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Aspectos Militares:
Armamento
 
Armas

Dos Portugueses

        - Conclusões

Comparação Portugueses/Guerrilhas

 

Das Guerrilhas

 

Minas


Soldado
Dos Portugueses

  O armamento e equipamento do Exército português no início da década de 60 decorria de três períodos distintos:
- material adquirido no final da década de 30, perante a situação criada pela Guerra Civil espanhola e pelo início da Segunda Guerra Mundial e essencialmente de origem alemã (espingardas Mauser, metralhadoras ligeiras Dreyse e Borsig, obuses de 10,5 cm) e italiana (metralhadoras Breda, obuses de 7,5 cm). Os calibres eram os dos países de Eixo, nomeadamente o 7,92 mm (ou 7,9) das armas ligeiras;
- material recebido durante a II Guerra Mundial, sobretudo de contrapartidas da utilização dos Açores. Era principalmente pesado (obuses de 8,8 cm e 14 cm, peças de 11,4 cm, peças AA de 4 e 9,4 cm). Os calibres eram essencialmente ingleses;
- material recebido após a entrada na NATO e destinado essencialmente à 3ªDivisão (canhões sem recuo de 57 mm, 75 mm e 106 mm, metralhadoras de 12,7 mm, morteiros de 60 mm, 81 mm e 107 mm, viaturas blindadas e carros de combate). 

 

