O sítio arqueológico paleolítico do Salto do Boi
(Cardina, Santa Comba, Vila Nova de Foz Côa)

João ZILHÃO* Thierry AUBRY** António FAUSTINO DE CARVALHO*
Gertrudes ZAMBUJO* Francisco ALMEIDA*

Localização

Descoberta e estratégia de intervenção

Cardina II

Cardina I

Conclusão

Figuras

Ficha técnica

Notas de rodapé



Localização

O sítio arqueológico do Salto do Boi localiza- se na margem esquerda do rio Côa, cerca de 500 m a jusante da foz da ribeira de Massueime, e está situado cerca de 3 km a montante dos núcleos de gravuras rupestres paleolíticas de Penascosa e Quinta da Barca (Fig. 1). Os terrenos em causa, localmente designados como Cardina, são propriedade do sr. Fernando Augusto Baltazar, residente na povoação de Chãs. Neste ponto do seu curso para norte, o Côa descreve uma curva apertada, determinada pelas dificuldades de ultrapassagem de um importante acidente geológico: uma crista de rochas duras (pórfiros graníticos ou riolíticos) de direcção E- W. O estrangulamento existente no ponto de atravessamento corresponde à zona do vale onde a distância entre as duas margens é mais pequena - apenas 10 m - e está na origem do nome por que o local é conhecido.

Foram identificadas e objecto de sondagem arqueológica duas áreas distintas: Cardina I e Cardina II (Figs. 2- 3). Trata- se de plataformas aplanadas, a primeira situada a uma cota de cerca de 25 m acima do fundo do vale e a segunda cerca de 10 m mais abaixo. Em ambos os casos o uso actual do solo é semelhante e corresponde a olivais periodicamente lavrados para remoção do mato rasteiro, tanto por razões agrícolas como de prevenção contra incêndios. Nos últimos anos as lavras têm sido feitas por meios mecânicos, mas sempre sem ultrapassar profundidades da ordem dos 15- 20 cm. Em tempos relativamente recentes, ainda de memória do proprietário, toda esta zona era igualmente aproveitada para produção cerealífera, sendo ainda visíveis na área Cardina II pequenos muros de contenção de terras derrubados.

Descoberta e estratégia de intervenção

O potencial arqueológico do local foi reconhecido em resultado de uma prospecção orientada por critérios decorrentes dos resultados da análise cartográfica. A forma das curvas de nível sugeria a existência neste sítio de aplanamentos susceptíveis de corresponder a zonas de acumulação de depósitos do Plistocénico superior. Por outro lado, a ser esse o caso, a cota acima do fundo do vale a que se encontrariam esses eventuais depósitos punha- os ao abrigo da erosão provocada pelas grandes cheias invernais do Côa. Sendo o único ponto do vale em que, à escala da cartografia utilizada (1:25 000), tais características eram reconhecíveis, foi à partida seleccionado como local prioritário de investigação. Assim, no dia 14 de Agosto de 1995, uma equipa de prospecção constituída por João Zilhão, António Carvalho e Francisco Almeida dirigiu- se a este sítio com o objectivo de confirmar o potencial previamente intuído, objectivo que foi facilitado pelo facto de os olivais se encontrarem lavrados e limpos de vegetação. As boas condições de visibilidade permitiram, ao fim de alguns minutos, a recolha à superfície, na plataforma subsequentemente designada como Cardina II, de material característico: dois núcleos para lamelas em cristal de rocha; e uma ponta microlítica fusiforme de sílex (Fig. 4, nº 2). A tipologia destes materiais sugeria tratar- se de vestígios de uma ocupação do final do Magdalenense (10 000- 12 000 BP). Na plataforma subsequentemente designada como Cardina I foi também recolhido na mesma altura algum material lítico pouco característico (lascas de quartzo e de quartzito).

