Maria Manuela Cruzeiro 25 de NOVEMBRO- QUANTOS GOLPES AFINAL? Os
futuros compêndios de História poderão resumir o evento em escassas
linhas: Após um Verão Quente de disputa entre forças revolucionárias e
forças moderadas, pela ocupação do poder, civis e militares chegaram ao
outono a contar espingardas. O confronto tantas vezes anunciado pareceu
por fim inevitável, quando, na madrugada de 25 de Novembro, tropas
pára-quedistas ocupam diversas bases aéreas, na expectativa de receber
apoio do COPCON. Mas um grupo operacional de militares, chefiado por
Ramalho Eanes, liquidou a revolta no ovo, substituindo o PREC (Processo
Revolucionário em Curso) pelo “Processo Constitucional em Curso”
Apesar de alguns mistérios que ainda subsistem, dispomos hoje de muita
informação dispersa que, uma vez trabalhada, permitirá leituras bem
mais próximas da verdade daqueles meses de brasa, do que as visões
moles de um consenso errado e mentiroso, que parece impor-se sem
escândalo nas várias instâncias do poder pós 25 de Novembro.
Recuemos, então trinta e um anos, às vésperas dessa madrugada
decisiva, começando por indicar as forças em presença, naquele
que, tanto vencedores como vencidos, consideram o momento em que a
guerra civil esteve por um fio: Esquerda Militar conhecida por
Gonçalvista - formada por um leque de oficiais que queriam a revolução,
mas com ideias e projectos diferentes, alguns dos quais mais radicais
do que o próprio PCP.
A Esquerda Militar Populista - centrada na figura carismática de
Otelo, que queria um processo revolucionário basista e desconfiava dos
métodos e tentativas de domínio do PCP.
Os Militares Moderados - que desejavam travar ao mesmo tempo as duas
esquerdas revolucionárias, mas também o processo contra-revolucionário
que, segundo eles, era a outra face da mesma moeda.
Nenhuma das correntes estaria completamente desprevenida, o que não
significa que houvesse tantos planos militares quantas tendências no
terreno. É dos livros: o sinal mais marcante da vontade de desencadear
uma acção militar é, além do plano de operações, a existência de um
comando. E esta segunda condição indispensável foi, como todos sabem,
bem mais difícil de conseguir do que a primeira. Porque não custa fazer
planos, mais ainda para quem tão habituado está - os militares. O que
custa é pô-los em prática. E neste caso, é obvio que havia planos a
mais e chefes a menos. Ou seja: mais marés do que marinheiros.
1. Os Gonçalvistas tinham um plano?
Serge July, o jornalista do Liberation diz que sim. Que o plano
andava a ser preparado no SDCI (Serviço de Detecção e Coordenação da
Informação) chefiado por Almada Contreiras. Contava basicamente com os
Fuzileiros, com os Pára-quedistas e com o Comando do COPCON. De acordo
com o Relatório Oficial da responsabilidade de Marques Júnior era o
Major Pessoa a ligação entre o SDCI e os Páras, e é ele que consegue a
aprovação para a ocupação das Bases.
Sanchez Cervelló vai mais longe: fala da existência de uma espécie de
Directório, um grupo político-militar cujas ramificações atingiam o CR,
O Estado Maior do COPCON, os três ramos das FAs e o SDCI. Segundo o
autor, teria uma sólida organização, e era constituído por três
oficiais do Exército (Majores Corvacho, Arnão Metelo e José Emílio da
Silva), dois da Armada ( Comdtes Miguel Judas e Almada Contreiras) e
dois da Força Aérea (Major Costa Martins e Cap. Pereira Pinto). O
coordenador seria o Alm. Rosa Coutinho.
Não contrariada no essencial pelos visados a existência de algo que
consentem designar de “grupo político –militar”, a recusa é mais clara
e generalizada quanto à existência de um plano concreto. Apresentam
como argumentos contra: as profundas desconfianças quanto ao Relatório
Oficial, que consideram cheio de mentiras e, sobretudo, a prova real
dos factos: se o SDCI era um posto de Comando Gonçalvista, porque é que
durante o dia não se encontram lá as principais figuras como por
exemplo Rosa Coutinho ( que se mantém em Belém, de onde só sai
para acalmar os Fusos) ou Costa Martins (por sua vez destacado para
convencer os páras)?
