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" Interpretar "
Santo Agostinho
índice
- Hermenêutica e exegese medieval
- A possibilidade das múltiplas interpretações
- O amor e a caridade
- Deus como centro de amor de toda a criatura racional
- O signo - problemas de interpretação
- Compreensão de si diante do texto
- A percepção da Luz Eterna
- Inserção do De doctrina christiana no contexto de algumas obras de Santo Agostinho
- A necessidade de alcançar a Luz Eterna
Sendo o cristianismo já uma instituição influente quando Constantino em 313 concede liberdade de culto aos cristãos, Roma torna-se o centro da cristandade e a igreja católica organiza-se como poder regulamentador da vida dos cristãos. Contudo ela necessita de ouro poder, de um poder convincente para cativar os novos fiéis. O catolicismo dispõe da palavra revelada como elemento fundante mas tem urgência da palavra raciocinada como logos convincente. Tarefa que caberia a Agostinho de Hipona, a de tentar munir a fé religiosa de argumentos racionais, isto é, de conciliar fé e razão, Verbo divino e logos elucidador. Santo Agostinho vai pretender restaurar a razão, mas usando a fé como meio: " crer para compreender ". As verdades matemáticas por exemplo seriam facto incontroverso, mas o seu fundamento não poderia vir da falibilidade da mente humana. Apenas a razão divina poderia ser o fundamento das verdades possíveis ao homem. É Deus que fundamenta o conhecimento pela iluminação da razão, para que o homem compreenda a ordem rigorosa com que Deus criou as coisas.
Estas breves considerações de índole teológica levar-nos-iam mais longe se neste trabalho nos dispuséssemos a discutir tais questões, sobretudo porque Agostinho distinguiu melhor do que ninguém a interacção da razão e da fé por meio da qual se exercem essencialmente a filosofia e a religião. Sendo um autor polifacetado, são múltiplas as questões sobre as quais incide a sua especulação. No entanto a nossa tarefa direcciona-se dentro da temática teológica mas num outro sentido. Da necessidade de crer para entender e entender para crer, Agostinho, descobre que a fé passará mas a inteligência subsistirá eternamente. Mas para ver a Deus o homem há-de purificar o seu espírito. A partir daqui somos conduzidos a um campo de especulação onde as Sagradas Escrituras desempenham um papel fundamental na procura de Deus, visto que se as ciências humanas encerram alguma verdade esta pertence a Deus.
Ora, não sendo as Sagradas Escrituras de fácil interpretação, visto colocarem-se inúmeros problemas, Agostinho vai estabelecer um conjunto de regras e pressupostos filosóficos que vão permitir a interpretação e o consequente ultrapassar dos problemas que se colocam aquando da sua interpretação.
É na sua obra intitulada " De Doctrina Christiana " que Agostinho nos vai dar a conhecer o modo como ultrapassar todo o género de ambiguidades que se deparam aos intérpretes nos Livros Santos.
Amor e a caridade apresentam-se desde logo como elementos dos quais se deve partir para se chegar à compreensão das S. E.. Sob a alçada do novo mandamento, apresentado no Novo Testamento ( Mat. 22, 37 ), o amor a Deus e ao próximo constitui um dos pressupostos do qual se deve partir para a compreensão das S. E.. " Um amor sacrificial, um amor mais forte que a morte" (1) do qual Deus constitui um símbolo, afigura-se como um caminho inevitável a percorrer para se chegar a Deus .
Depois de iniciar o " De Doctrina Christiana " com um primeiro livro acerca das coisas ( de rebus ) onde o amor e a caridade estabelecem as fronteiras que permitem ao homem conhecer essa " luz eterna " , de que fala Agostinho, seguir-se-à um segundo livro onde os signos e algumas das dificuldades que estes apresentam são discutidos e tratados segundo um processo que torna possível a interpretação. Num terceiro livro, as ambiguidades provenientes do sentido das locuções ,assim como da pontuação e da enunciação são tratados sob o prisma da crítica textual. Um último livro completa esta obra, sendo no entanto escrito posteriormente aos três primeiros.
