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ENTREVISTA PACHECO PEREIRA

 

Texto: Maria João Avillez

Fotografias: Alfredo Cunha

É filho da geração de 62 e foi provavelmente nesses tempos de radicalismo, "slogans" e contestação, um dos mais brilhantes rostos do maoismo. E, como muitos dos excessos de 1974-75 e alguns acontecimentos essenciais da revolução inicial tiveram a assinatura da extrema-esquerda, é indispensável para a história do 25 de Abril revisitar hoje esses caminhos, relembrar essa voz embalada de propaganda e animada pela fé da "revolta global".

José Pacheco Pereira, 45 anos, começou a escrever muito cedo, frequentou tertúlias, conheceu poetas e pintores, publicou livros, formou-se em Filosofia. Transportou para Abril de 74 a esperança revolucionária e a chama do maoismo, de que foi militante enérgico e convicto. Depois, desiludido, abandonou a extrema-esquerda, perdeu amigos, voltou ao ensino e, longe do palco e da política, escolheu outro combate: através de artigos que ficaram célebres, dedica-se então a radiografar o "mal" do PREC, que, segundo ele, teimava em persistir em movimentos pouco saudáveis e ainda menos democráticos, como o eanismo e o pintasilguismo. Ou que deixara a sua semente "na cultura da maioria dos intelectuais de esquerda".

Após esta travessia do deserto, voltou à política, desta feita pela porta do MASP e pela mão de Mário Soares - personagem que indiscutivelmente admira, embora com todos os "senãos" ditados pelo seu (irremovível?) cepticismo sobre a natureza humana.

Apesar disso, Cavaco e o cavaquismo seduzem-no: entra e fica. Hoje, é onde está, continuando, "malgré tout", a ser olhado em diversos sectores - de esquerda ou direita, tanto faz - como um maoista no interior do cavaquismo. E, inegavelmente, como o seu "maître-à-penser".

Fica imperturbável quando ouve isto, o que já não ocorre quando lhe gabam as suas inúmeras prestações televisivas ou radiofónicas, as milhares de palavras estampadas em letra de imprensa: aí, faz um sorriso enviesado - que nunca, de resto, lhe alegrará o olhar sombrio -, para se afogar num impressionante caudal de vaidade...

PÚBLICO - O que distinguia fundamentalmente a sua geração [de 68] da geração de 62, que a precedeu?

JOSÉ PACHECO PEREIRA - Foi a primeira geração política estudantil que não passou pelo Partido Comunista e que nunca teve face a ele a relação de respeito reverencial que teve a geração de 62.

P. - E isso foi fundamental?

R. - Fundamental, porque fomos os primeiros a não ter uma relação de culpa face ao PCP.

P. - Relação de culpa?

R. - Sim. Nós não tínhamos esse sentimento, a outra geração tinha e, aliás, ainda hoje expia essa culpa... Muitos deles fizeram parte do PCP e saíram, muitos não chegaram a entrar porque não tiveram coragem...

P. - Ou porque não o quiseram...

R. - Mas esse número foi bastante pequeno. E portanto expiaram. No fundo não gostavam do PC, mas acharam sempre que os comunistas eram os antifascistas mais consequentes, corajosos e dedicados. E por isso expiaram. Nós acompanhámos de perto o ciclo político europeu e mundial - muito mais do que os de 62 -, vivemos em tempo real, somos muito diferenciados na nossa visão do mundo no que toca aos costumes, ao entendimento das relações familiares, à vida sexual, à cultura. É a primeira geração portuguesa cuja cultura é mais anglo-saxónica do que francesa. É pós-existencialista, interessa-se pela literatura anglo-saxónica, a banda desenhada, a ficção científica, os meios audiovisuais. Se você verificar o percurso posterior dessa mesma geração - para lá dos que estão na política e que são mais fáceis de identificar -, encontra centenas deles na rádio, na televisão, nos meios de comunicação social, no cinema, etc. E trocámos a Françoise Hardy e o Becaud pelos Beatles. Há aí uma grande diferença cultural.

P. - De resto, a sua curiosidade, as suas inquietações começaram por ser culturais: escreveu muito novo em jornais, frequentava tertúlias, era amigo pessoal de Eugénio de Andrade, que inclusivamente marcou a sua formação.

