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ENTREVISTA COM ALPOIM CALVÃO

 

Nasceu em Chaves, viveu em Moçambique, frequentou a Escola Naval, fez o curso da Marinha, esteve várias vezes na frente de combate, na guerra de África.

Alpoim Calvão, 57 anos, um dos oficiais mais condecorados das Forças Armadas (com, entre outras, duas Torre e Espada), tão polémico quanto aventureiro e arrojado, distinguiu-se em Novembro de 71 quando conduziu a célebre - e fracassada - invasão da Guiné-Conakry. Se não se recusa a falar disso, remete contudo o fundo e a forma dessa operação para o relatório - da sua autoria - onde constam, em detalhe, todos os meandros dessa controversa invasão.

Vinte anos depois, vive ainda "com o espinho de África no coração e na memória". Talvez por isso mesmo, quando se apercebeu da irreversibilidade da perda do império, meteu-se em Portugal e no PREC, à contra-revolução - da qual foi um dos mentores e, certamente, um dos principais executantes.

É esse itinerário que hoje, de forma desassombrada - e uma vez mais, polémica -, ele refaz aqui. Uma espécie de contra-25 de Abril revisto por este homem que hoje administra empresas, enquanto nos intervalos, continua a dedicar-se a aumentar a sua raríssima colecção de arte.

Pela maneira como o dia [25 de Abril] decorreu, percebi que se abrira a Caixa de Pandora e que todos aqueles homens estavam embriagados com a possibilidade de serem pequenos Che Guevarazinhos. Depois, todo o processo revolucionário andou durante meses aos solavancos e encontrões, ao sabor do acontecimento do dia..."

"Tínhamos [o MDLP] contactos estreitos com muitos oficiais. No Conselho da Revolução, com Canto e Castro e Pinho Freire, por exemplo, mas dentro do Exército também. O Eanes foi contactado mas como já estava comprometido com o grupo dos Nove, não pôde aceitar. No entanto, esteve sempre ao corrente de tudo, soube a cada momento o que se ia passando."

"Se houvesse um conflito armado [em Portugal] havia que estar preparado para ele. Pela minha parte arranjei duas mil armas que pedi ao Holden Roberto em troca de uma operação que faria para ele - fechar o porto de Luanda - que afinal acabou por não se consumar. Mas isso é outra história... Mas o Holden Roberto cumpriu a parte dele, entregou-me duas mil armas e quinhentas mil munições."

"Tinha a mesma desconfiança em relação a muitos militares, por exemplo: vinham aos molhos comer à mesa do poder! Alguns Conselheiros da Revolução andavam num desvario, para dividir os BMW do Jorge de Brito ou os Mercedes do Jorge de Mello... Outros, civis ou militares, insultavam diariamente na rádio os soldados portugueses que estavam em África..."

"Um dos responsáveis pelo sucesso desse 25 de Novembro foi o Otelo. Porque foi ele que reintegrou o Jaime Neves nos Comandos. Ele fora saneado por um grupúsculo de extremistas... Se ele não o tem feito, estou certo de que o 25 de Novembro não teria ocorrido nem naquela data, nem daquela maneira."

"Apareceram aí umas bombas [já depois do 25 de Novembro] que ninguém mandou pôr. Antes disso, podem dizer que fui eu que as mandou pôr, a todas, que eu não desminto. Depois disso, nem uma! Bem, as coisas foram-se resolvendo pelo tempo e pelo diálogo, embora, dentro daquilo que restava do MDLP, houvesse ainda quem continuasse a pôr bombas quase por profissão... "

ENTREVISTA

PÚBLICO - Quando é que ouviu falar pela primeira vez do 25 de Abril?

ALPOIM CALVÃO - Quando fui convidado a participar no movimento pelo então comandante Pinheiro de Azevedo.