Entretanto, Arnão Metelo em entrevista ao DN de 25 de Nov de 1995
esclarece: “O Directório da EM ter-se-á preocupado sobretudo em
neutralizar as unidades, impedindo que estas pudessem fazer o que
fizeram no 25 de Novembro. E, neste sentido, os SUV (Comités
revolucionários de soldados) faziam parte desse plano e camuflavam uma
determinada intervenção que não era anárquica, mas, antes pelo
contrário, estava organizada e hierarquizada. O nosso objectivo
fundamental era quebrar a operacionalidade das unidades adversárias,
pela acção que desenvolvíamos a partir de elementos de confiança que
tínhamos em cada unidade. Mas quanto mais se radicalizava o processo,
menos graduação tinham os nossos homens de confiança”.
Em conclusão: a existir um plano, ele seria muito mais reactivo do que
ofensivo cumprindo com rigor a máxima militar “O primeiro a saltar,
come!” Ou, pelo menos, não era para tão cedo. O plano estaria
longe de se encontrar completo. Faltava, por exemplo, um elemento nada
despiciendo: as transmissões. Mas, segundo Duran Clemente, “depois da
Assembleia de Tancos, mas muito particularmente depois do 11 de
Novembro, data da independência de Angola, a Esquerda Militar
apercebe-se de que era preciso estar preparada para qualquer coisa”.
(DN, 25 de Nov.1995)
2. A Extrema Esquerda tinha um plano?
Teria, mas não passava decididamente pelos páras. Consistiria antes nas
unidades da Região Militar de Lisboa, com o apoio de organizações
políticas que deveriam mobilizar grandes massas populares junto aos
quartéis. Das infinitas reuniões e movimentações é exemplo eloquente a
reunião no Palácio Foz de 1 de Outubro, na qual elementos do PRP/BR,
LUAR, e UDP tentam convencer Otelo a encabeçar uma manifestação de
força que poderia conduzir ao assalto ao poder, aproveitando a visita
do Presidente da República à Polónia e à União Soviética. Mas, na maior
parte, as múltiplas acções eram feitas em conjunto com o PCP . Uma
enorme dose de putchismo quer no seio dos militares envolvidos, quer
nos partidos e organizações de extrema esquerda mantém o plano inicial
embora em constante expectativa. Faltou-lhes sempre um chefe. Era o que
concluía um grupo de sindicatos da Cintura Industrial de Lisboa,
apoiados pela Intersindical, num comunicado em que se afirma ter o
golpe falhado justamente por falta de Comando Operacional.
3. O PCP tinha um plano?
É bom notar que esse partido estava no VI Governo, embora em posição
minoritária. Apesar disso dispunha e incentivava um quadro
pré-insurreccional mas é de admitir que não tivesse em mente nem um
levantamento nem um golpe militar clássico. No mínimo a pressão deveria
conduzir a uma recomposição à esquerda do VI Governo e a uma
recuperação de posições nos órgãos militares da Revolução. No máximo,
logo se via…
Por isso, é obvio que não ficou quieto quando o golpe saiu: todos
os CDR ( Comités de Defesa da Revolução) da região de Lisboa são
mobilizados e muitas células do PCP participam nos acontecimentos.. As
células operárias da COMETNA e da SOREFAME, bloqueando a progressão dos
Comandos, assim como as da Sociedade de Construção Civil J. Pimenta, e
a de Camionagem Esteves. Tal como a da Emissora Nacional, e da
RTP. Duran Clemente, o rosto mais visível e protagonista do mais
simbólico episódio do dia ( a substituição da sua imagem revolucionária
pela do comediante Danny Kaye no ecran da televisão) considera que a
célula do PCP na RTP foi absolutamente indispensável para o êxito da
pequena força da EPAM que comandou nesse dia: “Não tive a antena de
Monsanto da RTP até às 20h por obra e graça do Espírito Santo. Mas
porque um militante, e esse do PC, conseguiu enganar os Comandos,
arriscando a vida ( DN, 25 de Nov.1995)
Contudo, a grande maioria dos quadros mais responsáveis e dos
dirigentes apenas assistem. Nesse sentido são reveladoras as
declarações de Costa Martins: “O PCP não estava interessado em
pirotecnia. Encontrei Jaime Serra, dirigente desse partido, no dia 24
no COPCON pelo menos duas vezes. Disse-me que tinha ido pedir a Otelo
que não se metesse em aventuras, para não fazer sair tropas, porque era
muito perigoso. Libertava forças incontroláveis” (Visão, 23 de Nov de
1995).
