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ENTREVISTA COM ISABEL DO CARMO


Maria João Avillez

Mulher e revolucionária. O ambiente social do Barreiro - onde cresceu - iniciou-a na política, em casa o pai influenciou-lhe as escolhas, o seu temperamento aguerrido fez o resto.

Antes da Revolução de Abril fundara já com o marido, Carlos Antunes, as Brigadas Revolucionárias e, mais tarde, o Partido Revolucionário do Proletariado.

A partir de 1974 foi a bandeira agitadora dos anos quentes, protagonizando nas ruas, nas empresas e nas fábricas alguns dos piores excessos com a assinatura da extrema-esquerda. Teve militares e civis do seu lado, assustou a burguesia e fez o PCP - onde militara muito jovem - olhá-la sempre com uma desconfiança hostil.

Perdeu no 25 de Novembro, passou depois alguns anos na cadeia, acusada de "autoria de acções armadas". Saiu, ingressou na sua profissão - é médica num hospital em Lisboa -, reflectiu, fez contas.

"Há um tempo para tudo" diz hoje, com a frontalidade de sempre, sem negar nada mas com outra serenidade no olhar.

Vinte anos depois, coube hoje a Isabel do Carmo, fazer aqui a história do "seu" 25 de Abril. Um percurso pessoal que é mais uma reportagem sobre esses anos do que porventura uma radiografia da época.

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PÚBLICO - Como foi o seu baptismo político?

ISABEL do CARMO - Foi aos 15 anos. Vivia no Barreiro mas andava no liceu em Lisboa. Participei no MUD Juvenil, apanhei as suas ultimas actividades. Aos 17 anos entrei para o Partido Comunista - de onde saí em 1970. Nesse mesmo ano fundou-se o PRP e as Brigadas Revolucionárias.

P. - Ambos no mesmo ano?

R. - Não, de facto as Brigadas fundaram-se primeiro, o PRP nasce em 73.

P. - O que a motivou a interessar-se tão nova pela politica?

R. - O ambiente... Sabe que nestas coisas, as causas são sempre reconhecíveis: o Barreiro é uma terra de longa tradição, conhecia pessoas que militavam, na minha rua havia gente que tinha ido para a guerra de Espanha, voltaram, foram para o Tarrafal. E que, além do mais, eram interessantes como pessoas, tinham histórias para contar. Era difícil escapar a este ambiente. Por adesão biológica e psíquica... fui lá dar. Se eu não fosse assim, era uma "traidora"... E houve também a influência dos meus pais, sobretudo do meu pai.

P. - Porque sai do PCP?

R. - Por duas razões fundamentais: quando li os processos de Moscovo e quando ocorreu a invasão da Checoslováquia, percebi aquela enorme burla em termos de democracia e de liberdade. Foi brutal e violento, porque se abateu sobre nós o peso da descoberta de um regime altamente repressivo e, sobretudo, houve a descoberta do estalinismo em toda a sua extensão. O Krutchov, no XX Congresso, tinha revelado as coisas, o PCP tinha aceite algumas - embora de uma forma superficial. Mas quando me apercebi da extensão dessa burla, saí. Por outro lado - e isto pode parecer paradoxal -, em relação à politica portuguesa achava que eles tinham uma posição pouco radical. Não se colocava a questão da luta armada, quando, precisamente, nós víamos que por via democrática era impossível mudar o regime! E havia ainda a questão do socialismo como objectivo, que o PCP nunca punha, nem nunca pôs. Era sempre a revolução democrática e nacional...

P. - E que era isso da luta armada? Gostava que se detivesse nesse conceito...

R. - Quando se iniciou o "marcelismo", naquele grande entusiasmo em relação às eleições de 69, viu-se ali uma possibilidade de que os movimentos de massas e de base pudessem furar a barreira.

P. - Esteve na CDE...

R. - Estive e notei um envolvimento como talvez nunca tivesse ocorrido, mesmo depois do 25 de Abril! Havia uma coesão extraordinária entre as pessoas,muita discussão interna, etc. Mas depois das eleições, veio a grande frustração e a constatação que era impossível mudar o regime pela tal "via democrática". Colocaram-se - a vários níveis -, as questões da via armada, da luta violenta. Foi nessa perspectiva que se constituiram as Brigadas. E houve, dentro do Partido Comunista, problemas a esse respeito. Fizeram a ARA, para corresponder aos apelos das bases - embora o PCP não estivesse vocacionado para isso. Não havendo, como é óbvio, força nessas e noutras organizações, para derrubar o regime.