P. - Quando foi isso?

R. - Umas 6 ou 7 semanas antes do 25 de Abril.

P. - Aceitou?

R. - Não, não aceitei. Ele falou-me (diante de alguém que pode testemunhar esta conversa), num movimento que pretendia pôr fim ao regime anterior e na necessidade da democratização. Fiz-lhe a única pergunta que para mim era fulcral: "E o ultramar, como é?" Respondeu-me que era uma questão de autodeterminações, achei que isso era vago e insisti. Claro que eu achava que as democracias são os menos maus dos regimes mas queria garantias sobre o ultramar. Como ele não saísse das auto-determinações, pedi-lhe para não contar comigo.

P. - Conhecia bem Spínola, estivera com ele na Guiné. Nunca falaram do MFA?

R. - Não.

P. - Tinha lido o livro dele?

R. - Li o "Portugal e o futuro".

P. - O que achara? Como lera o livro?

R. - Era uma achega importante para o único problema que tínhamos que era politico. Era uma reflexão que toda a gente fazia: tendo as Forças Armadas durante 13 anos dado um espaço de manobra para, na metrópole, se pensar politicamente o problema e se tomarem iniciativas,a verdade é que ninguém as tomava. Considerei o livro do general Spínola como uma forte contribuição para explicar ao poder constituído,que havia outras soluções para além daquele imobilismo.Todos percebíamos como eram frágeis os meandros do poder - como aliás se confirma por esta correspondência entre Marcello Caetano e Salazar: era complicada e frágil a teia de poder dentro da tão apregoada ditadura...

P. - No dia 25 de Abril, quando viu os seus camaradas na televisão, o que disse a si próprio?

R. - Conhecia alguns: Spínola, Costa Gomes, o Bruno, o Garcia dos Santos que era do meu curso. Mas vi ali gente que me deixou as maiores dúvidas. O Melo Antunes, por exemplo. Eu sabia - pela convivência que com ele tivera quando frequentámos ambos a Escola do Exército -, que era um homem de raiz marxista, o que aliás nunca escondeu. Pela maneira como o dia decorreu, percebi que se abrira a Caixa de Pandora e que todos aqueles homens estavam embriagados com a possibilidade de serem pequenos Che Guevarazinhos. Depois, todo o processo revolucionário andou durante meses aos solavancos e encontrões, ao sabor do acontecimento do dia... O que evidentemente impediu qualquer acção - por parte das forças que se agruparam atrás de Spínola -, de se pôr em prática o programa inicial do MFA.

P. - Mas naquele contexto e quarenta anos depois de Salazar, não era fatal que o sinal da revolução fosse à esquerda?

R. - Na época era fatal, senão chamar-se-ia contra-revolução. Esse romantismo revolucionário que achava que só é legítima a libertação dos povos pela força das armas... Toda a génese dos movimentos independentistas das ex-colónias veio desse conceito global da liberdade pela luta armada. Razão pela qual eu, concordando com a necessidade do Movimento do MFA, dissera a Pinheiro de Azevedo que se deveria tomar o poder mas endurecer ainda mais as condições. É que havia uma clivagem entre quem estava em África e o ar da Metrópole... Custava a quem combatia lá, ver aqui uma certa euforia, um certo laxismo...

P. - Então o que teria advogado?

R. - Nos primeiros seis meses redobrar-se-iam os esforços de guerra onde havia guerra, Guiné, Angola, Moçambique. Depois, anunciar-se-ia ao mundo que iríamos dar a autonomia a Cabo Verde e S. Tomé - às outras não, porque se estava em guerra. Uma autonomia passando pela autodeterminação que escolhessem: com Portugal, ou associados a Portugal ou independentes de nós. Isto ter-nos-ia dado uma força negocial muito maior e tiraria a razão aos movimentos que nos combatiam pelas armas. Nunca ninguém fizera tentativas de diálogo para obter, de outra maneira, independências ou auto-determinações, começou-se logo na luta armada...

P. - Voltando a Portugal: qual foi a sua quota parte no 28 de Setembro?

R. - O 28 de Setembro foi organizado por pessoas ligadas ao general Spínola e foi uma última tentativa para lhe dar uma demonstração de apoio cívico, na ideia de que ele poderia reconduzir uma vez mais o PREC aos princípios ditados e aceites pelo povo, no dia 25 de Abril.

