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Treze Anos de Guerra: Intervenientes

 

Colónias:
Moçambique

Frelimo
Guiné

PAIGC
Angola

MPLA
UPA/FNLA
UNITA


 

 

Vista de Metangula, no Lago Niassa
Vista de Metangula, no Lago Niassa

Moçambique

  Moçambique situa-se na costa oriental de África, a sul do equador, tem uma superfície de 784 032 km2 e é banhado pelo oceano Índico desde a Ponta do Ouro à foz do rio Rovuma, na distância de cerca de 2 500 km (a mesma de Lisboa a Munique).
  As elevações superiores a 1500 metros são raras, com excepção do monte Binga, junto à fronteira com o Zimbabwe, onde se encontra o ponto mais alto do território - 2436 metros -; da serra da Gorongosa, dos montes do Gurué e da serra Jéci, no distrito de Niassa.

 

 

Um Inselberg, Perto de Nampula
Um Inselberg, Perto de Nampula

  Nas regiões do Norte, a paisagem é semeada de grandes blocos rochosos, saliências mais resistentes à erosão, a que os geógrafos dão o nome de inselbergs (ilhas de pedra) - o que acontece em redor de Nampula.
  O clima na maior parte do território é tropical, com duas estações: a das chuvas, de Novembro a Março, e a seca, de Abril a Outono, com temperaturas médias nas zonas costeiras de 22 a 26 graus. No interior, especialmente em Tete, são vulgares temperaturas de 40 a 45 graus.
  Os rios correm, de modo geral, no sentido oeste-leste, para o oceano Índico. Têm importância militar os seguintes: - Em Cabo Delgado, o Rovuma, que constitui a fronteira a norte com a Tanzânia, o Messalo, entre o planalto dos Macondes e a serra Mapé, o Montepuez e o Lúrio; - No Niassa, o Lugenda, afluente do Rovuma, que corta obliquamente toda a região; - Em Tete, o Zambeze, que atravessa o Centro de Moçambique e, na zona, do Songo, corre entre as margens rochosas e escarpadas de Cahora Bassa, onde no início dos anos 70 se construiu a barragem que provocou alteração decisiva na guerra. O rio Capoche, afluente do Zambeze, constituiu a principal linha de infiltração dos guerrilheiros da Frelimo a partir da Zâmbia; - O lago Niassa, reservatório de 
30 000 km2, criado por um desnível com 400 m. de profundidade no rio Chire, com margens escarpadas, entre as quais correm pequenos cursos de água no sentido leste-oeste, de difícil ultrapassagem na época das chuvas, influencia toda a região envolvente.

 

 

Macondes
Macondes

Meio Humano:

  A população total de Moçambique passou de 6 603 651, em 1960, para 8 168 933, em 1970, o que representa o crescimento aproximado de 25 por cento.
  Em 1960, a população branca era de 97 268 pessoas. À data da independência, calcula-se em 200 000 os portugueses europeus e seus descendentes, que eram na maior parte funcionários do Governo ou de grandes companhias e grupos económicos nacionais ou internacionais. Os brancos eram menos numerosos do que em Angola, embora durante os anos da guerra tenha aumentado o número de colonos dedicados à agricultura e ao pequeno comércio.
  A comunidade indiana, que praticamente não existia em Angola, desempenhava actividades tradicionais ligadas ao comércio. Calcula-se que seriam entre 20 000 a 30 000.
  Existia uma pequena comunidade chinesa em Moçambique, de cerca de 4 000 pessoas, concentrada em Lourenço Marques e na Beira, que se dedicava também ao pequeno comércio.
  Os negros dividiam-se em dez grandes grupos étnicos, por vezes com ligações transfronteiriças, e constituíam quase 98% dos habitantes. A população mista representava apenas cerca de 0,5% do total.
  Em Moçambique, a islamização conheceu, na década de 60, progressivo alastramento. Este fenómeno era muito visível junto dos Macúas, na ilha de Moçambique - Nampula - Nova Freixo - Catur.

 

 

Complexo Portuário da Beira (1972)
Complexo Portuário da Beira (1972)

Economia:

   Moçambique obtinha a maior parte das suas receitas da actividade transportadora, que permitia ligar os territórios do interior da África do Sul, Rodésia (actual Zimbabwe) e Malawi ao mar através das linhas de caminho de ferro de Lourenço Marques, da Beira e Nacala, e dos respectivos portos.
  A agricultura fornecia cerca de 80 por cento das exportações de Moçambique, constituindo a noz de caju o principal produto que seguia para a Índia, onde era transformada e valorizada comercialmente. Outros produtos agrícolas com interesse económico eram a cana-de-açúcar, cultivada no vale do Zambeze por companhias monopolistas como a Sena Sugar Estates Lda., a Companhia Colonial do Buzi e a Sociedade Agrícola do Incomati; o algodão, cultura imposta que constituiu a grande fonte de receitas das populações do Norte, nomeadamente nos distritos de Cabo Delgado e de Moçambique, onde subsistiu as culturas tradicionais, e que os africanos transaccionavam obrigatoriamente nos mercados de algodão organizados pelas grandes companhias concessionárias; e o chá, cultivado na Zambézia, que era exportado principalmente para Inglaterra.
  A exploração mineira estava a dar os primeiros passos no início da década de 70, com a exploração de carvão na zona de Moatize, perto de Tete.
  Cahora Bassa era o maior empreendimento previsto para produção de energia hidroeléctrica, mas existiam já barragens no Tevué, em Chicamba e em Mavuzi.
  Nos últimos anos da administração portuguesa, as importações eram aproximadamente o dobro das exportações. Por exemplo, em 1970, aquelas totalizaram cerca de 9,4 milhões de contos, enquanto estas foram de 4,5 milhões de contos.

 

Lorenço Marques (Porto)
Lorenço Marques (Porto)
  Os principais mercados de exportação e importação eram, por ordem de grandeza, Portugal, África do Sul, Grã-Bretanha, Estados Unidos e Alemanha.
  O défice da balança comercial era compensado com as receitas do turismo da África do Sul e, principalmente, com as remessas dos moçambicanos que trabalhavam nas minas sul-africanas, que constituíam mão-de-obra de exportação, sendo a sua actividade regulada por acordo de 1928, entre Portugal e o Governo Sul-Africano, pelo qual a Witwatersrand Native Labour Association pagava 2,16 libras por cabeça ao Governo de Moçambique por cada homem recrutado durante 18 meses.
  Em 1950, estavam registados para trabalho nas minas e serviços domésticos na Curadoria do Transval e na Rodésia do Sul 226 157 e 85 401 trabalhadores de Moçambique, respectivamente.
  Em 1960, esse quantitativo era de cerca de 400 000, tendo-se mantido ao longo dos anos da guerra.

