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ENTREVISTA COM VÍTOR CUNHA REGO

 

Texto: Maria João Avillez

Fotografias: Alfredo Cunha

Viveu muitas vidas em muitos lugares. Fez muitas coisas, acreditou em todas. Ao fim de um exílio de dezoito anos, voltou em 74. Cinco dias após o 25 de Abril, "percebeu que estava tudo perdido". Por isso, no PS e ao lado de Mário Soares, lutou, mesmo quando os combates eram desiguais. Passou por Madrid como embaixador, o PS portou-se mal para com ele, demitiu-se, abandonou Madrid e de caminho a família socialista. As ideias de Sá Carneiro seduziram-no porque iam ao encontro daquilo que desde 74 fora - ainda é - o seu combate essencial. Hoje, passados alguns anos de distância e silêncio, voltou para junto de Mário Soares, talvez porque é esse afinal o lugar que lhe é próprio. Mas sempre, sem nenhuma espécie de ilusão sobre coisa nenhuma. Le Carré não faria melhor. Um personagem.

PÚBLICO - Esteve muitos anos exilado no Brasil. Que contactos tinha e com que oposição em Portugal?

VÍTOR CUNHA REGO - Com a oposição que havia. Desde que saí, em 57, houve um período de unidade oposicionista. Unidade cimentada pela candidatura de Humberto Delgado que uniu o Partido Comunista, a resistência republicana e socialista - a origem do futuro PS - e alguns grupos como o MAR - o Movimento de Acção Revolucionária - e outros grupos revolucionários de esquerda, onde conhecia muitos dos seus participantes.

P. - Quando voltou para Portugal?

R. - Poucos dias antes do 25 de Abril. Finalmente, o Governo português, que sempre me negara o passaporte, deu-me um, o que me permitiu voltar. E como acontecera já o golpe das Caldas - onde tinha alguns amigos -, foi-me dito por eles que a situação estava no fim, que o regime ia cair... Arrisquei voltar - pelo menos já não seria preso -, tinham passado 18 anos.

P. - O que disse a si próprio no dia 25 de Abril? Como olhou para as coisas?

R. - Não disse grande coisa, a situação era ainda muito fluida... Ao fim de 18 anos não consegui logo estabelecer as ligações políticas e pessoais em 24 horas... Só tive uma percepção mais exacta no dia 1 de Maio de 74.

P. - A percepção de quê?

R. - De um tremendo equívoco. Especialmente nas classes médias portuguesas e na burguesia. Tive a percepção de que o Partido Comunista tudo faria para tomar conta do poder. E que não só a oposição liderada pelo PS como os sectores mais liberais dessa mesma oposição estavam a ser empurrados para uma situação muito difícil, especialmente em termos da formação da Junta de Salvação Nacional e sobretudo do primeiro grande problema que teriam de enfrentar, que era a descolonização.

P. - Na formação da Junta de Salvação Nacional o que o afligiu?

R. - A sua composição, que traduzia um compromisso que, por exemplo, Melo Antunes pode julgar que lhe era desfavorável mas que eu considerava ser uma cedência grave dos militares mais moderados. E que num momento posterior inevitável de ruptura não estariam coesos como estava o outro lado.

P. - Nesse estado de coisas, você fez o quê, virou-se para quem?

R. - Sempre estivera ligado ao movimento que levou à formação do PS e ao dr. Mário Soares, na decorrência desse percurso. Afastara-me da política militante no exílio em 68, 69, por considerar que o PC tinha um papel tão preponderante que eu não estava disposto a colaborar. E logo a seguir ao 25 de Abril percebi que a única força que se poderia opor aos comunistas não estava à direita, estava à esquerda, ou seja, era o dr. Mário Soares e o PS. Eu já lá estava, mas assumi então posições de direcção no Partido durante alguns meses, exactamente com esse objectivo: estar no lugar onde eu considerava que poderia de alguma maneira opor-me com mais eficácia ao rumo das coisas.

P. - O facto de ter tido responsabilidades na direcção socialista e de trabalhar com o dr. Soares levou-o a acompanhar de perto as primeiras negociações com vista à descolonização?