P. - O general Spínola estava desesperado? Ou desnorteado?

R. - Ele nunca pediu aquela mobilização que nós pretendíamos. Mas em múltiplas conversas contou as suas imensas preocupações sobre a velocidade com que tudo lhe escapava das mãos, com que as pessoas mudavam de opinião; a velocidade com que, por exemplo, Costa Gomes, em 25 de Agosto de 74, lhe tirara o tapete dos pés. E sobre a tristeza e o desgosto com que fora obrigado a fazer um discurso sobre a independência de Moçambique, porque Costa Gomes lhe anunciou que haveria 150 companhias que se renderiam se ele, Spínola, não anunciasse imediatamente o fim das hostilidades...

P. - ... mas porque é que ele não denunciou as pressões de que era alvo, não se opôs a elas?

R. - Mas ele tentou opôr-se de todas as maneiras! Repare que para se poder manifestar tinha que dar ordens a alguém mas esse alguém nunca cumpria essas ordens...

P. - Quem era esse "alguém"? Costa Gomes?

R. - Sim, o chefe do Estado Maior das Forças Armadas... A clivagem começou logo por aí.

P. - Mas o 28 de Setembro foi um fracasso rotundo...

R. - O partido comunista mobilizou-se totalmente, ergueu barreiras, etc. Lembro-me de as passar de pistola na mão para poder ir a Belém! Sei - por interposta pessoa, visto que lá não estive -, que numa reunião que houve nessa noite em Belém, o general Neto deu uma bofetada no Vasco Gonçalves, que este se queixou por o outro lhe ter batido, mas que não passou disto... Não apareceu ninguém na manifestação, as pessoas tiveram medo das barreiras, dos pregos no chão, etc. Os militares que haviam prometido movimentar-se não o fizeram... E ficou tudo na mesma e o general Spínola ainda mais isolado. Aliás nem no próprio Conselho de Estado ele teve apoio... O próprio professor Freitas do Amaral que lhe tinha proposto redigir dois decretos, um para o estado de emergência, outro para o estado de sítio, que eu saiba também não lhos redigiu...

P. - É a partir daí que decidem partir para outra? Reagir, passando para "formas superiores de luta"?

R. - Por curioso que pareça, essa reacção inicia-se com um documento que tem o visto do general Costa Gomes e de que eu tenho uma cópia [levanta-se, abre uma gaveta, tira um papel oferece-mo]. Está aqui, é um documento, apoiado por uma série de oficiais, em que se descreve a situação, sublinhando que ela nada tem a ver com o programa apresentado ao país em 25 de Abril, e em que se descreve a necessidade de mudar o estado das coisas. Por exemplo, esse texto historia as conclusões de uma reunião ocorrida de 7 para 8 de Agosto, segundo as quais sobressai a hipótese de anulação do Presidente da República e dos Chefes do Estado Maior do Exército e Força Aérea; denuncia a existência de uma Comissão Coordenadora que era ilegal - porque nunca fora prevista no programa do MFA - e ilegítima - porque nunca fora democraticamente eleita, etc. O general Costa Gomes - a quem se mostrou esse nosso documento por uma questão de ética militar -, apõe o seu visto, mas mais tarde, quando confrontado com ele, diz que o facto de lhe ter posto o visto e de o ter assinado, não significava que forçosamente concordasse.

P. - Daí até à formação do MDLP foi um passo?

R. - Este documento foi a génese e congregou à sua volta muita gente preocupada com o andar das coisas aqui e pelo rumo que elas tomavam em África onde se inventavam partidos políticos para lhes entregar o poder. O Almirante Rosa Coutinho, há tempos na televisão, disse mesmo que quando tomou posse do seu Alto Comissariado em Angola, não sabia a quem entregar o poder. Sabíamos que o MPLA há seis meses que desaparecera do terreno, a FNLA - disse-me pessoalmente o Holden Roberto, no Ambriz, em Setembro de 75 - tinha condições para aguentar mais um ou dois meses, a UNITA toda a gente sabia que teria 300 guerrilheiros. Ora é o MFA da época que força a entrega nestas condições: foi preciso andar a correr para agarrar os restos destes partidos, financiá-los, procurar quadros, etc. Tudo foi feito por esse MFA, sempre dominado pela aquela ideia dominantemente estúpida de que a liberdade dos povos só podia ser conseguida pela força das armas e que só os partidos que combatiam é que tinham direito a sentar-se á mesa das negociações e tomar o poder. Foi o que se passou.

