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ENTREVISTA COM MANUEL MONGE

 

Texto: Maria João Avillez

Fotografias: Alfredo Cunha

Militar "por gosto e convicção", alentejano "assumido e militante", homem moderado e sereno - o que nunca lhe impediu a frontalidade -, é um fiel entre os fiéis de António de Spínola desde os tempos da Guiné.

Ficou desde aí um "indefectível" das ideias do general e do seu ideário politico. Hoje recorda que foi justamente desse ideário que nasceu a ala mais "pura"- e simultaneamente "mais aguerrida militarmente" - do futuro 25 de Abril do qual foi um dos membros da Comissão Coordenadora do MFA.

Manuel Monge, 56 anos, brigadeiro - actualmente assessor da Casa Militar do Presidente da República e responsável pelo pelouro das relações com Macau -, retém destes vinte anos o "cumprimento do programa do MFA, excepto na Descolonização", sobre a qual pousa aliás um olhar tremendo, despido de qualquer espécie de complacência. Tanto, que é porventura a primeira vez que um "militar de Abril" ousa apontar a dedo determinados procedimentos e atitudes de outros militares, como ele, estiveram na origem - e na vontade - da revolução.

PÚBLICO - Quantas comissões de serviço fez em África?

MANUEL MONGE - Quatro: duas em Angola, as duas últimas na Guiné.

P. - Com o passar dos anos e das comissões, a sua avaliação da questão colonial ia-se modificando?

R. - Na minha terceira comissão, feita na Guiné, de 1968 a 70, o general Spínola impôs alterações significativas, quer no processo militar de fazer a guerra, quer no relacionamento com as populações. Criou-se então aí um ambiente de progresso social e de liberdade, com a libertação dos presos políticos - como Rafael Barbosa, por exemplo - e a auscultação sistemática das populações, nomeadamente nos Congressos dos Povos da Guiné.

P. - Foi o início de uma "outra coisa"? De um projecto?

R. - Foi. Em meu entender, era o projecto certo e a ele me liguei de alma e coração. E nessa comissão, em que a maioria dos meus soldados eram guineenses, criei um relacionamento especialmente amistoso com a população de Bula, onde estava estacionado o meu esquadrão.

P. - Foi isso que fez de si um "spinolista"?

R. - Em 1970, a situação na Guiné galvanizava-nos. Estivemos a um passo de ganhar a paz. E a admiração que nós, jovens militares, tínhamos pelo general Spínola era enorme.

P. - Falemos um pouco mais desse projecto: como o caracteriza?

R. - Em meu entender, o "Caco Baldé" (a alcunha por que o general era conhecido na Guiné: Caco por causa do monóculo, Baldé porque é o nome mais comum na Guiné, como os Silva em Portugal) tinha o projecto ajustado. A história já lhe deu razão em parte, com a ruptura entre a Guiné e Cabo Verde, cuja ligação o PAIGC artificialmente queria impor, para garantir a hegemonia política da elite cabo-verdiana que dominava o PAIGC.

O general queria preparar os guineenses para uma grande autonomia, a eles caberia escolher os contornos e os limites da mesma. O antigo regime, em Lisboa, não o autorizou a seguir em frente. Mas, em 1970, ainda se ia a tempo de uma boa descolonização na Guiné.

P. - Como se inicia, de facto, o Movimento dos Capitães? As suas origens foram exclusivamente corporativas?

R. - É uma questão complexa... Teremos que abordar o tema em dois patamares: primeiro, apontar a consciencialização dos militares para a necessidade de intervir na área política; e, em segundo lugar, na organização e metodologia dessa intervenção. Já na Primavera de 1968 (em Paris, era Maio), um grupo de oficiais de Cavalaria se reuniu para reflectir sobre o país e a guerra. A reunião, obviamente reservada, era restrita a capitães. Causou algum alvoroço. Como um dos seus promotores era eu, fui chamado ao comandante do Regimento onde então prestava serviço (Lanceiros 2). Lá me expliquei ao coronel Henrique Calado, disse-lhe que faláramos no brigadeiro Spínola. Repare que já então os jovens oficiais olhavam para ele, que mal acabara de embarcar para a Guiné...

P. - E quando, mais tarde, se pensa na realização do Congresso dos Combatentes - ou melhor, no seu projecto -, há na Guiné uma reacção...

R. - Sim, foi em 1972 e houve, na Guiné, uma reacção. Foi ela que, em meu entender, o fez abortar. Julgo poder afirmar que, na Guiné, se foi criando e sedimentando a consciência de que era preciso mudar a política portuguesa em África, enquanto, ao mesmo tempo, se ia organizando um grupo de oficiais que lhe dava corpo.

P. - Depois, surgem os célebres decretos...

R. - Quando surgiram os decretos - sobre alterações das antiguidades relativas entre os oriundos de milicianos e de cadetes -, criou-se uma ampla contestação, de base essencialmente corporativa. Mas se, para alguns de nós, essas questões de carreiras eram de somenos importância, elas revelam-se determinantes pelo clima de mobilização que originavam. Recordo-me de que, na altura, estava a comandar uma guarnição na fronteira sul da Guiné, onde fora colocado em situação de emergência. Por correspondência (aqueles célebres aerogramas!), os camaradas de Bissau e de Lisboa mantinham-me informado. Um dia, vim a Bissau, convocado para uma reunião de capitães. Apresentei-me, levando comigo um capitão "inimigo", o então ex-miliciano Campante de Carvalho. Ele não queria ir, invocando que o Movimento era contra os novos critérios de antiguidade dos ex-milicianos, receava ser mal recebido. "Para mim não é, visto que não é disso que se trata, o meu inimigo é outro".