Estas circunstâncias e, no contexto da polémica decorrente dos resultados do projecto de <<datação directa>> das gravuras do Côa levado a cabo pela EDP, a premência política de demonstrar a existência de um povoamento paleolítico do vale, determinaram a estratégia de intervenção adoptada. Foi imediatamente aberta uma vala de escavação em L na plataforma Cardina II, na zona adjacente ao ponto onde havia sido recolhida a ponta de sílex - quadrados S/51- 55 e Q- R/55 (Fig. 3). Essa vala foi complementada pela abertura de sondagens isoladas destinadas a obter uma primeira avaliação da extensão da mancha de dispersão dos vestígios - quadrados O- P/51 e P45. A natureza arenosa dos sedimentos e o facto de se estar perante depósitos lavrados determinou a opção por uma escavação rápida a pá e picareta acompanhada de crivagem a seco em crivos com malha de 4 mm.

A concluir esta primeira fase da intervenção arqueológica abriu- se igualmente, no último dia (22 de Agosto), uma sondagem na área Cardina I (quadrado K24 da Fig. 3). A constatação de que, sob a zona afectada pelas lavras, esta área continha estratos intactos, determinou que a segunda fase dos trabalhos, que se reiniciaram a 22 de Setembro e ficaram concluídos a 17 de Outubro, tivesse sido exclusivamente orientada para a caracterização do respectivo potencial arqueológico. Foi aberta uma área de 2x2 m (quadrados K- L/15- 16 da Fig. 3), tendo a escavação sido realizada pelo método da decapagem segundo as camadas naturais, com subdivisão em níveis artificiais no caso dos estratos in situ. A elevada densidade de artefactos nas camadas de base obrigou ao uso de pico e colherim, de forma a reduzir ao mínimo os riscos de danificação dos materiais, e tornava impraticável a respectiva coordenação tridimensional individual. Registou- se assim, no que respeita à proveniência, apenas a informação relativa à unidade de escavação (quadrícula e nível) em que as peças foram recolhidas. Tal como na área Cardina II, os sedimentos foram integralmente crivados a seco em crivos com malha de 4 mm.

Cardina II

Os sedimentos que nesta plataforma se acumulam sobre o substrato xistoso correspondem a um coluvião de composição heterogénea, com uma componente grosseira (areão e seixos, sobretudo de quartzo) heterométrica e mal calibrada, e com uma espessura que variava entre cerca de 35 cm no quadrado S55 e cerca de 70 cm no quadrado P51. Os vestígios arqueológicos são de muito baixa densidade, e correspondem de um modo geral a peças de sílex e cristal de rocha partidas ou de dimensões diminutas. Há igualmente uma componente em quartzito, cujo estado superficial (arestas algo boleadas, bordos esgaçados), no entanto, aponta para que se trate de material transportado, em posição secundária. Os depósitos contêm igualmente raros fragmentos de cerâmica, na sua maior parte moderna. No quadrado P51, porém, foi recolhido um caco pré-histórico decorado (atribuível à Idade do Bronze) a cerca de 50 cm de profundidade.

Estes factos indicam que devemos estar, nesta área, perante uma formação resultante da erosão e redeposição ao longo das vertentes que descem para o rio dos depósitos correspondentes à parte superior da sequência estratigráfica reconhecida na área Cardina I (ver adiante). O momento em que se deu esse coluvionamento não pode, de momento, ser determinado com precisão. Os dados à nossa disposição permitem a formulação de duas hipóteses alternativas:

1. O coluvionamento é antigo, isto é, finiplistocénico, tendo originado a formação de uma cobertura sedimentar homogénea das vertentes abaixo dos 170 m (ver Fig. 2), sobre a qual tiveram lugar as ocupações magdalenenses que deixaram os esparsos vestígios recuperados na escavação da área Cardina II (os quais estariam portanto em posição primária); a subsequente estabilização dos solos decorrente da colonização do vale pela floresta a partir do Holocénico inicial teria permitido a preservação destas formações até à Idade do Bronze, época em que o uso dado ao local se terá traduzido no abandono de alguma cerâmica; o uso agrícola de época histórica e os revolvimentos decorrentes terão acarretado a incorporação dessa cerâmica nos depósitos e o apagamento do registo estratigráfico original.

