia neste momento possível neste momento em Portugal é esta. Se nós pensarmos na tais questões geopolíticas e geoestratégicas era difícil outro caminho. Penso eu passado este tempo.

            Com o engenheiro Manuel Begonha recordámos a dinamização cultural.

            Fizeram este programa, Esmeralda Serrano, Maria dos Anjos Pinheiro e Fernando Humberto.

(Programa gravado da Antena 2 no dia 2 de Abril de 1999)

Transcrição : Irineu Batista