R. - Justamente, tratou-se de um trajecto geracional. A revolta contra o sistema - não apenas político, mas também cultural e ideológico - era uma revolta global: não gostávamos daquele modo de vida, achávamos que havia uma hipocrisia instalada, tanto na situação como na oposição. Éramos simultaneamente contra o regime salazarista e caetanista e contra a oposição tradicional; sobretudo, contra os comunistas, com quem tínhamos grandes diferenças no plano da mentalidade e da cultura. Este levantamento geracional - que depois irá entroncar no maoismo e na extrema-esquerda - começa por ser uma revolta cultural por inteiro. É por isso surrealizante e não neo-realista.

P. - Até que se chega, o que é muito significativo, a um processo de extrema politização?

R. - Exacto: era muito difícil, no contexto do final dos anos 60, evitar isso, o que foi significativo. Acompanhámos o fluxo das lutas sociais, o aparecimento de Caetano e fomos rapidamente apanhados pelo impasse da liberalização caetanista. No início de 70, dá-se uma repressão sobre o movimento sindical, há a restrição das liberdades públicas, entreabertas dois ou três anos antes. E daí o impasse: não conseguíamos, à medida que o sistema político se fechava, exprimir a nossa revolta. Portanto, politizámo-nos muito rapidamente e, na altura e no caso português, essa politização passava pelo maoismo.

P. - Era mais "novo", mais atractivo? A revolução cultural?

R. - Sim, devido ao impacto da revolução cultural, que era interpretada de modo mítico. Era atractivo para os intelectuais radicais - e particularmente num país com um regime autoritário - a ideia de uma revolução política que utilizava a palavra cultural e que pretendia mudar o mundo todo... (sorriso).

P. - De algum modo, a forma importava mais que o fundo...

R. - Sim, a substância não era muito importante em si. O que o maoismo dava era uma linguagem radical. Uma das palavras de ordem era colocar a política no posto de comando, mudar a vida toda. Isto é, o maoismo correspondia aos desígnios de uma política quase metafísica e não apenas a uma política baseada no oportunismo das circunstâncias, como era notoriamente a política soviética. E como já ninguém acreditava nela, os chineses surgiam-nos como "novos". Tudo isto era muito atractivo para nós...

P. - Embora hoje, quando se analisa tudo isso, se insista mais nos aspectos meramente políticos...

R. - Sim, a dada altura tudo aquilo se assumiu como essencialmente uma linguagem de tipo político. Mas o que marcou a diferença foi a génese da revolta contra a hipocrisia daquela gente salazarista, a censura e a oposição, que nós conhecíamos à distância... (sorriso). Os do PC liam os mesmos livros, andavam vestidos da mesma maneira, nós conhecíamo-los. O maoismo trazia-nos um suplemento de entusiasmo. Tudo isto era ao mesmo tempo muito entusiasmante e... profundamente ilusório...

P. - E você é apanhado pela sedução dessa vaga quando, exactamente?

R. - Em 1968-70, à medida que as lutas estudantis se desenvolvem. E quando elas começam a decair e se inicia a politização do movimento, há milhares de pessoas envolvidas neste processo que são empurradas para formas de acção mais organizadas e, de um certo ponto de vista, menos interessantes. Mas há portanto um surto de organizações políticas no início de 70. O MRPP, a OCMLP, o PCP(M-L) desenvolvem-se nessa época, são constituídas por estudantes e as diferenças são pouco relevantes entre elas. Mas estas organizações consubstanciam já uma fase muito menos interessante dessa geração, canalizam o ímpeto e a energia iniciais para expressões esteriotipadas, abstractas, que chega ao seu paroxismo com a linguagem do MRPP: "Fogo sobre o quartel-general", fogo sobre isto, fogo sobre aquilo... um mimetismo total da linguagem chinesa, sem o menor sentido.

