O sítio arqueológico paleolítico do Salto do Boi
(Cardina, Santa Comba, Vila Nova de Foz Côa)




Conclusão

Identificaram- se no Salto do Boi duas áreas com materiais arqueológicos que foram objecto de sondagem. A área Cardina II, porém, poderá corresponder a um depósito em posição secundária resultante de remobilização parcial de sedimentos que originalmente corresponderiam à parte superior da sequência reconhecida em Cardina I.

A indústria lítica recolhida em Cardina II e nas camadas 1- 3 de Cardina I é atribuível a um Magdalenense superior ou final de cronologia compreendida entre cerca de 12 000 e cerca de 10 000 anos BP. A indústria lítica recolhida nos níveis 4c+5 de Cardina I documenta com segurança uma ocupação do Gravettense final, e a recolhida nos níveis 4b poderá corresponder já a um horizonte proto- solutrense; na sua totalidade, esta sequência estará cronologicamente compreendida entre cerca de 22 000 e cerca de 21 500 BP.

Estes dois momentos de ocupação correspondem aos que melhor se encontram documentados nas jazidas de ar livre da região litoral entre Tejo e Mondego (Fig. 13). Não é por isso, à partida, de estranhar que tenham sido destas duas épocas (22 000- 20 000 e 12 000- 10 000 BP) os primeiros habitats do Paleolítico Superior a ser descobertos no vale do Côa. Tudo indica que este fenómeno terá um fundamento geomorfológico e não histórico: a ocorrência, no início do máximo glaciário, primeiro, e do Dryas III, depois, de importantes fenómenos de coluvionamento dos solos formados sob os climas mais húmidos vigentes no início do estádio isotópico 2 e durante o interestádio Bølling/Allerød. A sedimentação importante e relativamente rápida em sopé de vertentes de inclinação acentuada tornou possível a conservação em boas condições dos contextos arqueológicos, e explica o padrão de preservação diferencial que a Fig. 13 deixa transparecer.

Esta concordância com os dados geomorfológicos do litoral sugere que as condições climáticas existentes no vale do Côa ao longo do estádio isotópico 2 e do Tardiglaciar não terão sido significativamente distintas das que se têm inferido a partir da informação paleoambiental registada nos depósitos quaternários da Estremadura[7]. No mesmo sentido aponta o facto de as areias coluvionares da sequência escavada em Cardina I não conterem quaisquer crioclastos. Esta constatação tem outra consequência importante: a de permitir colocar a hipótese de os processos de formação e preservação de jazidas de ar livre do Paleolítico Superior na Estremadura e no Alto Douro terem sido no essencial semelhantes. As estratégias de prospecção a aplicar proximamente no Vale do Côa poderão assim inspirar- se com mais confiança nos modelos de localização derivados da experiência adquirida nos últimos 15 anos de trabalho de campo nas regiões de Rio Maior, Torres Novas e Pombal.

Pode ainda concluir- se, finalmente, que os resultados obtidos nos trabalhos realizados no Salto do Boi têm duas implicações muito importantes para a caracterização da arte rupestre paleolítica do vale do Côa:

* fornecem um contexto arqueológico do Paleolítico Superior para essa arte, o qual, no caso das ocupações dos níveis 4b e 4c+5 de Cardina I, data precisamente da época do máximo glaciário, em torno de 20 000 BP, a que, com base em critérios estilísticos, havia sido atribuída a grande maioria dessa arte;

* permitem afastar definitivamente as objecções baseadas em especulações de natureza geomorfológica levantadas contra a cronologia paleolítica da arte do Côa, nomeadamente as de que a escavação do vale apenas teria começado no Holocénico, ou de que o crioclastismo do máximo glaciário teria inevitavelmente destruído quaisquer superfícies gravadas há 20 000 anos ou mais; a simples existência física da jazida é suficiente para falsificar a primeira, que era aliás, à partida, completamente irracional, e a natureza dos depósitos que embalam os contextos arqueológicos demonstra que as condições climáticas vigentes no vale do Côa durante a última glaciação não deram origem a quaisquer fenómenos de crioclastismo dos xistos.

Lisboa e Vila Nova de Foz Côa, 10 de Novembro de 1995



Figuras

Fig. 1 - Os sítios arqueológicos de Salto do Boi. Implantação na Carta Militar 1:25 000 dos Serviços Cartográficos do Exército.

Fig. 2 - Os sítios arqueológicos de Salto do Boi. Implantação na Carta Cadastral 1:2500 da EDP.

Fig. 3 - Os sítios arqueológicos de Salto do Boi. Planta topográfica com indicação das áreas intervencionadas.

Fig. 4 - Cardina II. Materiais arqueológicos.

Fig. 5 - Cardina I. Foto 1: vista de Este para Oeste. Foto 2: vista de Oeste para Este.

Fig. 6 - Cardina I. Foto 3: corte K/J15-16. Foto 4: decapagem do pavimento de seixos do Gravettense final nos quadrados L15 e L16.

Fig. 7 - Cardina I. Cortes K/J15 e L/M15 (a estratigrafia está descrita no texto) e variação vertical da densidade de artefactos líticos nos quadrados K15 e L15.

Fig. 8 - Cardina I. Matérias- primas da indústria lítica.

Fig. 9 - Cardina I. Materiais arqueológicos dos níveis 4b.

Fig. 10 - Cardina I. Materiais arqueológicos dos níveis 4c+5.

Fig. 11 - Cardina I. Dimensões das raspadeiras.

Fig. 12 - Cardina I. Dimensões das armaduras microlíticas.

Fig. 13 - Distribuição cronológica dos sítios de ar livre conhecidos em Portugal antes das descobertas realizadas no vale do Côa.




Ficha Técnica


Autor: Zilhão, J.; Aubry, T.; Faustino de Carvalho, A.; Zambujo, G. e Almeida, F.

Título: O sítio arqueológico paleolítico do Salto do Boi (Cardina, Santa Comba, Vila Nova de Foz Côa).

Site: As gravuras paleolíticas do vale do Côa

Endereço: http//www.uc.pt/fozcoa/cardina.html

Data de edição: Maio 1996

Local de edição: Coimbra

Processamento html e grafismo:António J. M. da Silva

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