No primeiro piso da Associação Académica, na sala do GEFAC, as portas estão todas abertas, as pessoas entram e saem cheias de pressa e de olheiras, o telefone não pára de tocar. É dia de estreia de um novo espectáculo geral, de mostrar as danças, o teatro, os cantares e a música, o trabalho que todas as semanas o grupo foi desenvolvendo em todas as suas vertentes.
No Teatro Académico de Gil Vicente afinam-se as luzes, marca-se o chão, montam-se os instrumentos, distribuem-se os fatos pelos camarins. As pessoas chegam, cheias de pressa e de olheiras, aos últimos ensaios entre tantos já feitos, tantas horas já roubadas ao sono.
Na sala do GEFAC entra alguém que dormiu tudo e vem sem pressa. Encontra só uma rapariga perdida entre papéis e chamadas, bilhetes para entregar, coisas para ultimar. Ele terá pouco mais que a idade do GEFAC, ela tem seguramente metade. Não se conhecem, mas tratam-se por tu.
Ele não traz outra pressa senão a pressa de ver, de reconhecer nas salas os fios das histórias que ali viveu, as marcas nas paredes da pressa de outras estreias, as fotografias de outras noites em que também ele esteve ali para não dormir, e esteve nervoso, tinha coisas para ultimar e muita pressa.
Procura nos cartazes dispostos pelas paredes a marca invisível da sua colaboração e vai dizendo: aquelas jornadas fomos nós que organizámos, este livro comprei-o eu, aquele objecto trouxemo-lo de uma das viagens que fizemos, aqueloutro comprou-se quando eu estava na direcção. Nos olhos da rapariga, os olhos das raparigas com quem dançou noutros espectáculos gerais, as suas próprias olheiras de outras estreias.
Tal como ele voltou, muitas outras pessoas voltaram nessa noite. A lotação esgotou para a estreia do espectáculo geral que o GEFAC leva à cena no ano em que faz 40 anos.
Nascido para se dedicar à cultura tradicional portuguesa, o grupo tem percorrido o país todo a recolher textos, melodias, cantares, chulas e viras, tem levado os seus espectáculos às salas mais variadas e a todo o tipo de públicos, seguindo sempre entre a vontade de ser fiel ao que aprendeu de quem sabia, e a força constante da reinvenção de uma cultura que vive através das histórias de quem a interpreta. Acreditando sempre no prazer de cantar a plenos pulmões a cultura popular portuguesa, foi superando obstáculos e tomando parte naquela que é, seguramente, a maior angústia da etnografia: a de saber que o tempo passa e desvirtua, apaga memórias e cala, além das pessoas, as lendas, as coreografias e as notas de uma cultura, que ao emudecerem se perdem. Tendo, ao mesmo tempo, consciência de que a cultura popular vive das pessoas que a vivem e contam, que consome perdas só para permanentemente se transformar.
Assim também um grupo de 40 anos cresce nessa dança da reinvenção, vai construindo um património que outros transformarão, vai perdendo técnicas para ganhar outras, em cada momento fazendo e contando as suas histórias à custa de outras, que outros poderão contar. Que se dirá da estranheza que o homem sente hoje, ao voltar à sala do GEFAC, sem saber das histórias que todos os dias se contam e inscrevem pelas paredes.
Tal como ele partiu, outros partiram. Alguns partiram para fazer histórias que transcendem aquelas salas e formar novos grupos que seguem outros trilhos da cultura tradicional portuguesa. Outros, como ele, partiram simplesmente, também a rapariga partirá deixando muitas horas naquelas salas, muitas marcas invisíveis do seu contributo para esse pulsar constante, muitas histórias para outros contarem com todos os pontos que lhes aprouver acrescentar. Em todos persiste o GEFAC com os seus ensaios semanais e uma função a cumprir, continua em construção o seu património, persistem as suas salas, cheias de todas as histórias, espectáculos e sítios, de todas as ideias e lutas.
No ano em que faz 40 anos, é o GEFAC que volta a visitar-se. Este ano, o Grupo dedica as Jornadas de Cultura Popular, iniciativa que desde 1979 organiza bienalmente, ao seu 40.º aniversário. Abrirá as portas numa exposição dedicada ao grupo, trará a Coimbra os artistas que passaram pelo GEFAC e cresceram para outros rumos, procurará rever-se na forma como noutras partes do mundo outras pessoas reinventam outras culturas. Voltará a reflectir sobre a cultura popular, através de exposições e de um fórum dedicado à música tradicional.
Mas, sobretudo, quer mostrar o seu património revivificado: estreará uma nova peça de teatro popular mirandês, nunca antes produzida pelo GEFAC. Apresentar-se-á o CD que compila o essencial do espólio musical que o GEFAC vem trabalhando. Continuará em cena o novo espectáculo geral, também esse já crescido e mudado.
Voltado para si, pronto para abrir portas e para abrir o pano, o GEFAC não deixará, porém, de responder a outros estímulos e de estar presente noutras iniciativas. Depois de cantado o mar, na VIII Semana Cultural da UC, regressa para cantar o sol e mostrar como se canta sob o mesmo sol noutros cantos do mundo.
Não se fecharão as portas, as pessoas continuarão a entrar e sair com pressa e olheiras, uns voltarão para ver, outros partirão para voltar. O espectáculo estreou com toda a alegria que dá uma lotação esgotada, fizemos a vénia e saímos já abraçados para os camarins, contentes como nunca, contentes como só se está quando um espectáculo corre assim. Virá também o homem aos camarins, surpreso e comovido, contente como nós, abraçar-se à rapariga como se tivesse acabado de sair do palco.
Catarina Gouveia Alves
GEFAC
Em 1966, estudantes da Universidade de Coimbra fundam o Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra com o propósito de recolher, analisar e interpretar as manifestações culturais, individuais e colectivas, das populações rurais nas suas diversas vertentes: cantares, música instrumental, danças, teatro, usos e costumes...
Durante os 40 anos da sua existência, passaram pelo GEFAC mais de 700 sócios e muitos amigos.
As comemorações do quadragésimo aniversário do GEFAC tiveram início com uma grande festa nos dias 11 e 12 de Novembro de 2006.
Programa das comemorações
Festa de aniversário do GEFAC
11 e 12 de Novembro de 2006
Literaturas Marginais
Ciclo de conversas na Livraria Almedina
29 de Janeiro, 26 de Fevereiro, 26 de Março e 28 de Abril de 2007, 21.00
Livraria Almedina (Estádio da Cidade de Coimbra)
Concurso de ideias para o novo logótipo do GEFAC
Cantares ao Sol
7 de Março de 2007, 21.30, Café Santa Cruz, Coimbra
Espectáculo música de tradição Al-Andalus, Toques en el tiempo, com a cantora e salterista Begoña Olavide acompanhada pelo músico Ramiro Amusategui.
Na segunda parte, o GEFAC apresenta um espectáculo de Cante Alentejano.
Conversa com Khalid Fekhari (doutorado em Antropologia com a tese Le Melhun. Anthropologie de la poésie populaire chantée au Maroc).
Integrado no programa da IX Semana Cultural da Universidade de Coimbra.
Nota de imprensa
XII Jornadas de Cultura Popular
13 de Abril a 28 de Maio de 2007
O programa das XII Jornadas inclui o fórum “A Música Tradicional Portuguesa – Velhos Trilhos, Novos Rumos” e diversos espectáculos.