Serão estas regras, constitutivas, por assim dizer, da sua teoria da interpretação, vão servir de pano de fundo ao nosso trabalho sobre as quais incidirão algumas considerações, reportando-nos a uma passagem do " De Doctrina Christiana ", onde estão contidas as referências necessárias para a discussão e apresentação deste trabalho, com o qual tenciono expor uma parte importante do pensamento de Santo Agostinho.
Para um conjunto de livros reunidos num só, " onde todas as partes , longe de se opor e de se contradizer, se completam "(1) , é requerida desde cedo uma hermenêutica que pudesse aclarar o sentido das Sagradas Escrituras. Sendo a récita de uma história de um povo, o objecto da sua interpretação não é apenas um texto, mas toda a história relatada. A teoria presente da interpretação projecta uma luz sobre o seu próprio passado, conduzindo àquilo que se designa por exegese medieval, aí onde a interpretação de textos, primitivamente da Bíblia, constituía um processo fundamental no sentido da coerência e da clareza dos livros que constituíam as fontes onde o pensamento medieval se nutria. Em lugar de manifestar a sua originalidade, a exegese medieval, aparece como uma forma de interpretação algo insuficiente e longe do rigor exigido. No entanto o esforço dos antigos pela adopção de uma teoria orientadora da interpretação, não deixa de ser respeitável, sobretudo se considerarmos em tal propósito um apelo à renovação e à descoberta do sentido dos textos.
Contudo, contrariamente à hermenêutica, que tem por fim entender " melhor " um determinado enunciado que o seu autor, a exegese medieval pauta-se por fazer extrair um sentido virtual, que o texto em questão autoriza e que é por sua vez pertinente ao intérprete. Aqui podemos levantar a questão que vem no seguimento desta ideia, ou seja, a de ser ou não legitimo uma pluralidade de interpretações. Certamente que tal legitimidade é válida e é o próprio Agostinho a referir tal ideia ainda no séc. IV referindo que " quando das mesmas palavras das Escrituras se deduz não um mas vários sentidos (...) não há perigo em adoptar qualquer deles (...) se eles estão de acordo com a verdade " (2). Ao tornar-se possível a compreensão das Escrituras, torna-se também possível ao entendimento das três virtudes fundamentais da existência cristã, a fé, a esperança e a caridade.
No entanto ao abordarmos Santo Agostinho sob esta perspectiva diremos que se deveria integrar na " teoria da comunicação fundada na comunicação primitiva e essencial de Deus aos homens e dos homens entre si e Deus " (3).
O excerto presente, retirado do " De Doctrina Christiana ", vem demonstrar toda a problemática que percorre a obra, a qual se refere, no seu essencial, aos signos e às coisas. Ao iniciar-se a sua análise podemos reportar-nos, de imediato, a um elemento de grande importância que é, por conseguinte o amor.
(1) - Boulnois, Olivier, " Comprendre et interpreter "
" O amor ou a caridade esforça-se por substituir à ordem do ele, a ordem dos tu e dos eu de maneira a criar um verdadeiro nós ". Falava assim Gabriel Madinier quando escrevia o livro " Consciência e amor ", no entanto sem o propósito a que agora tais palavras se submetem. Essa força tendente a substituir a ordem da individualidade pela união, terá na imitação de Deus, designadamente de Cristo - imitatio Christi - o seu grande motor. Ao falar do amor e da caridade Agostinho refere a necessidade da compreensão das Escrituras para que a partir daí se torne possível a sua edificação (1). No excerto em análise é descrita sucintamente esta ideia. Tomar os signos pelas próprias coisas é segundo Agostinho " uma miserável servidão da alma ", pois se não se compreenderem os signos que atravessam toda a Bíblia, também a compreensão da mensagem divina se torna impossível. Deste modo edificar o amor e a caridade, finalidade última das Escrituras, torna-se consequentemente impossível, uma vez que as incoerências advenientes da ignorância quer das línguas , quer dos signos não o permitem. Mas Agostinho alerta logo livro I para aqueles que fundam a sua vida na fé, na esperança e na caridade e vivem nestas três virtudes sem o auxílio das Escrituras, necessitando delas apenas para ensinar os outros (2).