E lá o levei à reunião... Isto para lhe dizer que, para alguns militares, aqui em Portugal, em Angola e em Moçambique, o movimento reivindicativo deu dimensão, argumentos de carreira e oportunidade para uma intervenção de cariz político. Mas afirmo que era indiscutivelmente na Guiné, onde, em termos de consciência política, se estava mais avançado.

P. - E que isso se deve a Spínola?

R. - Sem dúvida. À sua pessoa e à sua acção dinamizadora. Recebia e despedia os batalhões metropolitanos com discursos que eram autênticos comícios... .

P. - Quem esteve na formação do Movimento? É possível dizer hoje esses nomes?

R. - É difícil. Respondo-lhe pela negativa. Quem não esteve desde o início, quem não deu a cara nos momentos difíceis foram muitos daqueles senhores que o país conhece por se terem assumido como líderes da ala radical do MFA... Da Marinha, por exemplo, só o Crespo, o Contreiras e o Costa Correia deram a cara... Mas, depois, apareceu toda a Marinha, que "ocupou" tudo! Não se lembra que Vasco Gonçalves chegou a dizer que, "se os militares do Exército fossem como os da Marinha, a revolução tinha seguido em frente"? Eu até costumava brincar com alguns marinheiros meus amigos dizendo que a grande maioria daqueles revolucionários saltara dos braços do Tenreiro directamente para o colo do Vasco Gonçalves! E no Exército também tivemos muitos saltitões.! E, aqui, faço justiça à Força Aérea: manteve-se, na sua grande maioria, homogénea e isenta.

P. - Voltando aos "spinolistas"...

R. - Já que insiste nesse nome, eles foram um vector importante na génese do Movimento. Mas penso que valerá a pena, hoje, clarificarmos o termo... Poder-se-á chamar "spinolistas" aos oficiais que, tendo servido sob as ordens do general, lhe ficaram a guardar grande devoção e se identificavam com as suas posições políticas. Foi assim no início do Movimento. Depois, muitos militares se juntaram a nós, porque o "spinolismo" começou a ser o movimento de resistência, por incarnar uma leitura moderada face à radicalização que os líderes do MFA imprimiam à evolução política.

P. - Já lá vamos. Mas, antes disso, como se organizou a liderança do MFA?

R. - Quando o Movimento assumiu uma dinâmica significativa, foi eleita uma comissão coordenadora com três oficiais de cada arma e serviço, excepto nos de mais pequeno quadro, que só tinham um representante. Eram vinte e poucos oficiais, não recordo o nome de todos. Foram eleitos na reunião de Óbidos, no dia 1 de Dezembro de 1973. Era essa a legítima direcção do Movimento. Pela Cavalaria, foram eleitos o Salgueiro Maia, o Miquelina Simões e eu, que, estando na Guiné, regressaria em breve. Mas digo-lhe (porque isto é que é importante) que, nessa fase, não havia ainda alas político-ideológicas diferenciadas. Com muita gente com pouca formação política, haveria muitas ideias... Na minha opinião, em termos políticos, todos queríamos uma democracia. E se havia alguém - admito que haveria poucos - que sonhasse com um regime contrário a uma democracia política pluralista de tipo ocidental, não se pronunciaram nunca, nesse sentido, antes do 25 de Abril!

P. - Mas quem dirigia o Movimento? Quem detinha o poder? A Comissão Coordenadora? Logo a seguir, surge a Comissão Coordenadora do Programa do MFA... Qual era, afinal, a relação entre elas?

R. - O Movimento era dirigido pela sua Comissão Coordenadora. Quem detinha o poder... é mais difícil de explicar, ainda não havia verdadeiro poder para administrar. A direcção era da Comissão Coordenadora. Em 5 de Março, em Cascais, nomearam-se duas comissões: uma, militar, para a preparação da acção militar e uma outra, chamada a Comissão de Redacção do Programa.

P. - Quem integrava uma e quem integrava a outra?

R. - Da Comissão Militar faziam parte o Otelo, o Garcia dos Santos, o Moreira de Azevedo e eu próprio. Mas a este núcleo juntavam-se, quando possível, outros oficiais para ajudarem a estruturar a ordem das operações. Por exemplo, o Morais e Silva, o Luís Macedo, o Manuel Geraldes, entre outros.

P. - E a outra comissão era composta por quem?

R. - Pelo Melo Antunes, o Vítor Crespo, o Vítor Alves, o Vasco Gonçalves. Da Força Aérea, julgo que eram o Pereira Pinto e o Costa Neves.

P. - Ainda antes do 25 de Abril, há então já, distintas, como que duas linhas?

R. - A questão é que o surgimento, depois, de uma autoproclamada Comissão Coordenadora do Programa, foi o primeiro grande abuso e o primeiro desvio do espírito do MFA. Se a Comissão Militar pensasse do mesmo modo após o 25 de Abril, teria assumido a chefia hierárquica das Forças Armadas. Ora havia compromissos solenes entre nós de que não reivindicaríamos cargos nem benesses. E o correcto seria que a Comissão do Programa se extinguisse, tal como o fez a Comissão Militar, logo que cumprida a sua missão.

P. - Porque pensa que não o fez?

R. - O que essa Comissão quis - ou, melhor, os seus elementos - foi contra o próprio mandato que tinham, contra compromissos assumidos, sobreporem-se à Comissão Coordenadora do MFA e boicotar a Junta de Salvação Nacional, a quem programaticamente havia sido confiado o poder político e militar. Foi a acção funesta desses elementos que levou depois à queda do primeiro-ministro Palma Carlos e ao afastamento desse grande democrata que já se batia pela liberdade enquanto os aprendizes de feiticeiros da Comissão Coordenadora do Programa - que lançaram o anátema do "golpe Palma Carlos"... - andavam, de calções, na Mocidade Portuguesa!

