| Tolerâncias, Intolerâncias,
vol. 25
JOÃO MARIA ANDRÉ
Globalização, mestiçagens e diálogo
intercultural O presente artigo inscreve-se numa tentativa de confronto da problemática
da “Globalização” com a reflexão crítica
da filosofia latino-americana centrada na “Ética da Libertação”.
Fá-lo, enunciando primeiro alguns pressupostos epistemológicos
e antropológicos para a compreensão do multiculturalismo, definindo
depois o horizonte da actual globalização e problematizando finalmente
o conceito de mestiçagem. A partir da noção de mestiçagem
em profundidade, propõe a sua articulação com o projecto
de um diálogo intercultural que transforma o confronto em encontro e
a tolerância em hospedagem do outro e no outro através da assunção
das culturas como habitação e morada da solidariedade, da justiça
e do corpo plural da alegria.
FERNANDO CATROGA
Secularização e laicidade. Uma perspectiva histórica e conceptual.
Procura-se fazer uma análise evolutiva dos vocábulos ligados a "século" e a "laico", em ordem a captar-se as analogias e as diferenças entre os actuais conceitos de "secularização" e de "laicidade", bem como dos seus cruzamentos com o de "tolerância civil".
ANSELMO BORGES
Secularização e Tolerância.
Tornou-se claro para todos que a paz entre as religiões é parte constitutiva da paz mundial. A paz entre as religiões supõe, por sua vez, o diálogo entre as religiões. Estudam-se duas condições essenciais para este diálogo e para a paz. Em primeiro lugar, a secularização enquanto autonomia das realidades terrestres, que implica também a separação da religião e da política, das Igrejas e do Estado. O segundo pressuposto é o da exigência de uma leitura histórica e crítica dos "Livros sagrados", no quadro de uma concepção de revelação enquanto "maiêutica histórica".
MARIA IRENE RAMALHO
Tolerância - Não.
Este artigo defende que o conceito de tolerância - tal como tem sido usado na cultura ocidental nos últimos cinco séculos - não é tão adequado quanto possa parecer para a defesa da convivência multicultural actual. Em vez da tolerância passiva, o que a diversidade da cultura contemporânea exige é empenho no diálogo horizontal e na tradução entre culturas.
JOSÉ MANUEL PUREZA e TATIANA MOURA
O Regresso da Paz Negativa?
Este texto procura interrogar o lugar da praxis tolerante no quadro da cultura da paz no contexto quer da tensão fundadora entre igualdade e diferença quer do alcance variável do conceito de paz. Este ensaio desenvolve-se em três momentos. Num primeiro momento é ensaiada uma cartografia elementar dos conceitos de paz, utilizando como critério a correspondência a diferentes formas de violência. Num segundo momento, serão analisadas as virtualidades que o conceito de tolerância transporta consigo enquanto dispositivo estratégico, interrogando a sua adequação aos diferentes patamares de construção envolvidos na polissemia da paz. Finalmente, esse juízo geral de (in)adequação será afinado perante a especificidade de compreensão feminista da paz, num teste radical à validade do recurso à tolerância como ferramenta de construção da paz.
JOSÉ PEDRO PAIVA
As Entradas da Inquisição, na Vila de Melo, no Século XVII: pânico, integração/segregação, crenças e desagregação social.
Entre os finais do século XVI e o termo da centúria seguinte a Inquisição efectuou um impressionante movimento de perseguição sobre a comunidade de cristãos-novos da vila de Melo, pequena paróquia situada na Serra da Estrela. Em três vagas distintas iniciadas, respectivamente, em 1601, 1652 e 1690, foram presos e processados perto de 9 dezenas de indivíduos. O presente estudo debruça-se sobre estas entradas inquisitoriais em Melo e tem por objectivo reconstruir a sua dinâmica e os impactos que provocou na vida comunitária local e nos indivíduos que foram objecto desta perseguição, assumindo este caso como um exemplo do modo de actuar do Santo Ofício e das consequências sociais, económicas e religiosas que estas intervenções do Tribunal da fé tinham na vida de uma comunidade concreta.