P. - Tiveram sempre a noção que era uma utopia?

R. - Tínhamos sempre a esperança de que ocorressem outras coisas que se pudessem vir a conjugar com estas. E, ao fim ao cabo, foi a força das armas que veio a derrubar o regime.

P. - Qual era a articulação entre as Brigadas e o PRP?

R. - Formam-se as Brigadas justamente para corresponder a esta necessidade da via armada. Tínhamos a noção, o Carlos Antunes e eu, que em Portugal se falava muito e se fazia pouco, distribuíam-se muitos papéis entre os amigos, textos muito ideológicos, palavrosos, mas... fazia-se pouco. Decidimos que não faríamos nenhum papel. E não fizemos até à nossa primeira acção....

P. - ... que foi?

R. - .. a Fonte da Telha: a explosão de uma base da Nato. As Brigadas eram de facto dominantes, mas como existia um conjunto muito amplo de gente que não estava envolvida embora actuasse em diversas outras áreas, criou-se então o PRP. Entretanto, as Brigadas iam levando a cabo muitas acções armadas, foi de longe a organização que mais acções concretizou. Nunca morreu ninguém - à excepção de dois militantes, ao montarem uma bomba. Nunca houve mortes no inimigo ou nas populações. Definiu-se desde o início a regra de não matar ninguém, considerando nós que não poderíamos nunca dispor da vida humana. Aliás recordo uma discussão interessante entre o Carlos Antunes e o Nuno Bragança: o Nuno achava que a PIDE era inimigo "suficiente" para ter de ser abatido, naquela altura, o Carlos achava que não.

P. - Que relações tinham, antes de Abril de 74, com outras "oposições"? Entre aquela ambiguidade que juntava todos contra o fascismo e as várias clivagens entre os diversos movimentos, como se processavam as coisas?

R. - Era um mar de clivagens. Com o PC essas relações eram péssimas. Depois de sairmos de lá, se pudessem ter-nos-iam limpo da face da terra. Com os maoístas também eram péssimas, não simpatizávamos com essa corrente que considerávamos ultra- estalinista. Mas com as pessoas que vieram depois a formar o MES e com algumas das que mais tarde se integraram no PS, as relações sempre foram excelentes.

P. - Por exemplo?

R. - O Vítor Wengorovious, o Jorge Sampaio, o José Manuel Galvão Teles... Fazíamos reuniões com muita frequência em casa do Galvão Teles, na altura da CDE. Estávamos com esse pessoal que veio depois desaguar no MES e no PS.

P. - E com os maoístas, nada?

R. - Não é que fossem o inimigo... Houve algumas tentativas, o Pacheco Pereira pertencia a uma corrente dialogável, cheguei a ter um encontro clandestino com ele, no Porto, julgo que em 71. Dialogámos muito mas quanto a projectos comuns... nada!

P. - Chegamos a Abril de 74 e...

R. - ... para uma pessoa que está clandestina - só estive uns meses, devido a uma denúncia -, sair à rua, ver a minha filha, foi uma euforia terrível. Mas antes já suspeitávamos que vinha aí o 25 de Abril...

P. - Suspeitavam ou sabiam?

R. - Entre uma coisa e outra... Tivemos algumas informações lá de dentro. Foi uma euforia porque aquilo que as pessoas menos suportam é a opressão, suportarão até melhor a miséria! A explosão contra a opressão foi uma grande alegria como foi o direito à palavra. Claro que os intelectuais e as pessoas que andavam por aí, tiveram sempre um certo direito à palavra... Não nos iludamos sobre isso... Agora a grande massa da população, essa não dizia o que queria, nem o que sofria. Justamente o que mais me comoveu foi esse direito à palavra que se ganhou daquela forma anárquica, desorganizada! Assustadora concerteza, para as classes mais estruturadas.

P. - Considerava que antes do 25 de Abril todo o país sonhava com esse direito à palavra?

R. - Bem... agora há gente que aparece a dizer que não tinha a noção de que o fascismo existia... portanto, não seria o país todo... Mas é estranho, dá ideia de que nós só conhecíamos as pessoas que queriam esse e outros direitos... No entanto, julgo que a grande maioria das pessoas se sentia oprimida.

P. - O que pensava que lhes era pedido, ou que se esperava de vocês, quando saíram da clandestinidade para a liberdade e para o direito à palavra?