R. - Eu era chefe de gabinete do dr. Soares nas Necessidades, sendo ele ministro dos Negócios Estrangeiros. Os problemas eram muitos e foi evidente desde o princípio que o dr. Mário Soares foi empurrado para tratar de assuntos ligados à descolonização com uma expressão relativamente menos importante do que outras...

P. - Explique melhor...

R. - Eu explico melhor: ao dr. Soares foi reservada a descolonização de Cabo Verde, da Guiné, e de S.Tomé e depois, por ser ministro dos Estrangeiros, as forças do MFA que controlavam a descolonização - e em particular, Melo Antunes - foram obrigadas a também não poder prescindir do dr. Soares para Angola e Moçambique. Mas numa primeira fase foi nítida a sua marginalização.

P. - Mas nem ele nem você - que estava junto dele - tiveram a consciência disso? Não se procurou inverter essa situação?

R. - Eu nunca troquei uma palavra sobre a descolonização com o dr. Soares, a não ser o facto de o ter alertado para o rumo que as coisas tomavam em termos de alguns domínios portugueses que estavam a ser sacrificados - mesmo ao nível do Estado - nesse processo de descolonização. É minha convicção que o dr. Soares não se queria comprometer com o processo de descolonização de Angola e Moçambique.

P. - Porquê, se falava na necessidade dessa descolonização?

R. - Porque ele não controlava de maneira nenhuma esse processo, que foi dominado pelo major Melo Antunes por um lado e pelo Partido Comunista pelo outro. Estou convencido de que Melo Antunes não era membro do PC: se o fosse não teria tido o papel de destaque que teve... Só um homem que não faz parte do aparelho de um partido pode ter esse papel de relevo. Porque, tirando o major Melo Antunes, foram escassas as figuras de relevo na descolonização...

P. - ... por exemplo?

R. - Por exemplo, o almirante Rosa Coutinho, que teve um papel pontual, curto, porque era do Partido Comunista... Ora o facto de Melo Antunes ter sido sempre um mentor e um executor dessa descolonização leva-me a crer que ele não pertencia ao partido. Para voltar ao dr. Soares: a sua marginalização era evidente.

P. - Insisto: não poderia ter sido diferente?

R. - Só poderia se ele tivesse querido romper com o Governo de que ele próprio fazia parte e com o MFA.

P. - Tratou-se de uma espécie de opção? Uma escolha entre duas "dificuldades"?

R. - Tratou-se de escolher entre uma aliança com o MFA - e de certa forma não conduzindo assim o processo de descolonização - ou romper com o MFA logo desde o início - como foi o caso de Sá Carneiro -, mas isso conduziria o dr. Soares a tirar o PS do Governo ou, pelo menos, a ter de sair ele próprio. E a perder toda a influência e interferência na política interna.

P. - E então você não falava com o dr. Soares da descolonização? Nem do major Melo Antunes? Sendo o seu mais próximo colaborador, custa um pouco a crer...

R. - Dou-lhe a minha palavra de honra e garanto-lhe que nunca falei com o dr. Soares sobre o major Melo Antunes em termos da descolonização! Troquei várias impressões com ele sobre Melo Antunes em relação à política interna, não troquei sobre a descolonização. E isso porque eu próprio não estava de acordo com esse processo nem como ele estava a ser conduzido. E tive mesmo receio que, numa troca mais profunda de ideias com o dr. Mário Soares, ele pudesse interpretar mal os meus pontos de vista e pressentimentos.

P. - Qual era o seu desacordo? O aceleramento? Ou...

R. - ... era um motivo muito claro e simples. Eu considerava - e não apenas eu, muita gente como o Manuel Lucena, por exemplo, e outros que o escreveram na altura - que as Forças Armadas deveriam permanecer em África mesmo para além da independência e que eram o único garante dos bens portugueses e da presença portuguesa naquela altura. Mas a partir de um certo momento, apercebi-me que já não era esse o problema. A questão era bem mais dramática: era retirar essas FA e retirá-las de lá rapidamente. Porque no estado em que elas estavam e com as chefias que tinham, era necessário evitar um perigo terrível: serem essas Forças Armadas afinal, no caso de lá permanecerem, a reprimir os portugueses. A minha principal preocupação e receio era se as tropas se viravam, em Angola e Moçambique, contra os colonos portugueses. O que, a meu ver, se poderia transformar numa possibilidade. E então era necessário retirá-las para que, em vez de estarem a garantir vidas e bens, estivessem a proceder a uma aliança - inevitável - com as vanguardas revolucionárias locais: MPLA, Frelimo. O que seria terrível...