DENIS CROUZET
La Représentation de l'alterité au Temps des Premières Guerres de Religion. Trois Figures de L'exlusivisme.
Les guerres de religion voient s'affronter après la mort du roi Henri II les catholiques et les huguenots. Il s'est agi d'analyser les imaginaires de violence sur lesquels chaque parti fonde son combat pour essayer de promouvoir sa foi exclusiviste. Pour les huguenots, ce fut le rêve d'un recommencement d'un monde purifié faisant retour aux temps évangéliques, un rêve qui exigeait de signifier à autrui la haine du mal incarné par l'Eglise romaine pour que l'amour de Dieu soit enfin rétabli. Pour les catholiques, ce fut l'aspiration à l'éradication de tous ceux qui, hérétiques vivaient en séparant Dieu de son peuple, en suscitant la colère eschatologique de Dieu parce qu'ils n'avaient que haine pour Dieu. Mais il y eut aussi des hommes qui refusèrent à la fois la rupture avec Rome et la violence, des chrétiens dont l'exclusivisme fut de refuser la violence; des intolérants de l'intolérance, qui, parce qu'ils s'en remettaient à la providence divine, acceptèrent l'idée de co-existence avec l'altérité, dans l'attente que Dieu, réconcilié avec son peuple, lui redonne son amour en le réunifiant dans une foi unique.
GIUSEPPE MARCOCCI
Inquisição, Jesuítas e Cristãos-Novos em Portugal no Século XVI.
Escrito a partir de pesquisas arquivísticas conduzidas em Roma e em Portugal, o presente artigo afronta o tema das controversas relações entre a Companhia de Jesus e a Inquisição portuguesa durante o século XVI. Tratou-se de um convívio nada linear, até porque se entrecruzou, logo desde os primórdios, com a delicada questão assumida pelos padres jesuítas em relação às principais vítimas do Santo Ofício: os cristãos-novos. Daí resultou uma história feita de colaborações e alianças inesperadas, mas também de conflitos declarados e até violentos que são um evidente reflexo das tendências e tensões existentes na Igreja e na sociedade portuguesa quinhentista.
STUART SCHWARTZ
"Cada um em sua lei": Expressões Populares de Tolerância no Mundo Hispânico entre 1500 e 1700.
Entre os pressupostos perseguidos pela Inquisição no mundo hispânico encontra-se a ideia de que "cada um poderia ser salvo na sua própria lei", o que questionava a autoridade exclusiva da Igreja. O debate teológico sobre esta questão era antigo, mas o conceito continuou a ser mantido tanto por cristãos velhos como cristãos novos, baseado em racionalizações pragmáticas que tinham implícitas a tolerância, o relativismo e mesmo a indiferença religiosas. A ideia de que cada pessoa poderia encontrar o seu próprio caminho para a salvação acabou por se alargar dos credos monoteístas da Ibéria aos protestantes e mesmo aos povos das Américas.
VÍTOR NETO
Minorias e Limites da Tolerância em Portugal (Sécs. XIX/XX).
O exclusivismo da Igreja católica deixou pouco espaço de actuação às minorias em Portugal nos séculos XIX e XX. Até à 1ª República, o Estado confessional impediu o livre desenvolvimento das actividades proselitistas das confissões reformadas. Após o "5 de Outubro" de 1910, a liberdade de cultos favoreceu a expansão das Igrejas minoritárias. Porém, na época salazarista, a "luta" no sentido da construção da diferença religiosa foi desrespeitada pela intolerância do clero ultramontano, dos bispos anti-protestantes e da vigilância do poder político. A realidade histórica das duas últimas centúrias mostra-nos que a tolerância sobre as minorias tinha os seus limites facto que impediu a emergência de uma verdadeira liberdade no domínio das práticas religiosas contrariando, assim, a opinião de alguns estudiosos.
ANTÓNIO SOUSA RIBEIRO
Os limites da tolerância - as "lições" do holocausto.