   Os calibres eram os americanos, depois adoptados pela NATO, mas este material tinha restrições de emprego, pois não poderia ser utilizado fora da área da Organização (até ao trópico de Câncer).
  A tendência para a uniformização dos calibres (7,62 mm para as armas ligeiras, 10,5 cm e 15,5 cm para os obuses), bem como a necessidade de dotar as tropas com uma espingarda automática ou semi-automática que substituísse a “venerada” Mauser de repetição, tinha levado a estudar a hipótese da adopção (inclusive o fabrico nacional) de nova arma, tendo sido considerada, entre outras, a AR-10 Armalite (que viria a ser adoptada pelas tropas pára-quedistas). No entanto, em 1960 ainda não tinha sido tomada qualquer decisão sobre o assunto.
   Entretanto, razões de estandardização e de interoperacionalidade, aliadas à existência de algum material obsoleto, levaram ao envio para as colónias das armas mais antiquadas. Foram exemplo as espingardas e metralhadoras de calibre de 7,7 mm e os obuses de 7,5 e de 8,8 cm, para os quais havia dificuldade na obtenção de munições. Pode considerar-se como operação tipo cascading, em que o material mais antigo e de complicado emprego foi remetido paras as áreas onde a ameaça então considerada parecia ao alcance desses meios, obsoletos para o teatro europeu.
Espingarda
  Espingardas: O desencadear das hostilidades revelou, logo de início, em qualquer dos três teatros, a falta de uma arma automática de base: em Angola, os ataques em massa não podiam ser eficazmente contrariados com espingardas de repetição; na Guiné e em Moçambique, os guerrilheiros dispuseram, desde o princípio, de armas automáticas que lhes davam nítida vantagem sobre algumas das tropas portuguesas (caso das unidades de guarnição normal).
   Assim, a prioridade, em 1961, foi a obtenção imediata de armas automáticas, mas tendo em atenção a necessidade de garantir o fluxo de abastecimento de munições e sobressalentes, o que só poderia ser plenamente conseguido através do fabrico nacional. Duas armas pareciam corresponder aos desideratos operacionais então formulados: a FN, de origem belga, e a G-3, de origem alemã. Quanto às munições, não havia problema, porquanto o cartucho de 7,62 mm era já fabricado em Portugal e exportado em larga escala, sobretudo para a RFA. 
Metralhadoras
  Foram assim adquiridas (com dificuldades, como veremos), dois lotes destas duas armas:
- FN: 3835 sem bipé (s/b) e 970 com bipé (c/b);
- G-3: 2400 sem bipé (s/b) e 425 com bipé (c/b).
  Estas armas foram testadas em operações, “a quente”, tendo-se concluído, de modo genérico, que as FN eram de mais fácil transporte, mas o sistema de regulação de gases levantava problemas com pessoal pouco instruído; quanto às G-3, tinham mais precisão, mas o sistema de travamento de roletes revelava tendência para quebrar. No entanto, ambas foram consideradas como satisfazendo os requisitos operacionais.
   Na época, qualquer fornecimento de material militar a Portugal era extremamente melindroso, não sendo de admirar as dificuldades encontradas. 
   No tocante ao fabrico, a decisão tenderia naturalmente para a opção alemã, mais que não fosse pelo grande volume de transacções já existente entre a RFA e Portugal (dezenas de milhões de cartuchos 7,62 e centenas de milhares de granadas de artilharia eram fabricadas nas FBP e FNMAL e vendidas à Alemanha). O fabrico nacional ficou decidido ainda em 1961, saindo as primeiras armas 15 meses depois (fins de 1962), para o que foi determinante a transferência de tecnologia e a assistência à produção, que permitiram, a partir de 1962, o fabrico de canos e carregadores. 
   Para acorrer às necessidades imediatas, a RFA prontificou-se a ceder, dos seus stocks, 15 000 espingardas FN usadas, sem restrições de emprego, que deveriam ser devolvidas depois de beneficiadas e à medida que fossem fabricadas as G-3. De facto, foram recebidas 14 867 FN por esta via, mas quanto à devolução, parece não ter havido pressa, porquanto, em 1965, havia já cerca de 140 000 G-3 de fabrico nacional e estas FN continuavam em Portugal.
  Ainda quanto às espingardas FN, foram também adquiridas directamente à fábrica, ou através de outros utilizadores (África do Sul). Mais concretamente, dado o carácter de urgência, houve um lote de armas cedido por este país dos seus próprios stocks, posteriormente repostos pela fábrica belga. No total seriam fornecidas cerca de 12 500 destas armas.
   Antes da adopção da G-3, a distribuição prevista de armas automáticas era a de FN para Moçambique e de G-3 para Angola, mas problemas políticos levaram a que, em certo período, a G-3 fosse mantida “fora de vistas” nesta última. O total de armas adquiridas, antes do fabrico nacional, foi de 8000 G-3, 12 500 FN belgas e de 14 500 FN alemãs, repartidas pela metrópole, Guiné, Angola, Moçambique e Timor.
  A produção julgada necessária em Junho de 1961 era de 105 000 armas, sendo 75 000 para a metrópole e 30 000 para o ultramar. O conceito inicial era de manter na metrópole o número de armas destinadas à instrução e ter em depósito as necessárias para equipar as unidades mobilizadas, mas o futuro se encarregaria de inverter esta distribuição. É curioso notar que só por despacho de 18/9/65 do CEMGFA a  G-3 foi considerada “arma regulamentar”.
Metralhadora
  Metralhadoras: As metralhadoras existentes, em 1960, eram a Dreyse, nas secções de atiradores, as Borsig e Madsen (com tripé), nos pelotões de apoio das companhias, a Breda (com tripé), nos pelotões de metralhadoras dos batalhões, todas de 7,9 mm e a Browning de 12,7 mm, como arma antiaérea e antimaterial. Mesmo as mais ligeiras destas armas tinham o inconveniente do peso (mais de 11 kg para a Dreyse) e a adop-ção do calibre 7,62 mm complicou a logística, dada a necessidade de duas munições diferentes nas unidades elementares.
Metralhadora com bipé
  A primeira solução encontrada foi a utilização das versões com bipé das espingardas automáticas (e na FN com cano reforçado) como metralhadoras ligeiras. Assim, as primeiras aquisições de FN e de G-3 incluíam modelos com bipé em proporções que variavam entre 1:6 e 1:4, mas estas armas não garantiam nem o volume nem a conti-nuidade do fogo, pois não tinham alimentação por fita nem canos de reserva.
   Foram depois adquiridas 1200 metralhadoras MG-42 na RFA, completadas com a cedência de mais 500. Eram verdadeiras metralhadoras, alimentadas por fita e com canos substituíveis, e foram as preferidas pelas tropas.
  A procura da arma automática para equipar as secções de atiradores, de preferência tendo o máximo de componentes comuns com a espingarda automática (por razões logísticas), levou à adopção da metralhadora ligeira  HK-21. A sua produção foi proposta pela Fábrica de Braço de Prata (FBP) em Abril de 1967, com o objectivo de 4000 armas em menos de dois anos e, de facto, as primeiras foram distribuídas logo em 1968 às companhias mobilizadas. Esta metralhadora baseava-se na G-3, tendo cano substituível e alimentação por fita. Portugal foi o primeiro país a adoptá-la e, de certo modo, pagou a factura das suas “doenças infantis”, o que não a tornou popular entra as tropas.
  As demais metralhadoras continuaram a ser utilizadas em viaturas e na defesa de aquartelamentos, nomeadamente montadas nos suportes de tiro antiaéreo, que lhes dava melhor flexibilidade de emprego.
  Pistolas-metralhadoras: Na orgânica anterior a 1960, as pistolas-metralhadoras (PM) tinham uma distribuição relativamente elevada (uma por secção de atiradores). Existia mesmo uma PM de concepção nacional, a FBP de 9 mm m/947, que tinha o inconveniente de só fazer tiro automático, problema resolvido com o novo modelo (m/961), que podia fazer também tiro semi-automático.
   A adopção de uma espingarda automática relegou as PM para segundo plano, porquanto obrigavam a dois calibres nas unidades elementares e identificavam os comandantes a quem estavam normalmente distribuídas. Apesar disso, foram adquiridas PM, quer importadas (UZI de concepção israelita), quer de produção nacional (FBP m/961), empregues essencialmente na defesa de instalações e nas forças de segurança e de autodefesa.
  Lança-granadas: No final da década de 50 existia no Exército um lança-granadas de 5 cm, tipo morteiro ligeiro, e granadas anticarros de espingarda. Na falta de uma arma de apoio próximo, do tipo das granadas de espingarda já vulgarizados, a solução encontrada foi original: o dilagrama (dispositivo de lançamento de granadas de mão). Tratava-se de uma granada de mão defensiva m/963, montada em suporte com um encaixe oco que se adaptava no cano da G-3. No seu lançamento usava-se um cartucho de salva (sem bala), fornecido junto, e para o disparo era necessário tirar o carregador e introduzir manualmente o cartucho de salva. Contudo, este “compasso de espera”, com a agravante de impedir temporariamente o uso da espingarda, aliado ao risco do manuseamento, tornou a arma pouco popular.