R. - Lembro-me de que o pior foi o falar em público, era uma situação totalmente nova. Foi-nos pedido um grande esforço em relação à propaganda: como era isso de fazer cartazes, faixas, organizar pessoas, grupos, tratar da segurança nas manifestações, etc etc. Éramos muito mobilizadores, mobilizámos muita gente na rua para certas ideias!

P. - Quais, por exemplo?

R. - Para a constituição dos Conselhos Revolucionários que se formaram aí pelas rádios, pelas empresas. Constituímos comissões de trabalhadores, de moradores, estes conselhos estiveram sempre muito ligados a nós. Recordo-me de que, nessa altura, houve logo tentativas de unidade, estivémos sempre em contacto - embora difícil - com os trotskistas e com os maoístas, com os que vieram a dar a UDP. E sempre em ligação com o MES.

P. - A partir de quando é que se tornou claro que o Otelo poderia vir a ser a vossa a referência, a vossa bandeira e o vosso rosto?

R. - Imediatamente. Embora ao princípio, algumas declarações dele tivessem sido contraditórias, o Otelo tornou-se muito aberto a certas formas radicais de organização popular. Desde o inicio protegeu as comissões de trabalhadores e de moradores. E à sua volta, no COPCON, formou-se um grupo de militares muito abertos ao diálogo connosco.

P. - Essa espécie de unidade não era um risco? O risco da ilusão de achar que lograriam o vosso objectivo?

R. - Até certo ponto, sim. Mas não se via outra solução nessa altura que não fosse um regime socialista para resolver os problemas económicos das pessoas...

P. - Mas o que entende por regime "socialista"? O dr. Mário Soares também queria um regime socialista!

R. - Queriam todos. Nessa época, todos queriam a repartição de bens e a planificação. Depois, os caminhos foram-se fazendo de formas muito diferentes, com o confronto com a realidade. Mas todos defendiam - e eu também -, que houvesse justiça ao nível da propriedade e dos lucros e que se passasse à planificação da economia. A liberdade sem isto não chegava.

P. - Acreditou então na ilusão de alcançar um objectivo. Mas qual? Chegar ao poder? Intervir radicalmente na organização da sociedade de modo a alterá-la totalmente?

R. - Eu pessoalmente nunca quis chegar ao poder. Mas sempre considerei que as pessoas da minha área deviam chegar.

P. - Como? Se não era através de eleições...

R. - Por eleições não. Pensava que poderia haver um movimento insurreccional, desarmado - embora protegido pelas armas -, de massas na rua. Aliás isso esteve à beira de acontecer.

P. - Quando?

R. - Entre Junho de 75 e Setembro desse mesmo ano. Em Junho há a manifestação dos SUV [Soldados Unidos Vencerão] que encheu as ruas de Lisboa, sem qualquer autorização do poder. Houve assim uma posição de força popular por parte desses soldados que eram, sublinho, uma boa parte do exército. Ora isto marcou inequivocamente uma viragem. Por detrás estavam o MES, a UDP e nós. Um mês depois, dá-se a manifestação dos Conselhos Revolucionários, com multidões na rua e muita força em frente do Parlamento. Depois, a coroar esta soma de acontecimentos, sai o Documento do COPCON que envolveu o PRP, o MES, os militares revolucionários, o Otelo, e muitos militares das unidades de Lisboa.

P. - Quem redigiu esse Documento?

R. - Todos. Houve discussões, claro, como há sempre na redacção de textos deste género, mas criou-se uma imensa unidade e a manifestação do COPCON foi concerteza a maior de todas do período revolucionário: vieram os tanques, os tractores, vieram camponeses até do norte. Lembro-me, porque eu própria estive sempre num tractor de camponeses vindos do norte.

P. - Tinha a noção de que nessa altura estava cercada? Pelo PCP, de um lado, e praticamente pelo resto do país politico, por outro?

R. - Ter o Partido Comunista contra, foi terrível! Porque eles eram activamente "contra"! Boicotavam tudo o que podiam - aliás, segundo instruções da própria direcção do partido -, eram capazes de ir a um comício e desligar as luzes, espalhavam coisas tremendas a nosso respeito, foram infames no boicote activo. A nossa regra era de nunca fazer nada - apesar da nossa vontade! -, contra as organizações de esquerda.Mas tínhamos de facto a noção de que estava "tudo" contra, embora esse "tudo" tivesse afinal pouca expressão para nós: recordo-lhe por exemplo que nas ruas, a única coisa importante foi a Fonte Luminosa! Sabíamos também que o norte tinha outro "sentir" politico e porventura actuámos mal nessa zona, nós e toda a esquerda.