Apercebemo-nos com o decorrer da obra que Deus aparece como vida e sabedoria, como centro de amor de toda a criatura racional, tendo o homem que purificar o seu espírito de modo a gozar e a ver aquela verdade que vive imutavelmente (3). Esta ideia de gozar e usar aparece logo no inicio da obra, sendo que é um tema constante no " De Doctrina Christiana ". Ao sublinhar a importância do amor nesta obra, Agostinho, aponta para a interioridade do indivíduo, para a capacidade que este tem de fazer despertar em si o amor humano, fundado este no amor divino. Abre-se, então o caminho para a enunciação de um determinado conjunto de pressupostos que irão ajudar o homem a descortinar o sentido das Escrituras. Contudo estas já não apontam para uma interioridade afectiva do homem, mas para o formalismo linguístico e para os problemas que os signos colocam à sua interpretação. Serão os signos a colocar problemas de interpretação, sendo, no entanto, dificuldades ultrapassáveis se se tomar em linha de conta as soluções apresentadas pelo nosso autor. Quando no fragmento Agostinho refere o facto de se tomarem os signos pelas próprias coisas, aponta também na direcção de uma precaução quanto a locuções figuradas que se podem eventualmente deparar na tentativa de interpretação. Essa servidão da alma, que é o não ir mais além do que as próprias coisas podem dizer, leva o intérprete a cometer erros de interpretação. Mas ainda que se engane, este não mente (4), devendo contudo ser sempre corrigido. Uma leitura errónea que não corresponda à intenção do autor bíblico, mas que se revela própria a edificar a caridade não é de todo perigosa.
(1) - De doctrina christiana, I, 36, 41
(2) - De doctrina christiana, I, 39, 43
(3) - De doctrina christiana, I, 10, 10
(4) - De doctrina christiana, II, 36, 41
No entanto o problema trata-se aqui de saber a causa pela qual se tomam os signos pelas próprias coisas. Será pela ignorância destes ? Mas aqui já anteriormente Agostinho se tinha referido aqueles que vivem nos " desertos sem o auxílio das Escrituras. No entanto não nos referimos aqui aos indivíduos que ignoram por completo as palavras. Pressupõe-se desde o início o domínio da linguagem e dos signos por parte de quem se apresenta com a intenção de interpretar as Escrituras. O autor faz referência à importância do conhecimento das línguas, nomeadamente o grego e o hebraico, que se destinaram a ser desconhecidas pelo pecado da soberba cujo signo era essa mítica torre de Babel, donde originariamente teriam vindo as diferentes línguas (1). Pensemos então que tal servidão da alma é o não penetrar no " mundo do texto ", etapa que se afigura fundamental não só na compreensão desse mesmo texto, como também vem possibilitar a compreensão de si diante desse mesmo texto (2).
Aqui poderemos estabelecer, apenas a título de curiosidade, um certo paralelo com uma outra obra do mesmo autor, a saber, as Confissões, onde podemos dar conta de uma procura de si mesmo, uma compreensão do próprio eu. Tal ideia pode ser verificada nos primeiros dez livros desta obra, sendo que os restantes três livros são dedicados à interpretação e explicação exegética da Bíblia, tendo em vista o livro do Génesis.
A interpretação das Escrituras vem possibilitar, não só a compreensão do texto em si, mas também a compreensão de si perante esse mesmo texto, não tomando, então os signos pelas próprias coisas. No entanto a possibilidade, considerada pelo próprio Santo Agostinho, concernente à admissão de vários sentidos, aquando da interpretação, vai estender-se pela Idade Média. Passados alguns séculos, já em pleno séc. XII, Maimónides viria a admitir semelhante ideia. Admitia vários sentidos e mesmo sentidos opostos, não podendo nós saber qual o verdadeiro. Posição que seria mais tarde, já na Idade Moderna, de resto, por Espinoza no seu tratado teológico - político (3).