Lança granadas foguete

Canhões sem recuo

  Os lança-granadas-foguete (vulgo bazuca), de que existiam modelos de 6 cm e de 8,9 cm, foram extensivamente empregues, mau-grado só disporem de munições anticarros (Heat), consequentemente de pouca eficácia antipessoal, o que era compensado pelo forte efeito neutralizante da sua potente granada. Aliás, dado o grande número de lança-granadas RPG-2 e RPG-7 dos adversários, impunha-se uma resposta equivalente.
  A falta do lança-granadas-foguete antipessoal foi colmatada também com algum engenho, desta vez através do sistema de lançamento ao ombro de um foguete originalmente concebido para tiro ar-solo: o rocket de 37 mm. Desenvolvida em Angola, esta arma foi muito utilizada também na Guiné e, mais leve que a bazuca, de munições mais baratas e fáceis de obter, teve largo emprego.
  Canhões sem recuo: Os canhões sem recuo (CSR) não foram praticamente utilizados pelas tropas portuguesas, ao contrário dos movimentos de libertação, que usaram extensivamente os CSR de 82 mm, sobretudo nos ataques a aquartelamentos. No entanto, chegaram a ser constituídos pelotões de CSR 57 mm para a Guiné, armas adquiridas antes da entrada de Portugal para a NATO, não tendo, portanto, restrições de emprego.
Morteiro
  Morteiros: O emprego eficaz dos morteiros (como da artilharia) pressupõe bom suporte cartográfico e a observação do tiro. Durante todo o tempo da guerra, nenhum destes desideratos foi plenamente atingido, pelo que o apoio próximo das tropas não foi eficientemente conseguido. Assim, os morteiros de maiores calibres (81 mm e, mais tarde, 120 mm) foram essencialmente empregues em flagelações e reacções aos ataques a aquartelamentos.
  Pelo contrário, os morteiros de 60 mm seriam largamente utilizados, sobretudo no apoio imediato das tropas, colmatando assim a falta já assinalada de um lança-granadas eficaz. Os morteiros eram transportados pelos grupos de combate, sem tripé nem prato-base, baseando-se a pontaria na experiência do apontador. 
Trincheira da guerrilha
  Posteriormente foi desenvolvido o morteirete de 60 mm, constituído apenas pelo tubo normal com bandoleira, na qual estavam fixadas chapas com números correspondendo aos alcances; bastava ao apontador fixar com o pé a distância pretendida e esticar a bandoleira para obter, com aproximação razoável, o tiro sobre o objectivo.
  Artilharia: A artilharia existente em África era, de início, composta pelos materiais mais antiquados e de menor calibre, de difícil integração em forças da NATO, sendo já problemática a obtenção de munições. A solução foi o aproveitamento desses materiais até ao esgotamento dessas munições e depois a sua substituição. Assim, os primeiros obuses 10,5 cm m/941/62 seriam testados operacionalmente em Angola, em 1968. Na Guiné, a situação em 1966 era a utilização dos obuses 8,8 cm por pequenas unidades (nove pelotões a duas bocas de fogo cada), mas a partir de 1968 passaram a existir meios mais modernos e mais potentes:
- 19 obuses de 10,5 cm, correspondendo a três baterias;
- Seis obuses de 14 cm, correspondendo a uma bateria;
- Seis peças de 11,4 cm, correspondendo a uma bateria.
  Estes últimos materiais, dado o seu alcance, já permitiam o apoio a vários aquartelamentos a partir de uma posição central, mas a falta de meios de aquisição de objectivos impedia uma contrabateria eficaz. As dificuldades apontadas para os morteiros eram semelhantes às da artilharia, se bem que na Guiné, dada a sua menor extensão e a quadrícula mais apertada das unidades, os problemas fossem menores.
   Não houve, na artilharia, especificidades nacionais no tocante ao material (exceptuando a transformação dos obuses de 10,5 cm alemães para as munições da NATO, mas que data dos anos 50). Já quanto ao emprego, a falta de meios levou à utilização pouco convencional desta arma, tendo as baterias, normalmente de seis bocas de fogo, sido divididas em pelotões de duas dispersos por vários aquartelamentos, o que não permitia que as baterias actuassem como tal. Apenas em grandes operações foi a artilharia empregue dessa forma.
  Embora não chegasse a ter sido usada em operações, deve ainda ser referida a artilharia antiaérea, de que foram mobilizadas algumas unidades, essencialmente pelotões AA dotados de peças de 4 cm, destinadas a proteger pontos críticos, como aeroportos, onde se julgava credível a ameaça aérea. De salientar a aquisição, já nos anos 70, de uma bateria AA de mísseis Crotale, franceses, originalmente prevista para a defesa do aeroporto de Bissau, dada a presença de aviões MIG-17 na vizinha Guiné-Conacri, mas o 25 de Abril tornou desnecessário o seu envio.