P. - Depois, há um volte-face, falam com o PCP, esboça-se um entendimento...

R. - O PCP, a seu pedido e através de Carlos Brito e Carlos Costa, vem à sede do PRP depois da saída do documento do COPCON. Fizeram-no devido à força do documento, à força dos militares envolvidos, à força que se situava na esquerda revolucionária, de que aquela manifestação era a prova evidente. E a partir daí, houve colaboração.

P. - O que os fez aceitar a colaboração do "adversário" da véspera?

R. - Sabíamos que tínhamos que estar com o PC ou, pelo menos, com as suas bases. Nessa altura havia já organizações armadas do PC na cintura industrial de Lisboa que tinham um sentir muito à esquerda... Estavam do lado revolucionário e disponíveis para a unidade. Era obrigatório que nos juntássemos.

P. - Fizeram então uma aliança?

R. - Fizemos uma aliança. Entretanto, tínhamos já ido falar com o Vasco Gonçalves que teve de nos "engolir". E no verão de 75, forma-se então a FUR [Frente de Unidade Revolucionária] com todos os partidos da esquerda revolucionária: o PSR, a UDP, o MES,o PRP e o PCP. A FUR era dirigida por um representante de cada um deles e na reunião da sua constituição estava o Carlos Antunes, e pelo PC, o Vítor Dias e o Carlos Brito. Aí combinou-se logo uma manifestação da FUR que ocorreu a seguir, saindo do Terreiro do Paço em direcção a Belém. Dirigíamo-nos ao Costa Gomes e o Vasco Gonçalves.

P. - Para lhes dizer o quê, precisamente?

R. - Que queríamos uma alteração radical das coisas. Objectivo: um governo revolucionário. Programa: o Documento do COPCON.

P. - Tiveram a noção do fundamental que era para o PRP e para a FUR, ter junto de si o PCP quando foram a Belém formular esse "pedido"?

R. - Tivemos a noção de que foi fundamental. Mas houve logo uma consequência: a direita e o PS começam imediatamente a mexer-se. Foi exactamente em Agosto de 75 que o 25 de Novembro se começou a organizar. É que não pode haver dúvidas - mesmo hoje! - de que com a benção de Costa Gomes e de Vasco Gonçalves, "aquilo" iria de facto desaguar num governo revolucionário. Não me pergunte o que daria em seguida porque seria certamente muito complexo e muito complicado.

P. - Justamente, é isso que pergunto: que tipo de governo seria esse? Com operários, ou comissões de bairro, a governar em S. Bento? Com as direcções dos partidos da FUR? Com militares revolucionários?

R. - Provavelmente seria um governo de civis e militares revolucionários, apoiado em organismos populares de base.

P. - E que se passou depois disso? Que resposta deram Costa Gomes e Vasco Gonçalves?

R. - Apoiaram a manifestação mas não deram sequência à concretização dos nossos objectivos.

P. - Não a afligia saber que "parecia" sempre que o general Costa Gomes dava a benção a toda a gente?

R. - Eu acho-o superiormente inteligente, sou muito amiga dele -como o era também do seu filho Francisco. Agora o que não nego é que ele é um homem que age sempre na política como um militar em campo de batalha.

P. - E como é isso transposto para a política?

R. - É optar sempre pela situação que pressuponha menos percas. E naquela altura o general Costa Gomes compreendeu muito bem o que nós todos significávamos... Lembro-me de que nessa manifestação, tínhamos estabelecido um pacto com Vasco Gonçalves em que nem nós o atacávamos, nem ele a nós. E quando eu vou a passar pela tribuna onde está o general Costa Gomes, grito-lhe - certamente com um ar horrível - "social-democrata, social-democrata!", o que era um insulto tremendo. E a certa altura, ele responde-me: "eu não sou um social-democrata!".

O que significava que ele estava disposto a aderir a uma imagem que não era sequer de social-democrata...

P. - Tem-me vindo a dizer que tinham força, adesão popular, apoio militar, o COPCON, etc. Se eram tão fortes, se uma grande parte das unidades estavam do lado da FUR, porque perderam em 25 de Novembro?