P. - Está a ir muito depressa... Antes disso: como se explica o 16 de Março? Qual a sua versão desse acontecimento?

R. - Neste vigésimo aniversário, publicitou-se a sua verdadeira versão: porque alguns dos intervenientes nos dispusemos a falar. E porque os radicais do MFA e os seus aliados políticos já não controlam a comunicação social... Aliás, hoje, já controlam muito pouco... Bem, o 16 de Março foi uma explosão de revolta pelas demissões dos generais Spínola e Costa Gomes, e resultou de que estava para ter sido por esses dias a acção militar que viria a dar-se no 25 de Abril. A não anuência dos pára-quedistas na última reunião de distribuição da Ordem de Operações levou à suspensão da acção e criou o clima propício a essa acção espontânea...

P. - Espontânea?

R. - No dia 15 de Março à tarde, estavam reunidos na minha casa o Otelo, o Casanova Ferreira, o Armando Ramos e eu. Devido à grande agitação que se vivia nas unidades (provocada pela demissão dos dois generais, Spínola e Costa Gomes), o Centro de Operações Especiais de Lamego revoltou-se contra o Comando da Região Militar Norte. E pediram-nos apoio. Resolvemos, então, accionar o dispositivo militar que estivera preparado para o golpe militar em 12 de Março. Para tentar movimentar as unidades, o Otelo foi para Mafra, o Casanova para Santarém, o Armando Ramos para as Caldas - que sabíamos estar com grande grau de prontidão.

P. - E o brigadeiro Monge?

R. - Fiquei em Lisboa para informar as estruturas do Movimento e, ao fim da noite, reunimo-nos na Academia Militar - eu, o Bruno, o Jaime Neves, o Rafael Durão, o Mensurado e alguns outros. Decidimos ir então a casa do general Spínola (que morava ali perto) e pusemo-lo ao corrente do que se passava. A minha missão era assumir o comando dos esquadrões blindados de Cavalaria Sete, quando estes saíssem do quartel, dentro do planeamento das forças leais ao regime. Estava combinado com os respectivos comandantes que colocariam esses esquadrões em frente dos Jerónimos, onde eu os esperaria, para assumir o seu comando. Para a hipótese de impedimento da minha parte, estava em reserva o capitão Ruben Domingues. Spínola, ao ouvir esta descrição, mandou-me directamente a Cavalaria Sete, dizendo que o comandante, coronel Romeiras, estava duzentos por cento connosco... Tive as maiores dúvidas de que assim fosse e procurei contrariar o general. Ele insistiu, dizendo que o Costa Gomes lhe assegurara a adesão daquele comandante. Fui para lá com o Jaime Neves. Tal como receara, o comandante Romeiras mostrou-se totalmente contrário à nossa posição, tendo eu insistido então (e muito!) para que ele ligasse ao Costa Gomes - o que ele viria a fazer, mas, infelizmente, sem nenhum resultado prático! Ao ver o ambiente em Cavalaria Sete, o Jaime Neves e eu saímos. Como resultado desta "démarche", quando os esquadrões saíram do Regimento, o seu comandante mudara os comandantes dos esquadrões e perderam-se estas forças...

P. - E Otelo e Casanova Ferreira?

R. - Nenhum conseguiu, por seu lado, movimentar as forças de Mafra ou de Santarém. Quando as Caldas saem, ficam sozinhas no terreno. Fui preso, fiquei em Caxias até ao 25 de Abril. Mas quer a versão dos radicais do MFA - de que fora um golpe de antecipação "spinolista" -, quer a do outro lado (segundo a qual fora uma rasteira para prender um lote de oficiais moderados) são meras especulações.

P. - Dá-se o 25 de Abril: nesse próprio dia, a Comissão Coordenadora do MFA transfere o seu poder para a Junta de Salvação Nacional?

R. - Nesse mesmo dia, a Comissão Coordenadora do Movimento, como estava solenemente escrito, transferiu o poder para a Junta...

P. - Que se passou com a ala dita "spinolista"? Organizaram-se ou como foi?

R. - A Comissão Coordenadora do Movimento não era tão coesa como a Comissão do Programa Na Coordenadora, havia moderados mas também radicais..Não nos organizámos, estávamos demasiado ocupados com o dia-a-dia, todos nós tínhamos as nossas tarefas a cumprir... E cumpriu o que estava escrito no programa do MFA. Mas, no momento anterior, a Comissão Coordenadora do Programa autocriou-se para subverter a ordem institucional acabada de estabelecer e para, em conluio com forças políticas radicais, lideradas pelo Partido Comunista, tentar levar a revolução democrática para outras vias.

P. - Não acharam estranho esse comportamento?

R. - A Comissão de Redacção (logo a seguir, Comissão do Programa) foi incorporada no Conselho de Estado...

P. - Incorporada por quem?

R. - Julgo que pelo general Spínola, aliás, na melhor das intenções. Admitimos que se confinassem à sua missão institucional no seio do Conselho e não viessem a intervir na área do governo e na estrutura militar.

P. - O general sabia, por exemplo, que Vasco Gonçalves era comunista?

R. - Não sabia. E eu também não.

P. - Pensa que foi havendo uma "ultrapassagem" da ala radical do MFA aos representantes do "espírito" inicial do 25 de Abril?

R. - Como disse atrás, a ala radical do MFA, contra o compromisso dos militares do movimento, em vez de trabalhar para dar às forças políticas partidárias (logo, civis) o apoio e o campo livre para - como constava no Programa do MFA - se estabelecer e consolidar uma sociedade democrática, procuraram impor sistemas políticos que oscilavam entre uma ditadura do proletariado de modelo soviético e um regime terceiro-mundista de tutela militarista. Obviamente, tratou-se de uma ultrapassagem, a acção dos radicais do MFA foi um abuso indesculpável. Foi essa institucionalização do MFA que depois impôs aos partidos a monstruosa prepotência do pacto MFA-partidos, que se viram compelidos a aceitar. O PS tentou resistir mas, na altura, não lhe era possível.