Parada

Carro de Combate

  Cavalaria: Nunca foi encarada a utilização de carros de combate (vulgo tanques) no teatro africano, já por inadequação, já porque, sendo material NATO, tinha restrições de emprego. Pelo contrário, as unidades de reconhecimento foram consideradas adequadas às condições locais, mesmo antes do eclodir das guerras. A unidade-tipo era o esquadrão de reconhecimento (ERec), de escalão companhia.
  Eram utilizadas auto-metralhadoras (blindados ligeiros de rodas) que podiam ser consideradas obsoletas, à excepção das Panhard, mas mesmo estas, sendo dos modelos EBR e ETT, revelam-se mais apropriadas ao cenário convencional e foram retiradas do teatro, regressando à metrópole. O interessante é que estas viaturas, já consideradas antiquadas no início da guerra, fizeram, no mínimo, toda a década de 60, em condições especialmente desgastantes!
  A necessidade de material moderno que respondesse Às missões operacionais previstas (essencialmente abertura de itinerários  e escolta a colunas) levou à procura de auto-metralhadoras adequadas, com os problemas já referidos para a obtenção de material de guerra. A escolha recaiu na Panhard AML, armada com morteiro de 60 mm, de origem francesa e produzida sob licença na África do Sul, que foi a escolha acertada dentro dos condicionamentos da época.
Reconhecimento
  A orgânica clássica de um pelotão de reconhecimento (ligeiro) é de quatro secções – comando, exploração, auto-metralhadoras e atiradores -, sendo apenas as duas últimas dotadas de viaturas blindadas. A especificidade das missões acabou por ditar orgânicas diferentes, com correspondentes efeitos quanto ao material. Assim, foram criados pelotões Panhard dotados de sete AML (um no comando e dois por secção) e sete jipes, tipo de unidade empregue na Guiné e em Angola.
  A escassez e a dificuldade de obtenção de meios (inclusive financeiros) iria ditar mais uma solução específica. A necessidade de garantir escolta blindada às colunas e protecção a certos pontos críticos levou à aquisição de  viaturas Daimler Digno, de origem inglesa. Tratava-se de viaturas já obsoletas, de blindagem lateral, abertas por cima, com tripulação de dois homens e sem armamento, em suma, um jipe blindado. Estas viaturas receberam uma espécie de torre fixa, que lhes dava protecção por cima e que permitia a execução de tiro de metralhadora através de escotilhas, tendo sido constituídos pelotões de Daimler, a cinco viaturas, para os três teatros, com especial incidência na Guiné.
   Se o problema das auto-metralhadoras ficou resolvido (qualitativamente) com as AML,  já o mesmo não se passava quanto às viaturas blindadas de transporte de pessoal (VBTP) que as deveriam acompanhar. Face às dificuldades de obtenção de um veículo que correspondesse aos desideratos operacionais (nos mercados acessíveis), foi apoiada a produção nacional de uma VBTP e assim nasceu a Chaimite, baseada na Cadillac Comando e que incorporava material de várias origens. Estavam inicialmente previstas versões AM, com canhão de 20 mm, e VBTP, com morteiro de 60 mm e duas metralhadoras de 7,62 mm, mas nenhuma destas versões foi produzida, saindo apenas uma com duas metralhadoras de 7,62 mm e um dispositivo pneumático para o lançamento de dilagrama, só empregue na Guiné.
 

