O Calhau Do Encanto

 

A Serra do Alvão, com os seus ciclópicos penedos e ravinas alcantiladas, vestida de branco no Inverno e de verde no Verão, com ar severo e misterioso, era ambiente propício para excitar a imaginação dos que por lá andavam a ganhar o pão ou por lá passavam, a caminho de Vila Real. Não admira, pois, que, à sua volta, as lendas surgissem, com toda a naturalidade.

Lá bem no alto da serra, junto da povoação de Arnal, ergue-se um descomunal fragão,

chamado Penedo Negro e também A Capela, por ter um recorte em forma de portão de igreja, forrado de musgo verde e macio. Os pastores e os viandantes olhavam-no com curiosidade e receio e passavam lá com o credo na boca, pois havia quem dissesse que, à meia noite, lá dentro, se ouvia um cantar muito triste e arrasta–do de mulher que, no entanto, ninguém conseguia ver.

Mas, certa madrugada, ainda com estrelas no céu, passou por lá um aldeão, recoveiro de ofício, que ia à Vila fazer compras, como de costume. E justamente quando ladeava o esfíngico penedo, ouviu um ruído surdo semelhante ao ranger de gonzos de pesado portão. Com os cabelos eriçados, olhou para o sítio donde viera o ruído estranho e deu com os olhos numa Senhora muito linda, de sorriso triste mas encantador, como nunca tinha visto, que lhe disse com voz meiga: - Não tenhas medo e presta bem atenção ao que vou dizer-te. Eu sou uma moura encantada e tenho tanto oiro que não há balanças que o possam pesar. Pois todo este oiro será teu e eu própria irei para tua casa e casarei contigo, se conseguires desencantar-me. Para que isso aconteça, traz-me da Vila uma bola de quatro cantos. Mas toma bem sentido: não a “encertes” por nada deste mundo; se não, dobras-me o encanto.

Dito isto, desapareceu no interior do Penedo Negro e a porta voltou a fechar-se como se abriu. O bom recoveiro, muito surpreendido com aquela inesperada aparição, retomou a jornada, serra abaixo, sempre a repetir as palavras da linda Senhora que não lhe saía do pensamento. Mal entrou nas portas da Bila, tratou de mercar a bola de quatro cantos, não fosse o pão acabar cedo, pois era dia de feira. Só depois iniciou as outras voltas. Apreçou, aqui e ali, a mercadoria e fez as compras para si e para os vizinhos. Enfiou o alforje no grosso varapau de marmeleiro apoiado sobre o ombro e pôs-se a caminho de casa, já com o sol a baixar para trás da serra. E, como não tinha comido nada, pois comer na estalagem é um roubo, e a jornada era longa e penosa, sentiu uma vontade irresistível de comer. Mas

comer o quê, se só levava a bola de quatro cantos e a Senhora lhe recomendara tanto que a levasse bem inteirinha? E perdia toda aquela riqueza que a Senhora prometera dar-lhe?

Pôs de parte aquela ideia maluca e continuou a caminhar.

Mas um pouco a cima de Agarez, avistou uma fonte gorgolejante que o convidava a matar a sede e a descansar. E, como à fome e à sede ninguém resiste, resolveu parar, pensando lá com os seus botões: - É certo que prometi à Senhora levar a bola inteira e eu não sou homem de faltar à palavra. Mas, como diz o outro, a fome não tem lei. Vou comer só um canto e levo-lhe os outros três. A Senhora pareceu-me tão boazinha... há-de compreender e perdoar. E, se bem o pensou, melhor o fez. Sentou-se à beira da fonte, pós o alforje no chão, comeu o canto da bola e bebeu uma tarraçada de água fresca. Depois, já reconfortado, retomou a subida da encosta. Ao chegar junto do Penedo Negro, bateu com a ponta do varapau. A porta abriu-se rapidamente e a Senhora reapareceu, mas agora com o semblante carregado, e disse-lhe com ar severo:

Em cavalo de três pernas,

Contigo não posso ir.

Fecha-te, porta de pedra,

Para nunca mais te abrir.

E desapareceu, enquanto o Diabo esfrega um olho, atrás da porta de pedra, para sempre.

O pobre do homem, com os três cantos da bola na mão e o alforje das compras ao ombro, partiu, desalentado, para a sua aldeia, onde passou o resto da existência, a lamentar a tentação de comer da bola de quatro cantos, e a calcorrear os caminhos da serra para ganhar a vida.

E a Senhora linda lá continua encantada, com os seus tesouros fabulosos, no Penedo Negro, a que os povos da serra, por essa razão, também chamam Calhau do Encanto.

Retirada de Literatura Popular De Trás-Os-Montes E Alto Douro, por Joaquim Alves Ferreira (5 volumes)

 

 

Lenda de Balsamão

 

No cabeço do Caramouro, lugar aprazível porque selvagem, situa-se o célebre Santuário de Nossa Senhora de Balsamão  (balsamo-na-mão).

Segundo a lenda... os Mouros, senhores das redondezas e que possuíam aí o seu quartel general, oprimiam ferozmente os cristãos com diversos impostos entre os quais, o imposto das donzelas.

Certo dia, depois de se realizar um casamento no Castro (depois de Castro Vicente) a noiva foi raptada para o tal castelo mourisco. Desencadeou-se um combate, mas os cristãos pouco avezados à guerra iam caindo um a um, mortos e feridos. Em casa as mães, esposas e irmãs tinham ficado a implorar a Nossa Senhora protecção para os seus seres queridos. E, eis que de repente se vê no campo de batalha uma Senhora vestida de branco, a curar as feridas, trazendo um ramo de flores e um bálsamo na mão. Os Cristãos recuperaram ânimo e a luta torna-se mais renhida e equilibrada.

Ao fim da tarde, ouve-se no cimo do monte o grito de “Vitória”. Tinham sido os cavaleiros de Alfândega (depois Alfândega da fé) que, tendo ocorrido pela vertente oposta, em socorro dos seus irmãos vizinhos irromperam no castelo e decapitaram o inimigo rei, libertando a noiva.

Também da ocupação árabe existem vários vestígios (escombros de fortificações e peças de cerâmica), perdurando e lendas de sabor Mourisco.

Entre estados, a conhecida lenda de Balsamão, com os Cavaleiros de esporas doiradas da Vila de Alfândega da Fé e a hoste de Castro Vicente a descerem sobre o vale de Chacim, para ali travarem luta com o Mouro potentado que lhes exigia o tributo Bárbaro e humilhante.

Aconteceu então no maior conflito da batalha, se viu a rainha das Virgens Maria Santíssima cercada de luzes e resplendores com cuja vista animados os cristãos, venceram de todo aos Mouros, sem lhes valer o grande esforço com que pelejavam e os deitaram dali para fora. A Senhora trazia em suas mãos um vaso de bálsamo que curava os cristãos feridos pelo que lhe deram o titulo de Balsamão: era o mesmo que o Bálsamo que a Senhora trazia em sua mão.”