R. - Bem, o PCP descolou-se rapidamente... Julgo que ainda em Agosto.

P. - Porque pensa que agiram assim?

R. - Acho que nem o PCP nem a União Soviética estavam disponíveis para a situação revolucionária em Portugal. A partilha do mundo, nessa altura, entre a União Soviética e os Estados Unidos, não apontava Portugal como revolucionário, estava virada para Angola. Portugal teria de se satisfazer com uma situação de democracia - sem grandes avanços revolucionários. Por isso, entraram na FUR e saíram logo a seguir! Claro que estão ainda por saber todos os meandros, já que nem tudo era coeso nesta área.

P. - Justamente eu pensava que você sabia alguns desses meandros...

R. - Eu nessa época tinha contactos frequentes com a Embaixada de Cuba, a qual era muitíssimo favorável a que se instalasse aqui uma situação revolucionária. E o embaixador da União Soviética em Lisboa sabia disso.

P. - Mas Fidel Castro mandava nesse tempo os seus soldados para Angola...

R. - O Fidel estava também ele muito interessado na questão de Angola. Mas a sua embaixada aqui em Lisboa era, como eu referi, favorável a uma situação revolucionária em Portugal. E de resto, pagaram por isso, tiveram os seus mortos. Bem... para voltar à sua questão sobre a nossa derrota..

P. - Para além da saída rápida do PCP da FUR... que mais?

R. - Que mais? Os militares também "borregaram", e isso penso que foi determinante.

P. - Quando diz os militares, refere-se aos da vossa área?

R. - Refiro: ao Otelo, aos Comandos da Policia Militar, a todos os que se posicionavam como revolucionários. Havia alguma insipiência, politica, havia falta de liderança, havia algum receio...

P. - Quando é que o PRP começa a perceber a extensão desse "borregar"?

R. - Em Setembro isso torna-se claro. Quando o PCP tira o tapete ao Vasco Gonçalves e apoia Pinheiro de Azevedo para Primeiro-Ministro porque achava que ele era um democrata... Quanto a mim o Pinheiro de Azevedo, além de estar feito com a direita, era um louco! Tive contactos directos com ele - até me pôs um processo - e percebi que não tinha capacidade para estar à frente de coisíssima nenhuma! Bem, para finalmente lhe responder: perante o impasse criado pelo recuo do PC e as reticências dos militares em avançarem, por volta do dia 27 de Setembro, houve uma reunião na Palácio Foz para analisar esta situação...

P. - Uma reunião com quem?

R. - Com uma parte dos militares da Comissão Coordenadora do MFA, alguns comandos de unidades - o Pinto Soares, o Otelo, o Tomé, o Cabral e Silva, etc. Entretanto decide-se avançar com nova manifestação, liderada pelos lideres das organizações revolucionárias - neste caso, uma vez mais nós, PRP, e o MES. Avançamos para o Palácio Foz e juntámo-nos aos militares. Decidimos então que civis e militares deviam ir direitos a Belém, impor uma mudança ao Pinheiro de Azevedo...

P. - ... como haviam já feito semanas antes. Foram então a caminho de Belém...

R. - Fomos. E fomos logo recebidos pelo Pinheiro de Azevedo. Mas, nessa altura, os militares desaparecem...

P. - Desaparecem como?

R. - Não apareceram mais. É aliás o próprio Pinheiro de Azevedo quem nos diz - a frase foi exactamente esta - "gostavam do Otelo, não gostavam? Acabou-se!"

P. - Pensa que o Otelo foi altamente pressionado ou que os traiu?

R. - Penso que foi pressionado. O Otelo tem dado uma versão segundo a qual fez aquilo para evitar uma guerra civil porque, na sua opinião, era o que ali se estava a desenhar. E era nisso que fatalmente terminaria. A minha versão não é essa: penso que se os militares tivessem ido até ao fim e assumido a direcção dos acontecimentos, as coisas tinham mesmo virado no sentido da instalação de um poder revolucionário. Ficámos assim sozinhos - os civis - diante do Pinheiro de Azevedo, que nos tratou pessimamente. E as coisas desfizeram-se... Sai dali e ainda fui para a Polícia Militar onde havia alguns civis reunidos, o ambiente era de confusão, ninguém sabia o que fazer...

P. - Foi o princípio da derrota?

R. - Foi, sem dúvida. E a partir daí foram só derrotas.

P. - Ainda estamos em Setembro.Você era uma mulher comprometida com uma guerra, tinha ganho algumas batalhas, começava agora a perder quase todas. Como é que psicologicamente, de um ponto de vista feminino, olhava para isso tudo? Como olhou até ao 25 de Novembro?