O caso pertencia, portanto, mais directamente aos Gonçalvistas. E
o golpe de rins no terreno, veio a tempo, fazendo desmobilizar as
acções civis conduzidas pela Intersindical. Por outro lado, a
importante reunião de Alhandra de 10 de Agosto tinha preparado o
partido para qualquer eventualidade e o célebre comício de Almada de 18
de Agosto, traçou o afastamento dramático mas pragmático, entre Cunhal
e Vasco Gonçalves.
4. A Direita tinha um plano?
Há muito que a direita militar estava em pé de guerra. Entre Outubro e
Novembro, aliás, os golpes eram anunciados e desmentidos quase
diariamente. Fervilhavam boatos de golpes e contra-golpes, num clima de
insegurança que desestabilizava a sociedade civil, mas sobretudo os
meios militares incapazes de assimilar tantas contradições.
Mais próximo dos acontecimentos ( uma semana antes), a Base Aérea de
Cortegaça foi posta em estado operacional para receber os 123 oficiais
de Tancos que abandonaram a base. Bem como os 500 páraquedistas do
Coronel Almendra que tinham regressado de Angola, numa acção concertada
com o nome de código OPERAÇÃO VERMELHO 8. Quando os páras
saem, a direita militar já tinha posto em acção um comando operacional
centrado fundamentalmente em Jaime Neves e em Pires Veloso comandante
da Região Militar do Norte. Como na realidade a sua força militar era
muito diminuta, (contavam apenas com duas unidades seguras: Os Comandos
e o CIAAC Centro de Instrução Anti-Aérea de Cascais) trabalharam muito
o factor psicológico. Deixam por assim dizer correr os acontecimentos,
encorajando apenas a desorganização adversária, através de uma arma nem
sempre suficientemente valorizada, a da informação e
contra-informação. É nessa jogada que se inscrevem os
vários telefonemas para Tancos, dando ordens em nome de Almada
Contreiras, obviamente para os confundir, ou as misteriosas mensagens
dizendo que a Base Aérea estava ocupada pela LUAR. Além disso, e numa
outra frente, pressionaram o Posto de Comando da Amadora para
bombardear o RALIS, (segundo eles preparava-se para Janeiro a
Transformação da Escola de Tancos num 2º RALIS). Aliás, das suas
declarações aos jornais, parecem considerar-se os protagonistas
principais.
Mas também da parte civil e partidária as movimentações foram de grande
alcance, como mostra a polémica decisão da deslocação para o Norte que
na sua versão máxima visaria a ilegalização do PCP e outras formações
de esquerda, e a não aprovação da Constituição da República já
elaborada pela Assembleia Constituinte. Segundo Vasco Lourenço “ foi
levantada e esteve quase em vias de ser aprovada a hipótese da retirada
para o Norte com as forças que nos apoiavam (Comandos da Amadora,
Artilharia de Cascais, Infantaria de Mafra, e Cavalaria de Santarém)
permitindo ou provocando que se criasse a Comuna de Lisboa” (Revista
História, nº 14, Nov. 1995). Neste contexto, sendo impossível a
Assembleia funcionar como Constituinte, tornar-se-ia um parlamento, com
poderes para fazer leis e escolher um governo, como consta de um
projecto de lei constitucional elaborado por Jorge Miranda.
Reveladora também a pouco conhecida transferência para o Norte do ouro
do Banco de Portugal, “em operação devidamente concertada com o
sindicato dos bancários na altura de orientação conjunta socialista e
MRPP” (Vida Mundial, Dez 1998).
Reveladora ainda a oferta de James Callaghan a M. Soares :
“Prometeram-nos fazer chegar rapidamente ao Porto, combustível para os
aviões e também armamento” ( M.J. Avillez Soares, Ditadura e Revolução).
Reveladora finalmente a decisão dos agricultores da CAP que, reunidos
em Rio Maior deliberaram mesmo dividir o pais a meio, cortando o
trânsito rodoviário e ferroviário entre Norte e Sul.
5. Os Páras tinham um plano?
É hoje um facto indesmentível que a acção dos Páras provocou certa
confusão nas diversas correntes militares. Os Moderados esperavam que
saltasse uma unidade da RML . Os Gonçalvista e o COPCON que também
conheciam o perigo de tomar a iniciativa, só actuariam perante uma
tomada de força de qualquer unidade adversária. Parece terem sido
apanhados todos de surpresa, e por isso os revoltosos não tiveram de
imediato os apoios que esperavam.