Mas, reportando-nos mais incisivamente para o excerto em análise, diremos que o texto que nos ocupa sugere uma clara prioridade do conhecimento das coisas sobre o das palavras. Estamos perante o primado de valor do conhecimento da realidade relativamente aos signos. Esta relação entre signos e coisas é mediada pelo processo de conhecimento, sendo que, o conhecimento da realidade condiciona o conhecimento da palavra como signo de alguma coisa. A primazia da realidade sobre os signos ressalta à vista em Agostinho (4), embora considere falso que todas as coisas se devam antepor aos seus signos. De facto, em Agostinho o mundo divide-se em coisas e signos, não designando as palavras directamente as coisa, ou seja, não fazendo mais do que as exprimir. É segundo Tzvetan Todorov a expressão de um " verbo interior prelinguistico " ( 5).
(1) - Gén. 10, 1
(2) - Ricouer, Paul, Do texto à acção, pág. 131
(3) - Espinoza, tratado teológico - político
Visto Agostinho dar prioridade ao conhecimento das coisas, em que o signo é apenas um factor de mediação, então tomar os signos pelas próprias coisas significa cair nas trevas mais escuras da ignorância donde a escravidão da alma se torna na prisão desta. Podemos, então, estabelecer uma primeira oposição entre estes dois elementos, a saber, signos e coisas, temática central que atravessa o De doctrina Christiana . Ora, sendo o signo algo que nos faz pensar em alguma coisa (1), levantam-se outros problemas provenientes da ambiguidade ou da obscuridade dos signos. Tais dificuldades vão requerer da parte do sujeito interpretante um conhecimento de um leque de línguas como são o exemplo do grego e do hebraico, a fim de que desapareça a ignorância dos signos, conhecendo, então, o seu sentido preciso. Aqui, Agostinho, remete-nos para a ideia de que não se deve depreciar o que de bom foi dito pelos autores profanos, porque, refere ele, " tudo o que o homem aprendeu fora das Sagradas Escrituras se é nocivo nelas se condena, se é útil nelas se encontra " (2).
A não compreensão das palavras metafóricas, seguindo-as à letra, são entendidas como se fossem próprias, não se sabendo qual a sua verdadeira significação. Ora, para que tal não aconteça, diz-nos Agostinho, há que examinar com diligente consideração o que se lê " para se chegar a uma interpretação que nos conduza ao reino da caridade " (3). Caridade que é o fim e a plenitude das Escrituras, princípio donde Agostinho retira todas as consequências. Uma interpretação errada mas própria a edificar a caridade não é perniciosa. Quando um cristão encerra em si a fé, a esperança e a caridade, não tem necessidade das Escrituras senão para instruir os outros. Edificado o reino da caridade, o mais é dizer " o amor a Deus e ao próximo ", o olhar da mente eleva-se, então, acima das coisas corpóreas. Verificamos que Agostinho coloca a exegese ao serviço da fé e da caridade, todavia, está longe de negligenciar os meios que permitem reconhecer racionalmente o sentido exacto, pretendido pelo autor. Poderíamos referir-nos, tão só, por exemplo, ao estudo das artes liberais, ao estudo dos " tropos ", que recomenda, e a exposição das famosas regras de Ticónio, em favor de uma exegese sana. Todas estas regras dadas por Agostinho e destinadas a facilitar a inteligência das Escrituras, tem por vezes o seu fundamento no recurso à cultura clássica. Mostra que o exegeta dos textos sagrados deve utilizar todas as ciências profanas que têm alguma utilidade para a realização do seu objectivo, inclusivamente a filosofia, tal como ela foi praticada pelos pagãos sobretudo pelos platónicos (4).
As condições que Agostinho coloca à partida ( fé, esperança, caridade ), não são colocadas de forma arbitrária, mas sim como o caminho para perceber a luz eterna. " Ainda que a profecia se acabe, as línguas desapareçam e a ciência se destrua, a caridade jamais acabará. (...) Ao chegar à vida eterna a fé cessa e a esperança, permanecendo a caridade mais firme e mais perfeita " (5).