R. - Vou começar pelo feminino, justamente porque gosto que me tenha colocado a pergunta assim, as mulheres têm uma sensibilidade maior e melhor para prever certas coisas... E eu senti muito dolorosamente essa mesma previsão. É claro que os homens têm as características que correspondem precisamente ao contrário disto: são capazes de, mesmo em condições difíceis, tomar a iniciativa e avançar, como se não vissem o lado mau. Mas eu percebi muito bem que apesar daquela nossa ânsia de instalação de um poder revolucionário, a direita e o PS - com Eanes à frente - organizavam-se para bloquear os nossos projectos. Percebi que estávamos reduzidos à rua - e mesmo aí, já com pouca expressão...

P. - Mas houve ainda uma grande manifestação vossa, em Novembro de 75...

R. - ... mas já muito dorida! É certo que teve muitíssima força, que foi uma grande manifestação do proletariado, porque eram os trabalhadores mais baixos que tinham descido à rua... Não eram nem os metalúrgicos nem outra classe operária, eram precisamente os mais mal pagos e mais subjugados! Ora tudo isso anunciava o fim. Aquando daquela manifestação de que falei há pouco, a do Palácio Foz, havia ainda muita esperança: foi quando o Pinheiro de Azevedo rebentou com uma antena da Rádio Renascença e mandou ocupar as rádios pela tropa. Mas os soldados, mal fizeram essa ocupação, viraram-se logo ao contrário, isto é contra as ordens do Pinheiro de Azevedo! Isso deu algum alento, continuaram as reuniões entre nós, entre Setembro e Novembro, mas....

P. - E entretanto iam tendo informações da organização que crescia "do lado de lá"?

R. - Tínhamos informações permanentes. Em Julho, de resto, tinha já aparecido o Documento dos Nove...

P. - ...era aí que eu queria chegar: tinham contactos com os Nove?

R. - O Vasco Lourenço foi uma pessoa com quem estivemos sempre em contacto, durante todo este período. Ele nunca foi contra esta nossa faixa revolucionária...

P. - Nunca foi, como? Pois se ele estava do outro lado?!

R. - Estava inequivocamente do outro lado, mas digamos que era um "protector" da ala revolucionária. Aliás, se não fosse o Melo Antunes e o Vasco Lourenço dentro da organização do golpe da direita - digo assim para simplificar -, a ressaca teria sido tremenda... Depois do 25 de Novembro é o Vasco Lourenço, felizmente, que vai para comandante militar da Região de Lisboa, o que fez segurar as coisas!

P. - Disse que tinham contactos com os Nove. De que tipo? E com quem, à parte o Vasco Lourenço?

R. - Um dia, o Melo Antunes convida-nos para uma reunião conjunta de militares e civis ligados aos Nove, ao PC e a nós. Foi na Escola Militar da Amadora.

P. - Quando?

R. - Em Outubro.

P. - Com que objectivo?

R. - Evitar a confrontação, tentar chegar a um acordo.

P. - Quem eram os civis presentes pelos Nove, nessa reunião?

R. - Não sei porque nos recusámos a ir. O PCP foi, nós não. Considerámos que era uma traição à nossa linha estarmos a entrar em acordos e cumplicidades. Pronto, foi assim.

P. - Então e o 25 de Novembro?

R. - As coisas foram galopando até lá. Mas a minha versão é que não havia nenhum golpe de esquerda organizado! O que houve foi um golpe de direita alargada - que englobava os Nove e o PS mas que começava na extremíssima direita... ELP e companhia! Foi feito classicamente, com Eanes a conduzir, um golpe organizado, com estruturas militares, unidades, etc. E com aquilo que é necessário para um golpe, que é fazer saltar um álibi! O álibi foram as tropas especiais de Tancos que se sublevam, alguns militares vieram até ao COPCON, esboçaram uma movimentação...

P. - ... que ia no vosso sentido, era a vosso favor...

R. - ... não, não era bem a nosso favor, no fundo esboçaram uma movimentação de esquerda: como se fossem a sair para a rua para uma tomada de poder pela esquerda. O Costa Martins tem aqui um papel: é ele que vai a Tancos, que os incita e eu acho que isso foi uma provocação...

P. - De quem?

R. - Do comando militar do 25 de Novembro, onde estava o general Eanes. Foi uma provocação montada para fabricar um pretexto de modo a colocar as tropas de direita na rua.

