| Os Intelectuais e os Poderes, vol. 24
SAUL ANTÓNIO GOMES
Três bibliotecas particulares na Coimbra de Trezentos. Em torno das elites e das culturas urbanas medievais.
Neste artigo, o Autor debate a questão das elites e dos seus comportamentos culturais no contexto das cidades medievais, tomando Coimbra como um exemplo relevante desse problema no Portugal de Trezentos. Nele são analisados três registos de bibliotecas privadas que revelam e testemunham hábitos de leitura, níveis de literacia, posse de livros e fabrico desses mesmos manuscritos dentre alguns dos conimbricenses desse tempo.
IRIS KANTOR
A Academia Brasílica dos Renascidos e o governo político da América portuguesa (1759). Notas sobre as contradições do cosmopolitismo acadêmico lusoamericano.
A fundação da Academia Brasílica dos Renascidos em Salvador (Bahia-1759) durante a conjuntura de expulsão da Companhia de Jesus do império português deu lugar às contradições que revelam as especificidades do processo colonizador na América portuguesa. A Academia Brasílica dos Renascidos chegou a mobilizar uma ampla rede de membros e correspondentes que abrangia os domínios portugueses na América, estabelecendo, também, contatos institucionais com as principais academias do Reino e da Espanha. O artigo discute o programa historiográfico concebido pelos eruditos lusoamericanos, suas limitações e seu fracasso em meio ao processo de secularização das estruturas imperiais portuguesas.
CARLOTA BOTO
O professor primário português como intelectual: "Eu ensino, logo existo".
O presente trabalho apresenta-se como uma reflexão histórica acerca do cariz intelectual impresso no ofício do professor primário. Formador de mentes, de almas e de corações, o professor primário lida diretamente com a transmissão - e talvez com a produção - de valores, de saberes, de normas de conduta prescritas. O professor primário forma o indivíduo para a civilidade e para o civismo. Sendo assim, ele situar-se-á, no campo da estruturação do moderno modelo escolar, como o ator privilegiado de fabricação de visões de mundo, que se deverão traduzir como consensos para o homem comum. O texto aqui exposto aborda, portanto, algumas representações acerca do lugar social ocupado pelo professor primário português, basicamente no período que abrange a segunda metade do século XIX e o primeiro decênio do século XX (imediatamente anterior à Proclamação da República em Portugal). Procurou-se tecer algumas considerações de ordem teórica e conceitual acerca da própria acepção de intelectual e a documentação recolhida traz à tona impasses e ambigüidades quanto à figura social do profissional encarregado de oferecer à infância as normas do ler, do escrever, do contar e do bom comportamento. Conclui-se que o professor primário é, assim, o veículo de propagação intelectual dos valores civilizatórios do Ocidente.
MARIA HELENA SANTANA
O Templo e o Mundo. Notas sobre o lugar simbólico da Poesia no século XIX.
Neste artigo apresenta-se uma reflexão crítica sobre o lugar simbólico do homem de letras, em particular do criador literário, no século que o consagrou como intérprete do tempo moderno. Esta questão conduz-nos à função social atribuída à Poesia, quer no interior do campo literário, quer no âmbito concorrencial dos poderes e dos saberes. Seguiremos a sua evolução através do testemunho de escritores e críticos portugueses em dois momentos diferentes: no tempo histórico do primeiro romantismo, em que o poeta, num contexto que lhe é favorável, procura definir o seu espaço de influência; e na época positivista, quando a palavra poética se vê confinada a um estatuto elevado mas socialmente marginal. Tentaremos observar, em suma, como a Literatura, erigida em guia espiritual das sociedades, se confrontou eufórica ou melancolicamente com os limites da sua autonomia.
MIGUEL ANTÓNIO DIAS SANTOS
Luís de Magalhães, Oliveira Martins e a "Vida Nova".
Luís de Magalhães foi um intelectual empenhado que despertou para a política integrado no movimento reformista iniciado por Oliveira Martins e a Vida Nova. Amigo do historiador e de alguns dos mais notáveis intelectuais deste período, como Antero de Quental e Eça de Queirós, a projecção política de Luís de Magalhães surge associada à cultura política que esta elite intelectual promoveu no final do século XIX, de que ele se destacou reafirmando os valores nacionalistas, o culto do patriotismo e do messianismo e a sublimação da ética no exercício da actividade política.
FÁTIMA MOURA FERREIRA
Entre saberes: a centralidade do saber jurídico na consubstanciação da ordem liberal.