 

Nampula (Primeiros Tempos como Quartel General da Guerra)
Nampula (Primeiros Tempos como Quartel General da Guerra)

Administração:

Quando a guerra começou, a organização administrativa do território era regulada pela Lei Orgânica do Ultramar Português de 1954. Moçambique era província ultramarina de governo-geral, mas em 1970, tal como Angola, recebeu a designação de estado.
  Estava dividido em 11 distritos e estes em conselhos e circunscrições.
  Distritos e capitais: Lourenço Marques - Lourenço Marques; Gaza - João Belo; Inhambane - Inhambane; Beira - Beira; Vila Pery - Vila Pery; Tete - Tete; Zambézia - Quelimane; Moçambique - Nampula; Cabo Delgado - Porto Amélia; Niassa - Vila Cabral.
  A organização militar de Moçambique evoluiu ao longo da guerra, estabilizando, nos anos 70, no seguinte dispositivo de comando: Comando-chefe - comando conjunto (Exército, Marinha e Força Aérea), com o quartel-general sediado em Nampula, tendo como comandante um general de qualquer ramo das Forças Armadas; Comando militar (Exército) - Região Militar de Moçambique, com o quartel-general em Nampula, comandado por general do Exército; Comando naval - Comando naval em Moçambique, com sede em Lourenço Marques, comandado por oficial general de Marinha (comodoro); Comando aéreo - 3ª Região Aérea, com o quartel-general na Beira, comandado por oficial general da Força Aérea.

 

 

Frelimo

 

A Lenta Coesão Nacional

  As duríssimas condições de vida impostas aos africanos, com base no estatuto do trabalho nas culturas obrigatórias e sobretudo na necessidade do seu deslocamento para todo o território ou na ida para o estrangeiro (como especialmente aconteceu em Moçambique), fez com que pudessem estabelecer-se condições de maior contacto intertribal, o que favoreceu a solidariedade e a abertura à ideia nacionalismo. Esta libertação dos espíritos contribuiu para a progressiva consciência da condição do africano e para a capacidade de realização de vários actos de protesto. Este ambiente esteve também na origem da criação do Núcleo dos Estudantes Africanos de Moçambique (NESAM), em 1949, que, apesar de vir a ser proibido, ajudou a difundir a ideia de independência, acabando muitos dos seus membros por se integrar na Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), como Eduardo Mondlane.
  O facto mais importante que precedeu a luta armada em Moçambique foram os acontecimentos de Mueda, em Cabo Delgado, no dia 16 de Junho de 1960. Nesta data reuniram-se em Mueda milhares de agricultores da região, para exigirem do governador, presente no local, a melhoria das condições de vida e a possibilidade de criação de cooperativas. Depois de mais de quatro horas de reunião sem qualquer acordo, as autoridades acabaram por dispersar a multidão com recurso às armas, o que se traduziu em verdadeiro massacre, julgando-se que possam ter morrido cerca de meio milhar de pessoas. Este facto teve impacte decisivo sobre as populações macondes, que, empenhadas desde então na luta contra as autoridades portuguesas, viriam a constituir a coluna vertebral da Frelimo.
  O movimento emancipalista moçambicano desenvolveu-se também nas populações emigradas na Tanzânia, Malawi e Zâmbia, países independentes desde o início da década de 60, e cujos habitantes das zonas fronteiriças pertenciam muitas vezes aos mesmos grupos étnicos supranacionais. A estes vieram a juntar-se, mais tarde, os exilados procedentes da pequena burguesia nativa das cidades do Sul, principalmente, Lourenço Marques (actual Maputo) e Beira, os quais viriam a converter-se nos principais dirigentes do movimento.
  Os primeiros partidos criados foram o Maconde African National Union, posteriormente transformado em Mozambique African National Union (MANU), fundado no Tanganhica em 1959; a União Democrática Nacional de Moçambique (Udenamo), organizada na Rodésia do Sul (actual Zimbabwe), em 1960, e cujos membros procediam em grande parte de Manica e Sofala, Gaza e Maputo; e a União Nacional Africana de Moçambique Independente (UNAMI), surgida, em 1961, na antiga Niassalânida (actual Malawi), com base em emigrados das zonas de Tete, Zambézia e Niassa.
  O processo unificador destes partidos foi assumido em especial pela Udenamo, ideologicamente o mais moderno de todos os movimentos que haviam participado na Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas (CONCP), realizada em Casablanca, em 1961, em que se apelou à necessidade de congregar esforços contra o inimigo comum. Marcelino dos Santos, membro da comissão executiva da CONCP, era também dirigente da Udenamo, movimento que convocou, em Janeiro de 1962, para Dar-es-Salam, o MANU e a UNAMI. Dessa reunião surgiu o Comité de Unificação dos Movimentos Nacionalistas de Moçambique, presidido por um dirigente da Udenamo, Uria Simango, filho de pastor protestante.
  Os três movimentos acabaram por se fundir em nova organização, a Frelimo, criada em 25 de Junho de 1962. Como os seus grupos constitutivos eram de base étnica, a coesão revelou-se desde o início muito frágil, razão que levou à escolha de Eduardo Mondlane como presidente, por não proceder de qualquer dos grupos anteriores.
  Mondlane tinha estudado antropologia e sociologia nos Estados Unidos, começando a prestar serviço na ONU em 1961. Já como funcionário das Nações Unidas visitou Moçambique, vindo a ser convidado pelo Governo português para trabalhar na administração colonial, convite que recusou. Nos Estados Unidos, foi ainda professor da Universidade de Siracusa, mas, no início de 1962, decidiu empenhar-se inteiramente na luta de libertação nacional. Foi então encarregado de organizar o I Congresso da Frelimo em Dar-es-Salam, em Setembro de 1962, congresso que veio a consolidar a organização e a prepará-la para o início da luta armada.
  De 1962 até ao início das hostilidades, a Frelimo fortaleceu a sua retaguarda na Tanganhica (actual Tanzânia), contando com apoios diversificados, desde os Estados Unidos, no início, até à Argélia, países socialistas e China.
  Em 1963, várias centenas de militantes foram enviados para Argel, Moscovo e Nanquim, onde receberam treino militar. Após o seu regresso receberam a missão de iniciar a luta armada.
  Contudo, a liderança de Eduardo Mondlane e a vida da Frelimo não foram tranquilas em 1962 e 1963. A primeira direcção da Frente, saída do acto da fundação, acabou por se desmembrar em Maio de 1963, dando lugar a novos partidos e absorvendo outros que acabavam por desaguar na Frelimo. Estes acontecimentos seriam uma constante no seio da organização, na qual sempre permaneceu uma fractura entre os quadros directivos, normalmente provenientes do Sul do território, e a grande massa dos combatentes, recrutados nas populações do Norte.

 

Organização Militar

 

  A Primeira tarefa militar da Frelimo foi treinar o núcleo do seu futuro exército. Em 1963, os primeiros 50 quadros moçambicanos iniciaram o treino na Argélia, país onde se encontravam já grupos de angolanos e guineenses. A estes 50 seguiram-se mais 60.
  A segunda tarefa foi encontrar um país vizinho de Moçambique que servisse de base à guerrilha. A Tanzânia foi esse país, tendo a Frelimo instalado o seu primeiro acampamento perto da aldeia de Bagamoyo.
  Em Maio de 1964, começaram a entrar armas e munições em Moçambique, destinadas à luta armada.
  Os primeiros guerrilheiros, que vieram da base de Mtwara, entraram em 15 de Agosto de 1964 em Moçambique para se internarem nas matas de Cabo Delgado. Estavam organizados em três grupos, um comandado por Alberto Chipande, para actuar nas regiões de Macomia e na direcção de Porto Amélia (Pemba), outro por Raimundo, para a região de Mueda, e o terceiro, sob o comando de António Saide, destinado à região algodoeira de Montepuez.
  Estes grupos encontraram situação difícil no terreno, pois a morte do padre Daniel, da missão de Nangolo, que a Frelimo atribuiu a guerrilheiros da Manu e da Udenamo, provocou a reacção das forças portuguesas, e os assaltos que esses guerrilheiros fizeram a cantinas de indianos levaram a que a presença desses três grupos fosse denunciada. Face a essa situação, apenas o grupo de Raimundo obteve sucesso na região de Mueda.
  Para contrariar a imagem de banditismo e credibilizar a sua acção, a Frelimo decidiu lançar a ofensiva que marcou o início da guerra em Moçambique, em 25 de Setembro.
  Segundo fontes da própria Frelimo em 25 de Setembro de 1964 o movimento dispunha apenas de 250 homens armados e equipados.
  Em 1956, foram organizadas as primeiras companhias que, em 1966, se transformaram em batalhões.
  Em 1957, a Frelimo reivindicou a existência de 8000 homens treinados e equipados na sua organização militar.

