O Milagre das rosas (Rainha Santa Isabel)

 

A mulher de D. Dinis, a rainha Santa Isabel, tornou-se célebre pela sua imensa bondade. Ocupava o tempo a fazer bem a quantos a rodeavam, visitando e tratando doentes, distribuindo esmolas pelos pobres.

Ora, conta a lenda que o rei, já irritado por ela andar sempre misturada com mendigos, a proibiu de dar mais esmolas. Mas, certo dia, vendo-a sair furtivamente do palácio, foi atrás dela e perguntou o que levava escondido por baixo do manto.

Era pão. Mas ela, aflita por ter desobedecido ao rei, exclamou:

- São rosas, Senhor!

- Rosas, em Janeiro?- duvidou ele.

De olhos baixos, a rainha Santa Isabel abriu o regaço - e o pão tinha-se transformado em rosas, tão lindas como jamais se viu.

 

Romance da Rainha Santa Isabel

 


Peço graça com fervor

Do divino Manuel,

Para que haja de rezar

Da Rainha Santa Isabel:

Em Saragoça nascida,

Segundo a oração diz,

Foi rainha mui querida,

Mulher d’el-rei Dom Dinis;

Aos pobres socorria

Com entranhas do coração;

Pois de ninguém se fiava,

Sua esmola apresentava

Com a sua própria mão.

Vindo a “santa” um dia,

Com seu regaço ocupado,

Pelo tesouro que havia,

Com el-rei eis encontrada!

«Que levais aí, Senhora?

Levo cravos e mais rosas,

Para mais nossa alegria.

Bem sei que levais dinheiro,

Segundo sois costumada;

Antes que muito me cheira,

Rosas em Janeiro,

É de maravilha achá-las!»

A Senhora

O seu regaço lhe amostrou,

Cravos e rosas achou,

Um cheiro que admirava.

«Ó rainha excelente!

Meu tesouro podeis dar,

Minha coroa empenhar

Porque tudo estou contente.»

Estando a “santa” um dia

Na sua sala sentada,

Chegou-lhe um pobre chagado,

Se o podia arremediar;

Ela lhe disse

Com palavras de amor:

«Mandarei chamar o doutor,

Que vos haja de curar.

Senhora, se queredes

Ter o vosso coração inflamado,

Deitai-me na vossa cama,

Que eu serei remediado.»

A Senhora

De pés e mãos o lavou,

Na sua cama o deitou.

Um cavaleiro, que no paço

Havia encontrado,

A el-rei tudo é contado.

Vindo el-rei muito agastado,

Com tenção de a matar,

Contra a clemência que usava;

Na cama onde repoisava

Deitar um pobre chagado.

A Senhora correu o cortinado,

Achou Jesus crucificado!

Muito chorou o rei com ele

Dos milagres, que ela tinha obrado.

Em Estremoz acabou

Em Coimbra está sepultada,

No convento que formou

De Santa Clara sagrada.


 

n Romanceiro e Cancioneiro Popular Português

 

 

A história de Inês de Castro

 

Inês de Castro veio para Portugal como dama de honor de D. Constança, mulher do Infante D. Pedro, filho de D. Afonso IV A sua extraordinária beleza perturbou irremediavelmente o nosso futuro rei, que por ela se apaixonou, causando grande escândalo no País. Via-se nessa ligação não só um perigo para a independência nacional, pois Inês de Castro era descendente de importantes famílias nobres castelhanas, como também a possibilidade de os seus filhos poderem vir a governar Portugal, em vez do herdeiro legitimo, D. Fernando.

Pressionado pelos seus conselheiros, o rei D. Afonso IV tomou, então, a decisão de acabar com a vida da bela Inês. Ao saber da violenta morte da sua amada, D. Pedro reuniu os seus homens de armas e incansavelmente procurou os assassinos por todo o País. Estes foram supliciados com requintes de crueldade, como conta Fernão Lopes:

«... a um mandou tirar o coração pelos peitos e a outro pelas espáduas;…enfim mandou-os queimar ... ».

Ainda segundo os cronistas, após ter subido ao trono, D. Pedro I teria mandado desenterrar o cadáver de Inês de Castro e tê-la-ia coroado rainha, obrigando depois os seus súbditos e conselheiros a beijar-lhe a mão.

Os túmulos de Inês e Pedro encontram-se frente a frente, no mosteiro de Alcobaça para que, no dia do Juízo Final, logo se reencontrem.