Destaques

 
Resumos

História e Verdade(s), vol. 23

 

FERNANDO GIL
Modos da verdade (entrevista conduzida por Rui Cunha Martins).

Partiu-se de um quadro de inquérito previamente demarcado: uma coordenada temática (a verdade); três linhas de pesquisa (modos de fundamentação; modos de inteligibilidade; modos de temporalidade); e diversos conceitos passíveis de inscrição em qualquer uma daquelas linhas (sobretudo estes: evidência, convicção, crença, prova, duração). Obteve-se uma entrevista desdobrável em quatro momentos, assim designados: Constranger a evidência (I); A regulação da prova (II); A convicção do verdadeiro (III); Pressupor a continuidade (IV).

JOSÉ A. BRAGANÇA DE MIRANDA
Da experiência dos espectros à espectralização da experiência.

Procura-se inquirir as razões que presidem ao regresso da categoria de "espectral" ou de "fantasmagoria". Mais do que dizer-se que a época é espectral ou que a experiência se espectralizou, ou que o racionalismo teve afinal um efeito inesperado e enigmático na sua vontade de "controlar" o espectral é melhor inquirir os modos como essa figura tem sido essencial para apreender a totalidade da experiência e as estratégias que ela implica. Com uma advertência: se o "espectral" retorna como problema é porque algo foi profundamente alterado na forma como se gere actualmente a potência libertada pela técnica; é porque houve uma perturbação generalizada da maneira como se establizaram no século passado as fracturações metafísicas encarregadas da "abertura" da existência, que já não são as nossas.

RUTH M. CHITTÓ GAUER
Conhecimento e aceleração (mito, verdade e tempo).

O artigo propõe um exercício reflexivo acerca das questões vinculadas ao mito, a verdade e ao tempo. A sólida vocação do paradigma moderno estabeleceu a associação entre "realidade" e verdade. Propomos um desvio desse paradigma com o abandono da vontade de verdade. Com a fuga, dessa relação tonar-se possível abrir espaço para deslocamentos de perspectiva, colocando em visibilidade a atual mutação ao nível do lugar da experiência, que ocorre fora do tempo extensivo da história. A aceleração desestrutura as condições de verdade e cria uma alucinação de perspectiva que destrói toda a extensão da cronologia.

JEFFREY ANDREW BARASH
La connaissance de soi: par-delà la phénoménologie.

A fenomenologia, tal como Husserl a concebeu, tenta basear a coerência da identidade pessoal na pura coesão estrutural da experiência de tempo individual. Este artigo apela à superação da perspectiva fenomenológica, na crença de que a pura consciência temporal individual nunca pode ser responsável pela constituição significativa do mundo, uma vez que a consciência individual de tempo está por toda a parte entrelaçada com uma consciência temporal instituída socialmente, que não pode derivar das estruturas puras da experiência temporal individual. Por este motivo, a compreensão por parte de Husserl da consciência temporal interna necessita ser reconsiderada à luz de uma dimensão histórica da consciência temporal colectiva socialmente instituída.

YVES CHARLES ZARKA
A constituição da consciência histórica.

Estuda-se o processo de formação da consciência histórica no contexto da modernidade. Sustenta-se que essa constituição activou, em simultâneo, dois níveis distintos mas correlativos, o da historiografia e o da historicidade. Procura-se esclarecer o papel desempenhado nesse processo por alguns pensadores, de Bodin a Vico, pensadores cuja reflexão se situou precisamente nesse ponto nuclear de confluência entre a historiografia e a historicidade, entre a história como saber e a história como realidade.

FERNANDO CATROGA
Caminhos do fim da História.

Procurou-se fazer uma sintética história das concepções sobre o fim da história no pensamento ocidental, tendo em vista mostrar que, com a modernidade, se assistiu não só à entificação da história, mas também ao seu equacionamento em termos de totalidade imanente, irreversibilidade e racionalidade dialéctica, premissas invocadas para a explicar com um processo que tinha ínsita uma finalidade que apontava, necessariamente, para a sua consumação.

FRANCISCO AZEVEDO MENDES
Passividade radical, verdade e mediações no conhecimento histórico actual.