P. - E aí, interveio de algum modo?

R. - Tentei intervir no sentido em que elas retirassem rapidamente, já que a descolonização era irreversível - disso eu não tinha dúvidas - no modelo em que se deu. Isto é, sem haver já qualquer possibilidade de equilíbrio entre os três movimentos angolanos. Também era já visível que o único que sobreviveria, para além do MPLA, era a UNITA, pois assemelhava-se àqueles movimentos de sobas que se opuseram à colonização portuguesa, era uma movimentação do campo contra o cosmopolitismo e a cidade e iria sobreviver porque tinha raízes históricas na luta contra o MPLA que representava a élite da cidade. O resto iria ser trucidado. Para voltar atrás: quando me apercebi de tudo isto e do papel tremendo que poderiam vir a ter as nossas Forças Armadas ajudando nessa trucidação, falei com gente e tentei influenciar. Falei com o Otelo, por exemplo, que nesse tempo ainda não era um extremista mas um militar moderado que se dizia ligado ao general Spínola e apelei para que ele exercesse a sua influência no sentido de um repatriamento rápido.

P. - Como analisou as tomadas de posição do general Spínola?

R. - Não se esqueça que eu tinha estado 18 anos longe daqui e não conhecia bem as pessoas, não podia fazer juízos de valor definitivos. E só percebi que Spínola talvez não estivesse predestinado a ser Presidente da República quando cá esteve o general Wernon Walters, na altura o "big boss" da CIA, que aliás veio cá visitar - em fins de Agosto de 74, se não erro - ostensiva e institucionalmente o general Spínola, o general Costa Gomes, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves e o ministro dos Estrangeiros, dr. Mário Soares. Numa conversa que mantive com Wernon Walters, para grande surpresa minha, ele disse-me que a figura que tinha mais hipóteses de persistir no poder com a apoio dos militares seria o general Costa Gomes.

P. - E a que atribuiu essas "certezas" de Wernon Walters? Não se interrogou, não o interrogou?

R. - Atribuí a informações de que ele disporia e limitei-me a ouvi-lo... Mas isso ajudou-me a compreender melhor as posições relativas de cada um. Depois, fui com o dr. Soares à sessão inaugural da ONU, de onde ele seguia para Estrasburgo, para o Conselho da Europa. O dr. Soares aconselhou-me então a que regressasse a Portugal porque a situação aqui degradara-se muito. Cheguei a 27, assisti aos acontecimentos de 28 com muita preocupação e ao discurso de Spínola com maior preocupação ainda. Depois disso, acompanhei de certa forma o general Spínola no seu ostracismo até ao 11 de Março, tive com eles diversos contactos no sentido de o dissuadir de posições radicais... como o próprio 11 de Março... Presumo que ele não é o pai da ideia! De resto, foi para mim claro que iria haver um 11 de Março...

P. - Percebeu que iria haver qual 11 de Março?

R. - Dei-me conta que iria haver uma actuação anticomunista de alguns elementos desgarrados do MFA ou das FA... E que tanto o PC como o MFA - que ainda existia com muito poder e força apesar das cisões e prisões de oficiais spinolistas - se iriam aliar e dominar totalmente a situação. Por isso apelei ao general Spínola para que não se mexesse. Até o convidei a ir à Suíça, a um simpósio, e ficar por lá uns tempos... E fiz mais do que isso: transmiti-lhe certas garantias - tanto quanto era possível dá-las! - de que ele seria escolhido por individualidades socialistas de peso e vulto para se candidatar à Presidência da República quando fossem as eleições. Infelizmente ele não me ouviu e aconteceu o que aconteceu.

P. - E então o seu objectivo passa a ser qual? Virou-se para quem e para quê?

R. - Virei-me cá para dentro com outro objectivo: fazer uma aliança entre Mário Soares e Sá Carneiro.

P. - Estamos a falar de que altura?

R. - Logo após o 11 de Março... O meu objectivo era juntá-los e através deles o PS e o PSD para fazer uma aliança de regime e para que o fatal pedido de integração na CEE fosse feito em conjunto pelos dois grandes partidos e pelos seus líderes.