P. - E uma sectarização, além do mais, ou antes de mais...

R. - Sim, andava-se à pancada para que num comunicado ficasse uma palavra de ordem e não outras! Essa sectarização, essa entrada em cena de uma política mais leninista de um ponto de vista organizacional, mostrava já uma certa decadência, que teria aliás surgido muito mais cedo se em Portugal não tivesse ocorrido o 25 de Abril: a revolução de Abril deu-lhes uma injecção de adrenalina e evitou o desaparecimento da extrema-esquerda, empurrando-a inclusivamente quase até à década de 80.

P. - O que disse a si mesmo no dia 25 de Abril?

R. - Um ano antes, na véspera do 1º de Maio de 73, a polícia assaltou-me a casa. Entrei então na clandestinidade como uma actividade política profissional: não fazia senão preparar panfletos, organizar reuniões, fazer pinturas... No dia 25 de Abril de 74, combinara com um amigo levar uns papéis de um sítio para outro. Muito cedo, ele apareceu-me a gaguejar, dizendo que houvera um golpe, devia ser o Kaúlza... O 25 de Abril apanhou-me assim na clandestinidade, em plena efervescência da acção. Mas logo me apercebi de que as coisas tinham de facto mudado...

P. - ... Como?

R. - Porque vi, em frente às instalações do Comércio do Porto, afixar na parede um papel - provavelmente pela OCMLP, muito activa na cidade do Porto - dizendo que houvera uma revolta dos pescadores de Matosinhos. Ora esse papel não só não foi arrancado, como esteve lá muito tempo... Passei a noite de 25 para 26 a fazer panfletos numa tipografia clandestina, a preparar o dia seguinte... O Partido Comunista também passou toda a noite a pintar as paredes do Porto... Foi uma enorme sensação de alívio!

P. - Saiu da clandestinidade?

R. - Permaneci alguns meses, a minha organização considerava que não havia ainda condições de estabilidade para a luz do dia, e quem estava na direcção - o meu caso - devia continuar na clandestinidade. Mas o mundo mudou completamente... dantes era preto, depois foi branco. Tenho dito sempre, aliás, que o dia 25 de Abril foi o dia singular mais importante da minha vida. Ela poderia ter sido uma coisa totalmente diferente se não fosse esse dia...

P. - Alguma vez se lhe tinha posto o problema africano, a guerra de África, etc.? Como é que olhavam, você e os seus companheiros, para a questão colonial?

R. - A linguagem da extrema-esquerda em relação ao país e às colónias era feita de esteriótipos, os estudantes não conheciam bem nem o país nem as colónias, a aproximação era puramente intelectual, verbal e, para além dos meios estudantis e alguns meios operários, não fazia o menor sentido. Combatia-se a guerra pelos "clichés" e defendia-se a entrega aos movimentos de libertação pelos "slogans", ninguém tinha a ideia da complexidade terrível da questão... Na minha geração, havia também muita gente que era da extrema-direita, e eu sempre disse que não havia nada de mais parecido do que esses jovens extremistas da extrema-direita e da extrema-esquerda. No comportamento, na relação psicológica, eram estruturalmente parecidos.

A diferença era que, para eles, a obrigação ética de serem radicais os levava, por exemplo, a oferecerem-se para a guerra de África e, a nós, a nossa obrigação ética de sermos radicais obrigava-nos a ir para a clandestinidade, a desertar e a combater a polícia. E sob esse ponto de vista, quando esta linguagem, em 74-75, se aproximou do poder, no PREC, é óbvio que trouxe uma visão deformada da realidade, porque carregada de esteriótipos.

P. - Que responsabilidades, que substância, que influência é que ela teve no desenvolver do PREC?

R. - Teve a sua quota de responsabilidades nos acontecimentos e na sua evolução. Mas sejamos historicamente rigorosos: a extrema-esquerda em Portugal teve algum papel em 74-75, mas nunca o papel efectivo de conduzir o processo político.

P. - Olhando para trás, 20 anos para trás, como vê o filme? Ou, melhor, que filme vê?

R. - Em primeiro lugar, o Partido Comunista sai da ilegalidade como uma força essencialmente moderada: lembre-se de que apela à moderação, faz uma manifestação contra as greves, etc. Até 28 de Setembro, desenvolve uma estratégia que era a que no fundo melhor correspondia à ideia que a extrema-esquerda tinha do próprio PCP: era um partido revisionista que abandonara a ideia da revolução e funcionava como o bombeiro da burguesia...