Daí a clássica e persistente pergunta: À ordem de quem sairam os Páras? Mas que traz apensa uma outra: porque sairam os Páras?
Vale a pena determo-nos um pouco nos comunicados por eles difundidos em que explicam a sua acção:
Assim, num primeiro afirmavam “….Nesta conformidade não podemos aceitar
a decisão do CEMFA Gen. Morais e Silva, em pretender destruir-nos, ao
despachar a passagem à disponibilidade de todas as praças e
transferindo os restantes militares e civis. Apoiando a atitude de
abandono de 123 oficiais desta unidade, desprezando a transferência de
serviços e materiais à responsabilidade desses mesmos oficiais, o Gen.
Morais e Silva demonstrou claramente estar do lado dos que defendem a
hierarquia conservadora, tradicional e repressiva. Hierarquia essa,
incompatível com a hierarquia consentida e a disciplina revolucionária.
O abandono desses oficiais e as posteriores tomadas de posição do CEMFA
vieram dar maior ânimo a que se instalasse em nós uma forte e
consciente disciplina e consequente maior operacionalidade”.
E num outro: “Afirmamos desde já, que não se tratou de nenhum golpe
militar como estamos a ser acusados. Não podendo aceitar mais as
tomadas de posição do CEMFA contrárias ao interesse do Povo Português,
decidimos comprovar a nossa operacionalidade e disciplina
revolucionária, numa vasta operação de neutralização das principais
unidades da FA, tendo em vista a contestação directa de um general,
militar que se afasta com as suas decisões dos objectivos da revolução
democrática e socialista. As ocupações foram executadas com total êxito
tendo nós, inclusivamente recebido a solidariedade da generalidade das
praças e de sargentos e oficiais progressistas, das bases ocupadas.
Aliás, é prova das nossas intenções as explicações dadas a todo o
pessoal das unidades logo após a ocupação”.
Em resposta aos comunicados dos revoltosos outros houve emitidos do EMGFA, dos quais destaco o primeiro:
“Grupos de pára-quedistas sublevados da Base Escola de Tancos
assaltaram durante a noite de 24/25 de Novembro, o Comandante da Região
Aérea, a Base Aérea3 de Tancos, a Base Aérea 5 de Monte Real, e a Base
Aérea 6, do Montijo. A situação não está perfeitamente esclarecida e a
atitude desses militares é tão insensata que há a certeza de que estão
a ser vítimas de criminosa manipulação.
Para evitar situações graves não foram ainda dadas ordens de
intervenção pela força, que poderão vir a impor-se, se se mantiver esse
aventureirismo irresponsável. Espera-se que dos sublevados surja uma
atitude de senso para evitar o agravamento da sua situação criminosa.
Sabe-se que a rebelião foi motivada pelo pretexto de conduzir uma luta
contra os generais Morais e Silva e Pinho Freire que, evidentemente,
não são o objectivo político da manipulação que os sujeita.”\
Portanto: as razões dos páras não são as verdadeiras razões, porque há a certeza de serem manipulados.
A manipulação a que se refere o comunicado é obviamente a da esquerda.
Mas em rigor os páras não foram só manipulados pela esquerda, mas
igualmente pela direita. Portanto duplamente manipulados., numa espiral
de coacção psicológica que fez deles ao mesmo tempo sujeitos e objectos
de um dos mais complexos jogos de informação e contra-informação da
nossa história político-militar recente.
Com um enorme capital de queixa que por culpas próprias e alheias foram
acumulando ao longo do processo revolucionário, eram comandados à
altura, por uma controversa figura, o gen. Morais e Silva, cuja
actuação é das mais inquietantes : Em Agosto ainda era um exaltado
gonçalvista que declarava “ir dar uma porrada ao Costa Neves por ele
ter assinado o Doc. dos 9”; em Outubro divulgava um comunicado em que
avisava que a FA reagiria a qualquer tentativa de tomada de poder com o
peso da sua força; em Novembro criticava violentamente Costa Gomes e
Otelo por tentarem uma acção de conciliação com os pára-quedistas, em
vez de dar ordem de ofensiva na Amadora.
