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24 DE ABRIL

 

Salão de antiguidades e fim do regime

Nas crónicas parlamentares é vedeta hoje Reboredo e Silva, um militar que subiu à tribuna para dizer que os militares "não devem imiscuir-se na política". Carlos Cruz abandona a RTP, diz o "Diário de Lisboa", citando "fonte fidedigna". Observa o jornal: "A confirmar-se a notícia (...), os estúdios do Lumiar perdem um excelente profissional. E Carlos Cruz: perderá alguma coisa?"

Greves por razões salariais na UTIC, Phillips e FAPAE. A administração desta última ameaça só deixar entrar na empresa amanhã, 25, quem se comprometa a trabalhar. A inflação é o tema dominante da reunião do Conselho de Ministros, informa o "Jornal de Notícias". A TAP inaugura amanhã dois computadores para reservas de bilhetes, anunciam este e os restantes jornais, convidados, ontem, a visitar "o complexo sistema".

Kaúlza de Arriaga recebe o prof. Costa Leite (Lumbrales), que lhe diz ter uma vaga informação, chegada de Lamego, sobre a eclosão no dia seguinte de um golpe revolucionário. Kaúlza desloca-se de imediato ao Ministério do Exército e transmite a informação ao respectivo titular, Andrade e Silva. Este não lhe dá crédito e mantém a programada visita a algumas unidades do Sul do país. "Tudo está tranquilo", assegura, em telefonema para casa do ministro da Defesa, Silva Cunha, cerca das 23h.

Otelo, que passou a noite na Academia Militar, onde é professor, desloca-se, logo pela manhã, à estação de correios da Estefânia, em Lisboa, de onde envia para os Açores o telegrama codificado que combinara com Melo Antunes, indicando-lhe a data e a hora do golpe ("Tia Aurora parte Estados Unidos 25 03 00. Primo António").

Carlos Albino (jornalista no "República" e um dos responsáveis do programa Limite, da Rádio Renascença) compra a Hipólito Clemente, da livraria Opinião, "por questões de segurança", um novo disco de Zeca Afonso com o "Grândola, vila morena". Com sonoplastia de Manuel Tomás (hoje realizador da SIC) e a voz de Leite de Vasconcelos (mais tarde director da Rádio Moçambique) preparam, durante a tarde, o registo magnético (RM) que hão-de pôr no "ar" à meia-noite e vinte e um. O RM vai à censura, como estabelecem as regras do tempo, e "passa" - ao contrário de outras canções, como "Venham mais cinco", inicialmente seleccionada, a canção não faz parte do "index" da emissora católica portuguesa.

Às 21h, Otelo vai ao "Jornal do Comércio" e faz entrega a António Ramos - um dos elementos de ligação com o general Spínola - de um "Anexo de transmissões", um exemplar da proclamação ao país e um outro com indicações relativas à emissão do sinal pelas estações de rádio.

A caminho da Pontinha, Vítor Crespo passa por casa de Rosa Coutinho, um dos nomes possíveis para a Junta de Salvação Nacional. Este de nada sabe. Lê os documentos. Conta Otelo: "Quando termina, sacode os papéis e diz a Vítor Crespo: 'Com isto, ponho o meu navio [a fragata Almirante Pereira da Silva] à vossa disposição'." Crespo agradece-lhe, mas diz que os capitães o que querem é vê-lo na Junta.

De visita ao Salão de Antiguidades, na FIL, o Chefe do Estado, Américo Thomaz, é ovacionado "pelo público que aí se encontrava".

Salgueiro Maia, oficiais e furriéis (estes avisados apenas hoje de manhã) da Escola Prática de Cavalaria de Santarém captam os Emissores Associados de Lisboa, onde João Paulo Dinis presta uma inocente informação horária - "Faltam cinco minutos para as vinte e três horas" - e anuncia a canção "E depois do adeus". O início da operação "Fim do regime" torna-se irreversível.

No Coliseu dos Recreios, em Lisboa, "ovações intermináveis" sublinham os trechos mais expressivos de "La Traviata", de Verdi, interpretados por Joan Sutherland e Alfredo Kraus.

"Reuniões de bispos portugueses em Fátima - MANDAR. Bispo de Nampula - MANDAR. Telefonema anónimo avisa Banco Português do Atlântico da existência de uma fictícia bomba - PROIBIDO. Caixeiros querem semana de 44 horas - MANDAR. (...) Coronel Roma Torres"