P. - Ocorre o 28 de Setembro e...

R. - ... depois dessa data e sobretudo depois do 11 de Março, com a utilização da sua influência junto dos militares para obter as nacionalizações, a reforma agrária, o controlo operário, etc., há muita gente na extrema-esquerda - e eu sou um deles - que pensa que o PCP quer objectivamente tomar o poder. Estou convicto de que o quis fazer em 75.

P. - Há quem defenda a tese de que o PC fez tudo isso aqui dentro para "entreter", mas o que lhe interessava era obter, como obteve, as colónias africanas. Acha então que os comunistas queriam objectivamente tomar o poder em Portugal?

R. - Acho, e por isso discordo dessa tese. Penso que queria as colónias mas foi mais longe, quis também o poder aqui. Não tentou tomar o poder pela revolução, mas sim - como disse o dr. Cunhal num célebre discurso de Agosto de 75 - pela manha, pela ronha, colocando as suas peças no aparelho do Estado. Para essa estratégia, era preciso que a extrema-esquerda não perturbasse o "timing" do PCP, do controlo pelo topo, criando agitação nas ruas e por aí fora...

P. - O que ela faz... Não faz senão isso!

R. - Por uma ironia do destino, a extrema-esquerda dá uma contribuição poderosa - retirando aos comunistas o controlo do "timing" político - para impedir essa tomada de poder. O 25 de Novembro é o sintoma desse fracasso do PCP, de controlar o "timing" do PREC... O que não só o coloca numa posição defensiva, como o faz, por isso mesmo, muitos anos depois, perder o que conquistara em 74-75. A extrema-esquerda foi decisiva nesta derrota.

P. - Vê essencialmente o 25 de Novembro como a exclusiva derrota dos comunistas?

R. - O 25 de Novembro é uma precipitação, o PCP não controla as ruas desde Agosto de 75. E faz aquilo que sempre fez: põe um pé dentro e um fora, e assim chega a Novembro. Se aquilo resultasse, ocuparia o poder do Estado e instalava uma ditadura revolucionária - feita porventura mais sob o modelo cubano do que sob o soviético. Se não resultasse, seria considerado um golpe de extrema-esquerda e retirar-se-ia, o que de algum modo fez. Estou convicto aliás de que o PCP não queria o 25 de Novembro e que ele resulta daquele seu descontrolo sobre o tempo político, criando-lhe uma situação de pré-guerra civil, para a qual os comunistas não estavam de todo preparados. A partir dessa data, a verdade é que nunca mais o PC controlou o PREC...

P. - Uma grande derrota?

R. - Uma derrota grande, com um grande sucesso numa coisa: o congelar, por muitos anos - com a ajuda preciosa do PS, de resto -, por via da Constituição, muito daquilo que foram as conquistas de 75.

P. - E quem no 25 de Novembro se pode gabar da vitória? O dr. Mário Soares, os militares do Grupo dos 9, a Igreja, a reacção, a sociedade civil, a democracia, os partidos "democráticos"?

R. - Isso tudo junto... Claro que o dr. Mário Soares tem aí um papel decisivo, como aliás o Grupo dos 9. Houve de facto ali um centro contra-revolucionário que funcionou, que contou com sectores da esquerda moderada - em particular o PS -, com o PPD, com alguns sectores da Igreja, com o apoio dos serviços de informação dos nossos aliados na NATO, com sectores civis mais à direita e com os militares também mais à direita, que haviam perdido poder político com a radicalização do MFA.

P. - E você, entretanto, onde estava e o que fazia?

R. - Fui das primeiras pessoas da minha geração a abandonar as organizações da extrema-esquerda.

P. - Quando saiu?

R. - Em Abril de 75.

P. - E conseguiu perder logo os "clichés" da linguagem, os "slogans", os esteriótipos de que falava?

R. - Durante algum tempo ainda discuti as coisas usando essa linguagem, mas o meu processo de afastamento foi muito rápido. Aliás, a maioria dos meus companheiros continuou até mais tarde e hoje, quando os ouvimos falar, dão a entender que nunca foram maoistas na vida. Diverte-me muito.