Pelo caminho ordena ao Com. Calheiros, o abandono da Base, que fica
entregue ao Major Pessoa; envia Costa Martins com uma guia de marcha
para o COPCON, e descobre uma arma mais mortífera do que as clássicas
G3 dispersas por tantas e tão variadas mãos: o poder da caneta. Com ela
manda retirar de Tancos os famosos 123, determina a desactivação da
unidade, mandando passar à disponibilidade os seus soldados, e
apresentar sargentos e oficiais nas suas unidades de origem, e,
finalmente, congela os vencimentos dos sublevados e manda cortar o
fornecimento de alimentos e o abastecimento de água, e de
electricidade. É muito claro que a intenção era acabar com os
páras, levando-os ao fundo pelas próprias mãos. Costa Gomes afirma
categoricamente :”O CEMFA Gen. Morais e Silva teve grande
responsabilidade no 25 de Novembro pela forma como conduziu os páras”.
(M. Manuela Cruzeiro. Costa Gomes , o Último Marechal)
Daí a preocupação deles em reclamar a sua operacionalidade, daí a
promessa de Costa Gomes de proceder a uma reestruturação e não à sua
extinção.
Dados os desenvolvimentos posteriores, este parece ter sido um diálogo
desenvolvido à margem e remetido para um secundaríssimo plano. Mas pode
residir aí a estranha reacção dos páras quando se confrontam com as
forças adversas, e que Sousa Gonçalves, o capitão que comandou o
assalto a Monsanto, assim descreve: “ Se quisermos falar de milagre em
25 de Novembro, esse reside na falta de vontade da outra parte de
combater e correr o risco de morte. A outra parte falava muito, mas
mostrou inegavelmente que não estava disposta a morrer pelos seus
ideais” . Se calhar porque não tinham um plano para além desse mesmo de
sair e logo se vê!… Mas mesmo sem plano, há uma coisa que nenhum
militar pode conceber: sair sem saber à ordem de quem. Portanto: Quem
deu a ordem?
Freitas do Amaral nas suas Memórias diz, peremptório que foi o PCP. Mas
já J.Pierre Feye diz que não foi ninguém. Ou seja: ninguém das três
chefias que o podiam fazer: Costa Gomes, CEMGFA, Carlos Fabião, CEME,
ou Otelo, S. de Carvalho, Comandante do COPCON. Ter-se-á dado aqui um
vazio de poder, logo aproveitado pelos mais directamente interessados.
Por isso dizer que nenhum dos três deu a ordem, não significa que ela
não tenha existido: Segundo o relatório oficial, “a acção
desencadeia-se a partir do COPCON, com ordem de ocupação de
bases”. Afinal era só disso que estava à espera o Major Pessoa.
Estou de acordo com Raimundo Narciso quando afirma: “Com esta medida os
Páras,, a Esquerda Militar e a Esquerda Revolucionária não pretendiam
desencadear a “mãe de todas as Batalhas”. Pretendiam apenas, ganhar a
importante batalha da substituição de Morais e Silva no EMFA, e no CR,
e na passada, conseguir a inversão do processo de gradual perda de
poder nos órgãos político-militares, que ocorria desde a Assembleia do
MFA de Tancos em 6 de Setembro E não era pouco. Para isso contavam
ganhar o PR e Otelo S. de Carvalho. Não tiveram nenhum.
6. Os Moderados tinham um plano?
Não só o tinham como iniciaram acções tendentes a provocar o adversário
para o obrigar a responder ou então a perder por falta de comparência.
Desde logo se verificou terem o plano mais completo e melhor elaborado
aguardando apenas luz verde e, importantíssimo, um chefe que não o
tendo elaborado, lhe daria total cobertura. Esse chefe só podia ser
Costa Gomes. A partir do momento em que conseguem a sua adesão
colocam-se numa cadeia de comandos totalmente institucional. Trata-se
então não de alterar a ordem, mas justamente de repor a ordem que
alguém alterou. O 25 de Novembro foi o momento em que a Esquerda
Revolucionária Militar respondeu à última provocação do campo oposto,
mas com uma parada demasiado alta e que, com espanto e desespero
verificou a seguir não estar à altura de sustentar. Mas, dizer isto não
equivale a dizer que o golpe vem da esquerda e os moderados apenas
respondem com um contra-golpe. Melhor será dizer que o pretexto para a
concretização do golpe moderado lhes caiu de bandeja pela acção dos
páras.