P. - Esbarrou com quê, ou com quem?

R. - Esbarrei com um acontecimento fortuito que foi a doença de Sá Carneiro. E quando ele volta, encontra já o PS no centro da grande luta contra o PC. Ele chega depois das Antas, depois da Alameda, a ocupação do espaço político fora do PC estava feita pelo PS! Mas apesar disso, quando Sá Carneiro chega a Lisboa, eu consigo - através da Conceição Monteiro - um encontro imediato entre os dois. Mas nessa altura, o dr. Sá Carneiro não quis dar ao dr. Soares aquilo que legitimamente lhe pertencia: a primazia de ser ele não só a primeira figura da política portuguesa mas de ter sido também o condutor da luta contra o PC - inserida no contexto mais vasto da luta Leste-Oeste. O dr. Soares foi o grande protagonista dessa luta que começa, como sabemos, com o comício contra a unicidade sindical, com o dr. Salgado Zenha e outros dirigentes - Jaime Gama, Manuel Alegre - do PS...

P. - Luta que teve a ajuda da Igreja e de...

R. - Ah, mas essas movimentações da Igreja nunca escaparam ao dr. Soares! Recordo-lhe que a primeira coisa que ele fez como ministro dos Estrangeiros - após a digressão aos países europeus e africanos - foi visitar, num gesto absolutamente inédito em termos diplomáticos, o núncio apostólico, sem esperar que o núncio, que era o decano dos diplomatas, lhe fosse apresentar cumprimentos a ele... E depois da Nunciatura, foi visitar o cardeal-patriarca...

P. - Sinais políticos determinantes...

R. - A partir desse momento, os sinais estavam dados e - à excepção de algumas movimentações pontuais da Igreja no norte, lideradas por uma ou outra figura, como julgo que foi o caso, por exemplo, do cónego Melo - o dr. Soares esteve sempre muito atento e nunca ficou de fora desse contexto.

P. - Voltando ao encontro gorado entre Soares e Sá Carneiro: foi uma batalha que você perdeu?

R. - O encontro gorou-se, foi duro para mim, havia outras pessoas interessadas nisso, não foi possível: sou um homem que vai perdendo sucessivas batalhas!

P. - E depois, vai trabalhar com o dr. Soares para S. Bento, como secretário de Estado adjunto, quando ele foi primeiro-ministro. Para fazer o quê?

R. - Ser responsável pela Presidência do Conselho era também ser responsável pelas agendas do Conselho de Ministros. Quem faz essa agenda tem algum poder. E nunca houve durante esse tempo uma só vez em que o dr. Soares não concordasse com a agenda ou com as opiniões fundamentadas do Gabinete que eu chefiava sobre os diversos pontos dessas agendas, salvo em assuntos económicos.

P. - Mas há aí uma contradição: faz as agendas mas acaba de sair de S. Bento por não concordar com o rumo da política económica. Porquê? O que advogava?

R. - Há essa contradição, é um facto. Essa política económica era corporizada pelo dr. Sousa Gomes, ministro da Coordenação Económica, mas havia no Conselho um certo dualismo entre ele e o titular das Finanças, Medina Carreira. Não se conjugavam nos diversos pontos. Mas o dr. Sousa Gomes, com a confiança total de Salgado Zenha, conseguia impor-se. E eu não estava de acordo com isso. Não era preciso ser inteligente para perceber que Portugal não escaparia a um acordo com o FMI. Ora eu via nesse acordo uma arma da oposição e não consegui convencer o dr. Soares de que não era assim...

P. - Era como?

R. - O problema histórico português para mim é sempre o de um Estado prepotente. A nação portuguesa forma-se através de um Estado avassalador e de uma sociedade civil muito fraca e com pouca capacidade de reacção. Esse continua a ser, de resto, ainda hoje, o problema número um da sociedade portuguesa. Naquelas circunstâncias, o que eu pretendia era que se apoiassem os estratos da classe média surgida com o "boom" económico do fim dos anos sessenta no "caetanismo" - e que hoje estão no poder - e se apoiassem também os grupos económicos que tinham sido frustrados pelo 11 de Março, mas que eu via como inevitavelmente ressurgentes, embora com um papel diminuído no futuro se esse futuro fosse muito longínquo...

