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História (2/3)

A esta altura o movimento pró – associação já contava com cerca de 40 agricultores. Alguns destes compraram um tractor “o xano” como foi baptizado. Este velho tractor foi muito importante para o transporte da resina recolhida pelo grupo mais activo de agricultores que entretanto já haviam realizado na aldeia um curso de resineiros. Esta resina era directamente entregue na fábrica em Leiria. Os agricultores de Barcouço estavam conscientes que só assim, sem intermediários a sua situação de vida se alterava.

Duas linhas se desenhavam durante as reuniões: a dos que pretendiam uma Cooperativa de comercialização e a dos que queriam a Cooperativa de produção. Quando naquela reunião de Março de 1975, foi decidida a organização de uma cooperativa de produção através da união das terras, um forte receio apoderou-se de alguns.

O “papão-comunista” funcionou: receavam que lhes fossem retiradas as terras. As calúnias cresciam e o facto de estar em curso um levantamento e medição de terrenos para a elaboração dos futuros estatutos da Cooperativa, pelo DR. Sobral Martins fazia com que os membros da Pró-Cooperativa fossem até chamados de “ladrões de terras”.

Foi neste momento que os agricultores de Barcouço se descobriram sozinhos com o seu projecto do qual não desistiram. A acção da comissão Pró-cooperativa prosseguiu em duas frentes: mobilizar a população, esclarecendo-a e legalizar a Cooperativa.

 

Como já foi dito durante o ano de 1975, os agricultores não concederam a exploração da resina, aos resineiros, todavia esta situação era insustentável! A mobilização das pessoas para o processo de legalização da cooperativa tinha que ser feito, e as actividades de produção colectiva precisavam de dar frutos.

 

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Em 8 de Março de 1976 a Cooperativa de Barcouço foi legalizada como UNIDADE COLECTIVA DE PRODUÇÃO. A legalização vinha permitir o recurso ao crédito e também a união de cerca de 40 a 50 cooperadores que lutavam por uma realidade -A COBAR.

Havia passado pouco tempo após a compra do «xano» mas nas terras dos agricultores já se viam crescer vários produtos hortícolas, alguns deles semeados por operários de Setúbal que visitaram a Cooperativa. Estes produtos eram vendidos em Coimbra e em Lisboa através de outras associações.

É nesta fase que as mulheres tomam parte activa no desenvolvimento da Cooperativa, cozem o pão que vão vender a outras cooperativas e associações, recolhem dos campos tudo o que pudesse ser comercializado, e vêem assim o seu trabalho a ser reconhecido e o seu estatuto de mulher a melhorar. São elas que acompanham os maridos ás reuniões todos os sábados e são elas que são destacadas para os diversos serviços da Cooperativa, excepto para o serviço da resina. Todos estes serviços de homens e mulheres eram feitos gratuitamente.

Muitas foram as calúnias e represálias sofridas por quem se integrava nesta associação. O facto de elementos do P.C. visitarem Barcouço amiúde, fez com que na zona se criasse a ideia de que a Cooperativa, era uma associação comunista (o que não era verdade visto existirem elementos de Direita, do P.S., do M.R.P.P. e até da U.D.P.) circunstância é que ainda hoje 20 anos depois Barcouço é ainda conhecida e chamada por: ALDEIA VERMELHA.

Foi de facto muito importante a ajuda dada por militantes da U.D.P. na organização de tudo, até porque foi um filho de um colaborador, militante do partido, que impulsionou o desenvolvimento da Cooperativa. No entanto teremos sempre que ter presente que o foi com contributo de todos estes homens, do M.R.P.P. e principalmente da U.D.P. que a população se sentiu segura para a arriscar por algo melhor para a sua vida.

Durante o ano de 1976, o movimento dos agricultores de Barcouço, é reconhecido por sectores operários e intelectuais. As ofertas começam a surgir, e é no dia 6 de Junho desse mesmo ano que em nome dos trabalhadores da Lisnave é oferecido à COBAR um tractor, alfaias agrícolas e 2 vacas leiteiras.

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Também da CUF chegam 5000 kg de adubos e do Sindicato da construção civil de Lisboa foram entregues 100 contos. A COBAR foi apoiada por operários, trabalhadores de serviços, estudantes, intelectuais e muitos outros. Barcouço começava a ser conhecido por todo o país. Toda esta onda de solidariedade deu a vontade ao povo de continuar a lutar, coragem para mostrar àqueles que diziam que “a COBAR era uma organização de malandros e de ladrões de terras”, que a união fazia a força.

