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24 DE MARÇO

 

[foto: flama, pág. 36 (edição 29.3), rali da Tap, carro de romãozinho]

Aventura sem sentido

"Parece que há petróleo na costa portuguesa", dizem os jornais, intrigados com a quantidade de empresa prospectoras que se manifestam interessadas na corrida.

Francisco Romãozinho ganha um "oitavo lugar que sobremaneira o honra" no Rally Tap, de que sai vencedor um italiano, ao volante de um Fiat 124 Spider.

Dois acidentes trazem um rasto de sangue da noite de ontem: "quatro corpos em pedaços na explosão de dois camiões", a três quilómetros de Castelo Branco, e três mortos e um desaparecido na queda de uma avioneta austríaca na Serra do Caldeirão.

Patxi Andion (revelado em Portugal pelo programa Zip-Zip) é ovacionado no Coliseu dos Recreios (ver texto, em baixo).

O comando-chefe das Forças Armadas em Moçambique desmente a ocorrência de um massacre de 28 pessoas denunciado pela Frelimo. "Na região de Tambara e naquela data [13 de Janeiro], as nossas tropas apenas realizaram uma operação onde foram mortos três terroristas", diz o comando-chefe, considerando que a denúncia "constitui mais uma cortina de fumo lançada para encobrir as verdadeiras chacinas que os bandoleiros armados da Frelimo têm cometido ao longo destes dois últimos meses".

"O Século" dedica à sublevação das Caldas da Rainha o seu editorial, intitulado "Aventura sem sentido". Fala em "espírito de cega imponderação" que põe em perigo "a estabilidade das instituições e a coesão das forças que, adentro das fronteiras da Pátria, abnegadas, procuram preservar a paz e a ordem".

Numa reunião da Comissão Coordenadora em casa de Candeias Valente, decide-se que o golpe será entre 20 e 29 de Abril. Cessam as circulares, levando o regime a pensar que conseguira desarticular, pelo menos de momento, o Movimento dos Capitães.

Documento

"A sala estava literalmente a abarrotar. Agentes da PIDE/DGS circulavam na sala, nos corredores, na rua do Coliseu. Perto, por detrás do Teatro Nacional, carrinhas da Polícia de Choque. Patxi Andión percebeu e sentiu o clima electrizante que se viveu e 'puxou' pelo público. Ao cantar 'El Maestro' - 'al explicar una guerra/ siempre se muestra remiso/ explicando claramente/ quien venció y fue vencido' -, praticamente toda a vasta sala , desde a plateia aos camarotes, balcão e geral, estava de pé, punhos erguidos, soltando-se algumas vozes em 'Viva a Liberdade! Abaixo o Fascismo!' Foi, sem sombra de dúvidas de qualquer espécie, um dos momentos mais altos e com uma carga dramática e épica mais intensa que até hoje pude viver num espectáculo musical."

César Oliveira, "Os Anos Decisivos (Portugal 1962-1985)", Ed. Presença

"Creio que têm explicação os últimos aumentos registados nos preços da gasolina, petróleo, gasóleo, etc., porque a 'arma' com que os árabes esgrimiram deu resultado. Como justificar, porém, outros aumentos? Que tem a ver com o petróleo o azeite, que passou de 35 para 50 escudos; o puré de batata em pacotes duplos, que eram a 12$50 e subiram para 16$50 e 21$00, de acordo com as respectivas marcas? E muitos outros produtos podia aqui citar, como o bacalhau, a lã escocesa, etc...

O que mais contribuiu, porém, para me dirigir ao seu jornal foi o recente aumento de preço... dos canários. Aconteceu numa barbearia em Mem Martins. Perguntando eu quanto custava um canário, o dono do estabelecimento disse-me desassombradamente: 'Agora já custam mais de 2100 escudos cada um...' Será que o pobre do canário passou a gastar também gasolina, em vez de alpista ou cenouras? Gualter Henriques Garcia, Rua da Estação, 5-2º Dto - Mem Martins" (Cartas ao Director, "Diário Popular")