2. O coluvionamento é recente, isto é, posterior à Idade do Bronze e, originalmente, todas as ocupações pré- históricas registadas no local terão tido lugar na plataforma correspondente à área Cardina I; subsequentemente (porventura em resultado dos usos agrícolas dados ao local em época histórica), a erosão parcial da parte superior da sequência aí acumulada terá dado origem à redeposição desorganizada, encosta abaixo, das respectivas componentes, incluindo os artefactos (cerâmica do Bronze e indústria magdalenense); estes últimos estariam portanto em posição secundária, e o achado de cerâmica a profundidade relativamente elevada seria explicada não como consequência dos trabalhos agrícolas posteriores à acumulação dos depósitos mas como consequência da natureza e cronologia do próprio processo de acumulação; é aliás possível que a própria intervenção antrópica (construção de muretes) tenha também desempenhado um papel não irrelevante na retenção parcial até ao presente, nas zonas de maior aplanamento (como a plataforma Cardina II), destes coluviões recentes.

À partida, a segunda hipótese parece ser a mais verosímil, e tem a vantagem de poder ser posta à prova de forma relativamente expedita. A sua validação decorreria facilmente, por exemplo, da descoberta na área Cardina I de uma zona em que a densidade e o estado de conservação dos vestígios magdalenenses permitissem a respectiva interpretação como correspondendo ao ponto de proveniência do material encontrado em Cardina II. Os dados obtidos na escavação dos quadrados L- K/15- 16 indicam que essa zona poderá efectivamente existir: as camadas 1- 3, que formam um depósito de características aparentemente semelhantes às do que se escavou em Cardina II, forneceram cerca de 2 kg de material fresco em quartzito, embora o sílex e o cristal de rocha estivessem também representados sobretudo por peças partidas de dimensões diminutas. Admitindo que destes factos se pode depreender a validação do modelo correspondente à segunda hipótese, restaria ainda, mesmo assim, esclarecer dois outros aspectos fundamentais: o da proveniência da matriz destas camadas, nomeadamente no que diz respeito à componente grosseira (redeposição de terraço fluvial antigo desmantelado e originalmente situado a cota mais elevada?); e o da eventual atribuição de parte da indústria lítica às ocupações da Idade do Bronze representadas pelos poucos fragmentos de cerâmica pré- histórica decorada recolhidos nas duas áreas intervencionadas.

A indústria lítica recolhida nos 10 m2 escavados em Cardina II é pobre em termos quantitativos, e ainda não foi objecto de inventário, excepto no que respeita aos núcleos, aos restos lamelares de debitagem e aos utensílios retocados (Quadro 1).

Na Estremadura portuguesa, a associação raspadeira unguiforme/trapézio/ponta fusiforme (Fig. 4) é característica da fase final do Magdalenense, e encontra nomeadamente paralelos em jazidas da denominada fácies Carneira, datadas de cerca de 10 000 BP, embora possa igualmente ocorrer no


QUADRO 1
Cardina II
Núcleos, debitagem lamelar e utensílios
                     
  Sílex Quartzo Cristal de rocha Quartzito TOTAL
Núcleos   6 (a) 1 7
Lamelas   3 2   5
Utensílios 6 1 4  11
Raspadeira unguiforme 1  1   2
Trapézio   1  1
Lamela com entalhe 1 1    2
Lamela de dorso marginal 1   1  2
Ponta de dorso curvo 1    1
Ponta fusiforme 1    1
Lasca retocada 1    1
Fragmento de peça retocada   1   1
(a) prismáticos, para lamelas ou esquírolas; comprimento médio - 2,26+/-0,71 cm; peso médio - 2+/-1 g

Magdalenense superior, por volta de 12 000 BP[1]. Na parte sul da província de Salamanca existe uma jazida desta última época, a de La Dehesa[2]. O material nela recolhido é abundante e típico, mas fabricado predominantemente em sílex embora, à semelhança do que se passa na Cardina, esteja igualmente bem representada a debitagem do quartzo hialino para a produção de lamelas. No que respeita a esta última matéria- prima, os volumes explorados são em ambos os casos cristais inteiros, os quais, em Cardina II, apresentam superfícies ligeiramente alteradas, indiciando colheita em depósitos aluvionares situados a distância relativamente curta da jazida primária.

Índice do texto/Parte seguinte/Notas/Figuras

Início da página/Página principal/Bibliografia


Esta página foi realizada para o Nestcape Navigator 2.0
Última actualização no dia 30 de Junho 96
siljan@gemini.ci.uc.pt