P. - Porque abandonou tão cedo a extrema-esquerda? O que o fez sair?

R. - Pela minha divergência quanto à análise do papel do Partido Comunista. Entendia que eles queriam tomar o poder e que deveria haver uma oposição a isso. Sob esse ponto de vista, fui sempre contra o PCP. Muita gente na extrema-esquerda continuava a interpretar o PC como sendo uma organização meramente reformista, o que significa que, na prática, faziam o seu jogo. Essas divergências foram-se agravando à medida que se ia dando um processo de concentração das organizações de extrema-esquerda, que viria a originar depois a UDP. Encontrei-me numa situação material complicada, não acabara o curso...

P. - ... De Filosofia?

R. - Sim. Quando a polícia me assaltou a casa, entre outros papéis, levou-me também a tese de doutoramento, estava praticamente pronta. Tive de voltar à profissão, recomecei a dar aulas com regularidade, organizei a vida. No dia 25 de Novembro, era um pacato professor do secundário e encontrava-me em Viseu, num seminário absolutamente pacífico. Lembro-me de ter visto passar os aviões, mas estava já completamente à margem do processo político.

P. - Era bom professor?

R. - Andei de escola em escola, fiz aquela diáspora dos professores, estive em Coimbra, em Trás-os-Montes, no Porto, mas, francamente, acho que não era bom professor. Estava desmotivado com o facto de ter ficado sem tese, queria voltar à Universidade, mas entretanto os currículos tinham mudado, etc. Recomecei progressivamente a escrever, comecei a publicar em jornais locais, depois em revistas académicas, ia a colóquios...

P. - Escrevia também sobre arte, ao que sei. Porquê?

R. - Sempre gostei muito de pintura, sempre comprei quadros e, talvez por isso, escrevi diversos textos para catálogos de exposições. Mas voltando à actividade profissional, a primeira investigação regular que fiz foi no grupo de trabalho do António Barreto, na Universidade Católica, sobre reforma agrária, que daria origem a um livro. Tudo isto para lhe dizer que não passei directamente da extrema-esquerda para a actividade política. Escrevi durante alguns anos, a partir do final da década de 70.

P. - Escrevia o quê?

R. - Escrevia com dificuldade. Os artigos não encaixavam naquilo que eram os paradigmas políticos. E se as pessoas dessa esquerda compreendiam demasiado bem o que eu escrevia, não entendiam as minhas posições, elas eram difíceis de classificar...

P. - Dê-me um exemplo?

R. - Criticava sobretudo o "establishment" intelectual e político da altura: lembro-me de que pareceu absurda a muita gente a posição que tomei em relação a Eanes, quando disse que aquela espécie de fronda dos intelectuais portugueses em relação a ele era uma coisa sem sentido... Como uma vez em que, sobre o esquerdismo português, disse que ele ia desde os reformadores até aos terroristas - que na altura começavam a aparecer. O que não encaixava aqui era a história dos reformadores e dizer que eles faziam parte da mesma tradição. Nada disto era fácil de encaixar e, como eu não tinha qualquer papel na política activa - além de ter escrito uns livros que foram proibidos na década de 70 -, havia dificuldade em caracterizar-me nas questões e nas correntes dominantes da vida política.

P. - Isso durou até quando?

R. - Até o dr. Cunha Rego - que lera alguns desses artigos e gostara - me convidar a colaborar regularmente no "Semanário". Foi um pequeno escândalo nos meios da esquerda: era um jornal visto como reaccionário, aliado à candidatura de Soares Carneiro! Hoje, isto é trivial, na altura não era.

P. - Por essa época, Sá Carneiro tinha emergido, era um vencedor, havia a AD. Vamos andar com o filme para a frente...

R. - Quando surgiu a AD, compreendi que se fechara um ciclo político. Ela podia perder ou ganhar, mas o certo é que o PS, enquanto partido hegemónico, acabou naquela altura. O PS faz a descolonização, faz o processo da revolução, beneficia de grande prestígio por ter combatido o gonçalvismo, é o partido que dispunha das melhores condições para ser hegemónico no sistema político português. Mas quando se tratou de criar em Portugal uma economia de mercado que funcionasse, de dar esse salto, o PS, cheio de complexos de esquerda, sem nunca se emancipar da asa ideológica do Partido Comunista, hesita. Hesita e adia. Como sempre fez nos momentos decisivos. O PS poderia ter sido aqui o PSOE português, não foi capaz.