  Relativamente aos carros de combate, somente em Angola foram utilizados, a título experimental, dois M5A1 por uma unidade de cavalaria na região de Nambuangongo, nos finais dos anos 60.
  Orgânica: Quanto à distribuição orgânica de armamento, as características próprias da guerra de guerrilhas, e mesmo as especificidades de cada frente, cedo levaram à criação de unidades que se afastavam do modelo convencional, quer pela ausência de certo tipo de ameaças (aérea e blindada, por exemplo), quer pela necessidade de racionalizar os parcos meios existentes. Deste modo, desapareceram das unidades as armas anticarros e antiaéreas, ou foram empregues noutras missões, como aconteceu com o lança-granadas-foguete.
  As primeiras companhias de caçadores, que seguiram ainda em 1960, tinham distribuídas 110 espingardas Mauser, 12 metralhadoras ligeiras Dreyse e três metralhadoras Breda – na orgânica convencional seriam nove Dreyse e três metralhadoras ligeiras com tripé. Esta tendência teria continuação: por um lado, redução nas armas ligeiras; por outro, descida de escalão das armas pesadas, montadas em viaturas e instaladas para defesa de aquartelamentos. Posteriormente, as companhias de caçadores foram dotadas de lança-granadas-foguete e de morteiros de 60 mm, que já se incluíam na dotação das unidades clássicas, mas com novo conceito de emprego. A título de exemplo, a distribuição na Guiné. 

 

 Conclusões: 

  - A primeira conclusão a que se pode chegar é que o armamento ligeiro existente em 1961 estava obsoleto: as espingardas eram de repetição, de calibre ultrapassado, as metralhadoras, do mesmo calibre, datavam da II Guerra Mundial e o material mais moderno estava, por regra, submetido aos acordos NATO quanto ao seu emprego. Paralelamente, este último não era adequado para a guerra de guerrilhas: peso elevado, excesso de potência, armamento pesado vocacionado para a luta anticarro e antiaérea, munições não apropriadas. Consequentemente, o material enviado para o ultramar era o mais antiquado, inclusive anterior à II Guerra Mundial;
  - O eclodir da guerra, se não apanhou o Exército completamente desprevenido, apanhou-o mal equipado; e a situação política internacional complicou ainda mais a obtenção, agora urgentíssima, de armamento que, a bem dizer, já estava vulgarizado – e até ultrapassado – noutros exércitos europeus. Para isso, houve que recorrer aos fornecedores acessíveis e improvisar a nível interno;
  - É de salientar o esforço feito pela Fábrica de Braço de Prata (FBP) ao conseguir, em meses, a produção de componentes de G-3, e em pouco mais de um ano a arma completa; bem como a produção da HK-21 em 15 meses, com todos os problemas de transferência de tecnologia, aquisição de maquinaria, preparação de pessoal, ...;
  - Também de realçar a criatividade demonstrada quer na produção de materiais novos (dilagrama, lança-rocquetes-morteirete), quer na adaptação e manutenção de velho já existente, sobretudo viaturas blindadas, tudo a par com a criação de doutrina táctica e de técnicas de emprego;
  - Outra conclusão que se pode tirar é a da equivalência do armamento entre as partes em conflito: se exceptuarmos a artilharia (com as limitações já apontadas) e as viaturas blindadas (de emprego também limitado), pode dizer-se que o combate terrestre se travou, salvaguardando os efectivos, “entre iguais”.
 


 
 
 
 
 Comparação Portugueses/Guerrilhas  
Guerrilheiro VS Soldado Português
  A KALASH era a arma individual adoptada pelos exércitos da URSS, da China e dos países do antigo Pacto de Varsóvia, e foi com ela que os movimentos de libertação se equiparam. É arma robusta, leve e com elevado poder de fogo, fiável mesmo nas situações mais extremas e que não tinha equivalente nas armas individuais fabricadas noutros países europeus e americanos. Relativamente à G-3,  a Kalash apresentava as seguintes vantagens: era mais leve (-225 gramas), mais curta (-15cm), e o carregador levava, para um peso total inferior, mais 10 cartuchos. Isto é, considerando que o combatente transportava para operações um carregador na arma e quatro nas cartucheiras, um soldado português dispunha de 100 cartuchos, enquanto, com menor peso, um guerrilheiro tinha 150.