P. - E havia condições para isso?

R. - Havia. Os empresários que restavam e aqueles que estavam a ressurgir queriam isso. E mais: dispunham-se a colaborar com o Governo. O dr. Soares teve sempre por essas pessoas, no plano pessoal, muita consideração - excepto num ou noutro caso. Recebeu, quando era primeiro-ministro, quase todos os empresários com nomes mal vistos pela oposição e já tinha falado com eles quando era ministro dos Negócios Estrangeiros. No entanto, uma coisa é o dr. Soares, outra, o Governo.

P. - O Governo era o dele... escolhido por ele...

R. - ... mas não esqueça o que lhe disse há pouco: a grande importância que tinham os ministros das áreas económicas. Seja como for, o dr. Soares não foi sensível nessa altura às minhas ideias... que eram um ponto fulcral. Tratava-se da autonomia da sociedade civil que só poderia ser feita com aquilo que havia e não com aquilo que se pensava que poderia vir a haver! E o que havia eram os estratos da população que tinham emergido como forças económicas, como grupos económicos, sociais, voltados para o desenvolvimento dentro de uma economia de mercado. Dentro do capitalismo, portanto, emergido do tal "boom" do final de sessenta. Mas falhei. E a teoria que imperou foi a do poder do Estado... o Estado era o governo, eu não tinha já nada a fazer, fui-me embora....

P. - ... para Madrid...

R. - Como o dr. Soares me tratou sempre com a máxima generosidade, ele e o dr. Medeiros Ferreira, então titular dos Estrangeiros, convidaram-me para embaixador em Madrid. Fiquei uns anos, gostei muito, tentei juntar todos os portugueses sem excepção que se haviam exilado em Espanha e congregá-los numa casa-mãe. E colaborei de uma forma muito activa na consubstanciação do tratado que substituiu o Pacto Ibérico. Hoje tenho orgulho em dizer que - com Pires de Miranda - sou o único diplomata que cortei os vínculos ao Ministério dispensando assim auferir dos benefícios que a carreira dava: hoje seria embaixador na reforma...

P. - Quando regressa, encontra Sá Carneiro a tentar fazer aquilo por que você se tinha batido... Estava em curso a alteração do regime, um tema que lhe era caríssimo...

R. - Exacto. Havia em Portugal um facto completamente novo, a AD. E Sá Carneiro era primeiro-ministro. De resto, presumo ter contribuído para isso. Sá Carneiro, Francisco Balsemão, Freitas do Amaral e Amaro da Costa - como ocorreu como muitos outros políticos portugueses - tinham estado comigo na Embaixada em Madrid a conversar. Era visível alguma desconfiança entre eles em relação à formação de uma coligação entre o CDS e o PSD porque quando ela estivesse feita Sá Carneiro seria o seu líder natural. Tive longas conversas com Amaro da Costa e fui das pessoas que o convenceu que Sá Carneiro seria um excelente líder e que nada seria feito, na AD, sem o seu acordo, o de Adelino e o de Freitas do Amaral. Devido talvez a estas minhas colaborações, Sá Carneiro convidou-me para o seu primeiro Governo.

P. - Não aceitou...

R. - Não. Não queria participar em mais nenhum outro governo que não fosse socialista, nem entraria nunca para mais nenhum outro partido, eu que saíra a contragosto e forçado do PS. Pedira também já, de resto, a minha demissão do cargo de embaixador em Madrid. Por gentileza ou por bondade - não vejo outra razão -, Sá Carneiro convidou-me para a RTP. Como recusara integrar o Governo mas estava de acordo na forma como o dr. Sá Carneiro pretendia fazer o primeiro grande avanço político em direcção à autonomia da sociedade civil, e como além disso estava de acordo com a sua personalidade - admirava-se ou odiava-se, eu admirava-o -, aceitei o convite para a televisão.