P. - O brigadeiro Monge vem-se queixando dos comportamentos heterodoxos da ala radical do MFA. Pergunto então: se os "spinolistas" sentiam isso, porque calaram? Porque não agiram?

R. - Nessa altura, esse grupo já tinha a apoiá-lo a poderosa máquina do PC, com o respectivo controlo de toda a comunicação social, ou quase... Os únicos, na liderança do MFA, que na época funcionavam com alguma autonomia em relação aos comunistas eram Melo Antunes e Vitor Alves.

P. - Entretanto, acompanha, a Londres, Mário Soares, então ministro dos Negócios Estrangeiros, para a primeira negociação do cessar-fogo na Guiné. Que descolonização pensavam fazer os militares que rodeavam Spínola? Que "instruções" havia?

R. - Fomos a Londres e, depois, a Argel negociar o cessar-fogo com o PAIGC. A situação militar no terreno era muito difícil e, no campo político, a independência da Guiné, proclamada unilateralmente em 1973, fora já reconhecida por dezenas de países. Apesar disto, o povo da Guiné bem precisaria que não tivéssemos saído com a pressa com que o fizemos... Em Londres, o PAIGC propôs-nos um prazo largo para a nossa saída da Guiné. Só que a situação na Guiné foi pressionada para se reflectir em Moçambique e, principalmente, em Angola, onde não havia problemas militares. Sentimos essa pressão e vislumbrámos essa estratégia, inspirada pela União Soviética e conduzida pela OUA. E que, em Portugal, tinha como grandes aliados a ala radical do MFA e o PCP.

P. - Mas não me respondeu sobre se havia ou não algum tipo de "instruções" para a condução das negociações...

R. - Na véspera de partir para Londres, em 26 ou 27 de Maio de 1974, houve, à noite, uma assembleia do MFA na Manutenção Militar...

P. - O MFA continuava a reunir, a deliberar...

R. - Naquela altura, havia decisões que era difícil serem tomadas por outra instância. Perguntei aos meus camaradas se, nas negociações onde ia tomar parte, devíamos mostrar firmeza no sentido de acautelar os nossos interesses - ainda que nos pudesse acarretar dificuldades militares no terreno - ou se devíamos, como o Otelo defendia (e veio, aliás, a fazer com o Samora Machel!), considerar os movimentos emancipalistas credores de total apoio e confiança. Numa acalorada discussão, a maioria da assembleia concordou com a minha posição. Com essa disposição segui para Londres. Mas os líderes radicais do MFA faziam o jogo da parte negociadora adversa (chegando a encontrar-se às escondidas com os líderes africanos...), inviabilizando assim, totalmente, os esforços dos negociadores portugueses, nomeadamente dos ministros Mário Soares e Almeida Santos.

P. - Quem se encontrou às escondidas com quem? Quem fazia o jogo da parte adversa?

R. - O marechal Spínola conta tudo isso em pormenor no seu livro "País sem Rumo". Os nomes estão lá todos!

P. - Estou a entrevistá-lo a si e não ao marechal Spínola... A sua ideia da descolonização é negra! Não é vulgar ouvir um militar com responsabilidades no 25 de Abril acusar outros militares de forma tão frontal...

R. - Só para a descolonização era preciso uma entrevista! Apesar de feita tardiamente (reconheço isso), deveria ter sido conduzida doutro modo. Na altura, o MFA radical e os seus aliados políticos chamaram-lhe descolonização exemplar; agora dizem que foi a descolonização possível. É falso. Foi a descolonização que os líderes do MFA quiseram, inclusive curto-circuitando, secundarizando, ultrapassando os ministros civis do Governo que tomaram parte nas mesmas. Perseguindo e prendendo, e deixando levar à morte em África e Timor - como Joana Simeão, Magiolo Gouveia e tantos outros -, aqueles que tentaram opor-se. Começou a sua série de entrevistas com o tenente-coronel Melo Antunes, que nos acusou - a nós, o grupo próximo do general Spínola - de lhe termos dificultado os seus projectos descolonizadores. Foi óptima essa confissão de Melo Antunes. É que não me revejo nessa descolonização exemplar que provocou a terrível guerra civil de Angola, o genocídio do povo de Timor e a mais horrorosa miséria em Moçambique. Mas, em Macau, provou-se que poderia ter ocorrido uma descolonização diferente...

P. - Porquê?

R. - Também ali havia uma célula do MFA radical a desestabilizar... E o governador Garcia Leandro teve a clarividência e a coragem de a expulsar de Macau... Recordo-me de que um deles, o Quitério de Brito, quando cá chegou, foi logo nomeado pelo Vasco Gonçalves para o V Governo! Gostaria de acrescentar que, há pouco tempo, o ex-Presidente Aristides Pereira disse aquilo que muitos de nós bem sabíamos... O povo de Cabo Verde teria preferido ficar a fazer parte de Portugal, obviamente com um estatuto autonómico, que depois se definiria. E assim teria sido se se tivesse cumprido o estabelecido no Programa do MFA. Vou contar-lhe um episódio da descolonização de Cabo Verde: poucos dias depois do 11 de Março, estava eu preso em Caxias, ao passar por um corredor vi uma cela cheia de indivíduos de cor. Soube pouco depois que se tratava dos líderes dos dois partidos cabo-verdianos que, após o 25 de Abril, se organizaram em Cabo Verde... Um belo dia, foram presos e enviados para Caxias. E soube também que as segundas figuras desses partidos foram mandadas para o Tarrafal... Algum tempo depois, o PAIGC conseguia implantar-se em Cabo Verde. Mas quando, anos depois, houve eleições livres, foi o que se viu...

