Os Asteróides

Em 1778 o matemático e astrónomo alemão Johann Bode encontrou uma relação empírica que lhe permitia determinar aproximadamente as distâncias médias dos planetas ao Sol.

Começamos com uma simples sequência de números: 0, 3, 6, 12, 24, 48, 96, 192. Adicionamos 4 a cada número: 4, 7, 10, 16, 28, 52, 100, 196. Dividimos os resultados por 10: 0.4, 0.7, 1.0, 1.6, 2.8, 5.2, 10.0, 19.6.

Esta última sequência é muito próxima das distâncias reais dos planetas ao Sol, incluíndo Urano, que só veio a ser descoberto por Herschell em 1781 (Tabela 10.1).

Tabela 10.1 – Lei de Bode

Planeta

Distância prevista pela lei de Bode (UA)

Distância real (UA)

Mercúrio

0.4

0.39

Vénus

0.7

0.72

Terra

1.0

1.00

Marte

1.6

1.52

?

2.8

?

Júpiter

5.2

5.20

Saturno

10.0

9.54

Urano

19.6

19.19

Havia, contudo, um problema bem evidente com a lei de Bode: onde estava o planeta a 2.8 UA do Sol?

Só em 1801 foi descoberto um corpo à distância correcta, o asteróide baptizado por Piazzi com o nome da deusa romana das colheitas: Ceres (Figura 10.4).

De então até hoje, já foram descobertos e catalogados algumas centenas de milhar de asteróides, e todos o anos a lista é acrescentada com mais alguns milhares. Como é evidente, o catálogo é muito completo para os corpos grandes (Tabela 10.2) e muito incompleto para os pequenos – pensa-se que possa haver cerca de um milhão de asteróides com cerca de 1 km de diâmetro.

As órbitas da maioria dos asteróides estão à volta da distância prevista pela lei de Bode, numa zona do espaço chamada Cintura Principal de Asteróides, entre 2 e 4 UA do Sol. Nesta cintura, a sua distribuição não é homogénea: os asteróides dispõem-se por famílias de proximidade, havendo zonas sem asteróides, as falhas de Kirkwood, provocadas pelo campo gravitacional de Júpiter.

Há ainda famílias fora da cintura principal: os troianos, na órbita de Júpiter, são várias centenas em dois grupos, 60º à frente e 60º atrás do planeta (nos chamados pontos de Lagrange). Também se identificaram troianos nos pontos de Lagrange das órbitas de Vénus, da Terra e de Marte.

Os NEA (Near-Earth Asteroids: asteróides próximos da Terra) têm órbitas cujo periélio é da ordem de 1 UA e são os objectos que constituem um maior perigo para o nosso planeta: a maioria dos meteoritos (ver capítulo seguinte) provêm deste grupo. Para além do interesse científico, o estudo dos NEA é uma questão de segurança planetária pelo que estes objectos são permanentemente catalogados, seguidos e estudados por telescópios. Em 1996 a NASA lançou a missão NEAR com o fim de estudar de perto estes corpos (Figura 1), em particular o asteróide 433 Eros.

Figura 1 – A sonda NEAR junto do asteróide 433 Eros.

Conhecem-se várias composições possíveis para os asteróides, com base nas suas observações espectroscópicas e também no estudo dos meteoritos, sendo as seguintes três as mais representadas:

As percentagens indicadas são necessariamente provisórias. É provável que os asteróides tipo C estejam subavaliados dado que, pelos seus albedos baixos, são mais difíceis de encontrar.

Tabela 10.2 – Asteróides maiores que 200 km.

Nome

Magni-tude

Diâmetro (km)

Ano

Local

Autor

1 Ceres

3.34

848.40

1801

Palermo

Piazzi

2 Pallas

4.13

498.07

1802

Bremen

Olbers

4 Vesta

3.20

468.30

1807

Bremen

Olbers

10 Hygeia

5.43

407.12

1849

Nápoles

De Gasparis

511 Davida

6.22

326.07

1903

Heidelberg

Dugan

704 Interamnia

5.94

316.62

1910

Teramo

Cerulli

52 Europa

6.31

302.51

1858

Paris

Goldschmidt

87 Slvia

6.94

260.94

1866

Madrasta

Pogson

31 Euphrosyne

6.74

255.90

1854

Washington

Ferguson

15 Eunomia

5.28

255.34

1851

Nápoles

De Gasparis

16 Psyche

5.90

253.16

1852

Nápoles

De Gasparis

65 Cybele

6.62

237.26

1861

Marseille

Tempel

3 Juno

5.33

233.92

1804

Lilienthal

Harding

324 Bamberga

6.82

229.43

1892

Viena

Palisa

451 Patientia

6.65

224.96

1899

Nice

Charlois

107 Camilla

7.08

222.62

1868

Madrasta

Pogson

532 Herculina

5.81

222.19

1904

Heidelberg

Wolf

48 Doris

6.90

221.81

1857

Paris

Goldschmidt

45 Eugenia

7.46

214.63

1857

Paris

Goldschmidt

29 Amphitrite

5.85

212.22

1854

Londres

Marth

121 Hermione

7.31

208.99

1872

Ann Arbor

Watson

423 Diotima

7.24

208.77

1896

Nice

Charlois

13 Egeria

6.74

207.64

1850

Nápoles

De Gasparis

94 Aurora

7.57

204.89

1867

Ann Arbor

Watson

88 Thisbe

7.04

200.57

1866

Clinton

Peters

Já agora, por curiosidade, o asteróide número 3933, descoberto em 1986, em La Silla, por West, tem o nome do nosso País: Portugal.

Figura 2 – Projecção cilíndrica da superfície de 1 Ceres. NASA.

Figura 3 – O asteróide 243 Ida e a sua própria lua: Dáctilo. NASA.

Figura 4 – Sequência de imagens da rotação de 4 Vesta. Telescópio Espacial Hubble.