 Características Técnicas  
 Espingarda KalashnikovEspingarda G-3:
Calibre 7,62mm7,62mm
Comprimento 870mm1025mm
Peso sem Carregador4,8kg5,025kg
Cadência Máxima de Tiro
(tiros por minuto)
600tpm550tpm
Capacidade do carregador cartuchos30 20
Alcance Prático400m400m

In D.N., fasc.22, pág.260/261

  Equipamento: Ao longo dos anos da guerra, o armamento individual e o equipamento dos soldados portugueses e dos guerrilheiros foi evoluindo de modo a adaptar-se às características da guerra e do meio ambiente, embora condicionado, a maior parte das vezes, pelas oportunidades de fornecimento. Mas pretendeu-se sempre dotar o combatente, fosse o soldado das forças portuguesas ou guerrilheiro, de equipamento e armamento que lhe permitisse viver autonomamente em zona tropical e combater durante um período médio de quatro a seis dias.
  Basicamente, o combatente dispunha de fato de combate (camuflado ou de cáqui), de equipamento com cinturão, mochila, cartucheiras, porta-carregadores e cantil, e de arma individual. 
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Das Guerrilhas

Anti-aérea

armas de apoio

  Os movimentos de libertação utilizaram armamento e equipamento de diversas proveniências, mas a grande maioria do seu material de guerra tinha origem em países do bloco socialista. A URSS e os seus aliados foram os principais fornecedores das forças de guerrilha. Os tipos de armas individuais e colectivas, ligeiras ou pesadas, eram os mesmos, embora por vezes os modelos mais antigos do que aqueles que equipavam os respectivos países, incluindo a China. Ao longo da guerra, e sobretudo no seu início, surgiram armas e minas de países ocidentais, nomeadamente pistolas-metralhadoras Thompson, minas italianas e inglesas e metralhadoras alemãs, sendo algumas destas armas também utilizadas pelas tropas portuguesas.
  Os movimentos de libertação, apesar de algumas dificuldades em armar e equipar as suas forças, dispuseram, de modo geral, de armas mais adequadas à guerra do que os soldados portugueses. Neste campo, como no da organização, instrução e capacidade para combater, o PAIGC foi o movimento que dispôs de melhor e mais moderno material, cobrindo toda a panóplia de meios, desde o armamento ligeiro para a infantaria aos morteiros, lançadores de foguetes e obuses de artilharia, armas anti antiaéreas, incluindo mísseis, e viaturas blindadas, que utilizou no início de 1974, no Sul da Guiné, no ataque à guarnição de Bedanda. Estava prestes a dispor de aviões, contando já com os respectivos pilotos. A Frelimo também evoluiu rapidamente na capacidade para operar armas mais eficazes e em grande quantidade, preparando-se para o emprego de mísseis antiaéreos em 1974, tendo já elevada capacidade para usar minas. O MPLA, por sua vez, após vários anos de grandes dificuldades de acesso a fornecimentos de material, que reflectia a indefinição dos seus apoios políticos, melhorou rapidamente o potencial militar a partir da instalação na Zâmbia, o que lhe permitiu obter hegemonia no Leste de Angola. A FNLA recebeu sempre o apoio do Congo-Zaire e do seu exército, mas empregou as suas capacidades, prioritariamente, no combate ao MPLA e em disputas internas, enquanto a UNITA se defrontou com carências de toda a ordem, sendo o movimento mais fracamente armado.

 

Algumas das armas utilizadas pelos movimentos de libertação:

           
  
Espingarda de Repetição / 2 Espingardas Semiautomáticas
Espingarda de Repetição / 2 Espingardas Semiautomáticas
Armas automáticasMetralhadoras Pesadas
Metralhadoras Pesadas
Metralhadorss Ligeiras
Metralhadors Ligeiras
Abrigo de Metralhadora Antiaérea do PAIGC
Abrigo de Metralhadora Antiaérea do PAIGC
Armas Anticarro
Armas Anticarro
 Armas Antiaéreas
Armas Antiaéreas
 
 


 
 
 
 