 

Coluna de Guerrilheiros, comandada por Manavi, em Cabo Delgado
Coluna de Guerrilheiros, comandada por Manavi, em Cabo Delgado

  Por sua vez, as forças portuguesas consideravam os seguintes efectivos de guerrilheiros: Cabo Delgado - 3500; Niassa - 1000; Tete - (1973) 2000; Total - 6500.
  A estes guerrilheiros poderão ser adicionados entre 1500 a 2000 milicianos armados, o que perfaz o efectivo de 8000 a 8500 homens apresentado pela Frelimo.
  Em 1966, as forças militares da Frelimo foram reorganizadas, sendo criado um quartel-general sob a designação de Conselho Nacional de Comando, cujo chefe era o secretário do Departamento de Defesa do Comité Central. Esse quartel-general tinha as seguintes secções: operações; recrutamento, treino e formação; logística (abastecimentos); reconhecimento; informações e publicações militares (editava o jornal policopiado 25 de Setembro); administração; finanças; saúde; comissariado político; pessoal; segurança militar.
  As secções do Departamento de Defesa (DD) encontravam-se divididas em dois escalões, um em Nashingwea e outro em Dar-es-Salam, e existiam ainda as delegações do DD, que actuavam como "antenas" em localidades onde se tornava necessário accionar os assuntos.
  As estruturas militares e político-administrativas tinham uma quadrícula de implantação no terreno sobreposta, havendo domínio da estrutura militar, como se pode ver no organograma da estrutura da Frelimo. Na estrutura provincial do exército, os comandantes acumulavam com as funções de chefes provinciais e provinciais adjuntos, e existiam ainda um comissário político e um chefe operacional.
  Altos comandos militares da Frelimo, em 1973: presidente da Frelimo e chefe do Departamento de Defesa - Samora Machel; chefe nacional de Operações - Marcos Sebastião Mabote; secretário político nacional - Roberto Rafael Bobo.
  A organização militar da Frelimo abrangia três níveis fundamentais: estado-maior; bases e acampamentos; unidades e grupos. 
  As bases eram constituídas pelas casas dos chefes, onde por vezes se guardava o armamento, com uma a três  casernas, armazém de alimentos, depósito de material, cozinha, posto de socorros e prisão.
  A segurança imediata das bases era garantida pela polícia da base, auxiliada pela milícias, e a segurança afastada garantida pelas populações. As bases localizavam-se normalmente junto a cursos de água, em locais abrigados das vistas terrestres e aéreas. Os efectivos eram muito variáveis, dependendo dos grupos e unidades que nelas estivessem instalados.
  As bases da Frelimo estavam organizadas e hierarquizadas,  segundo a sua importância e função em: Bases centrais ou provinciais - uma por província (distrito na divisão portuguesa), com direcção provincial e comando operacional; Bases subprovinciais - serviam para instalar o comando militar das regiões militares; Bases gerais com efectivos apreciáveis, geralmente um batalhão; Bases de segurança com pequenos efectivos, instaladas junto de acampamentos de população controlada. Dependiam das bases gerais. O seu efectivo podia variar de 4 a 30 elementos; Bases operacionais (ou simplesmente bases) com efectivos variáveis, cuja missão era servir exclusivamente de ponto de apoio para acções militares. As bases operacionais eram típicas da organização da Frelimo em Cabo Delgado  e tinham as mesmas funções que as bases gerais típicas no Niassa; Bases de instrução situadas no interior de Moçambique, destinavam-se a instruir os elementos não especialistas e não destinados a quadros, que recebiam treino no estrangeiro; Bases logísticas - divididas em depósitos e hospitais.
  As bases eram constituídas por um comando e estado-maior, dispondo de um grupo de comando, que assegurava as comunicações, vigilância, defesa antiaérea, acções de sapadores, reconhecimento e administração, e por um número variável de unidades ou grupos de guerrilheiros. As companhias passaram a fazer parte da organização da Frelimo em 1965, e os batalhões em 1966.
  Em Cabo Delgado, a Frelimo tinha uma base provincial, base Moçambique, com o efectivo de 180 homens, uma sub-base provincial, na serra do Mapé, uma base de artilharia, base ou batalhão Gungunhana, e as seguintes bases operacionais: Angola, António Enes, Gaza, Inhambane, Limpopo, Lúrio, Manica, Maputo-Macomia, Marrupa, Nampula e Beira. Dispunha ainda de um hospital central (base Zambézia) e instalou um cemitério dos combatentes na zona de Mueda.
  Após a Operação Nó Górdio, os órgãos políticos, militares e administrativos da Frelimo que haviam sido destruídos ou transferidos do núcleo central do Planalto durante a operação reinstalaram-se na quase totalidade nas mesmas regiões. Foram restabelecidas as bases de Limpopo, Beira e Namunda, as bases Moçambique, Gungunhana e Nampula, e o sector da serra do Mapé-Macomia-Chai-sul do rio Messalo foi reforçado com o Dispositivo de Avanço para Sul, constituído pelas bases Manica e António Enes, esta missão de executar acções sobre a estrada Montepuez-Porto Amélia.
  No Niassa, a organização militar da Frelimo estava dividida em três sectores - ocidental, oriental e sul - e, no final dos anos 60, os seus efectivos eram os seguintes: Niassa ocidental - 350 a 450; Niassa sul - 150 a 200; Niassa oriental - 300 a 350; Total - 800 a 1000.
  No Niassa, o dispositivo militar da Frelimo era coordenado pela base provincial Gungunhana e dispunha das seguintes bases operacionais: Mepotxe, Meponda, Maniamba (depósito de material), Unango, Tete, Beira, Catur e Liconhir (base de segurança).
  Em Tete, a Frelimo estruturou a sua organização militar em quatro sectores, com o seguinte dispositivo: Primeiro sector - a norte do rio Zambeze e a oeste do rio Capoche, dispondo de dois destacamentos no Zamboé e no Zumbo; Segundo sector - a este do rio Capoche e a noroeste da estrada Tete-Zobué; Terceiro sector - a sul do rio Zambeze; Quarto sector - circunscrições de Maotize e de Mutarara.
  A Frelimo organizou ainda a Quinta Frente, ou Frente de Manica e Sofala, enquanto a organização político-militar não justificou a criação de novo sector.
  Nos distritos (províncias na designação da Frelimo) da Beira e de Vila Pery, a organização baseava-se em "focos", em número de sete, em 1973. No início de 1974, o movimento preparava-se para abrir a frente da Zambézia.
  O trânsito entre as bases e o exterior do território processava-se através de linhas de infiltração, que se mantiveram relativamente estáveis ao longo de toda a guerra.
  As forças portuguesas procuravam impedir o trânsito de guerrilheiros, através de emboscadas e bombardeamentos, e estes tentavam passar por pontos diferentes e de forma dispersa.

