História e Verdade(s), vol. 23
LUÍS REIS TORGAL
Duas "verdades". Salazar e Afonso Costa.
A "Verdade" é um conceito ideológico fundamental do Salazarismo, assim como o é da "oposição". Por isso, o primeiro jornal clandestino do que foi chamado "reviralho" foi denominado A Verdade (1933-1934), assim como também se apelidou de A Verdade o periódico que, depois de 1934, Costa Brochado dirigiu, por incumbência dos órgãos de Propaganda do Estado Novo. Salazar procurou, desde o início do seu governo, erguer as "verdades" e as "certezas" do regime que constituiu e Afonso Costa procurou mostrar, numa entrevista concedida em Paris a um jornalista brasileiro, que essas verdades não passavam de falsidades. Desta forma, travou-se um diálogo entre "situação" e "oposição". Salazar foi, como era seu timbre, sóbrio nas palavras, mas tal não sucedeu com os salazaristas que procuraram também evidenciar a "falsidade" das "verdades" de Afonso Costa.
Este artigo é, pois, um ensaio de análise dos discursos acerca da "Verdade" ou das "verdades" dos dois sectores oponentes, simbolizados nessas duas figuras fundamentais do Estado Novo, então vencedor no plano político-institucional, e da Primeira República, que baqueou em 1926, ou seja, Salazar e Afonso Costa. Nesta situação, e tendo em vista que o Estado Novo era um regime assumidamente autoritário e com um "partido único", ou seja, como uma "verdade única"; é evidente que foi a "Verdade de Salazar" que se impôs no espaço português. E fê-lo durante cerca de 40 anos.
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