Minas
Minas

    As MINAS foram as mais temidas de todas as armas que os nossos militares enfrentaram nos três teatros de operações. Utilizadas de forma isolada, ou conjugadas com emboscadas, limitaram fortemente a mobilidade das forças portuguesas em acções tácticas e logísticas, apeadas ou em viatura, sendo também responsáveis por atrasos nos reabastecimentos, por destruições em veículos e, acima de tudo, por elevada percentagem de baixas.
  Embora a estatística não esteja feita, amostragens dos três teatros de operações permitem considerar que, no mínimo, 50 por cento das baixas portuguesas (mortos e feridos) foram provocadas por engenhos explosivos. Um tipo de guerra altamente compensador para os movimentos de libertação, cujos objectivos eram apresentados do seguinte modo, nos apontamentos de um curso frequentado na Argélia por quadros do PAIGC: "Realiza-se a guerra de destruição e de minas para fazer obstáculo atrás dos inimigos, para aniquilar as suas armas modernas, ameaçá-los e paralisá-los.
  "Contudo a utilização das minas na guerra não foi exclusivo dos guerrilheiros, pois as forças portuguesas também fizeram largo emprego delas e de outros engenhos explosivos, usando-os na defesa das suas instalações, para proteger as tropas em operações e para provocar baixas, mas, ao contrário dos guerrilheiros, recorreram maioritariamente às minas antipessoias e às armadilhas com granada explosiva de fragmentação e rebentamento instantâneo, detonada através de arame de tropeçar. Por parte dos movimentos de libertação, além das minas anticarros foram também utilizados "fornilhos", quase sempre constituídos por granadas de mão, de morteiro e de artilharia, não rebentadas, e bombas de avião conjugadas com explosivos e accionadas por mecanismo de explosão - detonador eléctrico ou pirotécnico. Os "fornilhos" eram colocados nos itinerários e conjugavam o efeito das minas anticarros com as minas antipessoias.
  A primeira mina utilizada pelos movimentos de libertação contra as forças portuguesas era antipessoal (A/P) implantada na estrada Zala-Vila Pimpa, no Norte de Angola, em 6 de Junho de 1962. A primeira mina anticarro (A/C) surgiu seis dias depois, em 12 de Junho de 1962, na pista da povoação de Bembé. Em 1963, a colocação de engenhos explosivos estendeu-se ao Leste e a Cabinda.


  Na Guiné, a primeira mina referenciada era anticarro, colocada na estrada Fulacunda-São João, em Julho de 1963, tendo sido aqui também utilizadas minas aquáticas nos rios, que chegaram a inutilizar lanchas. Um documento elaborado depois de uma operação realizada, em 1970, por um DFE e por uma secção de mergulhadores-sapadores refere a existência de engenhos explosivos submersos colocados na confluência do rio Cobade com o rio Como, reunidos num grupo de quatro a seis flutuadores, bem como a suspeita de "outros objectos flutuando a meia água que denunciam a existência de um campo de minas estendendo-se por uma zona de cerca de 600metros".