P. - E Sá Carneiro?

R. - Ninguém dava nada pelo PSD. Dava-se até mais pelo CDS, que era visto como mais coerente ideologicamente e de um ponto de vista programático. O PSD parecia um híbrido. Mas a sua grande oportunidade foi ter - ele e Sá Carneiro - percebido que havia uma grande ânsia de reformas estruturais e de fundo que permaneciam por fazer. E que, para as levar a cabo, era necessário alterar as características do exercício do poder político - o que tinha de ser feito não através de um sistema de alianças do género do que originara o Bloco Central, mas na contraposição ao PS e com uma personalidade carismática e forte, que foi a de Sá Carneiro. Aliás, a experiência de Sá Carneiro é a experiência do cavaquismo: um partido que corresponde aos anseios de mudança inscritos na própria opinião pública e no sistema político.

P. - Mas curiosamente você, percebendo tudo isso, intuindo o alcance político da AD, admirando o carisma de Sá Carneiro, não se aproxima nem se motiva...

R. - Naquela altura, estava afastado da vida política...

P. - Justamente, é aí que quero chegar: estava afastado e permaneceu afastado. Porque havia outras questões, outros combates - mais culturais que políticos, porventura - que o interessavam mais?

R. - Tratava-se para mim de fazer um combate ideológico contra aquilo que eu chamava as péssimas ideias do PREC, que teimavam em subsistir num conjunto de movimentos...

P. - Como por exemplo?

R. - Por exemplo no pintasilguismo, no eanismo naquela espécie de sopa, de mistura... Até escrevi um artigo chamado "Viver na sopa". Eu, que tinha a fama de ter sido esquerdista, já nessa altura estava longe daquilo: era o Jorge Sampaio, o MES, os ex-MES, o GIS, os ex-GIS, aquela salada que se exprimia através de "O Jornal". Possuíam uma ideia da vida política como se ela tivesse de ser exclusivamente dominada por uma espécie de substância de projecto socialista, não tinham um espírito liberal! Era preciso um "arranque", uma tentativa de retirar as pessoas daquela pasta informe, daquele pensamento de esquerda antipartidário que se manifestava no eanismo, no pintasilguismo, embora este fosse mais basista. O Eanes procedia como se em Portugal pudesse haver um socialismo árabe ou uma espécie de partido abrangente de todos os outros... E havia ali também como que uma mística, e eu sempre detestei a mistura de religião com política. Tudo isso me parecia pouco democrático e, sobretudo, tratava-se de fazer sobreviver um património - não genuinamente democrático - do PREC, dando-lhe outros nomes... .

P. - Você no fundo passou mais de metade da sua vida à pancada com os chamados "intelectuais de esquerda"?

R. - Passei. Sobretudo contra as sequelas nos intelectuais do luto pela revolução que não fizeram. Como se passava com os eanistas e os pintasilguistas. Porque o que eles não queriam, no fundo, era eleições, partidos, não queriam esta coisa muita simples: que um cidadão comum, um taxista, um professor primário, pudesse ser eleito. Sempre foram arrogantes culturalmente, sempre se acharam superiores ao cidadão que queria ter um carro ou um vídeo, ou que gostava de ouvir o Marco Paulo. Porque sempre desprezaram a circunstância de que para a maioria dos portugueses viver bem era aceder a um certo conforto material. E, como olharam sempre de cima para isto, achavam que os portugueses eram uma espécie de estúpidos que votavam no sítio errado... A igualização que traz o voto em democracia não lhes interessava. Pela limitação que tinham em fazer o jogo democrático normal, ou pela incapacidade de ver a democracia como um sistema normalizado, era preciso arranjar outras coisas mais basistas, aprofundar a democracia, procurar o socialismo ético, aquelas coisas... Nunca quiseram um país normal, porque aí os intelectuais têm uma voz normal e não uma voz privilegiada. Eles quiseram sempre manter a posição tradicional dos intelectuais - sobretudo os de esquerda - do nosso século, que era falar directamente para o rei ou para o príncipe. Mas não foram só os eanistas ou os pintasilguistas, o próprio PS também caiu nessa sopa...