P. - Entretanto houvera esse vosso documento e a derrota de Spínola. Em face disso, que decidiram fazer?

R. - A partir do discurso de renuncia dele,começou a haver conversações para se ver se se minimizavam os males.

P. - Isso é vago.O que queriam? Que objectivos tinham?

R. - Parar partido comunista. Fui formado na luta contra a ideia, a filosofia e a forma do comunismo,contra a ditadura do proletariado, contra o espezinhamento do homem e as "nomenklaturas" vivendo nas suas "datchas". Só se fosse insensível é que não partiria para esta guerra. Parti.

P. - Partiu então para essa guerra. Houve entretanto o 11 de Março: qual é a sua versão sobre esse acontecimento?

R. - Como era preciso parar o PC, começou a gizar-se-com a colaboração de membros do Conselho dos Vinte -, um plano para aproveitar certas facilidades que havia. Por exemplo: sabíamos que se poderia contar com a guarda de Belém, onde esse Conselho se reunia. Essa Guarda era assegurada por várias forças entre elas uma companhia de pára-quedistas cujo capitão estaria disponível para as operações que queríamos fazer.

P. - Quais eram essas operações?

R. - Prender alguns membros do Conselho dos Vinte que sabíamos ligados ao PC. E através de um golpe palaciano, travar o rumo do PREC. As coisas iam sendo eram cada vez mais difíceis, já nem tínhamos o general Spínola na Presidência da República... Mas foram-se instalando dúvidas, havia suspeitas de fugas de informação, desconfianças, alguns dos que estavam comigo consideraram que se tinha ainda de ouvir este e aquele, etc. A primeira tentativa - feita numa noite em que essa tal companhia estava de guarda - falhou justamente porque houve pessoas que não apareceram por causa das tais dúvidas. Ora esta companhia - cujo oficial comandante estava perto de nós -, só voltava a estar de serviço um mês depois, isto é, só se voltaria a tentar de novo, a partir de 17 de Março. Ora nesse intervalo, eu deixei-me estar, apesar de suspeitar já de fugas de informação gravíssimas. No dia 10 de Março um oficial vem ter comigo e fala-me da "matança da páscoa": uma "operação" que o PC iria levar a cabo para eliminar os contra-revolucionários, entre os quais eu. Não fiz caso mas de súbito algo me alertou. Foi quando esse amigo me disse que afinal a nossa tentativa de tomada de poder no Palácio de Belém - já programada para 17 - seria feita antes, dias depois. "Como?", interroguei-o. Ele disse-me que a Base Aérea de Tancos estava de acordo, que os pára-quedistas de Rafael Durão iriam participar e que bastava levar o general Spínola para Tancos e protegê-lo. Fui para Tancos sem saber o que se passava.

P. - Mas como é possível, que tenha caído daí abaixo, um oficial superior e experimentado como era?

R. - Eu estava preparado para, num golpe palaciano, agarrar alguns elementos do Conselho dos Vinte e não para aquilo... Mas se aquela gente a quem estivera ligado todo esse tempo estava na disposição de proceder de outra maneira, se me diziam que a Força Aérea estava connosco, eu confiei. Além disso já não havia tempo, era mergulhar ou abandonar o navio. Como não sou rato, fiquei. Apareci em Tancos às 2 da manhã, e ouvi Spínola, no meio da confusão e da efervescência, dizer-me: "Estou a ver que não há plano nenhum!" Disse-lhe que íamos tentar segurar alguma coisa. Tínhamos a Região Militar do Brigadeiro Morais, a própria Base de Tancos, etc. Mas desconfiei ainda mais quando ouvi o Comandante da Base de Tancos dizer ao telefone ao Chefe do Estado Maior da Força Aérea, general Mendes Dias, "que sim, que estavam todos com ele". Não houve nem organização, nem tempo, tudo se precipitou: os pára-quedistas saem para atacar o Ralis, os aviões descolam, mas tudo se processou sem base nem organização... Destruiu-se o Radio Clube mas ninguém sabia onde era a Emissora..