P. - E, na Guiné, lugar que conheceu tão bem, como entende que se passaram as coisas?

R. - Posso dizer o seguinte: quando a situação se estava a complicar - muito para além da própria complicação no terreno -, havia ao mesmo tempo um núcleo do MFA radical que desestabilizava as nossas forças militares. O general Spínola, sabendo disto, mandou que o Fabião, então governador, os recambiasse para a Metrópole. Esses revolucionários - um era o émulo do Danny Kay, o capitão Clemente, o outro o capitão Faria Paulino e ainda um terceiro, da Marinha, cujo nome não me ocorre - vieram então para Lisboa, porque Fabião obedecera ás instruções do general. Mas, poucos dias depois, é o próprio Costa Gomes quem os devolve à Guiné... para onde voltaram a seguir!

P. - Como foi o seu 28 de Setembro? Estava no Palácio de Belém...

R. - Estava em Belém na noite da fracassada manifestação silenciosa. Montou-se a maior farsa e a mais agressiva intimidação contra essa manifestação. Ergueram-se barricadas com civis armados a chefiar os soldados presentes nas mesmas. Foi a primeira vez que o poder caiu na rua.

P. - Porque é que Spínola não o agarrou?

R. - Dentro do Palácio de Belém, o general Spínola, sem capacidade de manobra nem força política, resolveu demitir-se. Foi uma atitude digna. Queriam impor-lhe esquemas de poder como aquele que mais tarde se veio a institucionalizar com o Conselho da Revolução. Abstenho-me de lembrar os pormenores de alcova dentro do Palácio; sinto náusea em recordar esses procedimentos e os seus autores.

P. - Gostaria, apesar de tudo, que recordasse alguma coisa...

R. - Recordo o essencial: o general Spínola e as suas casas civil e militar permaneceram dois dias em Belém - até 30 de Setembro -, vivendo essas horas na esperança de receberem algum apoio militar e político. E só no dia 30 é que Spínola lê o seu discurso.

P. - Mas como compreender isso? Estavam assim tão sós?

R. - Nos escalões intermédios, ao nível dos milicianos, a demagogia destilada pela comunicação social dominada pelo PC - que chamava "fascista" a tudo o que fosse contra os seus interesses - impedia o funcionamento disciplinar das unidades militares. Lembre-se de que "o povo estava com o MFA"... Em 30 de Setembro (o que prova o que acabo de lhe dizer), eu e alguns camaradas tivemos que fazer fortes pressões para que os jornais publicassem o discurso de renúncia do general. Lembro-me até de que, durante a sua leitura perante as câmaras da televisão, a Casa Militar estava toda armada para garantir que aquela transmissão, efectuada em directo, não fosse interrompida, pois tínhamos informações de que o iriam tentar... A verdade é que era obrigatório que o 28 de Setembro se desse, era imperioso afastar o general Spínola para que a aliança MFA-PCP pudesse, em Angola, descolonizar a seu modo. Para os fins de Setembro, estava prevista a vinda a Belém de um conjunto de angolanos não pertencentes aos movimentos emancipalistas mas influentes a nível local e que representavam, quiçá, a maioria dos angolanos.

P. - Entretanto, o general Spínola fora aos Açores...

R. - Para se encontrar com o Presidente Nixon, a quem pediu apoio para a descolonização de Angola. Queria resistir à pressão do MFA radical e do PCP, no sentido de evitar uma descolonização efectuada no interesse da União Soviética. Seguidamente, foi ao Sal encontrar-se com Mobutu, garantindo o apoio do Zaire. Acompanhei o general Spínola nestas duas viagens, embora não estivesse nas reuniões. Mas sei do que falo. Entretanto, enquanto, em Portugal, Costa Gomes, Vasco Gonçalves e a ala radical do MFA manobravam para afastar Spínola, ao mesmo tempo, em Angola, Rosa Coutinho, sabendo que os movimentos emancipalistas (nomeadamente, o MPLA) não tinham qualquer força militar, destruía a estrutura de comando do Exército português, enviando para Portugal dezenas de excelentes oficiais, ao mesmo tempo que distribuía armas ao MPLA e lhes transferia os catangueses que tinham estado ao serviço do Exército português. Digo tudo isto para deixar claro que foi assim que se criaram, em Angola, as condições para a descolonização que se seguiu.

Agora vêm os responsáveis por tais acções dizer que a trágica descolonização foi da responsabilidade dos três movimentos. Mas eu pergunto: Quem os armou? Quem lhes deu a exclusividade de representar os angolanos? Quem destruiu a capacidade militar das forças armadas portuguesas em Angola, destituindo os seus comandos, perseguindo os melhores oficiais? Quem lançou panfletos sobre os destacamentos, nomeadamente aerogramas de um autoproclamado "movimento das mães"?

P. - Tinha, entretanto, surgido em Portugal o "Documento Hugo dos Santos". Que pretendiam os seus signatários?

R. - Hugo dos Santos, militar generoso, prestigiado pela sua verticalidade e isenção, era uma referência ética para os oficiais do Movimento. Apercebendo-se dos graves desvios à pureza do Movimento, redigiu um documento com recomendações, entre as quais propunha a extinção da ilegítima Comissão Coordenadora do Programa e que se concedesse à Junta de Salvação Nacional a confiança do Movimento para exercer o poder. Este documento foi rubricado pelo general Costa Gomes, chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, e circulou pelos quartéis, sendo igualmente enviado para África. Os radicais do MFA entraram em pânico, de tal forma que conseguiram que o general Costa Gomes desse o dito por não dito e proibisse - através de mensagens-rádio - a circulação do documento. Continuando a circular semiclandestino, o texto reuniu muitas centenas de assinaturas, não se conseguindo, porém, a dissolução da Comissão usurpadora. Foi a última oportunidade de impedir o cortejo de abusos e desvios depois do 28 de Setembro.