Depois de percorrer brevemente algumas das ambiguidades inerentes ao conceito de tolerância, o artigo centra-se na questão do holocausto e na problemática do testemunho. Recorrendo a alguns dos textos escritos por sobreviventes, argumenta-se que não é adequado extrair da experiência dos campos nazis uma lição de tolerância; para uma identidade assente na memória do mal absoluto, a questão dos limites da tolerância, e da impossibilidade da tolerância, é um componente essencial. Em vez da tolerância como um universal vazio, o que se requer é uma ética do reconhecimento mútuo baseada num conceito pleno de cidadania.
RUI BEBIANO e ALEXANDRA SILVA
A Reidentificação do Feminino e a Polémica sobre a "Carta a Uma Jovem Portuguesa".
Em 1961 foi publicado em Coimbra, sob a forma de carta-aberta, um texto sobre o papel da rapariga no interior do ambiente estudantil universitário. A enorme polémica que causou, e da qual ainda hoje se colhem alguns ecos, passou por um confronto entre concepções antagónicas e excludentes, definidas a propósito da condição feminina e do lugar político e social da mulher. Vivida num tempo dentro do qual não existia debate democrático, ela foi marcada por uma grande intransigência de atitudes e de pontos de vista.
MÁRIO MATOS E LEMOS
União Soviética: a outra informação.
Os condicionalismos a que sempre esteve sujeita a imprensa soviética - imprensa no seu lato sentido de meios de comunicação - são bem conhecidos. Menos conhecido, porém, é o samizdat , termo geral usado para definir os manuscritos postos a circular clandestinamente e que procuravam quebrar o monopólio informativo do Estado. O conceito é anterior, mas a palavra samizdat aparece escrita pela primeira vez em Maio de 1967. Até à morte de Estaline a comunicação clandestina não teve grande importância, mas a partir de 1954, depois do discurso de Kruschov que condenou a política estaliniana, começaram a aparecer, principalmente nos meios universitários, sob a forma manuscrita ou dactilografada, antologias de poesia e jornais literários; surgiram depois os romances (o Dr. Jivago , de Pasternak, é um exemplo importante) e os samizdat periódicos, meios de comunicação política interna que contrariavam a política de informação oficial, o mais importante dos quais é, provavelmente, a Crónica dos Assuntos Correntes , que tinha as características de um jornal e começou a aparecer em 1968 prosseguindo, irregularmente, claro, durante vários anos.
JOÃO LUÍS LISBOA
Ler com quem e (com) quando (Os Camões).
Tal como outros textos, Os Lusíadas funcionam como herança, gradualmente transformados em referência para todos os que escrevem e lêem em Portugal, até que se torna um clássico. Este artigo aborda tensões, valores e tópicos da discussão de Camões ao longo de dois séculos e meio. Cada leitura faz sentido no seu tempo, não como texto completamente novo, mas enquanto possibilidade de reconstrução da relação entre passado e presente. São sublinhados aqui dois problemas: o primeiro é que um livro deste tipo - um clássico - não é um texto consensual; gera conflito e, logo, exclusão. O segundo problema é saber que texto "permanece" através das discussões e dos tempos. Estes problemas são confluentes ao longo do processo de apropriação do que é entendido como herança comum.
JOÃO MADEIRA
Bolchevização, funcionários clandestinos e identidade no PCP.
O corpo de funcionários clandestinos do PCP constituiu a espinha dorsal do Partido Comunista Português durante o longo período de ilegalidade a que se viu forçado pelo Estado Novo. A mobilidade vertical no aparelho partidário, os critérios de selecção, as tensões entre a norma e a realidade acabariam por moldar esse corpo de funcionários, tornando-os num eficaz interface entre o reduzido núcleo dirigente e o conjunto dos militantes, dotado de autoridade efectiva, acrescida pelo poder simbólico que veiculavam.
C. BERMEJO BARREIRA
Un Ensayo sobre la Historia considerada como Poesía.
En este ensayo se propone definir a la Historia como una interacción de tres elementos: descripción, evocación y expresión. Estos tres elementos actuarían de un modo combinado, no pudiendo ninguno de ellos imponerse sobre los otros dos. Del mismo modo, se considera a la Historia como una síntesis de la ley comteana de los tres estadios.
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