ANAMORFOSE

A N A M O R F O S E

Uma anamorfose é uma figura aparentemente disforme que, por reflexão num determinado sistema óptico (geralmente um espelho cilíndrico ou cónico, mas existem também piramidais), produz uma imagem regular do objecto que representa. Apesar de normalmente concebidas com base num cálculo gráfico da distorção causada pelo espelho, alguns artistas, sobretudo na China, trabalhavam empiricamente, pintando ao mesmo tempo que viam o pincel através do espelho apropriado. De entre as várias teorizações que levaram ao desenvolvimento da técnica de construção de anamorfoses, conta-se a descrição de Piero della Francesca na sua influente obra, De prospectiva pingendi.

Esta técnica foi frequentemente utilizada como diversão, por vezes para esconder retratos proibidos por razões políticas ou imagens pornográficas [Blakemore, 1986, p. 84]. Contudo, as anamorfoses foram também proliferamente incluídas em obras artísticas. Um exemplo é a pintura Os Embaixadores de Hans Holbein (v. Retrato), em que adquire uma carga simbólica ao representar a morte e a sua inexorável presença, alertando assim para a frágil natureza humana [Hagen, 1995].

A figura mostra a imagem distorcida no quadro de Holbein e a sua representação normalizada através do efeito de um espelho

Anamorfoses no Museu de Física da Universidade de Coimbra

Em exposição ao público, encontra-se no Museu de Física da Universidade de Coimbra, uma colecção de anamorfoses de vários tipos (cónicas, piramidais, cilíndricas), originais do século XVIII.

Esta é uma anamorfose cujo efeito normalizado se obtém com um espelho convexo-cilíndrico, quando colocado no local apropriado. A pintura é uma aguarela sobre cartão. O espelho e a anamorfose são provenientes do Colégio dos Nobres.

A imagem acima mostra uma anamorfose pintada em madeira, que pode ser observada através das faces especulares duma pirâmide de base quadrangular, colocada no centro do quadro. A anamorfose mostra quatro figuras de homem, colocadas nos lados do quadrado. Dois dos homens estão a fumar; o terceiro observa algo através de uma lupa; e o quarto homem segura um ramo com um pássaro. Este último está representado a corpo inteiro. Todas as figuras apresentam uma ligeira deformação, de modo a obter-se o efeito desejado quando o conjunto é observado através das superfícies espelhadas da pirâmide. A imagem do quinto homem, "O Fumador", surge quando se observa a obra perpendicularmente, com a visão alinhada com o vértice da pirâmide.

Nas escadarias do Departamento de Física encontra-se uma réplica ampliada desta anamorfose piramidal. Para conseguir visionar a imagem que resulta da união das quatro figuras é necessário descobrir o degrau correcto, que depende da altura do observador, de forma a que este alinhe a sua visão com o vértice da pirâmide de espelhos.

As anamorfoses do Museu de Física estiveram presentes na exposição "Os Mecanismos do Génio", realizada no Palais des Beaux-Arts de Charleroi em 1991. Por ocasião desse evento, Étienne Schréder publicou a primeira edição de O Segredo de Coimbra, um livro de banda desenhada cujo enredo se baseia nos mistérios das anamorfoses.



B I B L I O G R A F I A

Blakemore, C., Os Mecanismos da Mente, Editorial Presença, Lisboa (1986).

Hagen, R. M. e Hagen, R., What great paintings say: Old masters in detail, vol. I, Taschen, (1995).

Schréder, E., O Segredo de Coimbra, Edições ASA, (1997).

Enciclopédia Luso-Brasileira da Cultura, vol. 12, Editorial Verbo, Lisboa.

L I G A Ç Õ E S

Museu de Física, http://www.uc.pt/ihti/proj/fisica/index.html

Erhard Schön - Mathematics and the Liberal Arts, http://math.truman.edu/~thammond/history/Schon.html

 


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