E isto é de tal modo surpreendente para o COPCON que ele fica totalmente desorientado! E não há organização nem resposta possível por parte dos militares revolucionários. Uns, mais à esquerda - como o Varela Gomes e outros -, dirigem-se para o COPCON mas fazem-no de forma desorganizada. Outros militares e civis revolucionários ficam em expectativa e em contacto permanente com pessoas de outras unidades militares - como a de Estremoz, por exemplo. Mas a nossa atitude era de surpresa e a situação de total impasse. E eis que a dada altura, o PC avisa - ou seja, dá a ordem - de que "a situação é para negociar". O Judas -irmão do José Luís Judas - vai a Palhais, aos fuzileiros, e diz-lhes que "não avancem " e que a situação "é para negociar". E vai a outras unidades de Lisboa onde tinha influência, e repete a mesma coisa.

P. - Exactamente quando, a que horas desse "25 de Novembro"?

R. - Na noite de 24 para 25.

P. - E como é que você "leu" essa "démarche"? Como é que todos vocês entenderam isso?

R. - Percebemos que era para se ficar num meio caminho... Nem se ia para uma situação revolucionária radical, nem por outro lado se aceitaria um avanço da direita que implicasse a sua vitória plena e total. O PCP manter-se-ia então como partido legal - como manteve -, com todos os seus direitos, numa situação de democracia formal. A ida do major Melo Antunes à televisão na noite de 26 de Novembro, deveria estar - são suposições minhas... - implícita nesta negociação política.

P. - Que restou para vocês dessa derrota?

R. - Apesar de tudo ficou uma margem para as ideias e os interesses que representávamos. Porque ficou a democracia, a liberdade de expressão, ficaram todas as liberdades preservadas. Claro que sob o ponto de vista económico, a situação começou a piorar mas houve coisas que se mantiveram. É a isso que chamo margem...

P. - O que disse a si própria na noite do dia 25 de Novembro?

P. - Que tínhamos sido derrotados e sobretudo, que não havia que iludir essa derrota.

P. - Interrogaram-se sobre de quem seria a culpa? Sobre as causas desse fracasso?

R. - Concerteza.

P. - E então?

R. - Tratava-se de uma grande complexidade de questões... No fundo, para resumir, direi que a culpa foi do sentido da História... ele não ia na nossa direcção...

P. - Tratando-se de si, temos de avançar um pouco mais. Em 1978 é presa. Porquê?

R. - O Carlos Antunes e eu, como dirigentes do PRP, éramos acusados de autoria moral de acções armadas.

P. - Esteve quatro anos presa. O que reteve? Solidão, isolamento, estar fora dos acontecimentos?

R. - O isolamento em relação à vida real é grave porque justamente se perde a vivência dos acontecimentos. A separação da minha filha foi dolorosa, o isolamento, em relação ao meu filho, muito difícil de administrar. A incomunicabilidade prolongada a que fui sujeita - um ano, ao todo, com diversos graus de severidade -, foi ilegal e por ela foi responsável o Director Geral da altura, dr. Castelo Branco. Além disso, é difícil viver sem estímulos, sem ver a rua, sem falar com os outros, sem nos mexermos, numa monotonia sem intervalos. No resto do tempo houve muita vivência colectiva, organização de múltiplas actividades, experiências impossíveis de viver noutro lugar. Aproveitei o tempo para meditar, fazer o balanço da vida. Li muito, escrevi muito. E até houve momentos para me divertir... Contactei com pessoas vindas de fora que eram o mundo exterior, a Maria João sabe, também esteve lá. Houve assim duas vertentes antagónicas no meu tempo de prisão.

P. - Entretanto, como viveu os anos de 76 e de 78? Houve a candidatura de Otelo... a última bandeira sob a qual se acolheu a ultima unidade... Nesses anos via muito Otelo?

R. - Essa candidatura foi um momento muito alto sob o ponto de vista de unidade, de discussão de um programa e de entusiasmo das chamadas bases, que não tinham nada a ver com os partidos. Houve o Jornal "Página Um", com cuja redacção estive em contacto. E houve sérias tentativas de resistir ao avanço do "establishment" actual. Os dirigentes do PRP - entre os quais eu própria - viam muito Otelo e outros militares do MFA.

P. - Como se deu a cisão entre as pessoas que vieram a constituir as FP 25 e o seu partido, o PRP?

R. - Com a nossa ida para a prisão desenvolveu-se uma corrente dentro do PRP em relação à qual havia diferenças ideológicas e manifestações de grupo que eram já pré-existentes. Em Novembro/ Dezembro de 79, essas questões acentuaram-se e em vésperas do nosso julgamento, em Janeiro de 80, fomos "expulsos"do PRP. Sentimos que nos tinham tirado o tapete, mas um grande número de pessoas continuou a apoiar-nos. Mas perante o tribunal, a brecha mostrou-se aberta...