Partindo da valorização dos saberes no contexto da ideação liberal, traçamos um recorte ilustrativo sobre a modernização do saber jurídico académico, baseado na instituição e afirmação da economia política e nos desenvolvimentos da filosofia do direito, no curso dos anos 40 e 70 de Oitocentos.
MARIA RITA LINO GARNEL
O poder intelectual dos médicos (finais do século XIX - inícios do século XX).
Este artigo pretende examinar algumas das ideias e estratégias, seguidas ao longo do século XIX, pelos médicos, enquanto grupo sócio-profissional, na consolidação do seu poder. Este mede-se na capacidade que tiveram de convencer os outros poderes e saberes e a opinião pública da importância crucial da Medicina e, sobretudo, na eficácia com que alteraram as práticas quotidianas, moldaram os corpos e transformaram os comportamentos. As ideias médicas, usufruindo do geral prestígio da ciência, impuseram- -se como um saber especializado, que não se esgotando na terapêutica individual, prometia, também, a regeneração de toda a sociedade.
LIA SÁ PAULO RIBEIRO
O papel dos intelectuais na popularização cultural republicana.
Sendo o republicanismo essencialmente uma ideologia, ela depende da catequização que é exercida junto da opinião pública. Para a conversão ao novo ideal democrático, a actividade propagandística republicana sustentou-se na acção de intelectuais (professores, escritores, jornalistas e poetas). O universo da popularização cultural, desenvolvida em várias frentes, permite-nos aferir a evidência do envolvimento mobilizador protagonizado pela vanguarda intelectual democrática. A acção culturizadora republicana estava direccionada para um público pertencente a várias classes sociais, mas virtuosamente congregadas num projecto frentista e unificador. Essa unificação foi gerada pela articulação das questões estruturantes relativas ao ensino, à religião e ao trabalho umbilicalmente dependentes da problemática do regime.
PAULO ARCHER
Três teses sobre a Ucronia e a Floresta Utópica. A propósito do Integralismo Lusitano.
Típico movimento de intelectuais do início do século (conceito que se tenta precisar), no qual, originariamente confluíram influências do simbolismo, do positivismo de direita e do acratismo finissecular, conjugadas com a influência do pensamento tradicionalista e da Action Française de Maurras, o Integralismo Lusitano (1914-38) propôs um combate político e cultural definidor do campo antiprogressista e reaccionário, cuja herança matriz, no fundamental, permaneceu na "cultura da direita", antidemocrática e autoritária, em Portugal, durante mais de meio século.
Neste artigo tenta-se compreender os segmentos mais significativos do pensamento antiutópico do reaccionarismo integral, colocado na encruzilhada entre Modernidade e antimodernidade, difícil encruzilhada na qual se encontrava a própria sociedade portuguesa.
LUÍS AUGUSTO COSTA DIAS
"Missão histórica" e o "papel dos intelectuais" na filosofia da cultura de Bento de Jesus Caraça.
Na trajectória da esquerda intelectual nas primeiras décadas do século XX, ao ideal seareiro de um intelectual-apóstolo, teórico e especulativo, que foi resposta à "crise da cidade" republicana, a filosofia da cultura de Bento Caraça operou uma nova e decisiva ruptura com o paradigma romântico-liberal do século XIX, estabelecendo uma distinção entre o trabalho intelectual , a função social dos intelectuais e o que designou por papel dos intelectuais no quadro radical de uma "missão histórica" emancipadora: cumprindo aos intelectuais, em todos os tempos, desenvolver um trabalho mais ou menos especializado nos domínios do conhecimento para o progresso da civilização, e devendo pela sua função social sistematizar e aplicar esse conhecimento no alargamento gregário da cultura, o "papel dos intelectuais" correspondia, na consciência do momento de crise e transformação dos anos trinta , a uma adesão à tonalidade geral da história e do devir que cria próximo.
ANTÓNIO PEDRO PITA
Crise e enciclopedismo.
O artigo aborda o modo como a consciência de crise histórica, tal como é conceptualizada no pensamento de Bento Caraça, tomado como exemplo de intervenção marcada pelo materialismo histórico, implica uma solução globalizante, que em Caraça é traduzida no projecto enciclopédico.
A tarefa dos intelectuais consiste em seleccionar as ideias do presente, avaliar a sua eficácia futura e reorganizá-las num outro corpus sistemático.
ZÍLIA OSÓRIO DE CASTRO
Os intelectuais e o feminismo.