 

Comandantes da Frelimo
Comandantes da Frelimo

  O primeiro campo de treino da Frelimo na Tanzânia foi o de Bagamoyo.
  Eduardo Mondlane descreve assim o seu início: "Há uma certa ironia histórica na localização do nosso primeiro acampamento, perto da aldeia de Bagamoyo, porque o nome Bagamoyo significa "coração despedaçado", quando esta aldeia era um dos principais pontos de partida para os portos esclavagistas da costa oriental de África". Neste campo era ministrada a primeira fase da instrução com a duração de 1 a 3 meses. Em 1966/67, foi transferido para Mpitmbi, ou New Camp.
  Nashingwea foi o principal campo de treino da Frelimo, onde estiveram estacionados instrutores chineses, e tinha a possibilidade de ministrar preparação a 600 homens/ano.
  Depois de receberem instrução, as unidades eram constituídas em campos de reunião, dos quais os mais importantes eram os de M'Bamba Bay, para a infiltração de unidades destinadas ao Niassa e que dispunha de botes de borracha, o de Mbeya, para a infiltração no Niassa, Zambézia e Tete, o de Mtwara, grande base da Frelimo, onde se realizavam exercícios conjuntos com o exército da Tanzânia, o de Nashingwea,  onde a Frelimo dispunha de um batalhão (500 homens), que funcionava como reserva do Departamento de Defesa e era constituído por pessoal em recuperação; e o de Songea, para formação e reunião de unidades destinadas ao Niassa ocidental.
  As acções de Frelimo directamente contra as forças militares portuguesas aumentaram constantemente desde 1964, levando o comando português a comentar que a situação "revelava progressivo aumento do estado de aliciamento e do grau de apoio conferido pelas populações nas áreas de subversão violenta".
  Em 1966, a Frelimo realizou 1174 acções, exercendo o seu esforço militar no Niassa, com 59% das acções, das quais 71% foram de fogo e 28% de emprego de minas.
  Em 1967, o esforço exerceu-se já em Cabo Delgado/Mueda, onde o movimento realizou 54% das 1304 acções levadas a efeito durante o ano. Destas, 49% foram de fogo e 45% de emprego de minas. Mas em Cabo Delgado, com 696 acções, a implantação de 332 minas superou as acções de fogo, aspecto que caracterizou a guerra nessa zona.
  Nas acções de fogo, a Frelimo, nomeadamente nas emboscadas, empregou, a partir de 1967, efectivos cada vez maiores, chegando a utilizar, em Cabo Delgado, grupos de 60 a 100 elementos.
  As forças do movimento colocavam usualmente várias minas no mesmo itinerário, em troços entre 1000 a 5000 metros, alternadamente de um lado e outro da estrada.
  Os fornilhos eram dispostos em grande quantidade ao longo do caminho, tal como as minas, sendo constituídos por granadas não rebentadas, bombas de avião e explosivos.


 


 

Guiné

Grupo de Mulheres Mancanhas
Grupo de Mulheres Mancanhas

  A Guiné situa-se na costa ocidental de África, entre o Senegal, a norte, e a República da Guiné – Conacri, a sul, com a superfície de 36 125 Km2. Descontando a vasta área que é periodicamente coberta pelas marés, e que se encontra revestida por mangais e tarrafo, a área emersa é de cerca de
28 000 Km2. O território incluí um cordão de ilhas: Geta, Pecixe, Bissau, Bolama, Como e o arquipélago dos Bijagós.
  As fronteiras com os países vizinhos são convencionais, sem obstáculos naturais e resultam da Convenção Luso-Francesa de 1905. Só entre 1929 e 1933 foram efectuadas as delimitações, com a colocação dos marcos fronteiriços, facto que facilitou, durante o período da guerra, o trânsito entre os países vizinhos e o interior do território, tanto dos guerrilheiros do PAIGC como dos seus apoios.
  O terreno na Guiné não apresenta elevações de relevo e a sua compartimentação é feita pelos rios. Podem no entanto considerar-se as seguintes zonas:
- Planícies do litoral: zonas baixas, pantanosas, na foz dos rios; 
- Planalto de Bafatá: zona de transição entre o litoral e o interior;
- Planalto do Gabu (Nova Lamego): continuação do planalto de Bafatá para o interior;
- Colinas do Boé: encostas do Futa Jalon.

 

Mesquita da Povoação de Barro
Mesquita da Povoação de Barro

  Com interesse militar, é de referir a zona do Oio-Morés, de matas densas, cercadas de pântanos (bolanhas), onde os guerrilheiros criaram estruturas de apoio e refúgio, muito difíceis de atingir pelas forças portuguesas.
  A vegetação na zona litoral e nas margens dos rios é muito cerrada, enquanto na zona interior – planaltos de Bafatá e do Gabu – é constituída por savana.
  O clima, na Guiné apresenta duas zonas diferenciadas: tropical, com elevadas temperaturas e humidade nas zonas costeiras, e continental, seco e quente, subsariano no interior.
  O regime das monções provoca tornados no início e no fim das estações, que dificultam particularmente o tráfico aéreo.
  A Guiné é sulcada por enorme profusão de cursos de água, embora exista apenas com verdadeiro rio o sistema Geba/ Corubal. Os restantes são braços de mar.

 



Cais do Porto de Bissau
Cais do Porto de Bissau

Economia:

 A Guiné apresentava dificuldades de desenvolvimento derivadas do clima, da natureza do terreno e da sua dimensão, que a guerra agravou.
  A economia assentava na agricultura de subsistência, e só em reduzida escala os produtos eram comercializados, daí o baixo índice da monetarização.  As importações constavam de produtos manufacturados, pelo que eram crónicos e avultados os défices da balança comercial. Assim sendo, a Guiné não era um país atractivo do ponto de vista económico.

Estruturas Políticas e Administrativas:

  A Guiné era uma província ultramarina de governo simples e estava dividida em nove concelhos: Bissau, Bolama, Cacheu, Mansoa, Bissorã, Farim, Catió, Bafatá e Gabu) e três circunscrições (Bijagós, Fulacunda e São Domingos)
   Um quarto da população  da Guiné concentrava-se no concelho de Bissau, e ali tinham a sede o governo, os comandos militares, os estabelecimentos de ensino, o porto, o aeroporto e as principais actividades económicas.

