Vénus é o objecto mais brilhante do firmamento a seguir à Lua e ao Sol, pelo que despertou a atenção do Homem desde os tempos mais remotos. Tal como no caso de Mercúrio, até ao auge da astronomia grega pensava-se que a estrela da manhã e a estrela da tarde eram dois corpos diferentes: Eosphorus e Hesperus.
Galileu foi o primeiro a observar que Vénus apresenta fases, como a Lua (e, aliás, como Mercúrio). Na verdade, todos os planetas apresentam a fase gibosa, mas só Mercúrio e Vénus podem apresentar as fases falcadas. A observação, por Galileu, das fases de Vénus foi um dos principais suportes do heliocentrismo.
A razão por que Vénus tem um albedo tão alto (é tão brilhante) é que este planeta se encontra coberto por uma espessa e densa camada quase uniforme de nuvens, compostas predominantemente por ácido sulfúrico e dióxido de carbono, que reflectem a luz solar (Figura 1).
Figura 1 – O crescente de Vénus visto pelo
telescópio espacial Hubble. Notem-se os padrões de circulação atmosférica
definidos pelas nuvens. NASA.
A pressão atmosférica à superfície de Vénus é da ordem das 90 atmosferas, idêntica à pressão a 1 km de profundidade nos oceanos terrestres.
A atmosfera de Vénus produz um intensíssimo efeito de estufa, o que explica que a temperatura à superfície do planeta varie pouco à volta dos 470ºC - mais quente que Mercúrio, apesar de estar quase ao dobro da distância do Sol. A exploração de Vénus vai seguramente ajudar-nos a compreender o efeito de estufa na Terra.
A espessa camada de nuvens que cobre todo o planeta levou a que só em 1962 se conhecessem as características da sua rotação, por observação de ecos radar a partir da Terra. Descobriu-se, com surpresa, que Vénus roda no sentido retrógrado (o Sol nasce a ocidente) e que o dia venusiano é mais extenso que o ano (243 contra 224 dias terrestres).
Apesar destas condições quase “infernais”, Vénus é o planeta mais semelhante à Terra: tem uma atmosfera, tem cerca de 95% do diâmetro da Terra e 80% da sua massa - o que indica uma composição semelhante, que foi confirmada pelas sondas soviéticas Venera. Além disso, ambos os planetas têm poucas crateras de grande dimensão, um sinal de superfícies relativamente jovens. A técnica de contagem de crateras na superfície venusiana, e a comparação desses dados com contagens de crateras e datações radiométricas da Lua, sugerem que os terrenos mais antigos de Vénus não terão mais de 800 MA (milhões de anos). Isto só é explicável por um extenso vulcanismo e, de facto, as imagens da sonda Magellan (Magalhães) mostraram inúmeros vulcões, de tipos distintos. Encontram-se grandes vulcões-escudo, como o Monte Sif (Figura 2), semelhantes aos do Havai, na Terra ou o monte Olimpo e os montes Tharsis, de Marte, associados a vulcanismo basáltico. Muito interessantemente, também se encontram vulcões-panqueca, por vezes em alinhamentos, (Figura 3) que aparentam ter tido expulsão de lavas viscosas, o que indica serem de composição intermédia a ácida. Este tipo de vulcanismo muito diferenciado associa-se na Terra a limites convergentes de placas tectónicas. Pode-se inferir, portanto, que Vénus já deve ter tido uma tectónica activa. Dados recentes indicam que pode haver ainda vulcanismo activo em Vénus.
Figura 2 – O monte Sif, em imagem de cores
falsas, obtida pela sonda Magellan. NASA.
Figura 3 – Vulcões-panqueca. NASA.
A estrutura interna de Vénus também deve ser análoga à da Terra: uma crosta, por vezes espessa (da ordem dos 100 km), um manto silicatado parcialmente fluído e um núcleo metálico sólido, com cerca de 6000 km de diâmetro (Figura 4).
Figura 4 – Estrutura interna de Vénus. C.
Hamilton.
Esta estrutura é a necessária para haver um campo magnético dipolar mas a verdade é que Vénus não o possui; a baixa velocidade de rotação tem sido apontada como a causa desta ausência de magnetismo.
É claro que só a sismologia poderá esclarecer definitivamente a estrutura interna de Vénus, como a de todos os planetas, pelo que se espera que próximas missões possam fazer experiências nesta área.
Figura 5 – Fotomosaico radar obtido pela sonda
Magellan. Cores calibradas a partir das imagens Venera 13 (Figura 7). A zona
central mais clara é Aphrodite Terra, a mais alta e extensa região montanhosa de
Vénus. NASA.
Figura 6 – Altimetria. NASA.
Figura 7 – Panorâmica do solo de Vénus, a leste
de Phoebe Regio (7.5° S, 303° E), obtido pela câmara a bordo da sonda Venera 13.
NASA.
Vénus |
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Dados Astronómicos |
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Orbita |
Sol |
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Distância média ao Sol (UA) |
0.72333 |
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Excentricidade orbital |
0.0067 |
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Período sideral (dias) |
224.701 |
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Inclinação orbital |
3.39º |
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Velocidade orbital média (km/s) |
35.02 |
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Período de rotação (dias) |
-243.686 |
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Inclinação do eixo de rotação |
177.36º |
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Magnitude visual máxima |
-4.4 |
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Número de Satélites |
0 |
Dados Físicos |
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Raio equatorial (km) |
6051.8 |
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Massa (kg) |
4.8685 X 1024 |
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Volume (km3) |
92.843 X 1010 |
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Densidade média (g/cm3) |
5.243 |
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Gravidade à superfície no equador (m/s2) |
8.87 |
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Velocidade de escape equatorial (km/s) |
10.36 |
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Temperatura média à superfície (K) |
737 |
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Albedo normal |
0.65 |
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Momento magnético dipolar (Gauss R3) |
0 |
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Pressão atmosférica à superfície (mbar) |
92 000 |
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Composição da atmosfera (vol%) |
CO2(96.5), N2(3.5) |
Dados Históricos |
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Descobridor |
- |
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Data |
- |
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Missões espaciais |
Venera 1-16; Mariner 10; Pioneer 12,13; Vega 1,2; Galileo; Magellan |