P. - Aliás, é interessante recordar os trabalhos do dr. Mário Soares para lutar contra isso...

R. - O dr. Mário Soares foi uma das poucas pessoas que lutaram genuinamente contra isto e portanto contra um certo PS, como aliás o fez também Jaime Gama, embora de outra maneira. Tentaram renovar o património ideológico do socialismo português e da esquerda, tentaram introduzir conceitos de racionalidade económica, de economia de mercado. Simplesmente, ao contrário do que aconteceu no plano ideológico, não foram capazes de ser consequentes no plano político.

P. - Mas a primeira candidatura de Mário Soares a Belém aclara muitas coisas de um ponto de vista político...

R. - Em 1985, essa candidatura acabou com duas coisas muito importantes: o eanismo e o pintasilguismo. E também com a última tentativa do PC em manter um sistema político fragmentado, em que os comunistas, não sendo o partido mais importante, era parecido com os outros em percentagem... Não esqueçamos que o PC apoiou decididamente a criação do PRD, o qual lhe dividia o PS e criava um sistema de quatro partidos semelhantes na votação! Mário Soares compreendeu isso muito bem. Aliás, permita-se-me este parêntesis: acho que ele hoje devia recordar os seus tempos de primeiro-ministro: quando era tão injustamente criticado - inclusive pelo PSD - ou maltratado pelos bispos, que faziam aquelas declarações sobre a fome; ou quando a esquerda, que hoje anda ali à volta dele, o tratava como um traidor, um burguês insensível à miséria, ou ainda quando acusavam o seu governo de corrupção e fraudes. Hoje é tudo muito parecido: o tipo de ataques que se fazem ao governo, a maneira como se coloca a questão da corrupção, o modo como se coloca a questão do exercício do poder político, etc.

P. - É então com o dr. Mário Soares, na sua primeira campanha presidencial, que regressa à actividade política?

R. - É. Estive no MASP e fi-lo com muito gosto. A campanha traduziu uma alteração no plano político que foi decisiva.

P. - Entretanto, Cavaco Silva já está em cena e você, que não se aproximara com Sá Carneiro, regressa com Cavaco. Porquê?

R. - Cada vez se me tornava mais claro que o PS era incapaz de proceder a reformas de fundo, que ia perdendo uma visão global da sociedade, que a sua direcção, pelo seus complexos e preconceitos de esquerda, ia definitivamente perder o comboio. As coisas precisavam de ser feitas, percebi que o PS não as iria fazer. E a partir de certa altura tornou-se-me óbvio que esse salto que era necessário dar no plano das reformas quem o daria era o PSD e Cavaco Silva. Isto é, era nítido que o PSD iria assumir a posição de partido hegemónico que pertencera ao PS. E a aproximação a tudo isto - que começo essencialmente por fazer através dos artigos de opinião no "Semanário" - leva-me a conhecer Cavaco Silva, com quem falei várias vezes.

P. - O que achava dele?

R. - Tive boa impressão desde o início: tinha uma linguagem, preocupações e atitudes muito distintas da classe política até aí dominante. E, sobretudo, uma vontade muito grande de fazer reformas. Não se via em Portugal mais ninguém com essa mesma vontade. E é ela que atrai muita gente, inclusivamente a mim próprio.

P. - Mas essa atracção política sedu-lo ao ponto de comparar - como o fez há pouco - a personalidade de Sá Carneiro com a de Cavaco Silva?

R. - Não sei se são assim tão diferentes... Se subjectivamente são pessoas distintas, a energia, a vontade, o fôlego e o partido que os empurra são os mesmos. Se olharmos a condução estritamente política do PSD, observamos o mesmo tipo de vontade política. Dou-lhe um exemplo, já que a tendência das pessoas é esquecer tudo: em 91 e contra muitas vozes no seu partido, o professor Cavaco Silva disse que ou teria a maioria absoluta ou iria para a oposição, em lugar de dizer que faria um governo de alianças. Isto mostra um jogo politicamente alto e, mais, mostra a capacidade para o fazer. E quando se diz que ele é autoritário ou "chefe", eu respondo duas coisas: primeiro, que a sua autoridade tem a melhor das origens e das fontes, que é a legitimidade política e eleitoral. Segundo, que se num partido que está no poder há muitos anos existem efectivamente fenómenos de aceitação acéfala da autoridade, isso é muito mais o demérito de quem a aceita do que de quem a exerce...