A emergência da intervenção dos intelectuais no panorama cultural português com objectivos civis pautou-se nos anos trinta pela edição de publicações periódicas tais como a Pensamento, O Sol Nascente, O Diabo . Unia-as o empenhamento na construção de uma "nova sociedade" através da divulgação de ideias e valores alternativos. Entre estes contava-se a génese de uma "nova mulher" pelo reconhecimento dos seus direitos e virtualidades cívicas e culturais. Tornaram-se, assim, arautos de um "feminismo intelectual", cujos contornos, indecisões e particularidades se pretende aqui salientar.
MARIA JOÃO CANTINHO
Hermann Broch: O poeta relutante.
Regulada pela mais absoluta coerência entre vida, arte e acção, a vida de Hermann Broch, escritor, poeta, político, ensaísta, industrial, configurou-se como uma tensão constante entre as várias categorias do conhecimento sobre as quais reflectiu. Este artigo procura definir os contornos de que se revestiu a sua vivência complexa e árdua, as suas relações com o poder e a sua análise dos valores, contextualizar a sua obra, e, sobretudo, compreender os elos que lhe determinaram a vida e a obra, centrando-se numa análise das suas obras mais importantes: Os Sonâmbulos e A Morte de Virgílio .
GEORGES CONTOGEORGIS
Du nouvel ordre internationale. Samuel Huntington et le "choc des civilisations". "Civilisation religieuse" ou cosmosystème?
L'ouvrage de Samuel Huntington "Le Choc des civilisations" est en apparence fondé sur un appareillage empirique et conceptuel convaincant. Pourtant, l'observation des sources historiques, la partialité des arguments évoqués, et l'évitement de tout ce qui pourrait venir contredire la thèse "officiellement défendue" fait de ce livre un pur produit de l'idéologie nord-américaine contemporaine. Aussi présenter ce livre et, surtout en critiquer les fondements à partir d'une autre réflexion historique et philosophique, tel est le projet de cette contribution. L'auteur propose ainsi une nouvelle lecture de la nature du monde moderne et de ses précédents historiques fonder sur le concept de cosmosystème.
PEDRO A. PIEDRAS MONROY
Filosofía de la Historia y Sociologia de la Religión. Las posiciones de Max Weber ante la História Universal.
Cualquier lectura atenta de la obra de Max Weber permitirá vislumbrar puntos de conexión de ésta con los trabajos seculares de Filosofía de la Historia y, en particular, con los enunciados de las reflexiones sobre la Historia Universal. Ahora bien, las conclusiones al respecto no parecen ser unívocas. Mientras algunos autores ven en la teorización weberiana una negación de la Historia Universal, otros perciben en ella una asunción de las búsquedas y el legado de la misma. El presente ensayo pretende terciar en ese debate y sostiene que los trabajos de Sociología de la Religión de Weber constituirían la respuesta de este autor a la Filosofía de la Historia; sobre todo a la decimonónica.
En su último escrito, la introducción (Vorbemerkung) a los Gesammelte Aufsätze zur Religionssoziologie (Ensayos completos sobre Sociología de la Religión) , nuestro autor enuncia el sentido de esos ensayos como un intento de hallar el encadenamiento de circunstancias que tuvo como consecuencia un desarrollo tan peculiar como el occidental, por contraste con el resto de los desarrollos culturales extraoccidentales. Sin embargo, a diferencia de los relatos de la Historia Universal, en los que occidente se convertía en el fin necesario de la humanidad o del espíritu humano, en la Sociología de la Religión weberiana se opera un descentramiento que sitúa a occidente y al mundo occidental a lo sumo como un ámbito de racionalización más eficaz que otros en el plano del dominio global del mundo, pero de ningún modo "necesario", de ningún modo "mejor" y, mucho menos, "superior". Para alcanzar estas conclusiones, nuestro texto esboza una revisión diacrónica de los presupuestos de la Historia Universal y una comparación de éstos con los planteamientos weberianos.
MARIA MANUELA TAVARES RIBEIRO
A visão da Igreja Católica e a constituição da Europa na Época Contemporânea.
Os acontecimentos que ocorreram na Europa após a Segunda Guerra Mundial impulsionaram a tomada de posição dos pontífices romanos de Pio XII a João Paulo II, no contexto da reorganização europeia e internacional.
Analisa-se assim, por um lado, a evolução do discurso e da dinâmica goepolítica vaticana e, por outro lado, a acção de organismos episcopais que se preocupam também com a reflexão sobre o processo de reconstrução da Europa.
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