E se bem que o argumento-chave baseado na cronologia dos factos (os
páras foram os primeiros) sirva como legitimidade formal, na realidade,
excluindo a acção dos páras, que não constava de nenhum plano
consistente, a esquerda acaba por se limitar a responder às acções da
direita: por ex. O RALIS monta o seu dispositivo de alerta em resposta
às barricadas de Rio Maior. A EPAM e a PM montam o seu, em resposta às
ameaças vindas dos Comandos.
Falei agora, ao contrário do que fiz ao longo da exposição, apenas de
esquerda e de direita. Porque na verdade, naquele dia, apenas naquele
dia, o confronto aglomerou de um lado e de outro apoios muito diversos:
dos mais aos menos desejáveis, até aos claramente indesejáveis.
À esquerda COPCON/Gonçalvistas e nas margens os esquerdistas do PRP/BR,
(sobretudo estes que achavam estarem reunidas as condições objectivas
para uma insurreição armada vitoriosa) do MES da UDP, as comissões de
moradores, de fábricas e de militares, os SUV, O CDRs, etc etc.
À direita, os NOVE, e nas margens, Jaime Neves, e o seu Regimento de
Comandos, Pires Veloso, e os 123 Oficiais, a direita militar
revanchista, o MDLP de Spínola e
de Alpoim Galvão.
Tal mistura não demorou a revelar-se explosiva, como revela o fogo
cruzado de críticas entre os genericamente chamados vencedores de
Novembro: De todas a mais inquietante é a que envolve o grupo militar e
o grupo político.
O caso das listas de prisões de oficiais elaboradas à margem de Belém e
da Amadora, o caso das armas distribuídas a civis por Eanes, a vontade
de prolongar o estado de sítio, de ilegalizar o PCP. As defesas de
bombardeamentos a unidades militares como os Páras e o RALIS, as
reacções de Jaime Neves (Sr. Presidente, os meus homens ainda não estão
satisfeitos) o repúdio da intervenção televisiva de Melo Antunes, a
crítica final e fatal aos Nove por não explorarem o sucesso, apontam
para a existência de um outro plano, dentro do plano dos moderados. A
pergunta é de Vasco Lourenço: ”Contrariamente à decisão dos Nove, o
grupo militar elaborou ou não um plano de operações ofensivo?”
7. A revolução tinha que acabar. Era uma fatalidade histórica. Por isso
o 25 de Novembro, todos o reconhecem, tinha que se dar. Parafraseando
M. Velho da Costa: “Não foi um acto de alegria, foi um acto
necessário”. Mas tal como se deu, deve-se fundamentalmente à acção de
três homens: O incendiário Pinheiro de Azevêdo, o fleumático Costa
Gomes, o obstinado Vasco Lourenço.
Custa imaginar, a esta distância, personagem mais desastrada do
que P. de Azevedo. Apesar dos esforços do seu aliado de ocasião Mário
Soares para que ficasse para a história como o Almirante sem Medo, (Já
tínhamos um General sem Medo!) ficou sim, como a grotesca (pitoresca,
se quisermos ser mais suaves) figura, autora de frases impróprias de
reproduzir em público, ou da mais inóqua “È só fumaça, o povo è sereno”
.
Na verdade, durante a curta vigência desta 1º parte do seu governo ( o
6º governo mantém-se até julho de 76) aconteceu de tudo: o cerco ao
governo dos Deficientes das FAs, o saque à Embaixada de Espanha, a
destruição à bomba da Rádio Renascença , por ordens do governo, o
sequestro da Assembleia Constituinte, e finalmente, a original greve do
governo.
