Lenda de Beja

 

Esta lenda pretende justificar a razão porque se encontra no escudo da cidade a cabeça de um toiro. Diz-nos a lenda: - «Muito antes dos lusitanos, o local onde hoje se encontra a nobre cidade de Beja com as suas muralhas romanas, os seus prédios góticos, a mesquita árabe e o castelo do princípio da monarquia portuguesa. Essa Beja com documentos que representam 4 civilizações, era pequeno povo que vivia em cabanas cobertas de colmo, que apenas se empregava no exercício da caça. Todos esses campos ubérrimos de pão que vemos hoje, eram um compacto matagal, impossível de ser penetrado pelo homem. E uma serpente, uma serpente monstro que tudo matava, tudo triturava, era a horrível preocupação do povo que habitava no local que mais tarde, no tempo dos romanos, se havia de chamar Pax-Júlia, depois no domínio árabe se chamou Buxú e presentemente se chama Beja. Um ardil porém germinou no cérebro de um habitante dessa região: Envenenar um toiro, deitá-lo para a floresta onde existia a tal serpente. Aprovada por todos essa ideia, o toiro foi envenado e deitado para o local indicado».

 

Uma Luz Misteriosa

 

As histórias de lobisomens e de bruxas são vulgares no meio rural tradicional. Maus encontros com animais a horas tardias, doenças provocadas por mau querer (feitiçarias), filtros de amor (beberagens para atrair ou afastar paixões), visões, vozes, são elementos do vasto manancial do imaginário popular sobre forças maléficas. Há, contudo, outro tipo de histórias que são comuns a várias aldeias e vilas do Alentejo. É o caso da estranha luz que, de noite, acompanhava os viajantes (normalmente pastores, almocreves e, mais recentemente, tractoristas que de noite procedem às grandes charruadas). Era uma luz que seguia o caminhante sem, contudo, o incomodar. A luz acompanhava o viajante, seguindo a seu lado, parando quando este parava, e acompanhando a velocidade da deslocação. Nenhuma das pessoas que afirmam ter estado em contacto com o fenómeno, esboçou qualquer reacção. Para essa passividade contribuiu seguramente o facto de ser conhecida a reacção da luz quando atacada. O fim da história aqui apresentada é relativamente benéfico. Noutras descrições, que a tradição popular registra, a luz, quando hostilizada, conduz à morte do atacante.

História veridica: Algures na região de Beringel (Beja), havia um sujeito que não acreditava em coisas estranhas, daquelas que se contam nas aldeias. Naquele tempo, corria o boato de que havia no campo uma espécie de luz vermelha que andava de um lado para o outro, mas que não se deixava ver de perto. Os mais velhos afirmavam que já a tinham visto, e esse homem que não acreditava disse, na brincadeira:

- “Se eu a encontrar, desfaço-a toda aos bocados com o meu cajado”

O que vos conto a seguir é a narração do próprio.

 “Numa noite, eu ia guinado a minha charrete e lá estava à minha frente a luz vermelha parada em cima do muro. Saí, peguei no cajado e disse com ar forte e corajoso:

- Já que aí estás, então espera, que já vais ver o que é para a saúde!

E assim dirigi-me até junto dela e tentei dar-lhe com o cajado, mas não consegui porque ela se desviou. Continuei à cajadada com ela, mas falhava sempre e ia ficando mais furioso. Voltei para a charrete quando ela se voltou contra mim. Não sei o que aconteceu (parecia que estava levando uma grande tareia) e desmaiei. Os cavalos voltaram para casa e eu fui na charrete como morto. Na manhã seguinte, a minha mulher, já preocupada, foi ver se eu estava dormindo na charrete. Ela diz que eu estava com a roupa toda rasgada, todo cheio de sangue, que parecia morto. Mas estava apenas desmaiado. Depois a minha mulher tratou de mim e nunca mais quis ouvir falar dessa luz.”