 

 

PAIGC

Primeiro Emblema do PAIGC
Primeiro Emblema do PAIGC

  As dificuldades do movimento nacionalista na Guiné, compreendem-se pelo facto que no início da guerra, mais de 90% da população era analfabeta e apenas 14 homens tinham formação universitária sendo esses na sua maioria de origem cabo-verdiana. Perante esta situação, a consciência anticolonial foi assumida numa primeira fase pela burguesia local, integrada na administração pública da Guiné. Foi neste meio que se propagaram os ideais da independência nacional.
  O nacionalismo e a luta anticolonial na Guiné e Cabo Verde estiveram profundamente ligados à figura carismática de Amílcar Cabral (1924- 1973). Estudante de Agronomia em Lisboa, aqui se encontrou, na Casa dos estudantes do Império, com outros futuros dirigentes negros, destacando-se Agostinho Neto e Mário de Andrade, o são-tomense Francisco José Tenreiro e os moçambicanos Eduardo Mondlane e Marcelino dos Santos, empenhando-se, com todos eles, na «reafricanização dos espíritos».
  Enquanto estudante, manteve contactos com o PCP, retomando-os em 1952, quando se instalou em Bissau, contratado pelo Ministério do Ultramar para os serviços agrícolas e florestais daquela colónia.. Em 1954, esteve na origem da criação da Agremiação Desportiva e Recreativa de Bissau, e em Março de 1955, regressou a Lisboa, mas numa das frequentes visitas à Guiné fundou, em Setembro de 1956, o Partido Aficano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC). Amiílcar Cabral dedicou  a vida à libertação do seu povo e à luta contra o colonialismo português. Três ideias são constantes no seu pensamento ideológico: o pan-africanismo, isto é a solidariedade interafricana; a construção de uma sociedade mais justa, na linha de um socialismo africano; e a unidade da Guiné e Cabo Verde.
  Em Janeiro de 1960, abandona definitivamente Lisboa, para encabeçar a luta de libertação nacional. Enquanto isso, na Guiné, o desejo da independência propaga-se, ganhando adeptos, influenciado pelos exemplos dos países vizinhos, em especial a Guiné-Conacri, independente desde 1958.

 

Dispositivo Militar do PAIGC, Maio de 1973
Dispositivo Militar do PAIGC,
Maio de 1973

  As autoridades portuguesas advertidas pelos exemplos vizinhos, onde os movimentos nacionalistas tinham levado os seus países à independência, tentaram cortar pela raiz qualquer movimento do mesmo tipo, actuando com dureza perante qualquer atitude de contestação. O momento mais alto deste confronto ocorreu em Pidgiguiti, em 3 de Agosto de 1959, quando as forças da ordem carregaram contra uma manifestação de trabalhadores portuários que exigiam melhores salários, e de que resultaram dezenas de mortos e feridos.  A matança de Pidgiguiti, assim chamada pelos nacionalistas, marcou definitivamente o rumo do PAIGC, que, um mês depois dos acontecimentos, realizou uma conferência clandestina em que determinaram prepararem-se para o início da luta armada. A fase de organização clandestina do partido veio no entanto a ser, depois afectada pelas detenções realizadas em Fevereiro de 1962, em Bissau, pelas autoridades portuguesas, que levaram à prisão centenas de pessoas, atrasando a actuação na capital. Entre os detidos encontrava-se Rafael Barbosa, número dois na hierarquia.
  Antes do início das hostilidades, o PAIGC enviou várias propostas ao governo português para que desse oportunidade aos habitantes da Guiné e Cabo verde de decidirem livremente os seu destino. A última proposta, de Outubro de 1961, exigia o direito à autodeterminação, advertindo que o partido se viria na obrigação de iniciar a luta armada . A proposta não obteve qualquer resposta, pelo que o conflito se tornou inevitável. Na sua preparação, o PAIGC contou com uma retaguarda segura na Guiné-Conacri, onde foi instalado o seu quartel general, vindo também a obter o apoio do Senegal, independente desde 1960.
A fase pré-insurreccional, de 1959 a 1963, teve especial importância para o PAIGC, porque muitos quadros preparados em Conacri passaram clandestinamente a fronteira para viver no seio das comunidades locais, onde levam a cabo um permanente trabalho político. Estes militantes de forma geral originários das cidades, foram formados especialmente para compreender o pensamento das comunidades rurais. O seu êxito foi diverso, de acordo com o desenvolvimento e das características dessas comunidades, mas o sucesso maior ocorreu junto da etnia balanta, a mais numerosa e com maior dispersão geográfica, cujo núcleo principal vivia no centro da Guiné, em zona de floresta de difícil penetração, com contactos com as fronteiras da Guiné-Conacri e do Senegal.
  Na Guiné, a guerra iria tonar-se muito difícil paras as forças portuguesas não apenas pela capacidade da guerrilha, como pelas condições físicas da colónia.

 



 

Angola

A Imponência de um Vale numa Serra Angolana
A Imponência de um Vale numa Serra Angolana

 

 



Pôr de Sol
Pôr de Sol

  Situada na parte ocidental da África austral, a sul do equador, Angola tem 
1 246 700 km2 de superfície (Cabinda: 7270 km2).
Comprimento máximo: 1277 km, no sentido norte-sul.
  Largura máxima: 1236 km, no sentido leste-oeste.
  Fronteiras terrestres: 4837 km. Confina a norte com a República Democrática do Congo (Kinsahasa) e a República do Congo (Brazzaville), a leste com as Repúblicas Democrática do Congo e da Zâmbia, e a sul com a Namíbia. 
  Altura máxima: 2620 m. no Moco. 
  Angola dispõe de grande diversidade de paisagens. Junto à costa, uma planície cuja largura é de cerca de 25 km ao sul, varia entre os 100 e os 200 km ao norte, eleva-se, para o interior, por sucessivos patamares. Dois terços do território situam-se à altitude de 1000 - 1300m. - o planalto central.
  O ponto mais alto da Angola é o morro Moco (2620 m), na zona do Huambo, no planalto central, onde os altos relevos se orientam no sentido sul-oeste e norte-este: serras do Humbe e do Chilengue.
  De modo geral, o terreno em Angola desce, a partir do paralelo 10º sul, para a bacia do rio Congo, e a este inclina-se para a depressão central da África austral, até ao deserto do Calahari.
  Em Angola existem vários tipos de climas, devido à extensão do território, à presença da corrente fria de Benguela e à influência das montanhas no interior:

- Equatorial: Cabinda;
- Tropical Húmido: metade norte do planalto central - Dembos;
- Tropical Seco: nas regiões altas do Sul - Huíla;
- Temperado Húmido: nas planícies costeiras do Norte;
- Semidesértico: no Sul.
- Estação das Chuvas: de Novembro a Abril - elevada pluviosidade e altas temperaturas.
- Estação Seca: Maio a Outubro.

  A maior pluviosidade média regista-se nas zonas do Uíje e da Lunda.
  A maior parte dos rios da Angola têm como origem o planalto do Bié e correm em três orientações: para o Atlântico, para o sul-sueste e para norte.
  No norte, os rios são, de modo geral, de difícil transposição devido à corrente, aos rápidos e às margens cobertas de densa floresta tropical. Na época das chuvas, os caudais aumentam e a situação piora.
- O ZAIRE desagua no Soio (Santo António do Zaire), faz fronteira com a República Democrática do Congo, numa extensão de 150 km;
- O M'BRIDGE desagua em Ambrizete e constitui a bacia hidrográfica onde se situam Bembe (Salazar) e Maquela do Zombo;
- O LOGE desagua no Ambriz e atravessa as zonas dos Dembos, Ndalatando (Carmona) e Negaje;
- O DANDE desagua a norte de Luanda e atravessa também os Dembos - Úcua, Quibaxe.
  No leste, os rios têm, em geral, margens baixas e correm por planícies, transbordando durante a época das chuvas e criando zonas alagadas e pantanosas - as "chanas";
- O CASSAI atravessa as zonas de Camanongue (Buçaco), Cassai, Luau (Teixeira de Sousa) e serve de fronteira com a República Democrática do Congo, numa extensão de 400 km;
- O LUENA, um afluente do Zambeze que atravessa a zona de Luena (Luso) e Lumeje, servindo de fronteira à zona da Cameia;
- O LUNGUÉ-BONGO, outro afluente do Zambeze, que atravessa as regiões da N'riquinha e da Luiana e se perde numa zona pantanosa da Namíbia;
- O CUÍTO, outro rio das Terras do Fim do Mundo, onde a Marinha Portuguesa criou uma base naval: Vila Nova da Armada;
- O CUBANGO, o terceiro rio que define o distrito do Cuando-Cubango.
Embora não nasça em Angola, deve ser também referido o rio Zambeze, pois atravessa o saliente do Cazombo e recebe vários afluentes em que os guerrilheiros instalaram as suas bases e que as populações organizaram o apoio que lhes garantiu a sobrevivência.
  As Forças Armadas Portuguesas instalaram no Zambeze e no Cuíto destacamentos da Marinha de guerra, com embarcações e unidades de fuzileiros.