P. - Conclusão?

R. - Foi uma formidável armadilha essa história da "matança da páscoa"! Lançou-se o furão e os coelhos saíram. Algumas pessoas foram de helicóptero para Espanha com Spínola, outras ficaram. Quando o general foi para o Brasil - estava eu já em Madrid -, consegui arranjar meios de ir lá vê-lo a ele e aos os oficiais que o tinham seguido. Foi a partir daí que se começou a activar a Frente Democrática para a Libertação de Portugal, depois Movimento Democrático para a Libertação de Portugal.

P. - Onde e como recrutavam as pessoas para o MDLP?

R. - Era um movimento aberto, as pessoas passavam palavra... A partir de certa altura as fileiras foram engrossando e umas pessoas ficaram em Portugal, outras em Madrid. Eu? Andava de um lado para outro, a salto, apesar de diversos mandatos de captura e da acusação por 17 crimes.

P. - De onde vinham os financiamentos?

R. - Ao princípio, dos próprios. Houve muita gente do norte que contrabandeou coisas através da fronteira. Eu próprio vendi, num antiquário de Madrid, um serviço que me pertencia, da Companhia das Índias, com o qual financiei, de início, estas minhas andanças. Depois foram aparecendo pessoas, como por exemplo o Manuel Queiroz Pereira que contribuiam mensalmente para o Movimento. Depois, quem passou a controlar as finanças foi o dr. Manuel Cotta Dias.

P. - Havia muita gente do antigo regime ligada ao MDLP?

R. - Figuras de proa, não. Havia até pessoas que dantes haviam feito oposição ao regime e que passaram a colaborar connosco, não gostavam do rumo que o PREC tomava.

P. - E do regime saído do 25 de Abril?

R. - Repare que nós nos conhecíamos todos: sou do curso do Almeida Bruno, do Melo Antunes, do Garcia dos Santos, do Eanes, do Jaime Neves, etc etc. E o facto de termos estado pelo menos um ano juntos na Escola Militar, deu-nos um grande conhecimento, uns dos outros. Por isso, tínhamos contactos estreitos com muitos oficiais. No Conselho da Revolução, com Canto e Castro e Pinho Freire, por exemplo, mas dentro do Exército também. O Eanes foi contactado mas como já estava comprometido com o grupo dos Nove, não pôde aceitar. No entanto, esteve sempre ao corrente de tudo, soube a cada momento o que se ia passando. Lembro-me de que o tenente coronel Dias Lima, que estivera com Spínola na Guiné e na Presidência da República, se deslocou uma vez a Espanha para falar com Sá Carneiro quando ele lá estava em convalescença, para o informar. Havia também contactos com o CDS e com o próprio PS, mas a minha função no MDLP sempre foi essencialmente operacional...

P. - ... isto é?

R. - ... deslocava-me dentro do país, organizava as células, o MDLP chegou a ter uma estrutura complicada: um directório presidido pelo general Spínola; um Gabinete Político onde estavam o José Miguel Júdice, o José Vale Figueiredo, o Luís Sá Cunha, entre outros. E uma organização operacional composta pelo Gilberto Santos e Castro, pelo tenente coronel Pires de Lima e por mim próprio. E no interior, havia as comissões coordenadoras: uma no norte, outra no centro e estava-se a organizar a do sul.

P. - O que era o trabalho no "interior"?

R. - Mobilizar, esclarecer e inclusive cimentar a ideia de que, se houvesse um conflito armado - o que não excluíamos - havia que estar preparado para ele: saber onde se depositavam as armas, quais seriam as forças que nos três ramos das Forças Armadas distribuiriam as armas, etc.

P. - Onde arranjaram essas armas?

R. - No Exército, sobretudo. Pela minha parte arranjei duas mil armas que pedi ao Holden Roberto em troca de uma operação que faria para ele - fechar o porto de Luanda - que afinal acabou por não se consumar. Mas isso é outra história... Mas o Holden Roberto cumpriu a parte dele, entregou-me duas mil armas e quinhentas mil munições.