 

O lobisomem

 

Segundo a tradição, colhida em vários relatos, queimar as roupas do lobisomem, que este despe quando vai fazer as suas correrias durante a noite, parece ser o meio mais comum de livrar uma pessoa do seu triste destino. Esta acção pruficadora / salvadora tem porém, os seus riscos, pois desencadeia poderosas forças maléficas, tornando o lobisomem violento. Enquanto as roupas ardem, é vulgar ouvirem-se gritos e violentas pancadas são aplicadas nas portas das casas onde se faz a fogueira. É o momento purificador para o lobisomem e o de maior tensão para o salvador. Com o fim do fogo, terminado o feitiço, o homem salvo aparece tranquilo, nú e inocente. Ficou Livre. Este mito passou-se em Beja há muitos anos. Um rapaz, que era lobisomem, saía de casa por volta da meia noite, para se ir encontrar com outros lobisomens e com bruxas numa encruzilhada. Daí saíram juntos e iam para o campo onde se despiam e dançavam em roda. Uma noite, quando ele se transformava, uma pessoa da sua família viu-o e apoderou-se das roupas para as queimar. Se o conseguisse fazer, poderia acabar coma sina do lobisomem ao seu familiar. O desvio da roupa foi feito com cuidado pois, se o lobisomem o tivesse presenciado, poderia correr atrás da pessoa e matá-la. O familiar do lobisomem levou as roupas para um casão, para aí as queimar, tendo tido o cuidado de fechar bem o portão do casão, onde fez uma fogueira. Logo que começou a queimar as roupas, começaram a ouvir-se grande sgrunhidos e fortes pancadas no portão. Embora com medo, pois as pancadas no portão eram cada vez mais fortes, o familiar do lobisomem continuou a queimar as roupas.

Com receio, ficou no casão até de manhã. Ao amanhecer, abriu o portão. Lá estava o

 rapaz estendido, nú, como uma pessoa inocente. O fadário de lobisomem estava quebrado.

 

A Lenda da Costureirinha

 

Entre as crenças que algum dia existiram no Baixo Alentejo, a da costureirinha era uma das mais conhecidas. Não é difícil, ainda hoje, encontrar pessoas de alguma idade, e não tanta como isso... que ouviram a costureirinha. O que se ouvia, então? Segundo diversos testemunhos, ouvia-se distintamente o som de uma máquina de costura, das antigas, de pedal, assim como o cortar de uma linha e até mesmo, segundo alguns relatos, o som de uma tesoura a ser pousada. Um trabalho de costura, portanto. O som trepidante da máquina podia provir de qualquer parte da casa: cozinha, quarto de dormir, a casa de fora, e até mesmo de alpendres. De tal modo era familiar a sua presença nos lares alentejanos que não infundia medo. Era a costureirinha.

Mas quem era ela? Afirma a tradição que se tratava de uma costureira que, em vida,

costumava trabalhar ao domingo, não respeitando, portanto, o dia sagrado. É esta a versão mais conhecida no Alentejo. Outra versão afirma que a costureirinha não cumprira uma promessa feita a S. Francisco. Esta última versão aparece referenciada num exemplar do Diário de Notícias do ano 1914 em notícia oriunda de aldeias do Ribatejo. Pelo não cumprimento dos seus deveres religiosos, a costureirinha for a condenada, após a morte, a errar pelo mundo dos vivos durante algum tempo, para se redimir. No fundo, a costureirinha é uma alma penada que expia os seus pecados, de acordo com a crença que os pecados do mundo, o desrespeito pelas coisas sagradas e, nomeadamente, o não cumprimento de promessas feitas a Deus ou aos Santos podiam levar à errância, depois da morte. Já não se houve, agora, a costureirinha? Terminou já o seu fado, expiou o castigo e descansa em paz? A urbanização moderna, a luz eléctrica, os serões da TV, afastaram-na do nosso convívio. Desapareceu, naturalmente, com a transformação de uma sociedade rural arcaica, que tinha os seus medo, os seus mitos, as suas crenças e o seu modo de ser e de estar na vida.