O artigo pretende abrir a explicação sobre os processos e sentimentos subjacentes à crise actual da história. Defende-se que a investigação da sua natureza desencadeia uma inesperada área de interesses entre o conhecimento histórico e a fenomenologia da passividade.

ANTÓNIO J. DA SILVA PEREIRA
Inteligibilidade e legitimação histórica.

A tarefa conceptual de legitimação da história, a definição do seu suporte ético e deontológico, o empenhamento profundo na reposição crítica dos fenómenos humanos, conduzem-nos ao reconhecimento de quanto a história é um superior instrumento teórico na caracterização, sem compromissos em cedências, do existencial.


GÉRARD CHOUQUER e MARIA DA CONCEIÇÃO LOPES

La "délibération" des faits et la "vérité" en histoire des formes du paysage.

Qualquer trabalho sério sobre o espaço das sociedades do passado enfrenta modalidades de análise ancoradas numa pluralidade de linhas de fracturas das quais a habitual distinção entre cultura e natureza é apenas o exemplo mais visível. Por razões óbvias avessas ao reconhecimento de que as sociedades produzem sobretudo híbridos e, em conformidade, resistentes a conferir aos notáveis objectos mistos que são as formas paisagísticas o estatuto de factos e, por conseguinte, situá-los no lugar que lhe pertence na abordagem das paisagens.
A história e conhecimento das formas do espaço, a libertação do espaço do domínio do virtual e matematizado exige, pois, que se tomem em conta ordens de inteligibilidade cuja aceitação requer uma deliberação entre investigadores.

JOÃO ARRISCADO NUNES
Risco, incerteza e regimes de verdade: a patologia tumoral e a biologia do cancro.

A definição de regimes de verdade em diferentes domínios do conhecimento é inseparável dos contextos em que um dado conhecimento, a sua fiabilidade e a sua robustez, são postos à prova e os seus efeitos e consequências, efectivos ou esperados, são avaliados em condições de incerteza. A patologia tumoral e a investigação de tradução/translação em biologia do cancro são examinados enquanto terreno empírico especialmente fecundo para a interrogação "epistópica" da constituição e funcionamento de um regime de verdade.

CARLOTA BOTO
História, verdade e virtude em Rousseau: pacto político e ética pedagógica.

O presente ensaio tem por objectivo reflectir sobre o pensamento político e pedagógico de Jean-Jacques Rousseau para procurar, na sua construção discursiva, possíveis relações entre a ideia de virtude, a ideia de verdade e a categoria da temporalidade. Procurando efectuar a leitura do Emílio em consonância com a análise da obra política e social do autor - especificamente o Discurso sobre as ciências e as artes , o Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens e o Contrato Social - procurar-se-á aferir se o tratado pedagógico comprova a tese implícita ao pensamento rousseauniano, segundo a qual a trajectória de vida em cada sujeito individualmente reproduziria as etapas da caminhada da espécie, do estado de natureza para o estado civil. Além disso, a hipótese que aqui defendemos é a de que, assim como a acepção primeira de estado de natureza não pretende ancorar-se na verdade factual e histórica (embora tenha por intenção atingir uma dada verdade filosófica), o Emílio também não pretendia ser tomado como criança de verdade; não havendo, assim, necessária correspondência entre a exposição de suas diversas fases de vida e as especificidades da criança histórica concreta. O Emílio seria, antes, uma alegoria para meditar sobre educação; assim como a ideia de pacto remete para uma construção operatória eficaz para reflexão sobre a sociedade civil. Em ambos os casos, Rousseau cria conceitualmente uma operação analítica, hipotético-dedutiva, a partir da qual desenvolve sua peculiar concepção de homem, de virtude, de sociedade e de educação. Tal operação metodológica necessariamente dialoga com uma maneira bastante peculiar de pensar a ideia de história e a ideia de verdade.

LUÍS QUINTAIS
O teatro de destruição e da verdade e a psiquiatria portuguesa na transição do século XIX.