P. - Onde estavam essas armas?

R. - Estavam na Tunísia, transportámo-las como se fossem para Angola e o navio, ao chegar a Gibraltar, rumou a norte e foi para Cadiz. Aí, através de contactos que estabeleci com a Guarda Civil - e com a sua colaboração -, foi-nos indicado um pequeno porto onde foi possível descarregar o armamento e conduzi-lo, em camionetas, pela Espanha, até Tuy. Quando andávamos nisto, dá-se o 25 de Novembro e o MDLP começou a desfazer-se. E as armas foram entregues às autoridades espanholas.

P. - Queriam parar o Partido Comunista. Mas o dr. Mário Soares também. Como olhavam para ele? Não lhes parecia que ele estava bem colocado - com a maior parte do país atrás dele -, para lograr o vosso objectivo que era também o dele?

R. - Respeito o Presidente da República, já respeito menos o dr. Mário Soares. Passou pelo PC, trabalhou em S. Tomé para os latifundiários, em Paris foi advogado de banqueiros. Está no seu direito, foi uma opção. Mas quem como eu viveu a questão africana, não podia aplaudir nem concordar com o modo como ele, como Ministro dos Estrangeiros, correu pressurosamente pelo mundo fora, para entregar as províncias o mais depressa possível! Reconheço os seus dotes políticos, sei que é um homem de cultura, mas nesse tempo, tinha as maiores desconfianças daquela pressa toda!

P. - Só o dr.Mário Soares lhe incutia essa desconfiança?

R. - Não, claro, tinha a mesma desconfiança em relação a muitos militares, por exemplo: vinham aos molhos comer à mesa do poder! Alguns Conselheiros da Revolução andavam num desvario, para dividir os BMW do Jorge de Brito ou os Mercedes do Jorge de Mello... Outros, civis ou militares, insultavam diariamente na rádio os soldados portugueses que estavam em África... Mas assim como digo isto, reconheço que se conseguiu um objectivo fundamental: a democracia, o menos mau dos sistemas, o mais sólido, apesar de tudo.

P. - Falou há pouco que o MDLP se desmembrou a partir de Novembro. Mas até lá, que participação vossa houve no 25 de Novembro?

R. - Aliámos o povo do norte, já que a rapaziada do Alentejo andava na euforia da reforma agrária.

P. - Quem é o povo do norte?

R. - É toda a gente, desde a Igreja a milhares de pessoas...

P. - O cónego Melo, de Braga?

R. - Sim, o cónego Melo foi uma pedra chave em toda esta movimentação.

P. - Quem incendiou as sedes do PC no norte?

R. - Havia já algumas outras movimentações no terreno. Por exemplo, havia um pirata chamado Paradela de Abreu, mas que era um pirata útil. E a ligação do seu movimento - "Maria da Fonte" - connosco, era feita pelo engenheiro Jorge Jardim, por quem eu tinha consideração e admiração. Houve assim alguns movimentos como este que se juntaram a nós e chegou a haver

10, 15, 20 mil pessoas como aconteceu em Braga e noutros sítios. Quando os da Dinamização Cultural chegavam a certas aldeias encontravam 50 burros à espera deles e a aldeia deserta... Incendiaram-se as sedes, reagiu-se... Gerou-se assim uma vaga de fundo em que uns entravam pelo rés-de-chão e os outros, saiam a voar pelo primeiro andar. Mas em muitas sedes os comunistas defenderam-se a tiro de caçadeira... Seja como for, arranjou-se muita gente o que explica que, a dada altura, o MDLP tivesse logrado uma certa expressão e importância.

P. - Voltando a Novembro de 75...

R. - Apesar de haver já nessa altura muitos contactos com oficiais de vários lados, com o grupo dos Nove, com civis dos partidos, o 25 de Novembro passou por uma unha negra: quando se quebra a disciplina militar e a cadeia de comando, ninguém sabe a quem obedecer. Mesmo o Jaime Neves - uma das figuras de proa - só devia confiar em meia dúzia de homens! E um dos responsáveis pelo sucesso desse 25 de Novembro foi o Otelo.