As Sagradas Escrituras, sendo de origem divina, não são acessíveis na sua profundeza misteriosa àquele que crê, mas porque usa linguagem humana, não dispensa ao intérprete um trabalho de inteligência. Estas duas condições são hierarquizadas: a fé deve preceder a inteligência da fé. Ao falarmos no acto de interpretação, não parece demais referir um aspecto interessante: quando um sujeito interpreta o texto sagrado é ele próprio " interpretado " pelo mesmo texto, ou seja, o acto de interpretar comporta o efeito de apropriação. Tal apropriação vem modificar o leitor, uma vez que lhe vem abrir novas perspectivas sobre algo que até então lhe era quase desconhecido (1). Ora, o mesmo se poderá dizer de Agostinho, em quem as Escrituras tiveram um papel importante na sua experiência interior e na compreensão de si.
Traçado o caminho para a compreensão das Escrituras, abre-se, também, o caminho para a elevação do " olhar da mente ", para a contemplação da " luz eterna ". Não permanecendo na contemplação das presenças terrestres, o homem, virar-se-ia para a essência divina, para uma presença situada além do mundo. E então chega-se ao fim último, àquilo que o texto refere como " luz eterna ", ou seja, a contemplação de Deus. Mas antes de mais interessa aqui distinguir " coisas corpóreas " e " luz eterna " de que fala o texto. Reconhece-se desde logo o esquema augustiniano característico que opõe o mutável ao imutável, o temporal ao eterno, o mortal ao imortal. De acordo com Agostinho a diferença reside no facto de que todo o temporal se ama mais antes de se possuir e depois de se possuir deprecia-se. O eterno ama-se com mais intensidade quando possuído do que quando se deseja. Ideia que podemos verificar, também, nas Confissões, onde mais do que a beleza do universo físico, nos atrai dos corpos humanos e das almas. Por isso é preciso elevar o amor até àquele que é o seu artífice (2).
As Sagradas Escrituras são apresentadas como uma mediação que permite ao homem mortal reconhecer o Verbo imortal, no entanto apesar de ser um meio necessário, é contudo um meio provisório. Como é referido na obra, todo o estudioso das Escrituras não encontra nelas outra coisa senão que há-de amar a Deus e ao próximo por Deus. No fundo vem retomar o que séculos antes havia sido dito pelos Evangelhos. E é esta a " luz eterna " de que o texto fala, cujo caminho passa pela Bíblia para chegar a Deus. Um Deus que não poderemos conceber de forma alguma como uma entidade abstracta formal, mas uma realidade viva, pessoal mesmo quando diluída nos epítetos gregos: Imutável, Unidade, Bem, Luz.
Deste modo o homem está irremediavelmente ligado a Deus, e tentar destrinçar entre a questão do homem e a questão de Deus, afigura-se como uma tarefa bastante árdua, visto o caminho ser o mesmo, ou seja, a interioridade. Onde o homem se descobre a si próprio, descobre irremediavelmente Deus.
Santo Agostinho não é um tradicionalista puro e simples, mas refere-se sempre à autoridade da fé como elemento essencial para compreender Deus. Mantém-se como uma das maiores figuras da história humana e da história do pensamento, à qual não pode escapar a sua teoria da interpretação, nomeadamente por intermédio do De doctrina christiana, obra que exercerá uma influência extraordinária na Idade Média onde inspirará a organização do ensino durante toda essa época e ditará o plano do Liber Sententiarum de Pedro Lombardo, escrito que depois se manterá durante séculos como o manual de base de estudos teológicos.
O De doctrina christiana começado em 397, mas concluída somente em 426 ou 427, contém os termos e os regulamentos hermenêuticos da nova cultura de índole cristã, que a superação do formalismo e a análise da linguagem possibilitaram. Não é demais fazer aqui referência ao De magistro onde se verifica o sentido da relação entre linguagem e conhecimento, onde se nega cepticamente que a linguagem seja causa de conhecimento.
Uma outra obra este autor seria de referir, a saber, o De ordine onde se releva a visão hierárquica de Agostinho acerca do mundo. Tudo obedece a uma ordem excepto Deus e as coisas que estão em Deus. Tudo isto com o propósito de salientar que também no De doctrina christiana nos aparece uma referência à ordem relativamente ao amor (1).