 


Aspecto Humano de uma Comunidade em Angola
Aspecto Humano de uma
Comunidade em Angola


Quedas do Duque de Bragança
Quedas do Duque de Bragança


ECONOMIA: 

  O principal produto agrícola era o café. Cerca de 200 000 pessoas viviam directa ou indirectamente deste produto, que representava, em 1970, 32% de todas as exportações. Os principais países de destino eram os Estados Unidos e os Países Baixos.
  O algodão era uma cultura obrigatória para os africanos antes de 1961. Os acontecimentos da Baixa do Cassange, em Janeiro desse ano, e as consequências do início da guerra alteraram a situação, provocando a modernização do sector, com maior recurso à mecanização. A produção passa das 5000 toneladas ano, em 1960, para as 29 mil em 1970, sendo totalmente absorvida pela indústria têxtil metropolitana.
  Os principais produtos mineiros eram o petróleo, minérios de ferro e diamantes.
  A exploração de diamantes tem aumento significativo logo a partir de 1962. Os minérios de ferro e o petróleo apresentam aumento exponencial a partir de 1967.
  Exportar capitais ou investir no território constituiu um dilema, pois os factores mais significativos da economia colonial angolana resultavam do baixo poder de compra da maioria da população e da inexistência de um sistema financeiro autónomo que, conjugados, limitavam os investimentos locais e dificultavam a colocação de capitais no exterior.

 RELAÇÕES DE DEPENDÊNCIA:

   Nos anos 60, Portugal era o único país do mundo a ter um Ministério do Ultramar. Novo e imponente edifício para instalar este ministério foi inaugurado no Restelo, em Lisboa, em 1966.
  Esta inauguração tinha um significado. O regime saído do golpe de 1926, depois de anos de sonolenta indiferença relativamente a África, amarra com pompa e circunstância a sua sorte à da sua política ultramarina. Esta política transformara-se na questão de vida ou de morte para o grupo de interesses que o apoiavam, e Angola é, de todos os territórios, aquele, que reúne melhores condições para ser apresentado ao imaginário nacional como pátria intercontinental e plurirracial: riqueza potencial, espaço e proximidade com a metrópole e um acontecimento marcante utilizado como apelo à defesa daquela terra: os massacres de 1961. 
  O imponente edifício cor-de-rosa, onde hoje estão instalados o Ministério da Defesa e o Estado-Maior General das Forças Armadas, constituiu, a partir de então, a sala de operações onde se planeou e comandou, até ao pormenor, a manobra decisiva do regime. Nessa manobra não foi previsto um itinerário de retirada, nem levantadas hipóteses de manobras alternativas ou de contingência.
  A política ultramarina era decidida e executada pelo Governo central, que nomeava os governadores e detinha poder de veto sobre as decisões tomadas localmente. O Ministério do Ultramar constituía, de facto, o órgão executivo da política ultramarina, enquanto os governos provinciais eram os "delegados" locais da implementação e adaptação das decisões tomadas.
  As províncias ultramarinas não têm correspondência administrativa na metrópole. No topo da sua hierarquia encontra-se um governador, nomeado por proposta do ministro do Ultramar. No caso de Angola esta era uma província (Estado em 1972) de governo-geral, e o seu território achava-se dividido em 14 distritos no seu corpo principal, sendo o 15.º constituído pelo enclave de Cabinda.
  Os distritos estavam subdivididos em concelhos e circunscrições. No nível inferior da organização administrativa encontravam-se os postos.

 

logo mpla
MPLA 
 


  Ao mesmo tempo que surgiam os movimentos messiânicos e tribalistas do Norte de Angola, constituíram-se em Luanda várias organizações políticas clandestinas, de forma geral  por iniciativa de angolanos que tinham acedido ao estatuto de assimilados. O primeiro foi o Partido da Luta Unida dos Africanos de Angola (PLUA) em 1953, seguindo-se-lhe o Partido Comunista de Angola (PCA), em 1955. Estes dois grupos acabaram por se fundir, em Dezembro de 1956, dando lugar ao Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). Em 1958, surgiu o Movimento para a Independência Nacional de Angola (MINA). Que também se integrou no MPLA.
  O MPLA foi desde o primeiro momento, uma organização nacional, e ainda que a sua principal base da apoio tenha sido a etnia mbundo, que se estendia de Luanda a Malanje, contou sempre com apoios noutros grupos tribais.
Aglutinou, além disso, elementos da pequena burguesia negra e mestiça e dos sectores operários. Contrariamente à FNLA, tinha uma ideologia mais definida e, com o tempo, evidenciou-se a sua raiz marxista. O crescimento do MPLA foi lento, ainda mais quando, em Março de 1959 e Junho de 1960, ficou praticamente decapitado pela prisão de muitos dos seus escassos quadros no chamado «processo dos 50». Neste processo foram incriminados 57 nacionalistas, alguns à revelia, dos quais 20 por pertencerem ao MPLA, destacando-se nestes o padre Joaquim Pinto de Andrade e Agostinho Neto. Nessa altura, a cúpula  dirigente ficou constituída por Mário de Andrade, como presidente, e Viriato da Cruz, como secretário-geral, os quais, em face da situação, decidiram transferir a direcção do movimento de Luanda para Conacri, donde viriam a reivindicar a acção do 4 de Fevereiro, num desejo de demonstrar, tanto para fora como para o interior do movimento, que a luta devia continuar.
  Em Outubro de 1961, após a independência do ex-Congo Belga, o MPLA transferiu as suas estruturas para Leopoldville, por estar mais próximo de Angola. Politicamente, o partido tentou a aproximação à UPA, por esta ser, então, a força nacionalista hegemónica.
Esta estratégia veio, contudo, a falhar inteiramente, em especial porque a UPA se transformou em FNLA no início de 1962, e porque este partido constituiu o GRAE, acções que consolidaram a imagem de Holden Roberto e impuseram a sua política como a única via independentista de Angola. O MPLA atravessou um período de marasmo e contradições, nunca se conseguindo libertar da condição de partido de muitos generais e poucos soldados.
  A situação em Leopoldville veio a agravar-se com a chegada de Agostinho Neto, em Julho de 1962, que havia fugido de Portugal. Já nomeado presidente honorário do MPLA, depois da sua detenção em Junho de 1960, chegou disposto a integrar-se na cúpula do partido, mas as suas ideias «presidencialistas» acabaram por se chocar com a direcção, o que viria a provocar a demissão de Mário de Andrade.
  Em Dezembro de 1962, com o intuito de ultrapassar as suas divisões internas, o movimento realizou uma conferência, mas esta não só não conseguiu a unidade, como agravou as divergências, de resto em consonância com os fracassos do movimento no terreno, incapaz de penetrar solidamente em Angola.
  Em Julho de 1963, a OUA criou uma comissão de reconciliação com a missão de aproximar o FNLA ao MPLA, mas acabaria ela própria por propor aos membros da OUA o reconhecimento do GRAE como a única organização representativa angolana, em face das divisões do MPLA. Neto e os seus seguidores culparam, por esta resolução da OUA, o trabalho fraccionário de Viriato da Cruz e do sector minoritário do movimento, que, aliás, tinha já sido expulso. Mas como um mal nunca vem só, Agostinho Neto, que tinha encabeçado a direcção com a promessa de incrementar a luta armada, acabou por não conseguir, tanto pela política de obstrução da FNLA, como por acção do Governo de Lisboa. Holden Roberto não queria competidores em solo bacongo, para além de se apresentar com o exclusivo da luta anticolonial, pelo que era essencial impedir a penetração do MPLA pela fronteira norte. Portugal, por seu lado, conseguiu de alguma forma comprometer o Governo Congolês na neutralização do MPLA, com a ameaça, sempre em jogo, do corte de saída do cobre pelo caminho de ferro de Benguela.
  Por estas e outras razões, o MPLA acabou por ser expulso do Congo-Brazzaville, onde, desde Agosto de 1963, se havia instalado um governo marxista, mais próximo do seu ideário. A partir daqui, o movimento podia aceder, com facilidade, à fronteira de Cabinda, onde se iniciou a sua actividade militar no ano seguinte.