P. - Foi a última esperança para o general?

R. - Foi. O general Spínola já antes pretendera renunciar. Mas foi a esperança de que o "Documento Hugo dos Santos" viesse a alterar a ordem das coisas que o aguentou mais uns tempos em Belém.

P. - Em Janeiro-Fevereiro, há eleições para os conselhos das armas e reedita-se a luta entre as facções. Qual era, nesse inicio de 1975, a verdadeira relação de forças entre as duas alas (ou mesmo três... ), do MFA? Terá sido aí que nasceu a ideia de eleger Carlos Fabião para o cargo de chefe do Estado-Maior do Exército. Isso pressupunha que a sua ala, a moderada, estivesse a subir, ou não?

R. - Os moderados tiveram, de facto, uma vitória esmagadora nas eleições para os conselhos de Infantaria, Cavalaria e Transmissões. E averbaram um bom resultado nos outros conselhos. Já antes, em meados de Dezembro de 1974, a ala radical do MFA e o seu aliado civil Manuel Serra haviam sido derrotados na sua manobra para decapitar o Partido Socialista. Recordo que, na noite da véspera do II Congresso do PS - o primeiro realizado em liberdade -, algumas brigadas do MDP-CDE e militares do Copcon andaram a prender diversos empresários, numa manobra de intimidação. Mas, no PS, impôs-se a liderança democrática da lista de Mário Soares e Salgado Zenha...

P. - Paremos um pouco nesse Congresso. Esteve lá..

R. - A clarificação democrática no PS era fundamental para a democracia. Pelo próprio PS passava, na época, uma clivagem democrática. Todos nós, quer os moderados quer os radicais, entendíamos isso; só que... com uma visão antagónica. Por isso, o Manuel Serra ia apresentar uma lista, aliado ao socialismo militar terceiro-mundista do MFA radical. Como tal, entendeu-se que seria útil levar ao Congresso uma representação do MFA moderado, dos capitães do Abril "puro". Organizei uma lista, éramos trinta militares: o Hugo dos Santos, o Salgueiro Maia, o Jaime Neves, o Virgílio Varela, etc. Como se provou, venceu a via democrática, pluralista e europeia. E, como dizia há pouco, a relação de forças começava, entretanto, nesse início de 1975, a pender para os moderados. Fomos nós que elegemos Carlos Fabião para CEME, contra o candidato do MFA radical, o Fisher Lopes Pires. Mas, sobre a actuação do tenente-coronel Fabião, já o PÚBLICO lhe fez uma esclarecedora entrevista...

P. - Mas então porque o escolheram?

R. - Direi apenas que Carlos Fabião passou, algum tempo depois, a estar do lado de indivíduos que não eram a sua gente...

P. - Entre essas eleições e o 11 de Março, pode então dizer-se com rigor que os "moderados" estavam a caminho de vir a obter a vitória no seio do MFA?

R. - Não direi que caminhávamos para a vitória no seio do MFA. Consolidávamos posições. E, com as eleições nacionais previstas para Abril, tínhamos esperanças de poder vir a controlar o processo.

P. - O 11 de Março ocorre para decapitar essa ala moderada?

R. - Não tenho dúvidas nenhumas sobre isso. Há, aliás, dados dos serviços de informações militares que apontam nesse sentido.

P. - Qual é a sua versão dessa ocorrência? Onde estava?

R. - Estava colocado na Academia Militar. Em 6 ou 7 de Março, fui a casa do general Spínola com o Casanova e achámo-lo muito excitado. A televisão bolsava na altura os mais degradantes programas: haviam passado uma peça revoltante sobre Luís de Camões, etc. O general dizia que queria sair do país, não aguentava o clima. Por estranho acaso, dois dias antes, o então Presidente Costa Gomes havia-lhe entregue dois passaportes diplomáticos, para ele e para a senhora. Convidou-o para almoçar e, de repente, entregou-lhe, sem mais nem menos, os dois passaportes... A cúpula radical do MFA queria-o fora de Portugal, a todo o custo. Mas, nessa noite, o Casanova e eu fizemo-lo prometer-nos que aguardaria o resultado das eleições anunciadas para Abril. Nunca mais o vi, a não ser em 1976, quando regressou do exílio...

P. - Mas, então...

R. - O 11 de Março foi uma ratoeira muito bem montada. Eu não quis ir para Tancos, mas cumpri aqui em Lisboa o que o general me manda pedir de Tancos. Não saíram as forças de Cavalaria 7, contra os pára-quedistas, unidade onde fui nessa manhã. O marechal foi enganado com a história da "matança da Páscoa". Puseram à prova o seu pundonor, a sua solidariedade para com os seus amigos. Não sei onde começou a extrema-direita e onde entrou em acção a aliança MFA radical/forças de esquerda radical. Nós, os moderados, nunca desencadearíamos um golpe numa altura em que as eleições - cujos resultados sabíamos ser-nos favoráveis - estavam à porta. Tudo foi feito à nossa revelia. Só poucas horas antes eu soube o que se preparava - certamente muito depois do almirante Rosa Coutinho, por exemplo.

P. - Entretanto, é novamente preso...

R. - E comigo todos aqueles que se distinguiam pela oposição à ala radical do MFA: Bruno, Casanova, Virgílio Varela e outros...