É verdade que toda a obra de Santo Agostinho é, no seu todo, de índole muito diversificada, distribuindo-se, não só por interesses especulativos, filosóficos e teológicos, como também por domínios exegéticos e pastorais. No entanto, vemos alguma proximidade entre as obras, relativamente a alguns assuntos que são tema de análise de Agostinho. Um exemplo bem elucidativo é o paralelo que se pode estabelecer entre o De doctrina christiana e as Confissões, nomeadamente os três últimos livros desta obra. Nesta última obra, Agostinho, vem justapor dez livros sobre ele mesmo e três sobre a análise das Escrituras. Obra que corresponderá a uma filosofia da experiência interior e sobretudo da experiência religiosa. Talvez reler as Confissões à luz do De doctrina christiana permita a percepção da correlação que existe entre a interpretação das Escrituras e a compreensão de si mesmo nas Confissões.
Outras obras seriam passíveis de referência, no entanto, nem este trabalho visa tal propósito, nem tão pouco se pretendem dar a conhecer os conteúdos das obras de Agostinho, ainda que fosse de uma forma superficial.
Como já foi referido, ao descobrir-se a si próprio, o homem, descobre Deus. Mas porquê tamanha necessidade ? Provavelmente porque é a aspiração de todo o ser criado, essa contemplação das verdades eternas, de Deus como amor subsistente. Porque a alma está, então, sob a influência permanente de Deus, Luz inteligível para todos os espíritos criados. Nota-se aqui a presença da célebre teoria da iluminação divina que acabaria por exercer uma grande influência ao longo da Idade Média.
No inicio dos seus Solilóquios, Agostinho declara, claramente, o desejo de conhecer Deus e a alma, em que não há duas investigações paralelas, mas uma implica a outra como já foi referido. A verdade é Deus. Este vislumbra-se como o principio fundamental da teologia agostiniana. Justamente enquanto o homem procura Deus na interioridade da sua consciência, Deus é para ele Ser e Verdade. Ora, é neste quadro que as Escrituras desempenham um papel determinante, fixando-se como um meio de mediação entre o homem e Deus e depois... Depois surge o De doctrina christiana para aclarar o modo como proceder face às dificuldades que as Escrituras apresentam.
A Bíblia transcenderia, então, todos os outros escritos, animada pelo Espírito, constituindo um corpo vivo, unificado coerente, carregada de significações sacramentais em todas as suas partes, mesmo nas suas passagens mais curtas ou nas suas páginas, aparentemente, de menor importância.
(...) " En fin, es una miserable servidumbre del alma tomar los signos por las mismas cosas, y no poder elevar por encima de las criaturas corpóreas el ojo de la mente para percibir la luz eterna ". ( De doctrina christiana, III, 5, 9 )
Acerca da doutrina cristã - Excertos, in textos de hermenêutica, trad. de José Andrade, Porto, 1984.
Agostinho, Santo - Sobre la doctrina cristiana, AEFLUP, biblioteca de autores cristianos, Madrid, 1959.
O mestre, introd. E comentários de Maria Leonor Xavier, colecção textos de filosofia, Porto Editora, 1995.
Confissões, trad. de J. Oliveira Santos e A. Ambrósio de Pina, Livraria Apostolado da Imprensa, 12ª Edição, Braga, 1990.
Bori, Pier Cesare, Linterpretation infinie : Lhermeneutique chrétienne ancienne et ses transformations, Les Editions du CERF, 1991.
Boulnois, Olivier, in Comprendre et interpreter - le paradigme hermeneutique de la raison, Institut Catholique de Paris, 1993.
Grant, Robert, Linterpretation de la Bible des origines chrétienes a nous jours, Èditions du Seuil, Paris, 1967.
Marrou, Henri Irenée, Histoire de leducation dans lantiquité, Série - Lunivers historique, Éditions du Seuil, 1948.
Ricoeur, Paul, Do texto à acção, Rés - Editora, Porto, 1986.
Todorov, Tzvetan, Theories du symbole, Collection poétique, Aux Éditions du Seuil, Paris, 1977.
Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra
Filosofia Medieval
Ao Prof. Mário Santiago de Carvalho,
em 28 de Maio de 1998, do aluno,
Pedro Emanuel