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É conhecida a expansão que os estudos universitários
conheceram em Portugal nas últimas três décadas.
Aumentou o número de escolas, assistiu-se a uma explosão
do universo discente e, paralelamente, cresceu muito o número
de investigadores e de docentes em todas as áreas científicas.
Nesta ordem de ideias, como tem sido apontado por todos quantos
se debruçaram sobre este tema, os estudos medievais
conheceram um desenvolvimento paralelo.
Assim, em inícios da década dos anos 80, em
mais de uma ocasião, em conversa com diferentes colegas
de várias universidades portuguesas, tive oportunidade
de comprovar como era geral a convicção de que
se tornava necessária a criação de uma
associação que reunisse todos aqueles que -
da História à Literatura, da Arte à Filologia
- se dedicavam, pela docência, pela investigação
ou pelo trabalho profissional como bibliotecários ou
arquivistas, a este período. Tratar-se-ia de um organismo
com objectivos muito definidos: possibilitar a comunicação
e o diálogo, facilitar a integração de
jovens vocações, tomar iniciativas que projectassem
a afirmação dos estudos medievais portugueses.
A circunstância de ter trabalhado vários anos
em Espanha permitiu-me conhecer por dentro a sociedade congénere
do país vizinho bem como o interesse de muitos dos
colegas espanhóis pelo estreitamento das relações
institucionais com os portugueses. Quando, em Maio de 1983,
a convite do Presidente da Sociedad Española de Estudios
Medievales (Doutor Emílio Sáez), participei
na assembleia anual desta instituição que se
realizou em Covadonga, tive oportunidade de me assegurar da
disponibilidade dos seus corpos directivos para colaborarem
no lançamento da futura Sociedade portuguesa. Tive
conhecimento que, em momento anterior, se tentara organizar
uma iniciativa similar, mas, por razões várias,
e a despeito de todos os esforços feitos, a iniciativa
não fora concretizada.
Em Covadonga, foi então sugerido que o lançamento
da associação portuguesa poderia ser associado
à organização de um congresso luso-espanhol
a ser convocado para uma data próxima, em Portugal.
Regressado ao Porto, transmiti a vários colegas de
diferentes universidades o teor das conversas realizadas nas
Astúrias, tendo sido decidido que o congresso a promover
procuraria estabelecer uma continuidade com o I Congresso
Luso-Espanhol de Estudos Medievais, organizado em 1972, em
Lisboa, por iniciativa da Doutora Virgínia Rau, e dedicado
ao estudo da pobreza na Península Ibérica. Por
isso, desde o primeiro momento, o congresso foi apelidado
de II Congresso Luso-Espanhol de Estudos Medievais. Realizou-se
no Porto, em Novembro de 1985, já com o patrocínio
de ambas as Sociedades, a portuguesa e a espanhola. A participação
do pais vizinho foi coordenada pelo Doutor Emílio Sáez,
que para o efeito se deslocou ao Porto, se bem me recordo,
pelo menos uma vez antes do congresso. Infelizmente, por um
inesperado acidente de estrada, do qual veio a falecer, não
chegou a participar nesta iniciativa, à qual desde
o princípio dedicou o maior interesse e apoio.
Este congresso, para além da qualidade de muitas das
contribuições, representou um assinalável
êxito para a Sociedade Portuguesa de Estudos Medievais.
Perante uma assembleia constituída por mais de uma
centena e meia de participantes (oriundos de Portugal, Espanha,
Itália, Inglaterra e Alemanha), a jovem associação
apresentou-se e tornou-se conhecida. Pouco tempo depois, em
1987-1990, a publicação das actas, feita com
o seu patrocínio (4 volumes, 1.587 páginas,
editadas pelo Instituto Nacional de Investigação
Científica), constituiu a sua primeira realização
editorial.
A reunião constituinte da Sociedade tinha tido lugar
na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. no início
do verão de 1985. Aí, a Comissão Organizadora
(os Doutores José Mattoso e Eduardo Borges Nunes, além
de eu próprio) finalizaram a sua missão, tendo
sido eleitos os primeiros corpos gerentes: o Doutor José
Mattoso presidia à Direcção, o Doutor
Artur Nobre de Gusmão à Assembleia Fiscal e
o Cónego Doutor Isaías da Rosa Pereira ao Conselho
Fiscal.
No ano seguinte (em 1986), realizou-se na Curia a primeira
Assembleia Geral ordinária. Na altura, era decano dos
medievalistas portugueses o Doutor Torquato de Souza-Soares;
como pormenor, recordo que, à margem dos estatutos,
presidiu a todas as sessões. Com uma invulgar participação,
medievalistas de todas as Universidades portuguesas discutiram,
em clima de franca abertura, as pespectivas que se abriam
e os trabalhos a desenvolver. Estava institucionalizada a
Sociedade Portuguesa de Estudos Medievais.
Luís Adão da Fonseca
Janeiro de 2005
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