P. - ... e foi na sequência disso que...

R. - Foi na sequência desta separação que algumas pessoas do PRP fizeram uma fuga no sentido da criação duma organização armada, as Forças Populares 25 de Abril, com cujos princípios e táctica política estávamos em total desacordo.

P. - Às vezes há organizações que evoluem assim...

R. - Esta foi uma perigosa evolução que aconteceu em algumas organizações com passados de luta armada. Faz-me lembrar a evolução de alguns grupos religiosos dos mais puros, que são retratados no "Nome da Rosa", e o Humberto Eco conhece bem o assunto... Foi um processo imparável! Muitas dessas pessoas são corajosas e generosas e desejavam sinceramente mudar a sociedade que as rodeava. Mas outras são obscuros personagens e não afasto a ideia, bem pelo contrário, de que em todo este processo complicado as polícias tenham desempenhado um papel bem mais subtil que o da simples repressão.

P. - Como olha para estes vinte anos?

R. - Houve conquistas irreversíveis para os portugueses - fim da guerra colonial, obtenção de liberdades democráticas ainda que mitigadas. Houve também uma grande transformação cultural e social, com dignificação humana das classes sociais e das pessoas que estão à margem e que, há uns anos, eram consideradas uma espécie de castas intocáveis... Mas atenção, esta dignificação não excluiu uma situação de pobreza ou mesmo de miséria que atinge quase metade da sociedade portuguesa e perante a qual, só os autistas políticos ficarão indiferentes. Estamos perante um regime politico inculto e medíocre onde a fachada tem esmagado tudo o que é social - e que está reduzido ao mínimo.

P. - E fora de portas?

R. - Estes vinte anos evoluíram com uma rapidez surpreendente. À crise e ao desmantelamento final dos regimes ditos socialistas - mas que o não eram! - sucedeu-se uma situação de capitalismo selvagem e de regionalismos igualmente selvagens, em que a natureza humana tem mostrado a sua pior fase. Por sua vez, no mundo industrializado, o capitalismo entrou numa crise de novo tipo, que me parece irreversível. Se é verdade que o respeito pelo indivíduo e o reconhecimento pela diferença nunca foi tão importante como agora, também é verdade que o espírito de grupo, o colectivismo, desapareceram; e o individualismo passeia-se com a maior das leviandades sobre os escombros sociais, como se não sentisse debaixo dos pés os corpos humanos.

P. - É uma imagem...

R. - Não, não é só uma imagem... Quantas vezes não tropeçamos em corpos e seguimos adiante? E geralmente o que se sente é medo. É curioso.

P. - E então, que fazer?

R. - É necessário discutir tudo isto, discutir-nos a nós mesmos, e procurar alternativas. Aquilo a que se chamou "socialismo" foi uma barbárie mas, provavelmente, teremos que pôr de novo a questão - "socialismo" ou barbárie...

P. - Continua a pensar do mesmo modo ou...há um tempo para tudo?

R. - Situo-me na mesma área no campo dos desejos e da utopia. Mas estes vinte anos mexeram muito na análise das coisas, face à realidade. A partir da invasão da Checoslováquia pus verdadeiramente em causa o estalinismo e tomei posição pública nessa altura. Percebi o carácter religioso de certas ideologias. Desde aí, as questões da revolução social, da liberdade e do exercício do poder têm-se-me colocado duma forma que não encontra soluções fáceis. E gradualmente tenho dado mais importância ao papel do indivíduo, às diferenças entre homens e mulheres, às diferenças culturais. Também tenho percebido, duramente, que não bastam bons princípios, boas leis, boa planificação. A natureza humana é bem mais complexa que a dos anjos bons que se idealizavam no século XIX... Temos de contar com essa complexidade. Por outro lado passou a perceber-se que a questão da ecologia e da sobrevivência da vida humana no planeta tem que fazer parte duma concepção global do desenvolvimento e da economia.

P. - Há assim um tempo para tudo?

R. - Há um tempo para correr todo o dia, a militar [sorriso], perder noites, acreditar que a vontade vence tudo. E depois há um outro, para reflectir, militar mais devagarinho, dar mais prioridade à família, perceber que a História anda devagar e que talvez cada um de nós não seja assim tão importante...

P. - Uma guerreira em paz?

R. - Ah, mas a minha revolta não se apazigua...