Apoiando-se nas ideias de "finitude" como espectáculo (Foucault) e "naufrágio" (Blumenberg), o autor propõe mostrar a configuração dramatúrgica da psiquiatria clínica e forense na transição do século XIX português. Isto é feito por recurso aos escritos do psiquiatra Júlio de Matos.
Concluir-se-á que esta configuração dramatúrgica se fundava numa tensão entre os propósitos distanciadores ou estéticos da clínica e as implicações empáticas ou éticas do seu exercício. Implicações que se afiguram claras dada a tradução forense das práticas da psiquiatria então emergente no contexto português.

ANTÓNIO GUERREIRO
Aby Warburg e a História como memória.

Há hoje um crescente interesse por Aby Warburg (1866-1929) que ultrapassa o campo estrito a que o seu nome aparece habitualmente ligado: o da historiografia da arte. Fazendo uma apresentação dos seus conceitos fundamentais, com os quais concebeu uma "ciência da cultura" unitária, este artigo pretende sobretudo mostrar como é possível deduzir das suas investigações uma teoria da história relacionada com uma complexa teoria da memória social.

LUÍS REIS TORGAL
Duas "verdades". Salazar e Afonso Costa.

A "Verdade" é um conceito ideológico fundamental do Salazarismo, assim como o é da "oposição". Por isso, o primeiro jornal clandestino do que foi chamado "reviralho" foi denominado A Verdade (1933-1934), assim como também se apelidou de A Verdade o periódico que, depois de 1934, Costa Brochado dirigiu, por incumbência dos órgãos de Propaganda do Estado Novo. Salazar procurou, desde o início do seu governo, erguer as "verdades" e as "certezas" do regime que constituiu e Afonso Costa procurou mostrar, numa entrevista concedida em Paris a um jornalista brasileiro, que essas verdades não passavam de falsidades. Desta forma, travou-se um diálogo entre "situação" e "oposição". Salazar foi, como era seu timbre, sóbrio nas palavras, mas tal não sucedeu com os salazaristas que procuraram também evidenciar a "falsidade" das "verdades" de Afonso Costa.
Este artigo é, pois, um ensaio de análise dos discursos acerca da "Verdade" ou das "verdades" dos dois sectores oponentes, simbolizados nessas duas figuras fundamentais do Estado Novo, então vencedor no plano político-institucional, e da Primeira República, que baqueou em 1926, ou seja, Salazar e Afonso Costa. Nesta situação, e tendo em vista que o Estado Novo era um regime assumidamente autoritário e com um "partido único", ou seja, como uma "verdade única"; é evidente que foi a "Verdade de Salazar" que se impôs no espaço português. E fê-lo durante cerca de 40 anos.

 

VARIA

ALBERTO VILAÇA
O jornal republicano clandestino "A Verdade".

O jornal republicano e de inspiração reviralhista A Verdade publicou-se clandestinamente, de Julho de 1933 a Fevereiro de 1934, com onze números, Fogosamente anti-salazarista, com apelos ao Exército e à Armada, anti-clerical também, e além de outros aspectos, inseria nomeadamente notícias e artigos de crítica à política económico-financeira e colonial de Salazar, denunciando a violência e a repressão praticadas pelo seu governo, com destaque para as prisões e torturas.
Tirava crescente número de milhares de exemplares e era largamente distribuído por diferentes pontos do país.
Chegou a publicar uma edição internacional do n.º 6, dedicada em especial ao "martiriológio" do povo português, incluindo mesmo várias gravuras ilustrando as torturas praticadas pela polícia política.
Feito até ao n.º 5 numa tipografia de Coimbra, tendo como principais activistas Armando Cortesão (antigo e primeiro director da Agência Geral das Colónias) e Cândido Nazaré (director das oficinas da Imprensa da Universidade, que meses depois veio a ser extinta), aquela tipografia foi então assaltada pela polícia "salazaresca" e vieram a efectuar-se numerosas prisões. Cortesão conseguiu fugir para Madrid, onde o jornal passou a ser feito e daí enviado para Portugal.
A fuga foi aventurosa, incluindo a travessia por um açude, num afluente do rio Douro, a poucos quilómetros de Barca de Alva, e nessa fase final teve em particular o auxílio de José da Silva Elvas, um maçon e ex-sacerdote.
Em grande parte os presos foram deportados para a Fortaleza de São João Baptista, nos Açores, juntamente com muitos outros por diferentes motivos políticos, num total de 143. O embarque foi feito a partir de Peniche, em sucessivas levas durante as quais gritavam "Viva a República!".
Vários dos implicados no caso de A Verdade sofreram diversas condenações e alguns cumpriram dilatados anos de prisão.
A quase totalidade do material da tipografia de Coimbra e os automóveis usados na fuga foram confiscados, tudo com elevado valor económico, de que o Estado fascista se apoderou.
Quarenta anos depois o Povo Português veio a libertar-se do regime opressivo, de que este episódio fora exemplar.