Accionamento das minas

Detecção de minas

  Em Moçambique, o aparecimento de engenhos explosivos ocorreu em 29 de Maio de 1965, em Nova Coimbra, no Niassa, e em 4 de Julho, em Nancatari, Cabo Delgado, enquanto q primeira mina antipessoal (A/P) surge em 14 de Junho, em Coubé (Niassa), e a primeira anticarro (A/C) em 10 de Outubro, em Sagal (Cabo Delgado), na estrada Mueda-Mocímboa da Praia.
  Ao longo dos anos da guerra, a utilização de minas por parte dos guerrilheiros nos três teatros teve a máxima expressão em Moçambique. Primeiro nas zonas do Niassa e do Cabo Delgado/Mueda e, posteriormente, na de Tete/Cahora Bassa. Moçambique reunia as condições ideais para a utilização deste tipo de arma por parte da Frelimo, pois as vias de comunicação indispensáveis às forças portuguesas eram extensas e más, não existindo nas zonas de guerra estradas alcatroadas. Por seu lado, os guerrilheiros dispunham da vantagem de as acções bélicas se desenrolarem relativamente próximo das suas base logísticas, o que facilitava o transporte do grande volume de cargas que a guerra de minas exige. Não admira, pois, que em Moçambique os principais itinerários de restabelecimento das forças portuguesa se tenham transformado em verdadeiros campos minados. No início dos anos 70, o percurso de cerca de 200 quilómetros entre Mueda e Mocímboa da Praia chegou a demorar 11 dias, quando habitualmente era percorrido entre quatro a seis horas, e num só quilómetro de estrada encontraram-se, frequentes vezes, mais de 70 minas!
No Niassa, nas estradas que irradiam de Vila Cabral para Metangula, Nova Viseu ou Tenente Valadim, as minas, associadas à quase inexistência de vias, ao clima chuvoso e ao terreno ravinado junto ao lago transformaram os movimentos necessários à sobrevivência das tropas e ao seu emprego em combate em operações de grande duração e desgaste, que esgotavam só por si as suas capacidades e lhes retiravam a iniciativa.
  È ainda em Moçambique que se regista o maior emprego de minas por parte das forças portuguesas. O general Kaúlza de Arriaga, em carta ao ministro da Defesa, Sá Viana Rebelo, em 29 de Janeiro de 1973, solicitou o fornecimento de 150 000 minas antipessoias para Cahora Bassa e um milhão para interdição da fronteira norte, junto ao rio Rovuma.
  Num ponto de situação feito ao comandente-chefe, em Vila Cabral, foi referido que na zona do Niassa, em 1972, os guerrilhemos haviam realizado 412 acções, das quais 223 foram colocação de engenhos explosivos (54 por cento do total). Destas, 78 foram accionadas pelas forças portuguesas, que sofreram 43 mortos, 51 feridos graves e 151 feridos ligeiros.
  De 1964 a Junho de 1970, foram detectadas pelas nossas tropas 5290 minas e engenhos explosivos, das quais 1894 accionadas por militares ou viaturas.
Em Moçambique, tal como em Angola, no caminho de ferro de Benguela, também nas linhas férreas da Beira e de Nacala foram implantadas minas, que dificultaram o transporte de mercadorias e reabastecimentos, obrigando a complexas e desgastantes operações de escolta.
 As minas são constituídas normalmente, por três partes: caixa, de madeira, plástico ou metal, carga explosiva e espoleta para accionar.
  O seu efeito pode ser por sopro ou pela sua conjugação com os estilhaços provocados pela explosão, e a pressão sobre um prato foi a forma mais comum de accionamento dos que foram utilizados durante a guerra. Quanto à sua finalidade, as minas podem ser contra pessoas e contra viaturas. As primeiras têm cargas explosivas variáveis, que vão das cem gramas, como a Encrier, às quatrocentas da Viúva Negra ou da PMD-6, sendo reguladas de modo a que o peso de um homem faça accionar a espoleta. As minas anti-carros, podem ter cargas explosivas de alguns quilos, dependendo do tipo de viatura que se pretende atingir e variando as pressões de acordo com essa intenção.
  Durante a guerra foram utilizadas, quer pelas forças portuguesas quer pelos guerrilheiros, combinações de minas anti-pessoais e anti-carros com outros tipos de explosivos e materiais destinados a provocar estilhaços ou a propagar fogo, assim como técnicas de armadilhar minas, colocando-lhes por baixo, ou em zona próxima, engenhos que rebentavam quando essas minas eram levantadas.
  Dai o perigo que existia em todas as operações de neutralização de minas, o que fazia com que fossem destruídas através do accionamento controlada por outro explosivo.
  As minas que os movimentos de libertação utilizaram com maior frequência, tinham quase todas origem em países de bloco de leste, embora aparecessem algumas francesas e italianas. 
  As forças portuguesas utilizaram, ao longo da guerra, todos os meios conhecidos de detecção de minas e explosivos, destacando-se a picagem, cuja morosidade apenas permitia o seu emprego em área limitada; os pesquisadores, meio mais eficaz, mas igualmente demorado; e os rebenta minas, abundantemente utilizados nas colunas motorizadas, permitindo velocidades de progressão consideradas consideráveis.
  Foi ainda proposta, embora sem resultado, a utilização de cães treinados, tendo em conta experiências feitas pela África do Sul.
Rebentamento de uma mina  Os rebenta minas foram estudados com muito pormenor, especialmente em Angola, acabando quase sempre por se reduzir ao equipamento de uma viatura Berliet, que seguia em frente da coluna com sacos de areia, e à especial protecção do condutor, único ocupante.
  Os dispositivos montados à frente da viatura, estudados inclusivamente com a colaboração da universidade de Luanda e fabricados pelo depósito material de guerra de Angola, nunca tiveram grande aceitação.
  A coluna um a um, em fila indiana ou a bicha de pirilau, foi a formação de combate mais utilizada pelos militares portugueses nas suas deslocações apeadas pelas matas de África. Seguir por trilho já aberto na floresta ou avançar a corta-mato era a difícil opção a tomar em cada momento da progressão. Abrir caminho na floresta densa ou na savana de arbustos e ramos entrançados e espinhosos era mais seguro, mas constituía esforço tremendo que os esgotava em poucos quilómetros enquanto que aproveitar os trilhos já batidos pelas populações ou abertos por outros militares permitia avançar com maior facilidade, mas representava risco acrescido de enfrentar uma emboscada ou mina. Optar por uma ou outra das soluções resultava da análise da situação, mas era sempre jogo perigoso. Quando havia que chegar rapidamente aos objectivos e os tropas julgavam que a sua presença não for a ainda detectada escolhia-se marchar pelos trilhos e confiava-se na sorte. O soldado numero um da formação procurava ler o terreno onde lia os pés e ver para alem das arvores que se encontrava diante de si, de modo a evitar as minas e a estar preparado para reagir a alguma emboscada.
   Sabia-se que os guerrilheiros colocavam minas e armadilhas nos trilhos por onde previam a aproximação das tropas inimigas às suas bases ou zonas controladas, tendo o cuidado de assinalar esses locais de forma camuflada, só conhecida das populações da área. Um corte aparentemente fortuito dum tronco de certa arvore, um ramo partido ou um feixe de capim caído serviam de sinais, mas os militares portugueses dificilmente os conseguiam interpretar.


Esquema da "Viúva Negra"
Rebentamento de mina
 


 

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