P. - Porque admirava Sá Carneiro?

R. - José Miguel Júdice, que em diversos artigos conseguiu consubstanciar o que mais aprecio como análise do que Sá Carneiro representou para Portugal, dizia que ele chega à social-democracia a partir de uma base neoliberal. Como primeiro-ministro é essa política neoliberal que ele pratica e que era a meu ver a única capaz de desbloquear a situação naquela altura. Sou liberal no sentido em que faço parte de uma família portuguesa que são os liberais - por oposição aos absolutistas -, mas não o sou de um ponto de vista ideológico. Simplesmente, o liberalismo, como outra qualquer corrente de pensamento e como outra maneira de agir na política, é como o socialismo, ou a doutrina social da Igreja: apenas um instrumento da humanidade e não um dogma da humanidade. Foi o facto de Sá Carneiro ter entendido que era essa componente neoliberal, esse instrumento que deveria usar, que ainda mais me aproximou dele.

P. - E Sá Carneiro disse-lhe para fazer o quê, na RTP?

R. - Não me disse rigorosamente nada.

P. - Falando agora de Eanes? Começou por estar perto dele, afastou-se...

R. - O general Eanes teve dois papéis: o primeiro, muito positivo, em toda a fase de transição do regime, na fase em que foi presidente do Conselho da Revolução, como membro do Grupo dos Nove, como chefe do Estado-Maior, finalmente como Presidente da República durante o seu primeiro mandato. Penso aliás que deveria ter cumprido apenas um. Quando voltei de Espanha ele ouviu a minha opinião sobre essa questão e não fez caso. Outra batalha perdida, mais uma... Choquei-me muito por ele não ter dado ao dr. Sá Carneiro, numa fase, ao dr. Soares, noutra, quando ambos foram primeiros-ministros, o poder de que necessitavam. Era preciso ter havido solidariedade, ter existido uma óptica dialéctica e não patológica da convivência e existência dos dois órgãos de soberania - Belém e S. Bento -, que possuem a mesma origem, isto é, o povo soberano. Por isso me afastei do general Eanes...

P. - Entretanto cria-se "A Tarde", de grandes recordações e combates, você vai dirigi-la, começa uma outra fase?

R. - De grandes recordações e óptima memória. Foram uns meses magníficos, onde se juntaram personalidades muito diversas: o António Barreto, o Paulo Portas, o Manuel Lucena, o Saarsfield Cabral, o Vasco Pulido Valente, etc. "A Tarde" não tinha grande tiragem, mas tinha influência e o dr. Balsemão, que era primeiro-ministro, sentiu-a negativamente... O jornal opôs-se muito à sua maneira de conduzir o Governo. Eu tinha consideração por ele, mas não podia deixar de me opor. São coisas do destino.

P. - Outra coisa que não sei se será do destino ou não: você andou com a direita às costas a tratar da natureza do regime, do rearrumar das coisas no sentido em que ela, direita, queria... Outra batalha, e forte...

R. - Eu sempre me bati pela autonomia da sociedade civil de que tenho vindo a falar nesta nossa conversa. Ora a direita estava mais propensa a isso, até porque a sociedade civil emergia daí muito mais do que do Estado. Não andei com ela às costas, provavelmente ela é que andou comigo às costas. Eu estive objectivamente e sem duvida alguma junto do que se poderia dizer a direita da sociedade civil.

P. - A direita tratou-o bem?

R. - A direita não tem por costume ser grata ou tratar bem seja quem for mesmo dentro das suas fileiras. No meu caso não me ressenti porque a minha passagem pela política coincidente com essa direita era fatalmente episódica e meramente instrumental para os dois lados.

P. - Voltando às suas batalhas: há outra onde se compromete totalmente não só n'"A Tarde" como depois no "Semanário": a luta contra o Bloco Central...

R. - Exacto, é a minha segunda grande batalha política de fundo. Eu queria uma alteração do regime no sentido da bipolarização...

P. - ... era aí que eu agora queria chegar...

R. - Atenção, costuma haver aqui uma grande confusão: bi-partidarismo não é o mesmo que bipolarização. Esta são dois pólos que podem ser compostos por vários partidos - devem ser, na minha opinião - que se alternam no poder. Lutei por isso, porque sempre considerei que um sistema de partido dominante ou bloco leva a que se dispute o centro e só o centro. Quando há de facto um partido que domina - como foi durante pouco tempo o caso do PS e é hoje o caso do PSD - há essa atrofia. Não havia, como não há hoje, espaço para a bipolarização e a alternância. Por isso combati o Bloco Central...