P. - Como assim?

R. - Porque foi ele que reintegrou o Jaime Neves nos Comandos. Ele fora saneado por um grupúsculo de extremistas - e mais uma vez os que o apoiavam ficaram paralisados! - mas quando depois disso o Otelo vai à Amadora e, chegando à conclusão de que afinal quase todos queriam o Jaime Neves de volta, reintegra-o... Se ele não o tem feito, estou certo de que o 25 de Novembro não teria ocorrido nem naquela data, nem daquela maneira.

P. - E o MDLP, ficou satisfeito com o 25 de Novembro? Ou...

R. - Bem... eu não sei se alguma vez leu os objectivos do MDLP... Um deles era a garantia de eleições democráticas. E quando acontece o 25 de Novembro, levanta-se a questão de saber quem ia falar para explicar as coisas... porque era preciso senso e serenidade, toda aquela gente queria comer os comunistas! Havia o consenso geral de que deveria ser o Eanes... mas claro que se o Eanes fosse à televisão, os comunistas não acreditavam. E foi o Melo Antunes. Mas ele, intencionalmente ou não, em vez de dizer - o que seria aceite por todos - que os culpados da situação a que se chegara haviam sido os comunistas, declarou que o PC era fundamental para a democracia em Portugal. A maioria dos nossos pensou: "Então fez-se o 25 de Novembro e estes tipos continuam"?

P. - Mas o que é que essa maioria de gente que estava consigo queria fazer ao PC?

R. - Eu nunca fui sequer dos mais radicais, mas penso que poderia ter havido mais equilíbrio. Uma coisa é dizer que o PC era "fundamental para a democracia", outra era ter deixado claro perante o país que eles tinham sido os culpados e depois então dar-lhes generosamente a "chance" para se recuperarem e participarem na construção da democracia.

P. - Que aconteceu ao MDLP depois disso?

R. - Fomos fechando a loja devagarinho... mas continuando a falar uns com os outros. Pinheiro de Azevedo pediu um dia a Vítor Alves, então ministro da Educação, que fosse lá acima falar comigo. Encontrámo-nos, foi fácil dialogar com ele, concordámos que as coisas tinham corrido mal até aí por causa desses grandes democratas que são os comunistas, mas que entre nós, queríamos afinal todos a mesma coisa... Simplesmente havia sectores mais radicais no MDLP a murmurar que "afinal ficava tudo na mesma, que alguns deles continuavam com mandatos de captura" etc. O resultado foi que alguns destes elementos entraram numa espécie de auto-gestão difícil de travar... Apareceram aí umas bombas que ninguém mandou pôr...

P. - Já depois do 25 de Novembro?

R. - Sim. Antes disso, podem dizer que fui eu que as mandou pôr, a todas, que eu não desminto. Depois disso, nem uma! Bem, as coisas foram-se resolvendo pelo tempo e pelo dialogo, embora, dentro daquilo que restava do MDLP, houvesse ainda quem continuasse a pôr bombas quase por profissão... Já não tive nada a ver com isso.

P. - Vinte anos depois acha que o MDLP teve de facto um papel?

R. - Teve, foi positivo, em algumas alturas foi mesmo um referencial. A imprensa publicava coisas, fazia entrevistas, conseguíamos publicitar os nossos objectivos e simultaneamente angariar mais pessoas, mais vontades. Muita gente sentiu que de facto alguma coisa se conseguiria.O que veio acontecer, com as eleições de Abril de 76. Depois, a gente apagou-se, foi cada um à sua vida.

P. - Entretanto,houvera a independência nas várias Áfricas...

P. - Quem viveu tremendamente isso tudo foi o Gilberto Santos e Castro que trabalhou durante meses e meses com o Holden Roberto em Angola. Nós ficámos em Madrid, ele mudou-se para Angola.

P. - Porquê com a FNLA?

R. - Porque era quem combatia no terreno. A UNITA não combatia, era meia dúzia de gente... o MPLA foi construído e financiado pelo Rosa Coutinho e pelo MFA. Com dinheiro e tudo.