 

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UPA/FNLA 
 


  A partir do final da década de 40 surgiram, no norte de Angola, vários movimentos com o objectivo comum de se oporem ao sistema colonial. Tiveram, de início, características messiânicas e base tribal, destacando-se o movimento encabeçado pelo «profeta» Simão Toco, que anunciou o fim da miséria e nova mensagem divina. Embora detido pelas autoridades em 1949, as suas ideias estenderam-se entre os bacongos  emigrados no então Congo Belga, que vieram a criar em 1956, a Aliança do Povo Zombo (ALIAZO). Este movimento converteu-se, em 1962, no Partido Democrático de Angola (PDA). 
Mas foi outro movimento, de características similares, que esteve na base da sublevação da Baixa do Cassenge, em Janeiro de 1961. O movimento, que, de alguma forma, colheu de surpresa as autoridades portuguesas, iniciou-se com uma greve dos trabalhadores da Companhia Cotonang, como forma de protesto contra o atraso no pagamento de salários, mas transformou-se rapidamente em protesto da população contra o cultivo obrigatório de algodão e as duras condições de trabalho.
  Em todo o movimento, desempenhou papel de destaque António Mariano, que pertencia a uma seita católica e cujo o nome ficou ligado à insurreição, conhecida como «Guerra da Maria». os habitantes da região queimaram as sementes, destruíram ou interromperam vias de comunicação, mataram gado, invadiram armazéns e missões católicas, expulsaram os brancos, mas não utilizaram armas. Para reprimir este movimento, as autoridades socorreram-se de unidades do Exército e da Força Aérea presentes em Angola, que atacaram os grevistas de 24 de Janeiro a 2 de Março, transformando a acção num desproporcionado massacre de populações, cujo número de vítimas nunca se conheceu com exactidão.
  Contudo, a organização que viria a dar consistência ao nacionalismo bacongo foi a União dos Povos do Norte de Angola (UPNA), criada em Julho de 1954, em Leopoldville, com a finalidade de influenciar a sucessão do rei do Congo, Pedro VII, que morreu nesse ano. A UPNA pretendia que o futuro monarca fosse mais independente das autoridades portuguesas, apresentando como candidato Holden Roberto aparentado com o antigo rei. Entre os seus apoiantes encontravam-se os bacongos angolanos emigrados no Congo Belga e nas missões protestantes, numa das quais ele próprio fora educado. Mas o Governo e a Igreja Católica tinham outro candidato, António da Gama, que tomou o nome de António III. A facção derrotada iniciou, então, uma onda de agitação independentista, que alcançou o seu ponto mais alto ao longo de 1956-57.Mas como neste último ano morreu António III, as autoridades portuguesas preferiram deixar vago o trono, para mitigar o nacionalismo que nova designação poderia provocar.
  A UPNA tinha como objectivo programático a independência do antigo reino do Congo, em que se incluía Cabinda.Com esta ideia, Holden Roberto foi, em Dezembro de 1958, ao congresso dos povos africanos realizados em Acra. Perante  a vitalidade da ideia do pan-africanismo ficou convencido da necessidade de diluir a componente tribal do seu partido, o que o levou a mudar-lhe o nome para UNIÃO DOS POVOS DE ANGOLA (UPA). A partir de então, a UPA transformou-se no movimento nacionalista mais bem organizado e aquele que maiores simpatias congregava. Iniciou então um processo de implantação em áreas de maior dimensão, com o objectivo de se estender a todo o país. Em Luanda, a maior parte dos seus apoiantes, que não podiam deixar de ser clandestinos, como de resto os de todos os outros movimentos, eram protestantes. Mas tinha também a simpatia de destacados católicos, como o Cónego Manuel Mendes das Neves.
  Nestes meios nacionalistas sentiu-se a necessidade imperiosa de oposição ao sistema colonial, logo a seguir às primeiras independências africanas, mas especialmente a seguir à do Congo Belga, em Julho de 1960. Foi aliás, na sequência deste sentimento, que se planeou o assalto a duas prisões em Luanda: a Casa de Reclusão Militar e o Forte de São Paulo, com o intuito de libertar alguns presos nacionalistas. De Leopoldville, onde estava exilado, Holden Roberto desaconselhou este projecto, sobretudo porque em Luanda, e torno da UPA, se movimentava apreciável número de mulatos, que não eram da confiança de Holden Roberto. Mas também porque ele desejava iniciar a guerra com uma insurreição de grandes proporções, já em preparação para a zona Bacongo, onde as raízes da UPA eram muito profundas. Contudo, os conspiradores de Luanda não só não detiveram a mobilização, como aceleraram a sua execução, a fim de aproveitar a presença  na cidade de dezenas de jornalistas estrangeiros atraídos pelo assalto ao paquete SANTA MARIA, que poderiam vir a sensibilizar o mundo para a situação colonial portuguesa. Entre cerca de uma centena de participantes na acção, o núcleo principal era formado por protestantes  ligados à UPA, havendo também estudantes católicos do seminário de São Domingos e alguns simpatizantes do MPLA e de outros grupos, porque o conceito destas militâncias não era então muito rígido.
  O ataque iniciou-se na noite de 4 de Fevereiro. O balanço oficial de vítimas foi de cerca de 40 assaltantes e de 7 polícias, já que as forças portuguesas, recuperadas da surpresa inicial neutralizaram com facilidade o ataque realizado com «catanas e varapaus». Nos dias seguintes, e em especial no dia do funeral dos polícias mortos, os colonos brancos e as forças militarizadas desencadearam violenta repressão nos bairros negros de Luanda, que durou cerca de um mês. Curioso foi que o MPLA, cuja direcção estava exilada em Conacri, reivindicou a acção, enquanto a UPA se remeteu ao silêncio.
  O conselho de segurança da ONU foi convocado para apreciar os acontecimentos de 4 de Fevereiro. A UPA, assessorada por conselheiros americanos, pretendeu aproveitar a oportunidade para conseguir as simpatias mundiais para a sua causa, o que levou a preparar uma sublevação geral de grande parte da região norte de Angola, incluindo São Salvador, Uije, Dembos, Luanda e Cuanza Norte. Nesta zona, a partir de 15 de Março, elementos da UPA e os seus seguidores destruíram tudo o que encontraram pela frente: fazendas, postos administrativos, destacamentos policiais; atacaram brancos e negros, crianças e mulheres, numa onda nunca vista de chacinas e assassínios.
As vítimas cifraram-se em cerca de 1000 brancos e de 6000 negros. Esta actuação da UPA não só contribuiu para um profundo movimento de revolta dos colonos brancos, como deu ao Governo Português o argumento final de que necessitava para envolver o país numa guerra sem quartel contra qualquer movimento ou expressão nacionalista. Demonstrou também a ausência, no seio da UPA, de qualquer ideologia moderna, evidenciando-se a sua natureza tribal. De facto, os bacongos não conseguiram, nem sequer tentaram, o apoio, ou ao menos a neutralidade, dos trabalhadores negros contratados das fazendas do Norte, fundamentalmente constituídos por ovimbundos e ganguelas provenientes do Centro de Angola.
  À dureza e barbaridade tribal, as forças portuguesas responderam implacavelmente. Em 9 de Agosto, o exército entrava em Nambuagongo, proclamada antes a capital dos revoltosos. Antes do fim do ano, incompreensivelmente, alguns responsáveis portugueses davam as hostilidades por terminadas.
  Em conclusão, a UPA, ao ser a primeira organização a iniciar as hostilidades em grande escala, mobilizando milhares de seguidores, acabou por conseguir grande  apoio internacional, desde os Estados Unidos até vários países africanos. Para corrigir a sua conotação tribal, a UPA transformou-se em Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) em Março de 1962, integrando o PDA. Pouco depois constituiu o Governo Revolucionário de Angola no Exílio ( GRAE), que no fim de 1963, tinha sido reconhecido pela OUA e por 32 países africanos.