P. - É chato ser-se sempre caracterizado como o "maître-à-penser" do cavaquismo?

R. - Não, pelo contrário, é até um elogio. Simplesmente, como a maioria das pessoas que dizem isso não são "maître-à-penser" de coisíssima nenhuma... eu não tomo isso a sério e vejo essa classificação com ironia.

P. - Como é que deve ser analisada, explicada, compreendida, a sua passagem do maoismo para o cavaquismo, mesmo tendo em conta que houve um grande intervalo entre uma coisa e outra?

R. - Sou há mais anos deputado do PSD do que aqueles em que estive na extrema-esquerda... Convém lembrar isto para pôr as coisas no lugar certo. Bem... o que foi marcante na minha vida e que de algum modo me fez ser aquilo que sou hoje foi esta experiência da radicalidade estética - anterior ao maoismo - e que durou vários anos. Foi uma experiência que começou na adolescência, muito intensa, na qual me reconheço inteiramente. Portanto, essa vontade de mudar tudo era para mim muito forte e veio mais tarde a encontrar uma expressão política. Sabe que durante os complicados anos do fim do regime tirei enormes lições para os dias de hoje...

P. - Quais?

R. - O conhecer muito bem as pessoas, o não ter ilusões sobre elas, o ter a consciência das nossas limitações, o praticar a lealdade.

P. - Faz política distanciado em relação à natureza humana? Introduz um elemento de distância entre si e o mundo?

R. - Não, não. Mas a verdade é que já naquela altura eu praticava um certo cepticismo. Mas por sobre tudo isso houve sempre um imenso sentido de obrigação ética que comandou tudo. E no fundo hoje não sou muito diferente disso, não tenho a consciência de que o meu sentimento de obrigação ética face à política seja diferente do desses tempos. O folclore, a linguagem radical ficaram perdidas no tempo... A obrigação ética, essa, persiste.

P. - Em que país vivemos hoje? Por exemplo, como caracteriza a sociedade portuguesa neste fim de século?

R. - O país mudou radicalmente. Hoje tem expectativas e padrões de vida a caminho dos europeus. Em 74 não tinha, em 94 tem. Hoje mesmo aqueles portugueses com mais dificuldades têm acesso a um consumo que não é distinto do europeu. O progresso material, a riqueza, os bens, a possibilidade de as pessoas possuírem coisas e terem a capacidade de mandar na sua própria vida tornam a realidade mais complexa, sobre todos os pontos de vista: económicos, sociais, políticos. É uma sociedade em que nem tudo necessariamente melhora, mas em que fazer política vai ser cada vez mais difícil. E isso é bom, porque a pobreza faz sociedades a preto e branco, e essas são as únicas que são fáceis de governar.

P. - Uma visão optimista?

R. - Sim, é verdade, tenho uma visão positiva sobre as reais transformações do meu país. Quem disser que isto não mudou ou que mudou pouco, não conhece o país.

P. - Mas um país não se pode medir apenas pela sua saúde económica ou pelo acesso de todos ao consumo. E a alma? Alguém está a cuidar dela? O que é Portugal hoje?

R. - A alma não é matéria de política. Só os regimes totalitários é que têm "política de espírito". Cada português tem obrigação de cuidar da sua alma, que eu cuido da minha. Nem o Estado nem a política "stricto sensu" têm nada a ver com isso.

P. - Resposta hábil, essa. Outra coisa, agora, para terminar: que quer para si? De que tamanho é a sua ambição política?

R. - Numas coisas quero tudo, noutras, nada. Tento praticar há muitos anos uma arte que os gregos desenvolveram chamada "ataraxia", isto é, a adequação dos desejos à realidade. Como é sabido, nem sempre se consegue...