P. - Tem provas disso?

R. - Sabíamos isso mas agora é o próprio Rosa Coutinho quem o vem dizer à TV...

P. - É caso para dizer que a cada um, os seus apoios: a CIA apoiava a FNLA...

R. - Apoiava, também o sabíamos. O Holden Roberto tinha oficiais brasileiros do II Exército como observadores - e o Fernando Câmara Casculho como uma espécie de Ministro da Informação - e contava também com tropas zairenses.

P. - E no exterior?

R. - No exterior contava igualmente com apoios. Em Paris havia um representante do Holden, o Miguel Quina, que coordenava o apoio financeiro à FNLA.

P. - Há pouco referiu que a troco de armas, se disponibilizou a fechar o porto de Luanda, a favor da FNLA. Não chegou a fazê-lo. Porquê?

R. - Se se fechasse o porto - o que não era difícil, é uma piscininha com uma milha de largura e 30 metros de profundidade - o MPLA morreria porque deixava de ser abastecido. O Miguel Quina pegou nesta ideia e eu fui convidado a ir Angola, ao Ambriz, falar com o Holden Roberto e com o Gilberto Santos e Castro. Tinham-me dito que o Holden não falava português, exprimia-se num português correctíssimo. Nessa altura, em Setembro de 75, estavam a aproximar-se do quilómetro 16, da estação de água. Quando foi submetido o plano ao indivíduo da CIA, ele também concordou. Mas uns dias depois, não me pergunte porquê, a CIA diz que não faz a operação. Mas apesar disso, o Holden Roberto dá-me as armas que me prometera.

P. - Justamente, pergunto-lhe porquê:o que se passou?

R. - São grandes mistérios. Talvez tenha sido o Holden Roberto quem não quis cortar a água nem fechar o porto de Luanda. Ele dizia que quem ia sofrer era a população, teve medo, recuou...

P. - Foi a sua ultima acção directa em Angola?

R. - Foi. Mas se ainda hoje para mim tudo aquilo continua um espinho, a partir de certa altura deixou de ser uma obsessão, uma preocupação porque vi que era irreversível. Continuei a ter ligações com o Jorge Jardim, segui sua trajectória e mesmo quando ele foi para o Gabão, continuámos a manter contactos. O Jorge Jardim teve sempre a ideia de que um dia regressaria a Moçambique ou mesmo a Angola....

P. - O 25 de Abril surge-lhe vinte anos depois, como negativo?

R. - Dos três "D", realizou-se apenas um: a democratização do país. A descolonização foi o que viu, é o que se sabe. O desenvolvimento... aconteceu por acaso e mais tarde. Porque durante anos e anos, após o 25 de Abril, houve a destruição do tecido industrial português, do tecido empresarial, a subversão de todas as regras da economia. Houve empregos às catadupas, dinheiro lançado a rodos. Até que veio a integração europeia, embora alguém ainda venha um dia a pagar a factura dos fundos comunitários... Mas esta questão traz outra: qual será a nossa identidade na Europa com todos os outros caminhos fechados - não estou a ver, pelo menos nos próximos anos, um regresso a África... Por isso, qual será então essa identidade?

P. - O conhecimento destes últimos vinte anos pode reforçar o sentido dessa identidade? Ou da procura dessa mesma identidade?

R. - É necessário que se analisem com lucidez os acontecimentos destes últimos vinte anos. Mas deixem-se de lado os excessos ideológicos e os "rodriguinhos" políticos...

P. - É um oficial muito condecorado, conheceu a guerra, é o "autor", entre outros feitos de guerra, da invasão à Guiné Conakry, teve um sonho africano e em Portugal, depois de Abril de 74, fez a contra-revolução. Valeu a pena? Voltaria a fazer tudo igual?

R. - Se valeu a pena? Claro que sim, valeu a pena! Voltaria a fazer o mesmo, tentando fazer melhor... Assim o exige a única fidelidade que me guia..

P. - ... e que é?

R. - A fidelidade a mim mesmo e à minha consciência.