Cada um destes incêndios contou com o bombeiro de serviço Costa Gomes,
cujo percurso é um verdadeiro manual de sobrevivência política, de que
a passagem seguinte, justamente sobre estes acontecimentos, constitui a
súmula perfeita: “Em política tem de se ter sempre muita paciência, de
se saber ouvir. O cerco à Constituinte foi uma bola de neve. O ministro
do trabalho e o 1º Ministro tinham prometido receber os operários da
construção civil. Foi a sua inabilidade que provocou o sucedido. Não
havia forças de prevenção, ninguém esperava o que se deu, a PSP e a GNR
estavam desmoralizadas…Apenas havia uma força capaz, os Comandos, mas
eles só sabem agir pela violência. Decidi, por isso utilizar a PM . (…)
A minha ideia era separar o Governo da Assembleia, era isolar o 1º
Ministro e libertar os deputados, que não tinham nada a ver com o que
se passava. Quem tinha era o 1º Ministro”
A citação é longa mas imperdível a sua conclusão: “Os governantes têm
de ser responsabilizados, têm de saber ouvir, de saber argumentar, têm
sobretudo de ser educados. Normalmente as reivindicações das massas são
coisas simples. O povo português, é pacífico, não pode é ser excitado,
porque é muito manipulável. Eu sabia que os manifestantes não actuariam
violentamente, a não ser que fossem provocados. Daí o ter utilizado a
PM que desfrutava de boa imagem junto deles. “
Entre um e outro, fazendo e refazendo as pontes, Vasco Lourenço:
manobrador incansável durante todo o verão quente, correu
literalmente o país sempre preferindo ir do que mandar. Estando no
centro da última provocação de uma cadeia que seria fastidioso enumerar
– a sua nomeação para a RML em substituição de Otelo – tem toda a carga
dramática dos tempos que se viviam. Defensor intransigente da
legalidade institucional, (fosse isso o que fosse, era pelo menos um
factor psicológico terrivelmente forte) cavou o mais fundo que pode
essa trincheira, sem nunca ceder à tentação de a galgar. É assim que
enfrenta quer os políticos que, com Mário Soares defendiam a retirada
para o Norte, quer os militares que com Jaime Neves não viam a hora da
“porrada”, quer ainda o cansaço, humanamente compreensível, mesmo nos
homens sem sono, mas politicamente fatal de Melo Antunes. Integrando a
cadeia de comando (Costa Gomes PR, Vasco Lourenço, Com. da RML, Ramalho
Eanes, (adjunto de V.L.) optou por ficar em Belém, bem próximo do
epicentro de todas as decisões. Tentou mediar o conflito mais grave do
dia que opôs os Comandos e a PM, não evitando as três mortes
registadas, e quando confrontado com as ordens de prisão dos militares
ditos revoltosos conseguiu um tratamento especial para Otelo, em nome
certamente (também) de uma velha amizade…
Operacionalmente vitoriosos, mas politicamente frágeis os Nove
sentiram-se encurralados: alguns consideram até que eles se suicidarem.
Ou morreram às mãos de uma direita e extrema direita com quem tiveram
de partilhar os trofeus de vitória. E também às mãos de um PS com
quem contavam para salvar o seu projecto. No fundo eles acreditavam na
social-democracia para a transição socialista, esquecendo que no resto
da Europa a social democracia há muito esquecera a revolução. Passando
um cheque em branco ao PS, tomaram o desejo por realidade, tendo em
vista mais um programa escrito do que uma prática política. O seu
projecto não podia ser defendido por um partido sem linha ideológica
definida, sem estratégia clara para médio e longo prazo. O partido mais
interclassista onde cabiam desde militantes revolucionários até
democratas, conservadores e até elementos de extrema direita, e que
usou e abusou da sua maioria eleitoral, como argumento definitivo.
Talvez fosse essa crença ingénua no partido charneira da sociedade
portuguesa que inspirou uma inquietante onda de linguagem revivalista
por parte dos militares vitoriosos. Nunca se falou tanto de revolução,
de socialismo, e de MFA, justamente quando através das BASES PARA
A REORGANIZAÇÃO DAS FAs, da responsabilidade do já CEME Ramalho
Eanes, se passava a certidão de óbito ao MFA.
E talvez seja esta uma das mais pesadas heranças de Novembro: esse
desajuste dramático entre o discurso e a realidade, que é ainda hoje a
debilidade maior da vida portuguesa. Vem de trás, certamente, mas a
República de Novembro acentuou fortemente essa esquizofrenia
ideológica e cívica.
“Há uma hábil intenção de apagar os factos, de reduzir a complexidade a
um único acontecimento. Farão do 25 de Novembro um feriado, celebrando
a vitoriosa defesa da Revolução. Sim, misturaram os dados de tal
maneira, que uma coisa facilmente passa por outra. Os culpados por
vítimas, as palavras por factos, a propaganda pela realidade. Quando
chego a uma conclusão, tudo volta ao começo, encontro-me no início de
uma nova pista” (Seixas Santos, Gestos e Fragmentos) Comunicação apresentada em 2005 no Colóquio sobre o 25 de Novembro, realizado no Museu da República Resistência (Lisboa)
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