P. - Mas aí houve uma pessoa que veio combatê-lo com estrépito, o dr. Cavaco... Uma boa porta de entrada para falarmos do "cavaquismo"...

R. - Ele posicionou-se muito bem. Logo após a morte de Sá Carneiro eu disse a algumas pessoas que achava que quem haveria de dirigir o PSD era Cavaco Silva. Não foi pela actuação dele como titular das Finanças - que achei desastrosa - que o disse, mas sim pelo seu posicionamento; porque se manteve desde a morte de Sá Carneiro à margem das lutas internas do PSD. Com excepção de duas cartas que escreveu com Eurico de Melo a Francisco Balsemão, ao mesmo tempo fazia um percurso a jogar no sentido de se dirigir às bases. Quis mostrar que não era apenas o "professor Tabuada" - a frase não é minha - mas um animal político. E surge estrepitosamente, como você diz, no Congresso da Figueira, liderando a luta contra o Bloco Central. Não me espantei, fiquei preocupado...

P. - Porquê?

R. - Porque ele iria militarizar um bloco, neste caso o PSD, de forma inquietante para a democracia portuguesa... O dr. Soares e o dr. Sá Carneiro tinham substituído a classe média formal que eram as FA por uma classe média civil. Mas eu antevi que Cavaco Silva fosse impor uma hierarquia de tipicidade militar, dentro do seu partido. Não é difícil ter uma ideia, difícil é ter todas as ideias e achei improvável que ele fosse uma espécie de Platão que tentasse dar expressão real e corpo a esse conjunto de ideias, que se me afiguravam como indispensáveis, tanto no plano externo quanto no interno, apesar de herdar um país muito viável... Mas ele só teve uma ideia ao longo destes últimos nove anos...

P. - Qual?

R. - Dominar o partido e o aparelho de Estado. Não nego que o queira fazer num sentido positivo para o país, mas não vale a pena perder tempo com essa teoria, a do "chefe"... Sempre a combati por motivos filosóficos e de formação. Quando um chefe começa a acreditar que é chefe, correm-se grandes riscos...

P. - O dr. Soares e o dr. Sá Carneiro nunca pensaram que eram chefes...?

R. - Não, nenhum deles. O dr. Sá Carneiro considerava-se um líder político e não um chefe e por isso sofreu derrotas importantes. O dr. Soares - todo o português o sabe - não tem nem vocação nem feitio para isso.

P. - O que foram estes anos de cavaquismo?

R. - Um grande fortalecimento do Estado. Regressámos a isso, ao papel preponderante do Estado, de que o primeiro-ministro é emblemático: é um alto funcionário, um professor de Finanças, um homem que toda a vida esteve ligado ao Estado. É-o por vocação, por formação, pela maneira como age e pensa, e por tudo isso fortalece esse Estado que hoje é maior que nunca. A sociedade civil - que se tinha vindo a libertar e autonomizar, por surtos, quer com o dr. Soares, quer com o dr. Sá Carneiro, está hoje num estado de dependência absoluta. Mas por enquanto, aparentemente, não se pode nada contra isso. Porque a direita está ali, no PSD, com Cavaco Silva: não se discute com quem nos dá um subsídio e a direita portuguesa não está habituada e discutir com quem dá subsídios. Há excepções mas são raras, desgarradas e marginais ao poder.

P. - Para terminar: onde estamos, ao fim deste vinte anos? Que saldo?

R. - Estamos num período de transformações sem paralelo, na história de Portugal desde há pelo menos um século. Essas transformações estão, desde há oito anos, nas mãos de um só chefe político-partidário. Ele tem ao seu lado quem preveja um final feliz, com um país moderno e coeso. E tem pessoas como eu na oposição - e não só na oposição -, que consideram que essas transformações foram e são desertificadoras, incapazes de terem a sustentá-las o tal conjunto de ideias, quer no plano interno quer no externo. O futuro será de dependência e perda do instinto nacional num final de século em que curiosamente os nacionalismos estão mais fortes do que nunca.