P. - Entretanto, desde Setembro, os "spinolistas" ou "moderados" teriam vindo a organizar a resistência ao sector "radical" do MFA: particularmente com o PS ou exclusivamente?

R. - A resistência contra os radicais era montada com forças dos partidos democráticos mas, muito particularmente, com o PS. Viu-se mais tarde a sua força na Fonte Luminosa. E foram os dirigentes do PS Salgado Zenha e Manuel Alegre que afrontaram corajosamente uma "troika" do MFA radical, liderada pelo Vasco Lourenço, quando este sector quis impor a unicidade sindical. Os dirigentes do PS tiveram um papel determinante nessa resistência. Quando estive preso em Caxias, após o 11 de Março, os interrogadores - às ordens do MFA-PC - queriam saber quem eram os dirigentes do PS que visitavam o general Spínola em Massamá, entre Setembro de 1974 e Março de 1975. O PS veio a ganhar as eleições de Abril de 1975, mas, antes disso, para criar o Partido "verdadeiramente" socialista que o almirante Rosa Coutinho anunciava, era necessário decapitar a liderança do PS. Por isso, os inquiridores queriam comprometer o PS no 11 de Março. Bem se esforçaram para tentar prová-lo, bem insistiram nos seus interrogatórios: sem grande êxito.

P. - Entretanto, ia-se organizando também o MDLP. De uma vez por todas, o que era e quem era o MDLP?

R. - Eu estava preso em Caxias. Fui dos últimos a sair. Saí em 31 de Outubro de 1975. Não sei nada do MDLP.

P. - Mas o facto de estar na prisão não o impedia de saber. Qual era a exacta relação, quais os contactos entre o MDLP e a vossa "resistência"? Que queria um e que queria o outro?

R. - É verdade que sei pouco, não acompanhei esses desenvolvimentos. Embora soubesse das pessoas mais "visíveis" que compunham o MDLP: o general Spínola e os que o acompanharam a caminho do exílio. Mas o Vítor Alves, aqui há tempos, disse coisas interessantes para a comunicação social sobre as ligações entre o Conselho da Revolução e o MDLP...

P. - Aproxima-se o Verão Quente. A resistência organiza-se, os Nove preparam o seu documento, pensa-se num governo liderado por Carlos Fabião para substituir o de Vasco Gonçalves. Como conta todas essas peripécias? A relação de forças entre as várias alas; o papel de Costa Gomes, o dos Nove; o de Otelo e da extrema-esquerda, o vosso...

R. - Como lhe disse, eu estava preso, não conheço essas peripécias tão bem como outras. O general Spínola estava no exílio, os "spinolistas" usavam outra capa, já que essa designação era maldita... . Também não conheço em pormenor a acção dos Nove...

P. - Alguma coisa há-de conhecer!

R. - Dou-lhe a minha leitura: "Se não puderes vencer os teus inimigos, junta-te a eles." O PS mobilizara a sociedade civil, a Igreja chefiava a resistência popular. Alguns radicais do MFA, com tantas responsabilidades no processo como os outros, resolveram mudar de campo. O documento puro de salvaguarda da democracia, o único, fora o de Hugo dos Santos. Ora o Grupo dos Nove - que a ele se opuseram ferozmente - veio copiar-lhe os processos e as intenções, sob a pressão dos acontecimentos. Depois, travaram o 25 de Novembro e negociaram com os golpistas. E, passado algum tempo, voltaram aos seus braços!

P. - A que se refere com essa expressão? Ao facto de o PC se ter mantido no Governo após o 25 de Novembro?

R. - Sim, claro. Mas repare que, para além disso, ao contrário de muitos militares que foram ouvidos em auto e responsabilizados, ninguém pediu nenhuma espécie de contas aos elementos do Partido Comunista, que se apurou que estavam metidos, até ao pescoço, no golpe. Existem nas Forças Armadas documentos comprovativos de que o 25 de Novembro foi um golpe desencadeado pela ala "gonçalvista" do MFA com o total apoio do PC. Quando o golpe estava em perigo de fracassar, o PC negociou com os Nove a sua retirada e os militares mais expostos foram para a prisão... Mas aquela tese dos Nove - segundo a qual se eles próprios não travassem a acção "clarificadora" que poderia estar em marcha, a direita reaccionária tomaria o poder - é totalmente peregrina...

P. - É?

R. - É! Está mais que provado que não havia, na altura, nenhuma direita organizada em Portugal. O que poderia ter acontecido era as Forças Armadas terem logo, a partir daí, voltado à pureza do 25 de Abril e acabado com o Conselho da Revolução.

P. - É uma ideia fixa da sua parte!

R. - Mas explico-lhe já porque penso assim: a existência do Conselho da Revolução - que os Nove dominavam - e a sua duração até 1982 é uma autêntica vergonha para a democracia portuguesa. Um Conselho da Revolução? Uma excrescência terceiro-mundista na Europa democrática dos anos oitenta? E, em 1982, quando se extinguiu o Conselho da Revolução, os "conselheiros" foram corridos porque as Forças Armadas não os reconheciam como seus... No Exército (o ramo mais actuante), nem um único conselheiro conseguiu regressar a quartéis e manter-se nas suas fileiras. Estão todos na reserva. Não é revelador? Provavelmente, porque eram, afinal, elementos estranhos... Mas o Hugo dos Santos, esse, hoje é general. Veja a diferença... De qualquer maneira, o que penso é que os Nove, se eram verdadeiros democratas, deviam ter extinguido o Conselho a seguir à eleição do Presidente da República, em 1976. Ao manter esse aberrante órgão, desmereceram a minha confiança. Não posso esquecer que tudo isso maculou a pureza do espírito do MFA e até a letra do seu programa.