 

Logo Unita
UNITA 
 
  A União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) foi formalmente criada em Março de 1966, no interesse de Angola, no lugar de Tchocué do Mungai, distrito do Moxico, mas a data de criação do terceiro movimento de libertação de Angola é menos importante do que a evolução política do seu inspirador e principal dirigente, Jonas Malheiro Savimbi.
  Savimbi, filho de pastor protestante, recebeu a educação primária em várias missões evangélicas e, apesar de posteriormente ter frequentado colégios católicos, cedo revelou ideias anticolonialistas, o que lhe permitiu, nos anos que passou como estudante em Lisboa ( 1958-1960), contactar com a UPA através da rede que as organizações protestantes tinham em Portugal, e que se encarregava de tirar do país os africanos que quisessem aderir a FNLA, partido que era então o mais representativo de Angola.
  Exilado em Paris, Savimbi trabalhou para a FNLA, de que chegou a ser secretário-geral em 1961. No ano seguinte, quando se constituiu o GRAE, foi nomeado ministro dos negócios estrangeiros, mas em Julho de 1964 abandonou o cargo e o partido, por divergências com Holden Roberto. Tem-se referido, embora sem provas concludentes, que nesta época Savimbi terá tentado aproximar-se do MPLA, embora certo que, ao longo dos anos, sempre orientou a sua acção no sentido de dispor de uma força própria de que fosse o incontestado dirigente.
  A UNITA viria a iniciar a sua actividade no interior de Angola, no distrito de México, contando com apoios da população ovimbundo, que representa cerca de 40% da população de Angola. Embora estabelecendo cumplicidades com agentes do planalto, não conseguiu montar aí a guerrilha, nem tão-pouco viria a implantar-se nos meios urbanos. Embora o número dos seus quadros fosse sempre muito reduzido, conseguiu alguma audiência a nível externo, em especial da China e do Egipto. Teve também alguns apoios por parte da Zâmbia, mas nunca conseguiu construir uma retaguarda firme, como foi a do PAIGC em Conacri, ou da FRELIMO, na Tanzânia.
  A UNITA realizou a primeira acção armada em Setembro de 1966, em Lucusse e Calunga, prosseguindo com um ataque a Teixeira de Sousa, no natal do mesmo ano.
  Em Março de 1967, atacou a linha de caminho de ferro de Benguela, importante para as Forças Armadas Portuguesas, mas fundamental também para o trânsito de mercadorias da Zâmbia. O incidente acabou por se traduzir em crescentes dificuldades de utilização, por parte da UNITA, do território zambiano, facto que, contudo, não impediu que a guerrilha penetrasse no distrito do Bié e que fossem realizadas acções na estrada Luso - Gago Coutinho e ao sul de Gago Coutinho, entre as suas bases e a fronteira.
  A UNITA surge, assim, como opositora do MPLA pelo controlo do Leste do território angolano, o que se traduziu em sucessivos confrontos entre os dois movimentos. Foi então que surgiu a oportunidade de entendimentos com as autoridades militares Portuguesas, com base no combate contra o MPLA, que estava então empenhado em alargar a sua acção militar na zona, onde actuava desde 1966.
  Até 1970, não tinha sido possível ao Exército Português responder com eficácia ao alastramento da guerrilha no leste de Angola. O MPLA havia chegado ao planalto do Bié, planeando penetrar até ao mar, para dividir Angola em duas metades, e é então que o comando militar Português procura uma solução para toda a zona leste, o que vem a incluir um acordo de cessar-fogo com a UNITA, concretizado em 1972. Este acordo assegurava a Savimbi a utilização de extensa área nos rios  Lungué-Bungo, ao sul  do caminho de ferro de Benguela, zona onde o exército Português não entraria, a troco do combate que ele deveria fazer ao MPLA e do fornecimento de informações militares; as autoridades portuguesas comprometiam-se  também a fornecer alguma logística e material. Os contactos com o exército português estabeleceram-se por intermédio dos madeireiros portugueses que trabalhavam na área de refúgio da UNITA e nas florestas do Moxico, pelo que as diligências efectuadas ficaram conhecidas pelo nome de código de Operação Madeira. Estes acordos mantiveram-se até 1973, quando Costa Gomes e o seu comandante da zona leste, Bettencourt Rodrigues, deixaram Angola.
  Os seus substitutos iniciaram, em Setembro de 1973, um ataque às posições de Savimbi, por dois motivos: porque o entendimento dos novos comandantes não se conformava com a situação criada e porque a UNITA, uma vez diminuída a acção dos grupos rivais, queria estender a sua zona de acção ao planalto central. Contudo, em Fevereiro de 1974, os militares portugueses e os guerrilheiros da UNITA iniciaram novos contactos para repor a situação existente anteriormente, embora, quando se deu o 25 de Abril, não se tivesse chegado formalmente ao restabelecimento do cessar-fogo.
  A correspondência entre Savimbi e as autoridades portuguesas viria a ser publicada na revista AFRIQUE-ASIE, com o título de «la longue trahision de l' unita», no n.º61, de 3 de Julho de 1974, em artigo anónimo, mas da autoria de Aquino de Bragança.

 


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