Assim, no dia 19 de Outubro de 1976 no Cartório Notarial da Mealhada, foram assinados e reconhecidos os Estatutos que constituíam a Cooperativa Agrícola que se denominaria de COBAR- COOPERATIVA DE PRODUÇÃO AGRO-PECUÁRIA DO BARCOUÇO -sociedade cooperativa anónima de responsabilidade limitada.

A legalização vinha permitir o recurso ao crédito e também a união de cerca de 50 trabalhadores que lutavam por uma realidade – A COBAR.

A cooperativa pouco a pouco estendia as suas actividades à pecuária, à criação de bezerros, a uma ordenha e ainda de um pequeno aviário. Constituíam-se grupos de trabalho dividindo-se pelas seguintes secções: Comercialização, Contabilidade, Sócio Cultural e de Produção. Foi a secção de produção que desenvolveu uma actividade mais intensa e persistente. A Cooperativa tinha começado pela questão da resina e aqui deram os sócios o seu melhor apoio. Todos trabalhavam com o mesmo propósito, sem remuneração, mas nem esta ausência os desanimou. Pelo contrário: a Cooperativa fortaleceu-se apesar dos erros e dificuldades encontradas.

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Durante o ano de 1976 enquanto a COBAR crescia e se consolidava, nasciam mais duas cooperativas de produção agro-pecuária em duas povoações vizinhas. Deve sublinhar-se uma vez mais que durante o ano de 1976, os sócios trabalhadores da Cooperativa não receberam dinheiro pelos dias de trabalhos prestados na COBAR. Ainda em 1976 inicia-se os trabalhos na ordenha, com bezerros comprados, com as ajudas recebidas e as vacas leiteiras dadas pela Lisnave, num barracão de um dos sócios, o Sr. Salvador. Ao mesmo tempo foi criado um posto de vendas onde os produtos colhidos das terras, amanhadas pela Cooperativa e outros eram vendidos. Aqui neste posto de vendas, a renda já era paga, uma vez que nunca chegariam a ser compradas instalações para este fim. Era também dentro de um velho barracão emprestado por amigos da Cooperativa (sede provisória) que todos os sábados à noite se reuniam os associados para analisar e discutir os vários problemas. Aí discutiram-se também os Estatutos e as condições de acesso ao estatuto de sócio, tendo cada um destes que contribuir com o capital mínimo de 100$00. No entanto quem entregasse terras à cooperativa para exploração recebia uma renda. Esta nunca foi paga, bem como a mão-de-obra dos associados. No caso de ceder só as terras e não trabalhar nelas tornava-os em sócios de apoio, podendo ser eleitos e eleger para o Conselho Fiscal e para a Assembleia-geral. Os sócios que além de entregar as terras, também trabalhassem, tinham o direito de eleger e ser eleitos para todos os órgãos sociais da Cooperativa incluindo a Direcção. Quem não tivesse terras podia também ser sócio produtor, bastava para isso que trabalha-se e estivesse inscrito na Cooperativa.

As reuniões de sábado não serviam só para tratar de assuntos da cooperativa, serviam principalmente para unir todos os sócios através do convívio que ali se fazia.

O mundo da cooperativa deixou de ser somente um mundo de trabalho e passou a ser também um mundo de amizade e intercâmbio entre várias cooperativas. Não só os sócios lá estavam, mas também a mulher e os filhos que trabalhavam na leira familiar e que foram trabalhar para a cooperativa quando as terras passaram a ser exploradas em conjunto. Todos participavam das reuniões, embora só o chefe da família pudesse ser juridicamente considerado sócio. Por isso elegível e eleitor. Esta situação é um tanto injusta para as mulheres e para os jovens mas constituía provavelmente problema semelhante à igualdade de salários homens-mulheres. As reuniões de sábado à noite passaram a ser o coração da cooperativa, a sua vida ou morte caso não se encontrem saídas positivas para estas contradições.

Faziam-se várias excursões de três dias e pessoas que nunca tinham visitado pouco mais que a cidade de Coimbra, viram-se a passear por esse Portugal fora.

Desde o norte de Espanha, ás praias algarvias, e principalmente no coração do Alentejo (lugar muito especial, não tivesse sido aqui a origem de todas ou quase todas as cooperativas deste género!) os sócios da cooperativa eram sempre bem recebidos e os seus filhos maravilhavam-se com todos aqueles lugares que só agora os seus pais lhe podiam mostrar!
A cooperativa funcionou principalmente, como forma de união entre as pessoas e “era a tábua de salvação”para os que sofreram as repressões de um regime politico durante 50 anos, daqueles que não podiam competir economicamente com os “poderosos “ da aldeia e que até a nível social eram marginalizados.

A vida dentro da Cobar era de muito sacrifício e de muito trabalho mas também de muito convívio.

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