MARIA DE FÁTIMA MOURA FERREIRA
A arte de conservar: os cenários de reconfiguração do campo de ensino superior como reforço institucional da ordem académica (1834-1911).

O estudo centra-se na análise dos sentidos dos discursos e das representações políticas e académicas sobre a reconfiguração do ensino superior, durante a vigência do liberalismo monárquico e a implantação da República. Das lutas travadas entre as instituições de ensino, no contexto das relações entretecidas com a esfera do poder político e a afirmação de um novo ideal de ciência e de instituição universitária à escala europeia, ressaltam os limites da mudança. Estes traduzem-se na ampliação do espaço universitário acompanhado pelo reforço da ordem académica.

MARÇAL MENEZES PAREDES
Nacionalidade brasileira e projecto moderno: entre a incorporação da diferença e a introjeção da culpa.

Ocupa-se o presente trabalho da perplexidade manifestada pelo projecto da modernidade - entendida enquanto processo fundado na crença no potencial da razão emancipatória dos povos e no progresso da ciência - no momento de sua adequação ao Brasil. Para tanto, procuramos identificar esse fenómeno focando particularmente o caso de Euclides da Cunha, brasileiro escritor de Os Sertões , por considerá-lo expressão de toda a complexidade intelectual que a manifestação modernidade expressa no momento de seu contacto com o Brasil. E mais: por considerá-lo também, em virtude do modo tensional como nele se realiza o conhecimento, inicialmente do brasileiro sertanejo, autor de um discurso nuclear na busca de uma identidade nacional brasileira.
O que buscamos identificar é exactamente o nó crítico formado quando as pontas do tecido discursivo da nacionalidade encontram-se com a diferença. Mas, para além disso, trata-se de deixar claro a problemática da identidade colectiva manipulada à luz de um manancial teórico (moderno) que lhe demanda coesão e univocidade. Importará, então, reflectir acerca da relação complexa entre identidade e temporalidade, posto que (por buscar a perenidade de aspectos ditos "essenciais" de um povo) a identidade cola-se à idéia de uma temporalidade mítica. Nesse sentido, às expensas de uma certa idéia de preservação da essência de um "ser" colectivo através do tempo, buscamos deslocar o problema da identidade nacional por intermédio da experiência estética presente na obra euclidiana.

MARIA DAS GRAÇAS ATAÍDE DE ALMEIDA
A recristianização da política: pactos e tramas entre o Estado e a Igreja no Brasil (1937-1945).

Este trabalho se propõe analisar as relações entre a Igreja Católica e o Estado no Brasil, na década de 30 do século XX. Trabalhamos os pactos e as tramas que compõem as relações de poder entre a Igreja e o Estado naquele momento. A Igreja oferecia ao Estado um projeto catequético, no qual os cânones de obediência, fidelidade e ordem identificavam-se com aqueles de caráter nacionalista e autoritário do Estado Novo no Brasil. Assim, efetuava-se o pacto, em que a aliança entre o espiritual e o temporal assegurava à Igreja seu espaço junto ao staff político, e em contraponto o Estado contava com o discurso e a praxis da Igreja, construindo no imaginário coletivo a aversão às "ideologias exóticas" e a obediência e fidelidade à nova ordem política.

 

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Última alteração: Fevereiro de 2006
Coordenação: IHTI | Revisão: Maria do Rosário Azenha | Actualização: Manuel Vizeu | Fotos: Leonardo Opitz and Sérgio Azenha

 
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