P. - Que pensa de Otelo hoje?

R. - Otelo foi um militar generoso, foi o folclore romântico da revolução, mas deu cobertura a muitos excessos. Acabou por não se vergar ao PC, que nunca lhe perdoará. Deixou-se enredar nessa tragédia das FP-25. Mas ele e outros ex-revolucionários - que todos sabem quem são - fazem hoje chorudos negócios nesse pântano de corrupção em que se tornou Luanda.

P. - Entretanto, fez-se a descolonização. Acompanhou algumas negociações logo no início, mas depois foi mero espectador.Que comenta hoje? Foi a "inevitável" ou a "possível"?

R. - A liderança radical do MFA aponta como êxitos da sua acção a célebre política dos três D: descolonizar, desenvolver, democratizar. Tenho, mais uma vez e infelizmente, um parecer antagónico da versão oficial dos textos sagrados do MFA...

P. - Vamos por partes...

R. - Já dei, atrás, a minha opinião sobre a descolonização. Para reforçá-la, apenas acrescento que, em Angola, o Alto Comissário Rosa Coutinho, para impor a descolonização que os radicais do MFA desejavam (e incluem-se aqui os futuros líderes do grupo dos Nove), desenquadrou as forças armadas, preparando a expulsão de Angola de um conjunto de 43 oficiais que eram, naturalmente, os melhores e que mantinham a funcionar a estrutura militar...

P. - Quem eram?

R. - Antes de lhe dizer quem eram, digo-lhe onde estão hoje, para ter uma ideia... Um deles é hoje o chefe do Estado-Maior do Exército, outro, comandante-geral da PSP; outro ainda, é o general director da Arma de Cavalaria, etc. Ou seja, o MFA radical fez a descolonização que quis e que correspondeu aos interesses estratégicos da União Soviética. A salvaguarda dos objectivos permanentes de Portugal e os interesses dos portugueses de África nunca estiveram presentes nas suas preocupações.

P. - Segundo D...

R. - Desenvolvimento: com o beneplácito do MFA radical e pela mão do PCP, destruiu-se a estrutura produtiva do país, insuflou-se o ódio no mundo do trabalho, aniquilaram-se os grandes grupos económicos nacionais. Como resultado, na altura da abertura das fronteiras, devido à nossa integração no espaço económico europeu, os grupos estrangeiros dominam a economia portuguesa e controlam a nossa decrescente produção nacional.

P. - Será que, no terceiro D, a sua visão é menos negra?

R. - A democratização? Contra o jurado no seu Programa, a clique dominante do MFA institucionalizou-se no poder - nesse órgão terceiro-mundista que era o Conselho da Revolução -, que, durante oito anos, ofendeu o povo português, tutelando as suas opções democráticas e humilhando os líderes políticos seus legítimos representantes.

P. - Apesar de tudo, o brigadeiro Monge trabalha hoje no Palácio de Belém, justamente com alguém que foi um desses líderes políticos, e que hoje é Presidente da República...

R. - Como o país sabe, o dr. Mário Soares foi importantíssimo na resistência contra a tentativa de imposição de uma nova ditadura de cariz comunista-militarista. Naturalmente, entender-se-á que eu não queira tecer considerações lisonjeiras para com o Presidente de que sou hoje assessor. Mas os radicais do MFA bem sabiam da sua importância... Por isso o distinguiram na sua senha persecutória, que foi ao ponto de Vasco Gonçalves o mandar ouvir no processo do 11 de Março!

P. - Vinte anos depois, como vê hoje o país?

R. - Como militar no activo, não devo pronunciar-me sobre a situação actual. Nem seria preciso. O essencial é que hoje vivemos em democracia e em liberdade, com a importância das forças radicais que foram aliadas do MFA esquerdizante reduzidas à sua força eleitoral, como deve ser em democracia representativa. As instituições funcionam. Em relação às Forças Armadas, o MFA remanescente lançou a mistificação de que os militares de Abril eram segregados nas Forças Armadas; o que é falso. Alguns líderes do MFA nunca quiseram a integração harmónica do MFA no conjunto das Forças Armadas. Tinham e têm um espírito de seita. Consideravam-se os "donos do 25 de Abril". Hoje entrincheiraram-se na Associação 25 de Abril e aí vão murchando nostalgicamente.

Os militares de Abril, que se não desperfilaram como militares e que tinham competência, atingiram os mais altos postos. São generais, homens fundamentais do 25 de Abril, como Aurélio Trindade (inspector-geral das Forças Armadas), Hugo dos Santos (ex-comandante da Guarda Fiscal), Almeida Bruno (presidente do Supremo Tribunal Militar), Carlos de Azeredo (chefe da Casa Militar do Presidente da República), Adérito Figueira (até há pouco, comandante da Região Militar Norte), Mateus da Silva, Garcia dos Santos. E os mais novos, como os brigadeiros Garcia Leandro, Mariz Fernandes, Gabriel Teixeira e um magnífico grupo de coronéis - como Morais Silva, Silvério Pimentel, Armando Aparício e tantos outros -, têm abertas as suas perspectivas de carreira, embora saibamos que o número de oficiais generais é hoje muito menor.

Em minha opinião, acabaram por cumprir-se os objectivos do 25 de Abril, porque se voltou, pela acção soberana do povo português nas eleições e com as revisões constitucionais - só com elas foi possível pôr termo ao Conselho da Revolução! -, à pureza do espírito inicial de Abril. Vejo com satisfação e orgulho o Portugal de hoje. No MFA, cruzaram-se e confrontaram-se duas ideias de sociedade: os radicais queriam uma democracia popular ou um regime de socialismo militarista; os moderados aquilo que hoje temos, um regime democrático, pluralista, moderno. Veja, pois, quem pode hoje dizer que ganhou e sobretudo, que é o "povo quem mais ordena"!